A Morte Me Dá Spoilers
4 Capítulo 3: O que mudou?
A noite estava estranhamente silenciosa. O tipo de silêncio que incomoda, sabe? O vento frio soprava pelas ruas vazias, trazendo aquele cheiro molhado de chuva que ainda não chegou. Eu encolhi as mãos nos bolsos do casaco, cabeça baixa, só querendo chegar em casa. Foi então que tudo ao meu redor pareceu... sumir.
A visão veio sem aviso.
Eu estava ali, exatamente onde pisava naquele momento. A mesma esquina. A mesma calçada. Mas dali surgia um homem, saído das sombras, com uma faca na mão. Meu coração disparava. O corpo reagia antes da mente: eu puxava o taser, apertava o gatilho. O homem caía. Morto.
A visão sumiu tão rápido quanto apareceu. Pisquei, tentando me equilibrar. Senti o estômago embrulhar. O corpo travado.
E, como se o mundo seguisse um roteiro que só eu conhecia, ouvi passos atrás de mim.
Não precisei virar. Era ele. Eu sabia. A faca. O olhar. Tudo igual ao que eu tinha visto segundos antes.
— Passa tudo que tem aí — ele disse, a lâmina reluzindo sob o poste mais próximo.
Meu coração pulou na garganta. Eu tremia, mas minhas mãos já estavam em movimento. Puxei o taser da bolsa e apontei pra ele.
— Fica longe! — tentei parecer firme, mas minha voz me traiu.
Ele hesitou. Por um instante. Mas não o bastante.
Apertei o gatilho.
O som do choque elétrico cortou o ar. O corpo dele se contraiu todo, os olhos arregalados. E então ele caiu. Imóvel.
Pisquei. O coração batendo alto demais pra ser ignorado.
— Ei...? — chamei, me abaixando, a mão estendida.
Nada.
O terror me invadiu quando percebi que a visão tinha sido real até o fim. Eu tinha matado ele. Sem querer. Mas matei.
Com dedos trêmulos, puxei o celular e disquei.
— 911, qual sua emergência?
— Eu… eu matei uma pessoa com um taser.
— Pode repetir?
— Ele ia me assaltar! Eu só... só puxei o taser pra assustar, mas quando apertei o gatilho ele caiu e... ele não se levantou mais.
— O suspeito estava armado?
— Sim. Com uma faca.
— Afaste a arma do corpo e permaneça onde está. Qual o endereço?
— Eu… não sei o nome da rua. Mas tô perto de casa.
— Qual o seu endereço?
— Rua Perks, 1010. Meu nome é Nadine Swan.
— Já localizamos você pelo GPS. A ajuda está a caminho. Pode ficar na linha? Quer tentar reanimá-lo?
Eu queria dizer “não”. Eu queria não estar ali. Mas minha boca respondeu por mim:
— Eu tento. Fiz um curso de primeiros socorros.
Me ajoelhei. Comecei as compressões no peito dele. Um, dois, três...
O tempo virou uma tortura. E então, luzes vermelhas e azuis cortaram a escuridão. Sirenes. Passos apressados. Vozes.
— Afaste-se do corpo e largue a arma — disse alguém com firmeza.
Soltei o taser com cuidado, levantei as mãos. Eu só queria que tudo parasse de girar.
— Eu… eu tentei ajudar…
Paramédicos cercaram o homem. Um deles tocou o pescoço dele, procurando pulso. O olhar dele… eu vi a resposta antes mesmo das palavras.
Ele estava morto.
Um policial veio até mim. Tinha um bloco de anotações na mão, mas a postura não era hostil.
— Ele tentou te assaltar?
— Sim. A faca tá ali.
— Você tem porte legal do taser?
— Tenho. Tá na minha bolsa.
Pegaram a bolsa, verificaram os documentos. Eu estava legal. Mas isso não me deixava menos em choque.
— Vamos precisar que você vá até a delegacia prestar depoimento.
Assenti. O olhar ainda preso no corpo dele. No saco preto que começava a ser aberto.
Alguma coisa mudou ali. E eu sabia: dessa vez, eu não era só uma espectadora da morte. Eu estava dentro da história.
