A Morte de Jonas
4 Dia
Eu estava me sentindo decidida quando saí de casa, mas quando avistei a aglomeração de pessoas na fila de embarque e todo o ambiente do aeroporto em si, já me sentia dúbia e paranoica de novo. Até ali eu nunca tinha pensado que aquilo tudo poderia ter sido uma armação, mas e se fosse? Liguei para minha prima e contei sobre a viagem que me ofereceram e que eu estava zarpando da cidade naquele momento.
— Nossa, tudo que eu queria, uma viagem com tudo pago para Londres!
— Prima, eu tava pensando. – Comecei, séria. – E se isso tudo for uma armação? E se esses caras na verdade só querem me mandar pra cadeia? Olha, eu tô com um passaporte que me deram e uma carteira de identidade estranha. Eu vou ter que apresentar essas coisas pra entrar no avião para a Inglaterra. Se eles descobrirem que tô entrando com documentos falsos vão me prender na hora.
— Será? Mas são mesmo documentos falsos? Talvez sejam só especiais.
— Não sei. Eu deveria ter conferido o cheque também. Aposto que não tem fundo.
— Acho que não armariam pra te prender. Não faz sentido.
— Eu vou tentar aqui. Já está quase na minha vez de apresentar os documentos.
— Qualquer coisa me liga da cadeia. Te amo.
Ela desligou. O atendente do aeroporto poderia chamar a polícia só pela tensão que eu transmitia na lerdeza para mostrar os documentos e no suor escorrendo da minha testa. Conferiu duas vezes tudo e me passou as informações do embarque, me permitindo acessar a plataforma. Aliviada, larguei meu corpo sobre uma das cadeiras e me permiti divagar sobre o nada até o horário de voo.
Já dentro do avião, as lembranças do pesadelo que tive na tarde passada vieram me assombrar. Eu encarei as aeromoças para ter certeza que não eram as do meu sonho, mas não pude confirmar porque não lembrava exatamente dos rostos do meu sonho e as integrantes daquele voo pareciam medonhamente iguais. Assim que sentei, fiquei esperando ansiosa para saber quem ocuparia o assento ao meu lado.
Uma mão enluvada tocou o meu ombro. Um sotaque russo disse:
— Pode me dar licença?
Meu coração disparou por um momento, mas se acalmou quando olhei para o rosto do indivíduo: uma mulher que provavelmente era a mais linda que já havia me tocado. Ela passou por mim e se assentou ao meu lado, muito brilhante, sorridente e simpática.
Eu me sentia segura. Tranquilizei por um momento e logo a gravação habitual de medidas de segurança começou a tocar.
Minha mente flutuou para o futuro. Logo eu estaria pelas ruas de Londres buscando informações sobre como tudo lá funcionava. Senti uma profunda angústia me consumir rapidamente. Eu não conheceria nada ou ninguém. Tudo seria assustadoramente novo. E se nunca prenderem esse assassino que está me procurando eu teria que começar vida nova lá. Buscar um emprego. Meu inglês nem é tão bom assim, já me preocupava com a dificuldade de comunicação.
Subitamente, percebi que eu estava falando sem parar.
— … eu não quero, eu não quero, eu não quero, eu não quero…
Só percebi que estava agindo autisticamente quando a mulher ao meu lado botou suas mãos sobre as minhas e me fez buscar seu olhar:
— Ei, relaxa. – Ela disse. – Vai ficar tudo, certo. Eu sei como é isso.
— S-sabe? – Lentamente eu estava saindo do estranho transe. O rosto dela se focou na minha visão.
— Eu tive que tratar meu medo de voo por anos. – Ela continuou com seu charmoso sotaque russo. – Meu trabalho requer que eu voe de país a país toda semana. É tudo muito seguro, eu prometo.
— N-não é isso. – Comecei, mas ao perceber que eu estava gaguejando, provavelmente por me sentir intimidada, recebendo cuidados de alguém tão fenomenalmente bela e simpática, preferi só agradecer – Muito obrigada. Vou me sentir mais calma, em breve, eu acho. Mas já me sinto melhor.
