A Morte Me Dá Spoilers
5 Capítulo 4: Tudo de volta a normalidade, ou será que não?
Passei a questionar se agora eu podia interferir nos planos da morte. Se algo tinha mudado nos meus poderes... e o que, exatamente, eu podia fazer com isso.
A caminho do trabalho, vi uma mulher prestes a atravessar o sinal. E vi também o táxi em alta velocidade que a atingiria. Num lampejo, sem pensar, trombei nela com força suficiente pra fazê-la parar, me xingar e perceber — no meio do chilique — que o sinal estava fechado pra ela.
Mais adiante, um cliente se aproximava da porta da conveniência. Um balão escaparia, uma criança sairia correndo atrás dele, seria atingida por uma bicicleta, bateria a cabeça no poste e morreria. Mas, antes de perceber, eu já estava com o balão na mão. A criança olhou pra mim, sorriu.
— Obrigada, moça de cachinhos!
Eu podia evitar? Será que só descobri isso agora... ou será que todas as vezes que tentei, fiz do jeito errado?
Fiquei parada na esquina, observando de longe a mulher no telefone e a criança com o balão. Nada aconteceu. Nenhuma tragédia, nenhuma correria, nenhum corpo no chão. Apenas duas pessoas continuando suas vidas. Eu sorri. Aliviada. E ainda assim... apreensiva.
Voltei a andar, mas algo me fez parar. Um arrepio na nuca. Virei o rosto e vi um carro da polícia estacionando. Dois agentes desceram e correram até o beco ao lado da conveniência. Curiosa, segui.
Um corpo estava caído ali. Tatuagem na mão direita: uma foice. Eu conhecia.
Era o homem que tentaria matar Margaret.
Na visão, ele invadia a casa dela. Uma faca, gritos, sangue. Agora, ali, ele estava morto. Uma mancha de sangue no peito. Olhos abertos, parados.
Como eu não tive uma visão da morte dele? Será que meus poderes estão falhando? Ela não parecia estar muito tempo ali.
Segui o resto do caminho pensando nisso.
Subi os dez andares de escada até o escritório, como sempre. Elevador não é comigo — não confio neles. Ponto.
No meio do caminho, cruzei com a Sally. Visão rápida: salto quebrando, queda feia descendo a escada, pescoço quebrado. Pisquei. Ela ainda estava inteira, do meu lado.
— Acho que seu salto tá soltando. Cuidado nas escadas.
— Nossa, obrigada! Imagina a queda que seria!
— Nem quero imaginar.
(Aliás, já imaginei. Foi feia.)
Cheguei no meu andar. Bob, o outro leitor de manuscritos que trabalhava comigo, veio falar sobre A Terra Doce e Estranha — título com tudo pra ser um best-seller, mas tão confuso que eu nem sabia por onde começar a reescrever. Sério, parecia que o autor tinha tomado chá de cogumelo com suco de maracujá.
Bob era mais velho que eu, uns quarenta e poucos anos, quase um mentor. Casado, com filhos, adorava contar sobre as férias e sempre falava que eu precisava ir conhecer a família dele. Meu único problema era o medo de, na hora que os conhecesse, ter uma visão de como morreriam. E seria triste demais.
Não permito que ninguém entre de verdade na minha vida. Porque seria a pior coisa do mundo vê-lo morrer.
Mas agora... agora eu começava a sentir um fio, bem fino, de esperança.
Antes, eu só precisava entender como tudo isso funcionava.
— Você conseguiu passar do capítulo quatro daquela calamidade? — Bob perguntou com uma expressão que envelheceu uns cinco anos só de lembrar do livro.
— Fiz pior, eu terminei de ler. Sinceramente, nem sei o que eu li. Não entendi se a história era no passado, presente ou futuro, se tinha vários narradores ou só o Príncipe Infernal sem graça. Eu não entendi nada. Vou avisar a Rachel que há zero possibilidade de reescrever isso. Zero. O que eu já imaginava quando li a sinopse que falava de monarquia, lobisomens, mutantes e vampiros se unindo contra um exército do mal de fadas que foram corrompidas por Lúcifer.
— Você descobriu o que o título tem a ver com a história?
