A Morte Me Dá Spoilers
1 Prólogo
"Eu vejo gente morta."
Sim, eu sei, essa frase é um clichê do filme O Sexto Sentido, mas eu realmente vejo. Desde que nasci. E nunca soube o motivo. Na verdade, funciona mais ou menos assim: eu vejo como alguém vai morrer nos próximos minutos, e nada do que eu faça altera o destino dela.
No começo, achei que era loucura. Meus pais me levaram a médicos, terapeutas, padres, pastores, exorcistas e até a centros de macumba. Até que eu cansei e fingi que o "problema" estava resolvido — o que fez minha família inteira se converter ao candomblé. Os orixás que me perdoem, mas eu já estava de saco cheio de tudo aquilo. Hoje, eles vivem felizes achando que encontraram minha cura. Coitados. Esse segredo eu só conto no meu leito de morte. E olhe lá.
Quando se nasce com esse "dom", você tem duas opções: entrar em pânico e enlouquecer por completo ou levar tudo no deboche. No começo, fiz um esforço tremendo para salvar cada estranho que via prestes a morrer, mas não importava o que eu fizesse... Ele morria. E dependendo da minha interferência, a morte podia ser ainda mais dolorosa. Ou ridícula. Era como se a própria Morte risse da minha cara e falasse: "Ah, querida, tentou me impedir? Então agora eu vou caprichar!"
A pessoa que só ia tropeçar e bater a cabeça no degrau da escada? Acabava tendo uma morte no estilo Premonição — com uma estátua enfiada no cu, um olho saindo de órbita e caindo no café de alguém, e o pescoço quebrado num ângulo impossível. Você pode estar se perguntando: "Mas como isso é possível?"
Eu não faço a menor ideia. Quando percebo, a cena dantesca já está finalizada na minha frente.
Então, eu escolhi o deboche.
"Mas são seres humanos!"
E você tem razão. Mas depois de assistir incontáveis mortes das formas mais absurdas, começa a enxergar as pessoas como marionetes ou manequins. O que mais eu poderia fazer?
Antes que pergunte: sim, vi a morte dos meus pais antes de acontecer. Eu já tinha maturidade o suficiente, nos meus 19 anos, para entender que não adiantava tentar evitar. Só deixei acontecer. Eles morreram num acidente de carro. Eu estava com eles. Por um momento, achei que talvez estivesse vendo minha própria morte e me senti aliviada. Mas não. Acordei uma semana depois, no hospital, sozinha no mundo.
A partir daquele dia, estabeleci minha regra de ouro: não me apegar a ninguém. É fácil debochar quando é um completo estranho. Mas quando é sua única família... não tem graça nenhuma.
Hoje tenho 28 anos e vivo como nômade. Quando percebo que um vizinho está começando a gostar demais da minha presença, arrumo minhas coisas e sumo na calada da noite. Meu trabalho permite esse estilo de vida: sou leitora crítica de manuscritos. Basicamente, leio livros ruins e escolho os "menos piores" para os editores.
E acredite, isso destruiu meu prazer pela leitura. Agora, sou obrigada a ler mesmo quando o livro é uma fanfic de uma fanfic de uma fanfic de 365 Dias. Eu sei que conteúdo "maduro" está em alta, mas pelo amor de Deus, tudo tem limite. Achava que Crepúsculo seria o problema da literatura moderna, mas hoje considero uma obra-prima comparado ao que veio depois. Stephanie Meyer, querida, você escreve bem, só cria uns personagens um tanto quanto problemáticos... Mas pelo menos sua história tem começo, meio e fim.
Se você gosta desse tipo de livro, por favor, não me odeie. É só minha opinião.
Agora, deve estar se perguntando como vim parar nessa profissão. Se não está, deveria. E vai descobrir do mesmo jeito, dane-se.
Imagina crescer vendo todas as formas possíveis de morte: assassinatos, gente escorregando no banheiro e batendo a cabeça na pia, pessoas se enforcando com um varal (sim, bem no estilo Premonição — às vezes, acho que alguém com um dom parecido com o meu escreve aqueles roteiros). Com o tempo, você se torna expert em desvendar finais de histórias sobre assassinatos e mortes suspeitas. Poucos livros ainda conseguem me surpreender.
Junte isso ao fato de que, quando estou lendo, não preciso olhar para ninguém — ou seja, não vejo mortes. A escolha da profissão foi "natural". Candidatei-me para algumas dessas vagas de "leia livros e faça sua crítica", e um editor entrou em contato dizendo que adorou minha análise sobre uma morte idiota e previsível num livro de mistério. Fui contratada no dia seguinte. Isso já faz oito anos.
No começo, só lia suspenses e mistérios. Agora, leio de tudo. Para minha infelicidade. Com raras alegrias no meio do caminho.
E um dia pensei: "Por que não escrever sobre isso?"
Fale com o autor