Notas iniciais
Primeiramente, gostaria de agradecer a MELHOR delegada da polícia civil e professora de Direito do MUNDO: minha mãe. Sem você, Regina nunca teria passado no exame dos advogados e eu não estaria aqui para contar a história. Doutora Martha Virgínia, a senhora é demais. Segundo, acostumem-se com meus títulos estranhos. Boa leitura!

"Ande depressa, Gina. Meu pai está morrendo."

Estresse é um termo popularizado no mundo inteiro. Um homem se queixa de estresse quando chega em casa, após um longo dia de trabalho. Queixa-se uma mulher que enfrentou vários serviços domésticos no dia. E à noite, depois de jantar, os dois não tem nem forças para trocar de roupa e cair na cama.

O real significado de estresse não cabe nessa situação. O que o homem e a mulher sentem é o simples cansaço que, para dar um exagero a mais, chamam de estresse.

A palavra estresse, na verdade, é um mecanismo do organismo sem o qual os humanos, nem os animais, teriam sobrevivido. Se nossos antepassados não tivessem reagido imediatamente, ao se deparar em uma ocasião de perigo, não existiriam descendentes. Nós permanecemos vivos porque nossos antepassados se estressaram, ou seja, liberaram o hormônio adrenalina, que provoca várias reações, como batimentos acelerados, para que diante do perigo enfrentem a fera ou fujam.

E foi o que aconteceu comigo, porém, em vez de enfrentar a ameaçadora besta, eu fugi.

Abaixei-me com rapidez para pegar os papéis caídos no chão, sem me preocupar se o vestido ia subir ou não. Maldita adrenalina. Sentia meus pelos se eriçarem, o que é completamente errado. É só David Nolan e Mary Margareth – que por coincidência incrível do universo também é Nolan. Depois da minha mãe, as pessoas que mais fizeram o inferno que era minha vida.

Saí da sala a passos largos, tomando cuidado com a elegância e ignorando os protestos do casal de Storybrooke. Fui o mais rápido possível à sala de Gold.

Não, não, não, não! Isso não pode estar acontecendo!

Sei que você com certeza acha que isso tudo é um exagero da minha parte. Digo que não é. David e Mary Margareth é como um parasita. Chegam de fininho e se instala em seu corpo – no caso deles é em minha vida – e nunca mais querem sair! Eu não posso, eu não tenho, que cuidar do meu passado agora! Tirei essa responsabilidade das minhas costas quando resolvi sair de Storybrooke.

Passei pela sonsa da Belle, secretária do meu chefe. Ela já ia colocar as mãos com as unhas pintadas de um rosa chamativo, contudo fui mais rápida:

– Não se atreva. – Disse, cerrando os dentes.

Ela fez o que eu mandei assustada. Pelo tanto de medo que eu coloco na garota ela nem pensaria duas vezes em fazer o que eu digo.

– Rumplestiltskin! – Gritei com toda força dos meus pulmões ao entrar em sua sala.

Gold tinha um nome bem estranho, assim como Malévola, Úrsula e Cruella. Malévola e Rumple eu até entendo, porque em nossa cidadezinha de interior tem o costume de colocar nomes assim. Mas Úrsula e Cruella são de Nova York. Que mães colocariam o nome dos filhos de vilões da Disney?

– o quê? Oh, desculpe-me. Preciso desligar. Até mais. – Falou antes de desligar o telefone. – Regina, o que você está fazendo? Quer espantar os clientes? Pode continuar assim que irá conseguir fácil, fácil. – Ele se levantou da cadeira atrás de sua grande mesa de vidro e veio em minha direção.

– Você é um desgraçado! – xinguei-o, ignorando o que Rumple tinha dito. – Sabia o tempo todo quem era esse casal e mesmo assim me pediu pra eu cuidar do caso! Por que eu fui te ajudar mais uma vez? Parece que só eu pago o pato!

– Mills, calma – Gold está irritantemente paciente, o que dava mais raiva. – Provavelmente você está fazendo uma tempestade no copo d’água, de novo. Belle só me contou que você os conhecia. Quem é esse casal?

– Mary Margareth Blanchard e David Nolan. – Sibilei os nomes de forma teatral.

