A Morte Me Dá Spoilers
9 Capítulo 8: Jogando dados com a Morte
Se alguém visse nossa entrada naquele prédio, talvez pensasse: “uau, três mulheres determinadas, confiantes, prontas pra dominar o mundo”. Mas só quem subiu os dez andares de escada com a gente saberia que era pura teimosia, cafeína e desespero disfarçado de dignidade.
O elevador estava quebrado. Claro que estava.
Sally vinha na frente, carregando o peso da ressaca e o traseiro num jeans que não foi feito pra conter tanto entusiasmo corporal. A calça subia demais, a blusa descia de menos, e o coque torto balançava como se pedisse socorro. O som da sua respiração ofegante, misturado a murmúrios de “nunca mais bebo”, preenchia a escada de concreto. A cada andar, ela parecia menos uma mulher e mais um zumbi funcional com sede de café.
— Isso aqui devia ser ilegal, Nadine — ela bufou no sexto andar. — Um prédio de dez andares e o elevador quebra justo hoje?
— Hoje quando você tá de ressaca, né? O universo tem um senso de humor todo especial.
— E cruel — completou Rachel, atrás de nós, impassível, sem uma gota de suor fora do lugar.
Enquanto Sally parecia ter sido atropelada por um caminhão de tequila e arrependimento, Rachel surgia como se tivesse sido teletransportada direto de uma revista de moda executiva. Saia lápis, salto fino, blazer alinhado, cabelo preso com precisão cirúrgica. A mulher subia os dez andares como quem atravessa um tapete vermelho. O perfume dela, aliás, era a única coisa no ar que não cheirava a sofrimento.
E eu? Bem, eu tinha conseguido a proeza de vestir o único pedaço de pano do guarda-roupa da Rachel que não me transformava num experimento bizarro de spandex e rendas desconfortáveis: um vestido largo, florido e esvoaçante que parecia feito por alguém que vende miçangas na praia e vive à base de incenso e sonhos. Eu era praticamente a personificação do “foi o que deu pra hoje”.
Quando finalmente chegamos ao andar do escritório, Sally abriu a porta com a dignidade de quem acabou de cruzar o deserto. E lá estava ele.
Um homem alto, fardado, encostado casualmente na parede do corredor. Uniforme dos bombeiros, expressão tranquila, e o tipo de olhar que já viu de tudo — inclusive gente que quase virou churrasco por motivos inexplicáveis.
— Sally Raynor? — ele perguntou, com aquele tom que é metade formalidade, metade “eu sei o que você fez no verão passado”.
Sally parou. Arfou. Encarou o homem como quem considera seriamente se pode fingir ser outra pessoa.
— Depende. É multa, bronca ou pedido de casamento?
— Capitão Dantas, dos Bombeiros — ele respondeu, sem perder o humor. — Estava esperando você. Sobre o incidente da sua casa hoje cedo.
— Incidente? — ela piscou, confusa.
— A quase explosão, na verdade. Teve um vazamento de gás. Alguém ligou anonimamente e nos avisou. Chegamos a tempo. Mais cinco minutos e seu sofá teria ido parar na lua.
Sally engoliu seco, o rosto desabando num misto de alívio e incredulidade.
— Meu Deus…
— Ah, e um detalhe curioso — ele sorriu, entregando um papel com informações do laudo. — Nunca vi tanto crochê reunido num lugar só. Sua casa parece um santuário artesanal. Aquilo é altamente inflamável, você sabe, né?
— Crochê não mata ninguém. Só aquece corações.
— E se bobear, apartamentos inteiros — ele completou, rindo.
Rachel já tinha passado reto por eles e empurrava a porta do escritório com a tranquilidade de quem nunca teve sua vida salva por um telefonema misterioso antes do café da manhã.
— Vamos, antes que a Sally descubra que a única coisa que sobrevive a uma explosão é a vergonha.
Sally ainda resmungou alguma coisa sobre “salvar minha bunda é obrigação cívica”, mas seguiu atrás, exausta, grata e furiosa na mesma medida. Eu fui logo depois, ajeitando o vestido que parecia estar tentando se transformar num paraquedas a cada brisa.
Começava mais um dia no escritório. Com drama, escadas, ressaca e mistério. Ou seja, absolutamente normal.
Sally jogou a bolsa com a delicadeza de um meteoro na cadeira ao meu lado e se afundou na poltrona como se os últimos dez andares tivessem sido escalados de joelhos. O coque já estava pendendo pra esquerda, os olhos semicerrados, mas ainda assim ela sorriu pra mim. Aquele sorriso bobo e sincero que só quem vive de coração aberto consegue dar.
— Nadine... coincidência é uma coisa esquisita, né?
— Já sei onde isso vai dar — falei, cruzando os braços com um meio sorriso.
— Pensa bem! Um dia você me salva do salto assassino na escada, lembra?
— Como esquecer? Você quase morreu com glamour.
