A Morte Me Dá Spoilers
2 Capítulo 1: Um dia como qualquer outro
Eu só queria um café.
Nada mais. Nada menos. Um café preto, sem açúcar, quente o suficiente para me lembrar que ainda estou viva, mas sem me queimar ao ponto de estragar meu dia. Pequenos prazeres, sabe? É tudo o que me resta quando se vive a vida evitando conexões humanas.
Mas, claro, o universo tem um senso de humor peculiar.
Eu vi o cara atravessando a rua e soube na hora. Nem precisei do flash, da prévia cinematográfica que minha mente insiste em me oferecer como um trailer gratuito de tragédias diárias. Era algo no jeito como ele andava, meio distraído, os olhos no celular, os fones de ouvido isolando o mundo. O tipo de pessoa que confia demais na cidade e de menos na própria sorte.
O flash veio logo depois.
O sinal estava vermelho para os carros, mas um ciclista, com toda a arrogância de quem acha que está acima das leis de trânsito, avançou pelo cruzamento. Até aí, normal. Mas ele não estava sozinho. Uma mulher corria apressada atrás dele, distraída, tentando pegar um ônibus que já dava sinais de que não esperaria ninguém. Ela tropeçou no meio-fio.
A bolsa dela voou para frente, atingindo um motoboy que vinha na mesma direção. O motoboy perdeu o equilíbrio e tombou a moto para o lado, derrapando. Foi o suficiente para que um carro que vinha atrás não conseguisse frear a tempo.
E adivinha quem estava na trajetória?
O cara do celular.
O corpo dele voou como um boneco de pano atingido por uma marreta. A ironia? No exato momento em que ele foi atingido, o celular escapou de sua mão, girando no ar em câmera lenta, exibindo a notificação de um novo e-mail. A tela se iluminou bem no segundo em que ele deu seu último suspiro.
O motorista do carro saiu, desesperado. A mulher da bolsa gritava. O ciclista? Sumiu, provavelmente pedalando rápido demais para olhar para trás. Eu? Peguei meu café e fui embora.
Eu já vi essa cena vezes demais. Já vi rostos virarem estátuas de espanto, já ouvi gritos ecoando no ar como um disco arranhado. Já vi o sangue pintar o asfalto e as sirenes chegarem tarde demais. Nada disso é novidade.
O que me incomoda é a monotonia do inevitável. E o fato de que, apesar de tudo, o café ainda estava frio.
Saí o mais rápido que pude da cena, pois sabia que logo se encheria de curiosos. Sempre há aqueles que apreciam tragédias como se fossem quadros em um museu, observando o sangue como se fosse tinta e o caos como se fosse arte.
Nunca consegui entender esse fascínio pela morbidez humana. Seria o choque de lembrar que a vida pode acabar a qualquer momento? O diferencial do dia? Um lembrete incômodo de sua própria mortalidade? Seja qual for o motivo, para mim, não há graça em ver um acidente duas vezes: antes e durante. Normalmente, quando tenho as visões, já tento sair do lugar e só escuto os estrondos atrás de mim, os gritos por socorro. Hoje, não consegui prever com tanta antecedência e só me restou assistir ao acidente duas vezes.
Sempre que vejo uma morte idiota assim, penso: custava esperar alguns segundos? Mas o ser humano tem pressa até para se matar sem querer.
Com o tempo, percebi que a morte se resume a quatro tipos: por estupidez alheia, por estupidez própria, por acidente inevitável e no seu devido tempo. E, sem surpresa, as duas primeiras são disparadas as mais comuns.
No começo, isso me causava raiva, uma sensação de que algo precisava ser feito, mas no fim percebi que as pessoas são egoístas demais para enxergar o "efeito borboleta" por trás de suas decisões merdas.
Caminhei em direção ao escritório com passos medidos, evitando calçadas esburacadas e desviando instintivamente de qualquer situação que parecesse remotamente suspeita. O truque era simples: observar.
O homem que caminhava olhando para cima, distraído com um outdoor? Potencial risco.
A senhora que apertava a bolsa contra o peito enquanto atravessava a rua sem olhar para os lados? Possível vítima.
O jovem encostado no poste, mexendo no celular e ignorando o mundo? Futuro acidente ambulante.
Eu via padrões, e padrões levavam a previsões.
Foi por isso que, ao dobrar a esquina, meu corpo se enrijeceu antes mesmo de a visão vir.
Um trabalhador limpava as janelas de um prédio comercial. O andaime balançava de leve, como se o vento estivesse testando sua paciência. Lá de cima, ele assobiava, confiante, preso apenas por um cinto de segurança que já deveria ter se aposentado há uns bons anos.
E então, veio o flash.
O assobio parou.
O cabo de sustentação, que já estava desgastado pelo tempo e pela negligência, cedeu num estalo seco. O trabalhador teve uma fração de segundo para entender o que estava acontecendo antes de despencar.