Ela sorriu e disse:
— Tudo bem. Qualquer coisa você pode contar comigo, certo? É um prazer te conhecer, eu me chamo Vangina.
— Prazer, também! – Respondi. – O meu nome é… Desculpa, como você disse que se chama?!
— Vangina. – Ela repetiu ingenuamente.
— Não! – Eu disse, incrédula. Ela me olhou estranhada e soltou minhas mãos. Eu de repente estava gargalhando. As pessoas ao redor me olhavam torto, mas eu não conseguia me segurar. Baixei a cabeça para disfarçar, mas meus ombros denunciavam que eu estava numa crise de riso que não passaria tão cedo. A mulher de sotaque russo simplesmente pegou uma revista e focou nela, demonstrando extremo desconforto de estar ao meu lado.
Seguimos em silêncio, por boa parte da viagem. Eu me sentia culpada pela minha crise e pelo sorriso no rosto que eu não conseguia desfazer. Eventualmente tentei amenizar a situação:
— Olha, Vangina… – Comecei. E de repente estava gargalhando de novo.
Enxuguei minhas lágimas e deixei um “aiai” escapar. Quando finalmente consegui falar foi em meio a soluços:
— Olha, se você for a assassina, pode me matar, eu mereço, eu entenderia.
Ela fingiu não me ouvir.
Uma voz soou pelo compartimento, um dos comissários de bordo começou a falar no microfone do avião:
— Estamos caindo. Despeça-se de quem está do seu lado, pois vamos todos morrer.
Todos se retesaram.
— É só uma brincadeira, gente. – Ele falou rindo. – Gosto de dar um susto assim, porque se a coisa acontecer de verdade, quando eu for anunciar, ninguém vai acreditar em mim e vai todo mundo morrer sem pânico.
As pessoas se olhavam abismadas. Descobrimos que o alerta era apenas para avisar que as aeromoças passariam pelos corredores oferecendo alimento e água.
Era noite quando pousamos. Recuperei minha bagagem e procurei um táxi. O endereço que me haviam reservado a estadia preventiva estava numa folha junto aos documentos que me deram. Durante a viagem até o local, eu observava a cidade pela janela. O fascínio pelas construções, luzes e roupas tão diferentes do que eu estava acostumada a ver me passavam uma certa tranquilidade. Desci finalmente em frente a casa que eu ficara. Deus, eu teria uma casa enorme inteira para mim. Precisava procurar uma faxineira, pensei. Eu não me via capaz de limpar mais do que dez metros quadrados, que era a extensão do meu apartamento. Percebi que não haviam me dado chaves e por um momento me senti congelar, achando que não conseguiria entrar na casa. Toquei a campainha. Um homem de uns cinquenta anos, trajando pijamas, atendeu.
— Não temos pão velho. – Ele disse em inglês depois de me olhar de cima a baixo e começou a fechar a porta.
— Não, espera! – Eu o impedi de me trancar para fora e mostrei meus documentos pra ele.
— Ah, você não podia ter escolhido uma hora melhor para chegar, não? – Ele reclamou, rabugento. – Entra.
Ele me deu licença e eu entrei.
— Tenho que te falar o que me disseram pra te contar. – Ele continuou, indo para os interiores da casa. Eu o seguia. – Teoricamente eu deveria sair assim que você chegasse. Achei que demoraria mais uns dias, porém.
Ele bufou enquanto se servia café.
— Bom, esta casa é grande, mas só tem um quarto. E só uma cama. Como está tarde, não acha que seria uma boa ideia se, de repente, eu passasse esta noite aqui e fosse embora amanhã?
Eu não me importaria de dormir na mesma cama que você.
— Seria o seu sonho. – Eu deixei escapar uma risada irônica. – Agradeço imensamente seus serviços, mas o senhor já pode ir embora. Quer que eu chame um táxi?
Ele deu de ombros. Bebeu seu café e dirigiu-se a sala. Acompanhei-o. Chegando lá, comentou:
— Quem perde é você. Estou com meu carro, não é preciso táxi, não. As chaves estão na porta, tem alguns documentos pra você na gaveta. – Ele me apontou um rack.