Gold ficou um pouco surpreso, depois literalmente fez um “O” com a boca, exagerando sua surpresa.

– E você não está brincando porque se quisesse nem lembraria deles.

– Descobriu a América, Gold.

– Regina, se pegar esse caso você sabe que tem grandes chances de montar um processo! Vamos lá...

– Gold, não! – Não estou aceitando nenhuma possibilidade de acordo.

– Mills, não posso passar o caso pra nenhum outro advogado daqui. Você fui a que mais processou seguradoras nos últimos anos e com a vitória! – Gold é persuasivo demais para o meu gosto.

– Malévola pode cuidar disso. – Disse, tentando fugir do destino que me esperava.

– Malévola é do direito penal! – Rumple de uma longa pausa. – Regina, você sempre disse que nunca deve ficar emocionalmente envolvido com o cliente. O que estais fazendo agora?

Engoli em saco após ouvi-lo. Gold me pegou em um ponto que não poderia recusar. Meu ego estava em jogo, e ele não é quebrado constantemente.

– Vou voltar para o meus clientes. – Deixei o orgulho falar por mim. – Não ache que você ganhou, Rumple.

Ele deu um sorriso presunçoso como resposta.

– Ah! Gold... – Disse já saindo de sua sala. – Vou querer um aumento depois.

Saí de sua sala encontrando Belle no caminho. A garota pulou de susto ao me ver. Dei uma piscadela, de forma irônica, e segui rumo à sala de reunião.

– É claro que eu vou querer um aumento. – Sussurrei pra mim mesma na medida em que aumentava o passo. Queria que esse caso terminasse logo, mas algo dentro de mim dizia que demoraria muito a acabar.

***

– Regina, você está bem? – Perguntou David, com um sotaque mais arrastado, quando entrei na sala.

Ah! É agora que você me pergunta isso? Devia ter sido alguns anos atrás, não?

– Melhor impossível. – Respondi-o com um sorriso amarelo, tentando dizer que sua presença não é bem vinda.

Ele não entendeu a mensagem.

Oh, se fosse tão inteligente quanto é bonito...

– Você é que vai nos ajudar? – Mary Margareth repetiu a pergunta de antes.

– Sim – Respondi curta. – Vamos começar?

De alguma maneira inexplicável, eu me apeguei àquela sala. Sinto-me tão confortável nela quanto em meu apartamento. Deve ser o piso e as cadeiras de madeira escura, com verniz, que dá uma aparência antiga ao espaço. Se tivesse uma vitrola eu me sentiria em pleno século XVIII ou XIX. E bem feliz.

Sento-me na cadeira, na ponta da mesa de madeira, ao lado de Mary Margareth. Abro a pasta e arrumo os papéis em ordem. Organização é essencial em um advogado. Meus constantes dias de “escrava doméstica” devem ter ajudado. Obrigado, mãe.

David tirou um grande e grosso maço de papéis envolto de uma liga amarela e empurrou até chegar na minha frente.

– O que posso fazer por vocês? – Pergunto, olhando para o maço de papéis em minha frente. Eu costumava atender clientes mais... delicados.

– Você provavelmente já sabe. Por que precisamos repetir de novo? – Nolan usou um tipo de ironia que nunca pensaria em ouvir dele. Era uma ironia de alguém frio, fechado. Isso me fez assustadoramente lembrar da morte do meu noivo. Meus braços voltaram a se eriçar.

Mary o olhou feio, repreendendo-o. A cena seria cômica se eu não estivesse tão insegura. A mais nova dos três agindo como uma mãe, para o próprio marido.

– Porque preciso ouvir a visão de vocês. – Sorri genuinamente, mostrando toda a paciência que eu tinha. Pelo péssimo histórico que temos, provavelmente eu parecia falsa demais.

– Você está tão mudada... – Margareth sussurrou acho que para ela mesma.

– Bela mudança de guarda-roupa. – David comentou, rindo. Aquilo me fez quase quebrar meus dentes, de tanto trinca-los. Era isso que eu estava evitando.

Maldita adrenalina.

– Podemos matar a saudade depois? – Perguntei mais como uma afirmação. – Se minha memória não me falha, o endereço é a rua concorrente à Mifflin, número 92, certo? – Perguntei anotando em um post-it.

