A Morte Me Dá Spoilers
10 Capítulo 9: Como enganar um psicopata
— Vamos no seu carro, Rachel — eu disse, já começando a andar. Mas ela não se moveu.
— Ele conhece meu carro.
— Eu sei disso. O estacionamento do DownTown tem duas entradas. Entramos pela Quarta Avenida, deixamos seu carro estacionado lá e saímos pela entrada da Avenida Sete. Pegamos um táxi ou Uber e vamos para minha casa. Quando chegarmos lá, a gente se ajeita, checa duplamente as portas. Você dorme no meu quarto, e eu fico na sala. Amanhã voltamos para o trabalho de Uber e voltamos de ônibus, fazendo baldeação com o metrô. Assim é mais fácil dele nos perder. No segundo dia, vamos de ônibus até o centro e lá pegamos outro Uber ou táxi.
Ela me olhava como se eu estivesse recitando física quântica.
— Você não está entendendo o porquê de tudo isso, né?
— Não, não mesmo.
— Meu plano A é fazê-lo desistir pelo cansaço. Mas se eventualmente ele acabar nos encontrando, então é azar o dele. Na melhor das hipóteses, é um taser. Na pior... é na faca mesmo.
Rachel hesitou. Ainda parecia assustada, mas havia algo nos olhos dela — talvez confiança, talvez apenas um cansaço profundo demais pra discutir comigo. Entramos no DownTown pela Quarta Avenida. Estava mais vazio do que o normal, o que ajudava. Estacionamos em uma vaga perto da saída que eu queria, tiramos nossas coisas do carro e seguimos a pé até a Avenida Sete.
Lá, pedi um táxi pelo aplicativo. Ficar na rua esperando não era ideal, mas também não era a primeira vez que eu fazia esse tipo de coisa. Quando o carro parou, conferi a placa, entrei no banco da frente e apontei para Rachel entrar atrás.
— Rua Perk, número 1010 — disse ao motorista. — Pode ir pela lateral do parque, mas sem atalhos. E sem conversinha.
Ele olhou pelo retrovisor com aquela típica expressão de quem vai perguntar alguma coisa... mas pensou duas vezes. Boa escolha.
Rachel olhava pela janela, em silêncio, mas eu sabia que ela estava absorvendo tudo. O plano, a tensão, a ideia de que talvez não dormisse direito por um bom tempo. Quando o carro dobrou a última esquina, suspirei. A casa surgiu no fim da rua: pequena, térrea, discreta. Nada de câmeras, cercas ou sensores. Era minha, por dentro e por fora. E segura do meu jeito.
— É aqui — falei, quando o táxi parou em frente ao portão.
Paguei a corrida e saí primeiro. Rachel hesitou mais uma vez antes de descer. Olhou ao redor como se esperasse ver alguém nos observando. E talvez visse. Mas eu já estava destrancando o portão.
— Confia — falei, jogando a cabeça na direção da entrada.
Ela assentiu, finalmente me seguindo
A casa estava do mesmo jeito que eu tinha deixado. Isso podia ser bom ou muito ruim.
Destranquei a porta da frente com a chave escondida na barra do vaso rachado — ninguém suspeita de um vaso feio. Rachel entrou atrás de mim, ainda com os ombros tensos. Eu fechei e travei a porta com as duas trancas, depois acionei a tranca extra de correr. A luz da sala estava apagada, então acendi a do corredor.
— Bem-vinda ao bunker de uma mulher cansada — falei, jogando minha mochila no sofá.
A casa era simples, com móveis meio velhos e decoração meio nenhuma. Uma estante lotada de livros, outra cheia de bugigangas inúteis que eu me recuso a jogar fora. Cozinha integrada, um corredor que levava ao banheiro e aos dois quartos — um usado, o outro acumulando coisas que talvez um dia sirvam pra alguma coisa (mas provavelmente não vão).
— Pode deixar suas coisas no meu quarto. Segunda porta à direita. O banheiro é o da esquerda. Se quiser tomar banho, tá liberado. Só não demora, porque se tiver alguém observando, é no banho que aparece a cena de susto. Estatística básica.
Rachel não riu. Nem moveu um músculo. Só andou até o quarto em silêncio, carregando a mochila como se fosse uma bomba prestes a explodir.
Enquanto ela se ajeitava, fui até a cozinha, coloquei água pra ferver e comecei a preparar dois chás. Sim, chá. Porque se eu for morrer essa noite, que pelo menos seja com dignidade digestiva.