Ele pegou o controle da televisão e a ligou.
— Já começou! – Ele disse, entusiasmado com uns macacos sendo transmitidos pelo aparelho.
— Sabe me dar alguma informação sobre o caso?
Ele riu do que os macacos estavam fazendo na tevê,
— Oi! – Eu chamei a atenção dele.
— Não. – Ele disse, irritado. – Eu sou só o capataz.
— Então, por favor, vá embora.
Ele resmungou algo que imaginei ser um xingamento em alguma língua estranha e seguiu para a garagem. Ouvi ele ligar o carro e o som do automóvel se distanciar da casa.
Aqueles macacos faziam cada vez mais barulho. Desliguei a tevê. Eu detestava tevê. Se tinha uma coisa que eu repudiava era a ideia me dizerem o que eu deveria assistir. Terminei de conhecer a parte de baixo da casa. Olhei dentro dos armários procurando por possíveis pessoas escondidas. Na geladeira não tinha nada se não um resto do que parecia ser uma broa. Olhei na gaveta e percorri meus dedos pelos documentos que haviam ali. Nada de interessante, se não um mapa da cidade. Enfiei ele no bolso. Subi as escadas até o quarto. Era um quarto enorme e bem mobiliado. A cama de casal redonda me fez querer estar acompanhada. Talvez eu devesse ter dado uma chance para o capataz… Larguei-me sobre o colchão e ri de mim mesma: “jamais”.
Eu me sentia bem. As adversidades até ali talvez tivessem o poder de me afetar mais em outrora. Mas o raro sentimento de que eu finalmente tinha feito o que eu deveria fazer amenizava meus pesares. Deixei que o sono me levasse. E de repente percebi que eu estava dormindo havia dias. Levantava somente para ir ao banheiro e para atender os entregadores de comida à porta. Eu olhava para as chamadas perdidas da minha prima no meu celular e prometia a mim mesma que a atenderia caso eu estivesse acordada quando ela me ligasse. Porém, a respondi por mensagem quando ela me mandou um texto perguntando se eu estava morta: “Não morri. Eu te ligo assim que der.”.
Eu me sentia um pouco resfriada e febril, mas a inaptidão e indisposição que aquilo me proporcionava me deixou grata. Meu corpo simplesmente implorava por repouso e eu conseguia oferecê-lo descanso sem esforço.
Quando uma semana já havia se passado, minha consciência começou a querer me puxar para fora do limbo. Eu debatia comigo mesma:
“Qual é? Não vai mais viver, não? Este é o fim? Cadê a energia, a atitude?”
“Eu estou curtindo o que eu estava buscando. Me deixa. Estou em paz. Estou tranquila.”
“Isso não é paz, nem tranquilidade. Isso é morte.”
Levantei-me lentamente e olhei para fora da janela. Os vizinhos pareciam simpáticos. Mas não interessantes o suficiente para me fazer entrar em contato com eles.
Olhei para as luzes e para os prédios. Eu estava em Londres! Em Londres! E também tinha dinheiro para gastar com todas as superficialidades imagináveis que a cidade poderia oferecer. Como era possível eu não possuir a mínima vontade de sair desse quarto? Pessoas matariam pra estar no meu lugar.
Sentei na cama de novo e olhei para minhas roupas jogadas no chão. Percebi o mapa da cidade no bolso do casaco. Abri-o e o examinei. Procurei arbitrariamente por um salão de baile e encontrei. Esforcei-me para ir até o banheiro, minhas pernas pesavam toneladas. Olhei para meu reflexo abatido e estranhamente me sentia bonita. Sentia-me tão bela a ponto de achar que eu já me bastava para tudo. Pra que sair? O que procurar? Outro perigo?
Comecei a voltar para a cama. Olhei para ela, meu corpo insistia que eu o afundasse no colchão. Mas dei meia volta. Liguei a torneira na água gelada e me enfiei na banheira.
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