– Concorrente à sua rua. Sim. – Mary respondeu. Olhei-a desconfiada. Ela comentou sobre minha antiga rua de propósito. Claro, não comentei nada.

– Estão empregados? — Ia fazer a pergunta para David, mas ao olhar para ele tive a impressão de que há alguns anos apenas Mary fala.

– Eu larguei meu emprego ao ficar grávida. – Parei o que estava fazendo assim que ela começou. Gravida? Eu sei quais são as consequências de um casamento, mas a ficha não cai. Por momento algum eu pensei nessa possibilidade. – E David trabalha como xerife da cidade.

Olhei de relance pra David, e ele retornava com um olhar curioso. Ele percebeu minha surpresa. Droga.

– E... seu bebê está bem? – Perguntei como se desinteressasse no assunto.

– Eu... perdi o bebê. – Mary Margareth respondeu sem querer continuar o assunto.

– Oh! Lamento pela sua perda. – Eu quase tive pena dela.

Mary só acenou com a cabeça, concordando.

– Quantos anos a senhora e o senhor Nolan tem? – Eu já sabia a resposta.

– Qual é, Regina? Você nos conhece há anos! Tudo bem que temos nossas desavenças, mas sem esse negócio de senhor e senhora, certo? David tem 35 e eu tenho 28. – Mary disse. Então ela não esqueceu... Ainda bem. É bom que ela lembre o que fez.

– Certo, certo – Disse como uma forma de desculpa. – Qual o problema? Preciso saber pelos seus lados.

– Bem, estamos sendo estupidamente lesados por uma companhia de seguros. – Falou David pela primeira vez depois de começarmos.

– Que tipo de apólice?

– É uma apólice de seguro-saúde. – Disse Margareth, passando-me uma apólice manchada e amassada. – Compramos há 5 anos e meio da companhia Long Life. Agora meu pai precisa de um transplante, e os bandidos não querem pagar.

– Peraí... Seu pai? Leopold? – Ela assentiu. – Por que diabos vocês não me avisaram?

– Você deixou de falar conosco quando saiu de Storybrooke. Nem sabíamos onde você estava!

Eu tenho um passado com Leopold. Um bem grande.

Bufei indignada e voltei às perguntas do post-it.

– Nunca deixou de pagar?

– Nunca.

Sou sozinha, não tenho segurado. Nenhuma apólice cobre a minha vida ou minha saúde. Não teria uma família para se preocupar com isso.

– Fomos ao melhor médico da cidade, doutor Whale. Lembra dele, certo? – Assenti. – O doutor disse que tinha um ótimo coração para meu pai, porém o hospital não poderia pagar 23 mil dólares, nem nós. A companhia devia pagar porque a apólice compra esse tipo de operação. Os desgraçados dizem que não. Assim, Leopold Blanchard está morrendo por causa deles.

Eu não sei e nunca saberei se ela mediu as palavras naquele momento. Ela teve um modo espantoso de ir direito ao assunto. A imagem criada pela minha mente de Leopold morrendo me fez baixar a guarda. Eu vou acabar com essa seguradora.

– Onde ele está morando? – Pergunto, procurando uma pergunta cuja eu não precise pensar em Leopold morrendo.

– Ele está constantemente indo para UTIS. Quando sai do hospital ele vai para nossa casa.

Olhei pra David e ele parecia não gostar nada da ideia de ter seu sogro doente vivendo no quarto ao lado.

– Quem vendeu a apólice a vocês?

– Pra falar a verdade, eu nem sei quem era. Acho que não o vejo há 5 anos.

Coloco um enorme “X” em cima do nome “agente” no meu post-it.

Pego o maço de papéis na minha frente.

– Isso são cartas enviadas pela Long Life?

Mary Margareth assentiu com a cabeça.

– Ok, lerei mais tarde – Eu disse, arrumando todos os papéis da mesa. – Preciso ficar com tudo isto. Devem voltar aqui dentro de duas semanas.

– Por que precisa de duas semanas?

Eu nunca precisaria de duas semanas, contudo eu preciso de um descanso. Deles.