Verifiquei todas as janelas. Fechadas. As cortinas também. Luzes da frente apagadas, só a da cozinha acesa. Quando Rachel voltou, já de pijama, cabelo preso num coque desleixado e cara de quem perdeu a alma no meio do caminho, eu já estava com a caneca na mão.
— Camomila. Sem açúcar. A outra opção era valeriana, mas achei que isso já era agressão passiva demais.
Ela pegou a caneca e se sentou no sofá com um suspiro. Parecia finalmente entender que não era só uma visita, era uma tentativa de sobreviver com estilo.
— Eu ainda não sei se estou em choque ou só extremamente cansada — ela murmurou, soprando o chá.
— Os dois. Mas a boa notícia é que, depois de três noites assim, você para de sentir qualquer coisa. Vira um móvel. Uma planta. Uma almofada viva.
— Você é sempre assim?
— Não. Às vezes eu durmo oito horas e acordo otimista. Mas aí lembro do mundo.
Rachel sorriu. Só um pouco. Mas foi suficiente.
Depois disso, ela foi pro quarto. Disse que não ia conseguir dormir, mas em menos de vinte minutos ouvi a respiração dela mudar. Tinha caído no sono. Ou desmaiado. O que, francamente, era uma bênção.
Fiquei na sala, no escuro, sentada perto da janela. Taser carregado. Faca debaixo do sofá. Celular no silencioso, mas com as notificações visuais ligadas. Do lado de fora, a rua estava calma. Nenhum carro estacionado. Nenhum vulto estranho.
Mas eu sabia que isso podia mudar a qualquer momento. E se mudasse... eu estaria esperando.
Seguimos como o combinado. Após descer do ônibus, fingimos pegar o metrô e saímos andando pela cidade, como duas figurantes paranoicas em um thriller ruim. E então, como se o universo tivesse um senso de ironia particularmente refinado, passamos em frente à conveniência onde a garota com os balões tinha saído correndo. Meus passos pararam por reflexo. Algo no vidro da loja chamou minha atenção.
Um cartaz.
Reconheci o rosto imediatamente. Era ela. A menininha que me chamou de cachinhos. A terceira pessoa que eu salvei.
A foto estava impressa num cartaz de desaparecida. E a data era anterior ao tal vazamento de gás da casa da Sally. Um frio percorreu minha espinha como se alguém tivesse jogado um balde de gelo direto nos meus ossos.
— Rachel, entra comigo — falei, já puxando a porta.
Fui direto ao caixa.
— Alguma notícia da menina do cartaz?
A pergunta saiu seca, cortante. O homem atrás do balcão levantou os olhos, sem se incomodar com a falta de gentileza.
— Não. Pelo tempo que já passou, a polícia presume que ela esteja morta.
Soco. No. Estômago.
Mortinha. Enterrada. Esquecida.
Não fazia sentido. Eu a tinha salvado. Eu a vi correndo para a calçada, longe da rua, longe do carro. Ela ainda estava viva. Ela tinha que estar viva. Ela foi a terceira que eu tirei da linha de fogo… então por que agora ela era apenas um rosto numa folha A4 colada com fita adesiva?
— É difícil, né… ver uma criança tão cheia de vida acabar assim — o homem disse.
Mas eu já não ouvia. Minha cabeça estava em looping. Era só uma criança. Eu a salvei de um atropelamento. Para quê? Para entregá-la a um monstro? A que tipo de morte eu a condenei?
Se cada vez que eu interferisse no destino, alguém terminasse num fim pior… então a garota não deveria estar morta. Sally não deveria estar fazendo crochê infernal. Rachel...
Tem algo errado. Muito errado.
— Nadine, lamento pela menina…, mas precisamos ir — a voz da Rachel soou calma, mas com um peso que me obrigou a sair da loja. — Quer conversar?
— Ela foi a terceira pessoa que salvei. Primeiro a minha vizinha. Depois uma mulher no cruzamento, distraída com o celular. Aí veio ela — a menininha do cartaz. — Depois a Sally com o salto assassino. E você, com o assaltante que virou churrasco na cerca elétrica.
— Você não acha que o sequestro dela é sua culpa, né?
— Por que não seria? Salvei a Sally do sapato mortal e ela quase foi cozida viva por crochê. Salvei você de um sniper sem pontaria e agora tem um stalker te seguindo. Se isso não é azar, é maldição.
