Entrei no salão que eu havia encontrado no mapa. O local estava lotado de gente e a música era bastante agradável. Fui para o bar do local e pedi para o atendente me trazer o que tivesse de mais forte.

— Nada de café, hein. – Complementei. Ele me olhou perturbado e se virou para preparar um coquetel.

Esperei no balcão que algum homem charmoso viesse me oferecer um drinque. Quando aconteceu, recusei polidamente. Fui para o centro do local com um drinque em mãos e dancei até que dançar parasse de fazer sentido. Virei dois copos seguidos daquele coquetel e ainda me sentia sóbria. Reclamei em português com o atendente que aquelas bebidas não tinham álcool. Avistei para um garoto acuado e aparentemente vulnerável que estava encostado num canto. Ele provavelmente era uns cinco anos mais novo do que eu. Fui até ele.

— Está sozinho? – Perguntei, desenvergonhada.

— Não, eu jamais viria para um lugar assim sozinho. – Ele respondeu tímido, claramente não percebendo que estava sendo grosso.

— Eu vim pra cá sozinha! – Eu disse brava.

— Ah! Não foi isso que eu quis dizer. – Ele corou. – É admirável.

— Cadê sua turma?

— Estão dançando.

— E por que você está aqui se isolando deles agora?

— Não sei…

— Bota pra fora. – Eu incentivei. – Você pode me dizer. Sou extremamente confiável.

— Realmente quer saber?

— Sim.

— Não vai me julgar?

— Não. – Prometi.

— Nesse momento, eu sinto que não posso prover nada a eles. Não serei entretenimento, sabe?

— Deus, você é estranho.

Ele riu:

— Você disse que não ia me julgar. Eu também acabei de voltar pra essa… – Ele pensou por um momento – … vida.

— Eu também. Estava na fossa. – Respondi. – Mas, vá lá, vamos ser irritantes mesmos. Ser entretenimento é superestimado! Venha.

E eu estava arrastando o garoto pela mão pela multidão. Os amigos e amigas dele o receberam com alegria. Devido ao som alto não estendemos muito assuntos, mas eles se demonstraram simpáticos e receptivos. O garoto quase não dançava e quando o fazia, se mexia da forma mais estranha possível e eu não conseguia não rir dele. Ele se fingia de irritado, me dando corda. Eventualmente ele meio que parou totalmente e ficou só observando tudo em volta. Perguntei pra ele se ele queria dar uma volta e ele disse que sim. Saímos do salão e caminhamos pela calçada.

— Posso perguntar uma coisa? – Ele começou.

— Pergunta aí.

— Quando você está dançando com outras pessoas, você mantém contato visual com elas?

— Com todas ao mesmo tempo, não. Mas por que você pergunta?

— Eu acho que tudo é mais fácil quando não se faz contato visual. Caminhando assim de lado por exemplo, parece que tenho capacidade de discursar sobre tudo.

E ele discursou mesmo. Descobri que tínhamos inúmeras coisas em comum, desde gosto musical e literário, a ódio mútuo de certas pessoas.

— Por que você está em Londres? – A pergunta finalmente chegou.

— Estavam tentando me matar no meu país. Vim para cá como refugiada. – Respondi.

Ele arqueou as sobrancelhas e pensou por um momento. Com o semblante triste ele comentou:

— Deve ter sido difícil de lidar com a sensação de que poderia morrer em breve.

— Mais do que lidar com o medo da morte.

— Eu imagino…

O garoto era muito expressivo, tive a impressão que ele não conseguiria esconder um sentimento jamais na vida dele.

— Você parece saber. – Comentei. – Você de repente viajou para longe. O que foi?

— É que para algumas pessoas viver é como respirar. Já para outras…

— Viver literalmente é como respirar. Mas eu acho que entendi o que você quis dizer. Esse não é seu estilo de vida, não é? As danças, as conversas, o contato humano. Acredite, não é o meu também. Porém me senti extremamente viva, dessa forma que você tá dizendo, quando tive que lidar com a ideia de que poderia ser assassinada a qualquer momento.