— Não. E nem sei se um dia eu entenderia qualquer coisa além daquele prólogo confuso, que parecia escrito por um elfo bêbado usando fonte gótica em caps lock.
Bob riu. Daquele jeito cansado, cúmplice. A risada de quem também já teve que dar parecer sobre um romance narrado por um fantasma narcoléptico que se comunicava por enigmas.
— Esse povo acha que quanto mais coisa misturar, mais original fica. Eu só queria entender por que o tal Príncipe Infernal usava um hoverboard.
— Eu só queria entender por que eu não fui atropelada antes de chegar no fim daquilo.
Ele gargalhou.
— Tá vendo? Isso sim é resiliência. Você devia colocar no currículo: sobreviveu a A Terra Doce e Estranha sem perder a sanidade.
— Quem disse que eu não perdi?
Enquanto ele ria, Rachel apareceu atrás de nós, segurando uma pilha de originais e uma caneca com a frase ‘Cuidado, editora em fúria’.
— Vocês dois já decidiram quem vai revisar o livro sobre o assassino que fala com o espírito da própria vítima?
— Você não leu isso ainda? — Bob perguntou, fazendo cara de espanto. — É tipo um Ghost psicopata. Só que ruim.
— Melhor do que aquele romance hot com troca de corpos no espaço-tempo — retruquei, pegando o manuscrito. — Aliás, por que os autores estão tão obcecados com lobisomens ultimamente? É a nova fase da lua?
Rachel bufou.
— Vocês reclamam, mas vendem. Agora anda, Nadine, leva isso pro seu canto antes que eu comece a defender as fadas corrompidas por Lúcifer.
— Não se atreva.
Fui andando em direção à minha baia, ainda com um leve sorriso no rosto. Rachel era rabugenta, Bob era falante demais, os manuscritos variavam entre o esquisito e o surreal… mas, por algum motivo, eu gostava daquele caos.
Mesmo quando tudo parecia uma sucessão de bizarrices mal escritas, era melhor do que ficar parada, esperando a morte aparecer por aí, como um aplicativo que só notifica quando algo péssimo vai acontecer.
E agora... talvez, só talvez, eu pudesse fazer algo diferente.
Mas aquela cena no beco ainda rondava a minha mente.
Talvez salvar uma vida significasse perder outra.
Mas eu havia salvado três pessoas hoje: a mulher do celular, a criança com o balão e a Sally.
Como eu saberia se existiram outras mortes... eu queria me iludir que uma coisa não estava associada a outra..., mas quais eram as chances? Eu não vi a morte do cara, por que estava muito ocupada observando a criança e a mulher??
Não faz sentindo, as visões nunca respeitam se estou ocupada ou não, elas simplesmente vêm...
Será que a morte do cara aconteceu simultaneamente a visão da criança, por isso não vi?
Talvez salvar uma vida signifique perder outra... ou talvez eu só tenha virado a assistente atrapalhada da Morte — sem salário, sem folga e com o Google Maps sempre apontando pra tragédia. E talvez, no fim das contas, eu só tenha trocado a previsão da morte pela incerteza do caos. Que ótimo upgrade. Ou talvez o preço da interferência fosse mais alto do que eu imaginava.
Eu precisava tentar manter uma ordem, mesmo em meio ao caos, salvar de maneira aleatória qualquer pessoa não parecia certo. Eu precisava criar regras, quem sabe assim, minimizava minha interferência?
1. Não salvar quem vai morrer pela própria estupidez, seleção natural, Darwin estava certo desde o princípio.
2. Crianças podem ser estupidas, mas são exceção a regra anterior. Elas ainda não cresceram o suficiente para entender como a seleção natural funciona. No caso quem deveria morrer eram seus pais por serem idiotas, mas isso eu não escolho.
3. Mortes naturais, vamos deixar como estão.
4. Morte por burrice alheia, essa é o tipo complicado pois sei que posso salvar um e acabar condenando outro. (Vou analisar na hora — decisão rápida, eu sei!).
5. Assassinatos: apenas chame a polícia, não banque a heroína.
Essas regras me deram a sensação de estar brincando de Deus, e não era a minha intenção. Só queria poupar alguns que morreriam por causa de decisões idiotas de outros. Era Justo!
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