Mas a vida gosta de ironias.
Ele não caiu de imediato. O cinto de segurança – aquele mesmo que não parecia confiável – segurou por um instante, apenas o suficiente para dar esperança antes de soltar de vez.
O impacto contra a marquise do prédio abaixo foi rápido, violento, e lançou o corpo como um boneco desgovernado. Ele quicou, sim, quicou, antes de aterrissar bem no meio de um carrinho de cachorro-quente.
Salsichas voaram para todos os lados.
O vendedor gritou.
Os clientes ficaram paralisados entre o horror e a incredulidade.
E eu? Apenas continuei andando.
Passei ao lado da cena enquanto ouvia os primeiros murmúrios de pânico se espalharem pela calçada. Um celular já estava erguido, gravando. Sempre tem alguém que quer transformar tragédias em entretenimento instantâneo.
Eu só queria chegar no trabalho sem assistir mais um espetáculo da estupidez humana.
Mas essa cidade nunca colabora.
Cheguei à entrada do prédio onde trabalho e, como sempre, minha primeira ação foi olhar para os lados. Nunca se sabe quando um desavisado pode tropeçar, esbarrar ou simplesmente decidir que aquele era um bom dia para ser um risco ambulante.
Foi aí que os vi.
Um casal discutindo na calçada, bem na entrada do edifício. O tipo de briga que começa baixa, mas vai escalando até se tornar um espetáculo gratuito para quem passa. Ela gesticulava demais, os olhos fervendo de indignação. Ele revirava as mãos no ar, tentando se explicar.
Não era da minha conta.
Mas, antes que eu pudesse entrar, o flash veio.
Vi a cena se desenrolar antes mesmo de acontecer. Como um déjà vu ao contrário.
A mulher, irritada, jogaria os braços para o alto em frustração. Nessa exata hora, um ciclista passaria rápido demais e se assustaria com o movimento repentino. Ele puxaria o guidão para o lado, tentando desviar, mas perderia o controle e bateria direto no poste de luz. O impacto soltaria uma placa de metal mal parafusada que estava presa no topo do poste.
A placa não cairia de imediato. Primeiro, ficaria pendurada por um fio, balançando de um lado para o outro como uma guilhotina improvisada. Mas, em segundos, a gravidade tomaria sua decisão.
E bem debaixo dela, ainda discutindo, estaria o casal.
Piscando os olhos, voltei ao presente. Eles ainda estavam discutindo, alheios ao que estava prestes a acontecer.
Eu poderia alertá-los. Poderia interromper a briga e dizer que aquele não era o melhor lugar para se esgoelarem um com o outro.
Mas sabia como isso terminaria.
Já tentei avisar antes. As pessoas não ouvem.
Então, suspirei, desviei do casal e entrei no prédio.
Atrás de mim, ouvi o som do ciclista freando bruscamente, um grito surpreso e, logo em seguida, um estrondo metálico.
Não precisei olhar para saber o que aconteceu.
Você deve se perguntar como estou me sentindo nesse momento. Deve pensar que estou em pânico, assustada, certo?
Não.
Estou adormecida. Não no sentido literal, claro. Meu corpo está desperto, minha mente funcionando, mas a sensação que me percorre é de um torpor silencioso, uma espécie de anestesia que só vem com a repetição.
Estou repassando mentalmente minha lista de afazeres. Preciso terminar aquele relatório, responder e-mails, lidar com o chefe que acha que tudo é urgente, mas nunca sabe exatamente o quê. Pequenas burocracias do cotidiano que, de alguma forma, continuam existindo mesmo quando corpos caem do céu e o destino se desenrola em uma sequência de eventos previsíveis.
E, ao mesmo tempo, penso em como todos os eventos de hoje poderiam ter sido diferentes. Como um homem não precisaria ter sido atropelado se tivesse prestado mais atenção. Como um ciclista não teria derrubado uma placa se não estivesse voando pelas ruas como se fosse dono delas. Como um casal poderia ter discutido em qualquer outro lugar que não debaixo de um pedaço de metal suspenso por um parafuso velho.
Mas as pessoas são assim. Absorvidas nelas mesmas. Presas em seus pequenos mundos, suas urgências fabricadas, suas certezas de que são protagonistas de uma história que, no fim, pode terminar em uma fração de segundo.
E eu?
Eu apenas continuo. Porque, no fim das contas, a vida sempre segue em frente. Mesmo quando termina para alguns.
No meu dia a dia, há só um tipo de morte que tento ainda intervir: o suicídio. Já flertei com ele tantas vezes que entendo o que leva uma pessoa a decidir isso. Alguns eu consegui evitar, outros não. Alguns eu evitei para, em questão de minutos, assistir à pessoa sofrer um acidente fatal por culpa alheia. A morte tem muitos mistérios.
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