— É! É estranho, não é? Fico pensando, será que só sou capaz de sentir que vivo intensamente quando penso que estou correndo perigo mortal?

Refletimos por um momento.

— Por que tentavam te matar?

— Porque sou uma assassina em série foragida.

Ele me olhou assustado. Eu disse séria:

— Está se sentido em perigo mortal agora?

— Acho que sim. – Ele disse, ingênuo.

— Vamos viver, então. – Agarrei-o pelo colarinho e o beijei.

Como era de se esperar, ele transava tão mal quanto dançava, mas, ao mesmo tempo, toda aquela vulnerabilidade que ele demonstrava me era confortável. Eu me sentia em controle total e eu sempre me considerara uma dominadora. Durante a noite que se seguiu, senti que nenhum de nós dois estávamos realmente dormindo. Logo amanheceu e ele partiu o mais rápido possível. Achei que jamais falaria com ele de novo, porém mantivemos contato virtual constante nos dias que se seguiram. A semana se passou e dos sete dias que a constituía, quatro ele havia voltado à minha casa para passar a noite. Saíamos e ele me mostrava a cidade como meu guia turístico. Nosso passeio na roda gigante parecia uma cena de filme. Caminhávamos pelo Hyde Park, quando uma bola rolou até meus pés. Algumas crianças estavam a beira do lago, gritando para mim.

— Ei, mendiga, joga a bola! – Um dos pirralhos me pedia ao longe, balançando os braços no ar. Taquei-lhe a bola de volta com toda força que eu podia, acertando-o na cabeça. Ele se desequilibrou e caiu no lago. Sorri de satisfação.

Depois daquele acontecimento, quando o garoto não estava comigo, eu me forçava a gastar o dinheiro que me deram nas lojas de roupa e aos poucos me agradava cada vez mais a ideia de andar bem-vestida. Liguei para minha prima e contei sobre tudo o que tinha acontecido até então. Falávamos do meu novo par romântico.

— Esse garoto é estranho, prima. – Ela comentou. – E o seu ex?

— Esqueci. – Disse, sincera. – É um absurdo você me perguntar isso. Mas, obrigada. Percebi agora que é ótimo poder pensar naquele homem e não sentir nada.

— Esse garoto parece ser tão… diferente.

— Do meu ex? Sim. De mim? Não. Ele parece tão… eu! E acho que é isso que me atrai nele.

— Pelo que você me conta ele não parece você, não. E, olha, os opostos que se atraem, prima, não os semelhantes. Além de que isso soa narcisista pra cacete.

— Você só está com ciúmes.

— Estou mesmo. Você nunca vai voltar?

Eu não sabia responder aquilo. E estranhei não estar preocupada com isso. Subitamente tudo estava tão fácil.

— Algo ruim vai acontecer, tenho certeza. – Comentei.

— Como assim? O que houve?

— Nada. Não houve nada. Justamente por isso. Tudo está ótimo. Não é assim que são as coisas.

— Eu vou ter que desligar. Depois a gente retoma essa conversa. Eu te amo.

E desligou.

Não sei se eu simplesmente estava certa ou se fiz algo para causar o que viria a seguir, mas algo ruim de fato aconteceu. Subitamente o garoto desapareceu, não respondia minhas mensagens ou atendia meus telefonemas. Quando comecei a pensar que ele tinha morrido, ele ressurgiu. Disse que estava passando por uns problemas na vida dele, não poderia me ver, mas sentia minha falta. Fui tolerante e disse que estava tudo bem. Perguntava se ele queria me ver. Ele postergava ou simplesmente furava. Lentamente tive a certeza que não só estava obcecada para tê-lo, mas também de que jamais o teria de volta.

Eu estava cada vez mais desolada, destruída. Sentia-me estúpida – como poderia ter entrado naquele estado de devastação tão rápido? O término com meu ex, cuja relação havia durado muito mais do que aquela aventura, não tinha sido sofrido assim. Já não queria levantar para nada. Estava na escuridão de novo.

