A Morte de Jonas
3 Noite
Levantei-me mais devagar do que achei que faria e dirigi-me até a porta. Abri. Eram as pessoas que haviam vindo mais cedo me avisar que eu estava marcada para morrer.
— Podemos entrar? – O chefe do bando perguntou educadamente.
— Claro. Já almoçaram? – Perguntei cordialmente, dando espaço para que cinco homens entrassem na minha casa.
— Sim. – O chefe respondeu por todos, dirigindo-se a cozinha. – Agradecido.
Minha prima acenou da mesa alegremente para os recém-chegados. Eles a cumprimentaram e em seguida olharam para mim com evidente reprovação.
— Será que podemos conversar em particular?
— Claro, claro. – Minha prima respondeu por mim. Ela passou a alça da sua bolsa sobre o ombro e saiu com o prato na mão, dando garfadas para fora do apartamento. Antes despediu-se – Eu te ligo.
O chefe pediu para que eu me sentasse. Sentei no caixote.
— Tenho más notícias. – Ele já adiantou. – Os testes deram positivo para a presença de veneno nos seus mantimentos. As substâncias podem ter sido injetadas em diferentes ocasiões: o assassino pode ter, por exemplo, envenenado sua comida enquanto você a comprava no mercado… Ou realmente adentrado seu apartamento enquanto você não estava. Como não temos certeza e não sabemos o quanto de informação o assassino possui de você, decidimos lhe oferecer uma estadia preventiva em Londres.
Ele retirou de dentro do paletó o que reconheci ser um passaporte, um cheque e alguns outros documentos.
— Você terá tudo pago e continuará sendo remunerada enquanto o caso criminal permanecer aberto.
Eu estava paralisada. Consegui perguntar com muito esforço:
— E isso seria por quanto tempo?
— Sinceramente, não sabemos. Uma semana. Um mês. Talvez, um ano. Seu passe é válido para qualquer dia desse mês, mas recomendo que vá o mais rápido possível. Não é seguro permanecer aqui. É uma questão de tempo até que o assassino perceba que você não morreu pela tentativa de envenenamento.
Eu olhava para o chefe e ele esperava alguma reação. Como eu não pegava os documentos da sua mão, ele os deixou sobre a mesa.
— Entraremos em contato em breve. – Ele se virou para sair e então se virou para mim novamente – Pode, com sua licença, abrir a porta …?
— Claro. – Eu disse, saindo do transe. Levantei-me e os deixei sair.
Olhei para os documentos na mesa. Não queria tocá-los. Alguns segundos depois decidi que queria e os folheei. Um passaporte, uma identidade nova, um cheque de valor o suficiente para eu sobreviver por uns dez anos sem nunca tocar na minha própria renda. Deixei-os de volta na mesa. Eu não sabia o que fazer em seguida. Peguei meu telefone. Eu me sentia esgotada para falar com qualquer pessoa.
O que eu faria agora?
Fui para meu quarto, despenquei sobre a cama e dormi.
Eu estava no avião. Havia uma pessoa de terno sentada do meu lado à janela que eu não tinha me importado em olhar o rosto. A aeromoça vinha ao longe, empurrando um carrinho, servindo alguns pacotes de guloseimas. Quando chegou a minha vez de ser servida, ela se inclinou e me perguntou:
— Você percebeu quem está do seu lado?
Estranhei a pergunta. Olhei para o lado. O homem instantaneamente levou sua mão enluvada a minha boca e nariz, me impedindo de gritar ou respirar. Comecei a me debater desesperada. A aeromoça apenas assistia inerte eu ser asfixiada.
Ela deu um sorrisinho então e piscou para mim, voltando a empurrar o carrinho e eventualmente sumir no corredor.
Eu não tinha forças suficientes para me livrar do homem ao meu lado e aos poucos fui parando de me debater.
Tudo foi lentamente escurecendo. E quando tudo finalmente escureceu, abri os olhos e percebi que tal escuridão era apenas o breu do meu quarto.