— E no outro dia... você aparece na frente da minha casa de pijama, pronta pra uma festa surpresa, justo no dia que meu lar quase vira uma grelha viva. — Ela se endireitou um pouco e apontou o dedo pra mim. — Você só pode ter superpoderes. Tipo... premonição da moda ou radar anti-catástrofe.
Ela riu sozinha, daquele jeito alto e desajeitado que fazia eco no andar, e eu ri junto, porque era impossível não rir com a Sally.
O mundo precisava de mais pessoas como ela. Inocentes, honestas, que falam o que pensam, que acham que uma coincidência é coisa mágica e que se emocionam com um bilhete de agradecimento. Gente que ainda acredita que os outros são bons até que provem o contrário. Gente que se entrega sem reservas — mesmo depois de uma noite mal dormida, uma quase explosão e uma escada interminável.
Cá entre nós… você sabia que a Sally conseguiu o número do capitão dos bombeiros?
Rachel passou por nós nessa hora com uma prancheta na mão e um olhar de quem já estava no terceiro planejamento estratégico do dia.
— Isso aqui é um escritório ou um episódio de comédia romântica?
— Depende, tem café? — perguntei.
— Só se você mesma fizer — ela respondeu, sumindo na sala ao lado.
Sally suspirou.
— Bom, pelo menos hoje não começou tão ruim. Ainda tenho meu bumbum, minha casa quase inteira... e talvez um bombeiro na agenda.
Sorri de novo, dessa vez sozinha. O dia mal tinha começado, e a vida já me lembrava por que eu gostava tanto dessas duas.
Depois que Rachel desapareceu com a prancheta e Sally afundou no sofá como uma vítima de guerra mal-humorada, eu fiquei ali. De pé. Sem fazer nada específico. Só existindo. Às vezes eu faço isso. Fico em silêncio pra ver se o mundo volta ao lugar sozinho.
Olhei ao redor do nosso escritório — as plantas da Rachel alinhadas em potes de vidro reciclado (com etiquetas em latim, claro), a caneca da Sally que dizia “vivo de café e decisões ruins” largada perto da cafeteira, e a minha cadeira... com o encosto torto porque eu nunca tive paciência de trocar.
A gente começou tudo isso com tanto planejamento e expectativa. Um espaço próprio, longe de chefes babacas, reuniões eternas e política de vestiário. Um lugar nosso. Mas agora... parece que estamos sempre lidando com ressaca, gás vazando, cadáveres, e a possibilidade constante de morrer de formas estúpidas e nada heróicas.
Sally quase morreu duas vezes, ou era muita falta de sorte ou muita falta de atenção, mas pelo menos nessa segunda vez ela ganhou um telefone de um bombeiro gatíssimo. Alguém saiu ganhando.
Mas durante o dia todo fiquei pensando em quanta coisa havia mudado em tão pouco tempo. Até uns dois meses atrás eu apenas assistia as mortes e pronto. A mudança veio quando liguei para salvar a Margaret, que por sinal já está muito bem e terá alta em breve, segundo a irmã dela que me liga regularmente para me agradecer.
Não entendo o que mudou. Será que as outras interferências não foram bem-feitas? Será que aquelas mortes estavam seladas? Ou será que a morte resolveu tirar férias e deixar uma pessoa completamente desequilibrada como eu no lugar... Acho essa a menos plausível. A morte pode ser tudo, menos burra.
Eu não conseguia encontrar uma conexão entre os eventos. Em algum momento larguei os obituários porque estavam dando em nada e eu já me sentia como quem tinha comprado passagem pro inferno de tanto rir das mortes bizarras.
Eu podia fazer algo. Eu salvei pessoas importantes pra mim. Mas qual seria o custo disso? Não saber ainda me preocupava, especialmente agora que a morte foi pela segunda vez atrás da Sally. Seria azar ou acerto de contas?
Eu não tinha como saber sobre a menina do balão, nem a mulher reclamona do sinal... a próxima pessoa que poderia sofrer com um acerto de contas seria a Rachel, então resolvi mantê-la em mente para procurar por algo que indicasse perigo.
Assim foi. Durante dias, nada fora do normal. Eu focava na Rachel, mas deixava meus pensamentos vagarem caso outra pessoa precisasse. Apenas aqueles pensamentos intrusivos, nada muito relevante.
Mesmo assim, eu continuei. Acordando, observando, esperando. Com o radar ligado, os olhos treinados pra captar o indício mais bobo de perigo, e o coração — bem, o coração tentando não se adiantar.
Talvez nada aconteça. Talvez tudo aconteça de uma vez. Mas se tem uma coisa que aprendi nos últimos dois meses é que, quando a morte não aparece, não é porque foi embora.
Era uma da manhã quando acordei de um sonho com uma sensação diferente. Me levantei para pegar água, mas quando abri a porta, não era a minha casa. Era a da Rachel. Ela entrava com um cara desconhecido, quando olhei o relógio dela eram duas da manhã. Eles estavam se beijando, e do nada ele a jogava no chão com força e ia para cima dela enforcando-a, enquanto os braços e pernas dela se debatiam. Olhei a data no calendário: era amanhã.