— Será que fiz algo que o deixou chateado? Será que ele ficou muito assustado com a bolada que dei naquela criança? Será que disse algo que o fez parar de pensar em mim como alguém que ele queira por perto? Ele é muito sensível. Posso tê-lo machucado sem notar.

— Se isso aconteceu mesmo, de qualquer forma ele estaria sendo escroto em não te contar, de não pôr isso na mesa para discussão. Mas provavelmente você só está com tempo livre demais e deixou esse garoto se transformar em tudo que importa. – Minha prima me encurralou.

Resolvi ocupar meu tempo, então. Procurei cursos para fazer de manhã e passava as tardes conhecendo pontos diversos de Londres. Os cursos eu abandonava logo no início e a cidade parecia incapaz de me entreter. Voltei para as baladas noturnas, evitando as que fossem presididas no salão que conheci o garoto. Minha casa estava cada vez mais suja e lotada de garrafas de bebida alcoólica. Estar sóbria era um tormento. Estar sozinha era inaceitável.

— Prima, daqui a pouco eu vou ter transado com todos os homens de Londres. – Eu a liguei de madruga, sentindo-me cada vez mais melodramática e chata. O cara aleatório que dormia ao meu lado reclamou sem realmente acordar. – Eu simplesmente não consigo entender. Não consigo esquecer. Não consigo aceitar.

Ela suspirou. Pausou por um minuto e então disse:

— Você precisa de cuidados. Volta pra cá.

— O quê?!

— Volta.

Naquele mesmo dia, eu peguei o avião e voltei para meu apartamento.

Alguns dias se passaram e esperar notícias do garoto parou de fazer sentido, uma vez que eu estava a milhares de quilômetros de distância.

Minha prima e eu estávamos deitadas discutindo tais acontecimentos na minha cama, olhando para o teto.

— Eu acho que nunca fui tão idiota.

— Eu também acho que você nunca foi tão idiota.

Rimos.

— Você é extremamente chata quanto está apaixonada. – Ela disse. – Não é a toa que te largam.

— Ter voltado parece que clareou tudo. A sensação de que eu decidi deixar tudo pra trás, porque eu quis deixar, é simplesmente maravilhosa. Claro, a sensação de que eu poderia estar casada agora ainda me entristece.

— Cale essa boca, você nunca nem quis casar. Não deixa o objetivo de vida dos outros virar o seu. Estou feliz que voltou. Mas não podemos nos enganar, ainda temos um problema pra lidar.

— Sim. Eu sei. O assassino ainda está a solta. – O sentimento de agitação havia voltado. Meu corpo estava elétrico por ter sido colocado de novo em perigo mortal. – Mas não sei o que fazer. O jeito é viver com isso?

— Não. – Ela respondeu, se levantando. – Se esses incompetentes não conseguem encontrar o culpado, nós vamos encontrá-lo.

Olhei pra ela da maneira mais expressiva que eu consegui demonstrar que a julgava tola.

— Você enlouqueceu? – Perguntei. Mas ela não estava brincando.

— Eu vou te ajudar.

Tentei imaginar a gente como detetives de sucesso e falhei.

— Não… Eu não consigo nem pensar por onde a gente começaria. Não somos investigadoras, prima. Eu muito menos, se tiver uma faca ensanguentada na minha gaveta eu não vou notar. Se os profissionais não conseguem pegar esse cara, quem somos nós para achar que podemos encontrá-lo? – Virei para o lado, dramaticamente desolada.

— Você não sabe como começar, mas eu sei. Vai, se levanta. – Ela me deu um tapa na bunda. – Não dá pra viver assim, não, já vimos. Hora de lidar com isso. Vamos pegar esse assassino.

— Espera. – Eu comecei a me levantar visivelmente contrariada. – Primeiro eu preciso me trocar.