Olhei para fora da janela, já era noite. Alcancei meu celular para ver que horas eram. Nove horas da noite ainda. Parecia que eu havia dormido por meses. Estava com raiva e incrédula que o dia ainda perduraria.
Levantei-me e fui para a cozinha. Alimentava a esperança que aquele dia teria sido todo um sonho. Vi que não ao notar o passaporte sobre a mesa. Ao lado dele, estava a garrafa de vinho ruim. Alcancei-a e tomei uns cinco goles seguidos. Peguei minha chave e saí pra rua, com a garrafa na mão.
Bati a campainha à porta da casa do senhorzinho que eu tinha conhecido mais cedo.
Um hippie de uns trinta anos atendeu.
— Olá! – Ele disse entusiasmado. Avistou a garrafa de vinho na minha mão e logo disse – Entra, o pessoal tá lá no quarto!
E em seguida se deslocou para os interiores do apartamento. Fiquei parada ali, curiosa e confusa. Eu fechei a porta atrás de mim e segui até o quarto. O barulho e o cheiro já denunciava o que estava acontecendo.
Chegando no cômodo, me deparei com uma roda de umas quinze pessoas das mas variadas tribos e idades sentadas ou deitadas, rindo e conversando alto, enquanto passavam cigarros e bebidas entre si. Quando perceberam minha presença no local, gritaram e comemoraram como se já me conhecessem e me esperassem, me enviando cumprimentos e reverências. Eu dei um tchauzinho para todos. Subitamente voltaram a falar entre si. Avistei o senhorzinho quase camuflado entre duas moças. Pedi licença enquanto pulava algumas pernas e cruzava a roda até perto dele. No meio do caminho alguém pegou a garrafa de vinho da minha mão e eu deixei que ela se fosse.
— Ei, minha filha, que bom revê-la. – Ele expressou cerimonialmente. – Você tá bem?
— Na verdade, não. – Respondi, agachando-me. – Será que podemos conversar em particular?
— Claro.
Eu esperei que ele se levantasse ou se movesse. Mas não fez nenhum dos dois.
— Então…?
— Sinto muito, minha filha. Mas meus joelhos pararam de funcionar. Lembra que te falei que de vez em quando isso me acontecia?
— Na verdade, não. Quer que chame uma ambulância? – Perguntei, preocupada.
— Não, não. – Ele disse, sorrindo divertido. – Logo isso passa. Daqui umas horinhas. Mas pode me contar o que houve, sou todo ouvidos.
— Tá bem. – Eu disse, sentando-me de frente pra ele cruzando minhas pernas.
Subitamente todos no quarto pararam de falar e olharam para mim, esperando pra ouvir o que eu tinha pra dizer.
Emudeci.
— Seu cabelo é lindo. – Uma das mulheres hippie da roda disse, quebrando o silêncio.
Agradeci, me sentindo um pouco envergonhada. Outra pessoa disse:
— Conta pra gente o que te aflige, não guarda isso, não, que pesa o coração.
Estava achando aquilo tudo muito desconfortável, mas me rendi. Sentei-me de modo a ficar de frente para o maior número de pessoas possíveis.
— Eu terei que fazer uma viagem para Londres. – Houve um “uau” e alguns “olha só” – E bom, eu ando muito estabanada e muito esquecida. Eu não sei se devo ir. Não parece que consigo cuidar de mim mesma. Estou numa situação que tem me pressionado demais, tenho esquecido até de trancar a casa.
— Mas não pode confiar na sua mente, não! – Uma das pessoas que fumava falou. – Todo mundo sabe disso. Ninguém aqui tem mais memória, a gente escreve tudo no papelzinho. Se não tiver escrito, não será feito.
Houve na roda alguns “é verdade” e “olha meu papel”.
— Caramba, vocês fazem mesmo isso? – Perguntei. – Parece tão… impraticável.
“É, as vezes, a gente só tem, tipo, a seda e escreve nela e ela acaba sendo utilizada.”
“Eu às vezes esqueço de ler o que escrevi.”
“Às vezes, quando lembro, deixo pra depois, também.”
“Ééééé! Eu também!”