Acordei assustada, coração acelerado e uma visão turva que parecia ainda tentar se acostumar com a mudança de ambientes. Confirmei o dia no calendário. Seria na madrugada de amanhã. Ela estava a salvo essa noite.
Assim que cheguei no escritório pela manhã, fui direto falar com ela. Minha cara de emergência fez ela dispensar o pessoal do jurídico e do RH que estavam em reunião com ela rapidamente, enquanto eu aguardava do lado de fora.
— O que foi, Nadine?
— Você tem um encontro hoje? Moreno, alto, maxilar marcado e musculoso?
— Tenho. Por quê? — ela começava a sentar calmamente na cadeira, demonstrando um certo nervoso.
— Ele vai te enforcar até você morrer no meio da sua sala de estar.
Ela parou por um momento, ponderando sobre o que tinha acabado de ouvir.
— Que horas?
— Duas da manhã de hoje.
Ela parou pra pensar e de repente uma nova visão surgiu: ele invadia o apartamento dela e a matava dormindo.
— Você pensou em cancelar com ele? — Sim, como...?
— Ele já sabe onde você mora. Vai invadir seu apartamento e te matar.
— Você viu isso agora? — Sim.
— Ele vai te esperar aqui depois do trabalho.
Era a dinâmica mais esquisita que já tive em vida... ela pensava em mudar o caminho e as visões mudavam como um efeito borboleta ativado em tempo real.
— Espera, senta, tenho que pensar em algo para escapar e preciso que me diga se vai dar certo ou nao.
— Se eu for só jantar com ele e depois for embora sozinha...
-— Ele invade seu apartamento...
— Se eu colocar um laxante na bebida dele no jantar...
— Ele tem uma caganeira e dois dias depois invade seu apartamento.
— Se eu ficar na sua casa?
— Ele vai ficar esperando encontrar vc sozinha no escritório, como não vai conseguir, te segue até lá em casa e invade a casa e eu mato ele. — As palavras saíram tão rápidas da minha boca que nem chegaram a ser uma visão e sim um pensamento intrusivo.
Eu podia aceitar aquele destino, apesar de ser estranho eu ter que explicar duas vezes legítima defesa para os polícias. Eu já tinha meu taser de volta, mas pelo que vi, o canivete seria mais eficiente.
O que eu estou me tornando?
Uma assassina de possíveis assassinos??
— Acha que isso vai dar certo — Rachel me pergunta me tirando dos meus pensamentos
— Acho que é o melhor que temos. Desmarque com ele hoje e diga está gripada, vamos ao seu apartamento, pegamos uma mala de roupa, damos várias voltas pela cidade até ele se perder da gente e depois vamos para a minha casa.
— Está pensando tudo isso agora?
— Estanho, não é? Ele vai nos perder de vista no trânsito da quarta com a sexta avenida. Um táxi vai fechar ele, mas pra isso precisamos sair antes das 19h do seu apartamento. – Eu falei isso como se recitasse um poema, algo decorado. — Em três dias ele vai descobrir que você está lá em casa. Até eu procuro enxergar melhor o que fazer.
— Vai colocar a sua vida em risco? Por quê?
— Porque é uma merda só ver pessoas morrerem o tempo todo. Agora que posso mudar as coisas, é minha obrigação tentar...Você não entenderia, eu passei a vida toda vendo catástrofes e morte horríveis e muito injustas. Eu vi a morte dos meus pais e não pude fazer nada.
Respirei fundo porque era a primeira vez que falava sobre isso.
— Eu preciso fazer algo, do contrário para que continuar vivendo assistindo mortes em todos os lugares. Esse escritório é o mais próximo de uma família para mim. Eu preciso tentar, pelo menos isso. Tentando, espero que me traga alguma paz. E eu não fique no eterno: "E se...". Eu vivo essa "e se" a tanto tempo que não percebi o quão morta eu estava até de fato consegui mudar as regras do jogo. Me deixe tentar, eu sei que se trata da sua vida. Mas eu sou sua melhor opção.
Ela concorda, com uns olhos marejados
— Eu aceito, mas como uma condição? — Faço sinal para ela falar — Que você aceite sem se culpar caso não der certo e se precisar, corra. Essa morte é minha e não quero que se condene junto comigo.
Acenei concordando, mesmo sabendo que provavelmente faria o oposto do que havia combinado.
— Eu durmo com você hoje. Só por precaução. Sem piadas, ok?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Decepcionante. Achei que esse fosse o momento do “tensão sexual não resolvida”.
— Rachel, eu te vi ser assassinada em HD. Acho que a tensão ficou com trauma.
— Justo.
Ela se levantou, ajeitando o blazer como se estivesse se preparando pra uma guerra. E, de certa forma, estava mesmo. Uma guerra contra um encontro que virou tentativa de homicídio e contra um destino que insiste em se meter onde não é chamado.
— Obrigada, Nadine.
Foi só isso. Mas vindo da Rachel, que agradece menos do que admite erros de gramática, aquilo significava muito.
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