A Morte Me Dá Spoilers
3 Capítulo 2: Nada como o esperado
Eu estava lendo mais um manuscrito que, sinceramente, merecia ser processado por agressão literária, quando aconteceu. Aquela sensação conhecida — como um puxão no centro da minha mente — e pronto: a visão me engoliu.
Campainha.
Margaret abria a porta com a calma de quem esperava um entregador, não um pesadelo. Só que o sorriso dela sumia na hora. O rosto dela se transformava em puro terror. Ela recuava, correndo para a cozinha, esbarrando em tudo, tentando pegar uma faca.
Mas não dava tempo.
Um golpe seco. Nuca. Margaret caía. Os olhos dela subiam, e eu via. Vi o rosto do agressor refletido ali, embaçado, mas nítido o suficiente: homem alto, capuz, e uma tatuagem de foice na mão direita.
Fim.
Acordei com o coração aos pulos. Virei direto pra janela, puxei a cortina.
A porta da casa da Margaret estava entreaberta.
Merda.
Não pensei. Só agi.
Disquei o número da emergência.
— Emergência, qual a ocorrência?
— Acho que um homem invadiu a casa da minha vizinha. Rua Perks, número 1008.
— Você viu o suspeito?
— Alto. Capuz escuro. Acho que era branco. Tinha uma tatuagem de foice na mão direita.
— Você está em segurança?
— Minha casa está trancada, sim.
— Qual o nome da sua vizinha?
— Margaret Olliver.
Pausa.
— A polícia já chegou. Obrigada.
— Antes de desligar, qual o seu nome?
Demorei um segundo. Burra ou cuidadosa? Ainda não decidi.
— Nadine. Moro no 1010.
Desliguei e continuei vigiando pela fresta da cortina. Policiais armados entrando.
Parâmetros chegando logo depois. Até aí, o de sempre.
O que não era de sempre?
Margaret sendo levada viva.
Viva.
O assassino fugiu, mas ela... sobreviveu. Pela primeira vez em sei lá quanto tempo, minha visão falhou.
Aquilo nunca acontecia. Nunca.
Antes que eu pudesse organizar os pensamentos ou surtos internos, ouvi batidas fortes na minha porta.
— Senhora Swan? Polícia. Gostaríamos de fazer algumas perguntas.
Inspirei. Expirei. Fiz cara de “sou apenas uma cidadã preocupada” e abri.
Um homem grisalho e cansado me examinava com o tipo de olhar que já viu muita merda. Ao lado, uma mulher mais jovem, eficiente e provavelmente irritada por estar acordada a essa hora.
— Você fez a ligação para o 911?
— Fiz.
— Pode nos contar exatamente o que viu?
Eu já era experiente nisso. Dar informações sem revelar que sou uma aberração que vê a morte dos outros como trailers de terror ao vivo.
— Escutei um barulho no quintal. Fui até a janela e vi um homem na entrada da casa da Margaret. A varanda estava iluminada, deu pra ver a tatuagem na mão dele.
— Viu o rosto?
— Capuz cobria tudo.
— Algo mais?
— Alto. Branco, pelo tom da pele. Roupas escuras.
O grisalho trocou um olhar com a jovem. Aqueles olhares silenciosos de policial que não significam nada bom.
— Conhecia bem a sua vizinha?
— Nos cumprimentávamos, só isso.
— Sabia de algum inimigo? Briga recente?
— Não. Mas... se alguém invadiu a casa dela, então talvez agora ela tenha um.
A policial anotava tudo como quem escreve uma receita de bolo envenenado.
— Ele percebeu que estava sendo observado?
— Acho que não. Não olhou pra cá. Mas se assustou com as sirenes, provavelmente.
— Tatuagem era visível mesmo?
— Sim. Tatuagem de foice na mão direita. Eu prestei atenção.
— Visão boa — murmurou o grisalho, meio cético. — Da sua janela até a varanda da vizinha?
Cruzei os braços. Lá vem.
— Tem algo a dizer?
— Só um comentário.
Mas o olhar dele pro parceiro dizia outra coisa.
— Como a Margaret está?
— Viva. Estado crítico. Queremos dar uma olhada no seu quintal. Pode nos acompanhar?
Assenti. Levei-os pelos fundos. Eles fingiram procurar pistas enquanto eu fingia ter dormido bem.
— Descobriu o que fez o barulho?
— Deve ter sido um gato. Ou um esquilo. Ou um psicopata de capuz, mas acho que já cobrimos isso.
— Sua ligação salvou sua amiga.
— Vizinha. Só vizinha.
— Com o que você trabalha, senhorita Swan?
— Editora. Leio manuscritos.
— Qual editora?
— Prado.
Pausa. Mais olhares.
— Bom. Por enquanto é só. Mas se lembrar de mais alguma coisa...
Assenti. Fechei a porta. E travei todas as trancas como se o assassino estivesse ali, esperando só um cochilo meu.
Mas o pior veio depois.
A curiosidade. A culpa. A necessidade estúpida de ver com os próprios olhos.
Esperei a polícia ir embora. Peguei a chave. Dirigi até o hospital como se fosse a coisa mais racional do mundo.
Na recepção, uma moça que parecia odiar estar viva me recebeu com o entusiasmo de um cacto.
— Gostaria de saber sobre a paciente Margaret Olliver.
— Parentesco?
— Nenhum. Vizinha. Fui eu quem chamou a polícia.
Ela não tirou os olhos do teclado.
— Informações só para familiares.
Claro.
Mas aí uma voz atrás de mim mudou tudo:
— Você que chamou a polícia?
Virei. Mulher de cabelo escuro, rosto preocupado.
— Sim.
— Está tudo bem, pode passar as informações pra ela — disse ela pra recepcionista.
— A senhora é...?
— Úrsula Pratz. Irmã da Margaret.
Ah. Então era assim que se ganhava acesso VIP.
A recepcionista finalmente colaborou.
— Margaret está estável, mas em estado crítico. Ainda não acordou.
Alívio. Mas não paz.
Úrsula me puxou para o lado, e fomos para um corredor com cadeiras vazias. Conversa de gente que quer falar sem eco.
— Você viu quem fez isso?
— Não exatamente. Mas vi o suficiente pra chamar a polícia.
— O suficiente?
— Tatuagem. Foice na mão direita. Capuz. Alto.
Ela assentiu, séria.
— Margaret comentou que esperava alguém hoje. Você sabe de algo?
— Não. A gente quase não se falava.
— Ela não tinha inimigos. Nunca se meteu em problema.
Engoli a resposta de que problema, às vezes, bate na sua porta sem convite.
— A polícia vai querer falar com você de novo. Se lembrar de algo, me avise.
Ela me entregou um cartão com número rabiscado. Peguei e guardei.
— E, Nadine?
— Sim?
— Se esse cara souber que você viu algo... tenha cuidado.
Mais um motivo pra dormir com o taser carregado debaixo do travesseiro.
Passei a noite revirando a cena na mente. Como? Por quê? Todas as outras visões foram imutáveis. Como essa mudou? Será que mudei o destino? Será que só adiei?
E o mais estranho de tudo: por que me envolvi? Quantas vezes assisti a mortes sem mover um músculo? Por que agora foi diferente?
Não sei.
Mas uma coisa é certa:
A visão falhou.
E isso muda tudo.
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