— Eu meio que não tenho muita escolha. – Eu voltei a falar. A hippie que tinha elogiado meu cabelo agora o trançava sentada atrás de mim. – Eu meio que tenho que ir nessa viagem. Em outro momento eu meio que amaria isso, eu acho. Soa como uma aventura excitante com várias possibilidades e oportunidades. Mas agora, parece que eu seria capaz de fazer tudo: de escalar uma montanha… de correr uma maratona… Tudo. Mas de forma alguma eu me vejo entrando nesse avião e fazendo essa viagem.
— Relaxa! Vai dar tudo certo. Fuma aí um da paz.
A conversa tomou outro rumo, distraíram me daquele assunto e eventualmente eu estava chapada e bêbada demais pra sequer conseguir conversar. Fiquei por um bom tempo em transe olhando para a parede e com a sensação de que eu tinha solucionado todos os dilemas da humanidade.
Eu já não tinha nenhuma noção de tempo.
— Eu te amo. – Eu falei para o senhorzinho. Ou para o que eu achava que era o senhorzinho.
Tudo estava embaçado e parecia se misturar na minha frente.
Fui até o banheiro e olhei para o espelho.
— Que tranças são essas?! – Eu perguntei, passando os dedos sobre meu cabelo. Mas eu havia gostado do visual. Eu estava, na verdade, amando olhar para o meu reflexo. Mandei um beijo para mim mesma – Gostosa.
Olhei para a privada. Imaginei que ela estava fazendo ruídos. Será que ela estava me chamando? Acho que não, era improvável. Voltei para a sala e fiquei olhando aquele monte de pessoas, pulando feito chimpanzés pra lá e pra cá. Achei por um momento que só estavam dançando, mas então percebi que uma delas segurava um rato morto pelo rabo e ameaçava jogar o animal contra as outras.
Pareceu que a Terra era plana e tinha virado de cabeça pra baixo.
— O assassino! – Eu falei, sem ter noção se sussurrei ou se gritei.
Olhei ao redor apavorada. Girei e girei e girei a procura de alguém específico que eu não sabia quem era.
— Ele tá aqui! Ele tá aqui! – Eu comecei a repetir sem parar. Subitamente eu estava gritando e todo mundo estava me olhando assustado.
Eu havia acordado sozinha na cama do senhorzinho. Pela janela vi que tinha amanhecido. O quarto estava imundo, com restos de cigarro e garrafas jogadas por toda a parte. Meu corpo inteiro doía.
— Tudo bem? – O senhorzinho apareceu de pijamas pela porta.
— Eu acho que sim… Ainda me sinto meio tonta.
— Logo vai passar.
— Parecia que nada ia passar. Literalmente nada. O que me deram ontem? Que loucura. Eu parecia estar presa numa dízima infinita. Sabe aquela teoria de que o número nunca chega realmente no “um”? Sempre zero vírgula nove, nove, nove, nove…
— Acho que não tenho conhecimento sobre essa teoria, não. – Ele respondeu perturbado. Estendeu-me um copo d’água. – Melhor se hidratar, você vomitou horrores.
— Eu sinto que vomitei mesmo, mas não lembro. Minha, como chama?… Traqueia. Tá doendo muito.
— Natural.
— Perdão, eu não queria ter dado esse trabalho.
— Está tudo bem, não se preocupe.
Eu bebi a água e lhe entreguei o copo. Testei se conseguia me pôr de pé. Ainda estava meio zonza, mas nada que me impedisse de andar.
— Eu juro que vou fazer por onde. – Respondi. – Ninguém deveria ter que cuidar assim de ninguém. Obrigada de verdade.
Dirigi-me para fora dali o mais rápido possível. Voltei para o meu apartamento. Esperava encontrar a porta arrombada, mas tudo estava em ordem. Ou, pelo menos, tudo estava do jeito que eu lembrava que havia deixado.
Fui para o quarto e taquei umas roupas na mochila. Joguei-a sobre o ombro e voltei até a cozinha. Peguei os documentos sobre a mesa e fui para o aeroporto.
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