– Bem, eu, é que preciso fazer uma pesquisa, você sabe, ler alguma coisa. Pode me mandar os relatórios médicos de Leopold?

– Claro! Porém eu gostaria que se apressasse.

– Vou fazer o melhor possível, Mary Margareth.

– Acha que temos um caso?

Com certeza! Entretanto não se pode dar esperança a nenhum cliente.

– Não posso dizer nada por enquanto. É bem promissor, mas preciso examinar cada linha.

Dou um tempo aos dois para digerirem tudo.

– Você parece mais paciente do que antigamente. – Comentou David indiferente.

– Vejo vocês daqui há duas semanas. – Digo cortesmente, ignorando o comentário anterior, com um sorriso falso.

Mary se inclina até mim, com os lábios trêmulos e olhos marejados de lágrimas. Toca meu pulso gentilmente e diz, pela primeira vez na vida, desanimada:

– Por favor, ande depressa, Gina. Precisamos de ajuda. Meu pai está morrendo.

Ela continuou olhando fixamente pra mim até eu fazer um gesto afirmativo e murmurar alguma coisa. Ela acredita sinceramente que eu possa pegar aquela pilha de lixo na minha frente, dar telefonemas, escrever alguns documentos, bufar e rosnar, ameaçar um pouquinho e Pronto! A Long Life vai colocar o rabinho entre as pernas e derramar 23 mil dólares em cima de Leopold Blanchard. Ela colocou toda sua confiança em mim. Como um dia eu coloquei nela.

Saio da sala com os documentos e o maço de papéis na mão, mais uma vez ocupando-as. Estou indo a passos largos quando alguém me chama:

– Regina! – David gritou, andando pelo corredor principal até mim.

Por meio segundo eu pensei em sair correndo, mesmo com os saltos. Porém eu não queria dar esse gostinho para ele.

– O que é? – Disse grossa.

– Preciso do seu cartão ou número.

– Olha, eu não esperava isso de você. Antigamente tudo bem, mas agora você é casado. – Falei irônica, contudo baixo para as pessoas no corredor não escutassem. Não iria deixar em hipótese alguma a Regina que construí morrer assim!

– Pelo amor de Deus, Regina! Precisamos do seu número para qualquer novidade que tivermos! – Ele exclamou, cansado. Eu também, no fundo, estava cansada.

Dei meu cartão que fiz para o trabalho a ele. Ficamos ali em pé no corredor de frente para o outro o que pareceu vários minutos. Comecei a mexer nos papéis que tinha em mãos para não estabelecer nenhum contato visual, mas tudo foi por água a baixo quando ele tocou meu antebraço levemente, e meu coração esqueceu uma batida.

Maldita adrenalina.

– Estamos hospedados em um hotel barato, longe do movimento da cidade. Só... venha nos visitar, talvez. – David disse suavemente, quase como um sussurro.

Olhamo-nos por uma eternidade, até que finalmente crio forças para assenti com a cabeça e dar o fora dali.

Passo correndo pela minha secretária e entro na minha sala. Começo a arrumar meus pertences o mais rápido que consigo.

– Doutora Mills, a senhora vai sair? – Ariel entrou na sala desconfiada, provavelmente estranhou minha visível alteração de humor.

– Vou pra casa. – Disse sem me virar para ela.

– Como assim? E os compromissos agendados pra hoje?

– Entregue tudo para doutor Gold, ele saberá o que fazer. – Respondi saindo da sala e da firma a todo vapor.

Por algum motivo inexistente eu acabei pensando em minha mãe. Provavelmente se ela estivesse aqui repreenderia minha incapacites de enfrentar meus sentimentos. Eu a responderia dizendo que não posso fazer nada em relação a isso.

É a maldita adrenalina falando por mim.

Cora diria que essa adrenalina é movida pelo amor, e amor é uma fraqueza.

Até sem sua presença minha mãe está sempre certa.

Notas finais
Eu pesquisei o preço de um transplante de coração e troquei para a moeda dólar. Em reais, o preço de um transplante de coração é em torno de 45 mil reais ou mais. O capítulo foi monótono, eu sei, porém vai ser importante para o resto da história. Espero que tenham gostado!