A sala de interrogatório tinha cheiro de café velho, metal e angústia. Eu tremia, mesmo sentada firme na cadeira. O casaco úmido grudava nas costas. À minha frente, o detetive Reynolds ligou o gravador com um clique seco.
— Vamos começar. Nome completo?
— Nadine Swan.
— Idade?
— Vinte e nove.
— Endereço?
— Rua Perks, 1010. Moro sozinha.
Ele fez anotações rápidas, depois ergueu o olhar.
— Você é a dona registrada do taser?
— Sim. Está no meu nome. Tenho porte legal. Carrego comigo pra segurança.
— Conta pra mim, do começo. O que aconteceu ontem à noite?
Respirei fundo.
— Saí de casa por volta das nove e meia. Fui até a farmácia. Voltei pela Rua Carter. É mais rápida, apesar de mais deserta. Quando virei a esquina, ele apareceu. Vinha rápido. Só vi a faca quando já era tarde. Ele ergueu o braço e veio pra cima de mim.
— Ele disse algo?
— “Passa tudo”. Super criativo, né?
Reynolds não riu. Só anotou.
— Peguei o taser. Apontei. Disparei quando ele não recuou. Só uma vez. Ele caiu imediatamente. Achei que fingia, mas não se mexia. Liguei pro 911. A atendente mandou eu afastar a faca. Fiz isso. Tentei reanimar. Fiz curso. Achei que podia ajudar.
Ele me encarou por um segundo mais longo que o necessário.
— Por que tentou reanimá-lo?
— Porque eu não queria que ele morresse. Só me defendi. Ele tinha uma arma branca e me ameaçou. Mas ainda assim… ele era uma pessoa.
Reynolds virou umas folhas da pasta.
— O laudo preliminar indica ataque cardíaco. O choque foi o gatilho, mas ele já tinha histórico. E não era a primeira vez que ele fazia isso.
— Eu não sabia…
— Ninguém esperava que soubesse. Tudo indica que foi legítima defesa. Seu porte está regular, não há sinais de excesso. Vamos manter o protocolo, investigar, mas... não há nada contra você neste momento.
Ele pausou a gravação. O clima ficou menos tenso.
— A arma vai pra perícia, mas você não será detida. Precisa só assinar alguns papéis.
Assenti. Só queria sair dali.
Assinei o que ele mandou, sem ler direito. Honestamente, eu só queria sumir.
— Quer uma carona pra casa? É tarde, e depois de uma noite dessas...
— Eu tô bem — respondi no automático.
Mas não estava. E ele percebeu.
— Tá. Tudo bem — cedi.
Reynolds chamou um policial. Ele me guiou até o carro. O ar da noite bateu no meu rosto. Frio. Real. Ainda me sentia anestesiada.
— Pode sentar-se na frente, se quiser — disse ele.
Entrei. O cinto de segurança apertou meu peito como se quisesse me manter no lugar. O silêncio durou até ele comentar:
— Noite difícil, hein?
Soltei um riso seco.
— Um pouco.
— Pelo menos você tá bem.
Quis dizer que não sabia mais o que significava “estar bem”. Mas fiquei quieta.
Quando chegamos ao meu prédio, agradeci com um aceno.
— Qualquer coisa, é só ligar pra delegacia.
Assenti. Fechei a porta. Ele foi embora.
Fiquei parada na calçada por uns segundos antes de subir. Sozinha. Pela primeira vez em muito tempo, sem saber o que esperar do que viria a seguir.
Tranquei a porta assim que entrei. Duas voltas na chave. Testei a maçaneta. Fui até as janelas. Todas trancadas. Mesmo assim, chequei uma por uma.
Depois, fui até a cozinha, peguei uma faca e levei comigo pro quarto. No caminho, empurrei uma cadeira contra a porta da cozinha e outra contra a da sala. Se alguém tentasse entrar, pelo menos faria barulho.
Subi com a faca apertada nas mãos. Tranquei a porta do quarto. Olhei ao redor. Tudo estava no lugar. Mas nada em mim estava.
A sensação de que eu não estava sozinha não me largava.
“Estou ficando paranoica...”, pensei.
Mas, lá no fundo, eu sabia: não era paranoia.
Era só o começo.
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