— Isso é só… a vida acontecendo. E posso garantir por mim mesma: prefiro estar fugindo agora do que estar morta.
— Mas e se cada vida que eu salvo for só... uma extensão da sentença? Uma tortura mais longa?
— Nadine… você dá uma segunda chance. A vida continua, com ou sem você. Ainda somos mortais. Só que agora temos mais tempo pra fazer algo com isso. Mesmo que o plano de me manter viva dê errado, eu ganhei mais dias. Um happy hour com karaokê grotesco, uma noite das garotas que surgiu do nada — mas que me divertiu — e conheci alguém que de fato vê o futuro. E agora, olha só, tô me sentindo numa missão do James Bond, fugindo de um perseguidor. Minha vida era sem emoção, rígida, parecida com a sua. Mas com mais interação social — ela sorriu, e aquele sorriso tinha uma leveza irritante — Você me deu mais alguns dias de vida, Nadine. Isso é um privilégio.
Continuei andando, sem rumo, mesmo sabendo exatamente o caminho pra casa. Os pés sabiam. A cabeça, nem tanto.
Alguns dias. Como se fosse uma pechincha. Tipo: “Quer viver mais três dias ou prefere morrer agora com elegância?” Que tipo de superpoder era esse? Uma roleta russa moral? Um jogo de azar com figurantes?
Não sou heroína. Nunca quis ser. Mas agora tô atolada até o pescoço.
E no fundo, eu sabia que não ia conseguir ignorar o cartaz.
Eu ia procurar por ela.
Nem que fosse só pra ter certeza de que, ao salvá-la, eu não a condenei ao inferno.
No meio disso tudo — da tentativa de manter a Rachel viva por mais de quarenta e oito horas, do cartaz da menininha que agora provavelmente estava morta, do plano de fuga digno de filme de espião com orçamento baixo —, uma coisa me atravessou a mente feito estilhaço: a dupla do ônibus.
O motorista e a passageira. Os dois iam morrer baleados. Eu tinha visto. Na minha cabeça, o som do tiro ainda ecoava como um sininho sádico. E eu salvei os dois, fingindo um desmaio tão convincente que o próprio Oscar teria tossido de inveja.
Mas agora… onde estavam eles?
Eu não sabia os nomes. Nada além de um rosto fragmentado pela memória e uma rota de ônibus que muda de motorista como quem troca de meia. E mesmo que eu achasse a mulher — o que eu duvidava muito —, o que diria? “Oi, lembra de mim? Sou a do desmaio falso. Salvei sua vida e agora preciso saber se você não morreu de outra coisa idiota nos últimos dias.”
Ridículo.
O motorista, talvez. Esse era possível. Se eu insistisse na mesma linha, talvez ele reaparecesse. Eles têm revezamento, eu sabia. Podia perguntar por ele de forma casual, como quem ficou impressionada com a direção suave e quer elogiar. “O motorista era educado, dirigia com classe, como um bailarino no volante.” As pessoas reagem bem quando você finge que o mundo ainda tem gentileza.
E o técnico do elevador? Esse sim era alvo fácil. Bastava ligar para a equipe de manutenção e dizer que queria deixar um elogio — de novo com a performance da cidadã modelo. Me disseram uma vez que elogios são como ovnis: todo mundo ouve falar, mas ninguém nunca viu um de perto.
Margaret. Ela era o ponto estável em toda essa equação do caos. Ainda estava viva. Na casa da irmã. Se recuperando. Essa visita era certa. Era promessa. Talvez uma das poucas que eu conseguiria cumprir sem quebrar.
Mas e a mulher do cruzamento? Aquela lunática que atravessava a rua teclando como se não estivesse prestes a virar estatística de trânsito?
Como se acha uma pessoa dessas?
E mais importante… por que eu me importava?
A resposta era simples, mas dolorosa: eu tinha uma dívida com essas pessoas. Mesmo que elas nunca soubessem, mesmo que eu nunca as visse de novo. Era como carregar pequenas caixas de madeira dentro do peito, com o nome de cada uma gravado a ferro — ou o que eu achava que poderia ser o nome. Cada uma dessas caixas precisava ser aberta, checada. Precisava saber: estão vivas? Ou eu apenas dei a elas uma sobrevida antes da próxima tragédia?
Se cada ato de salvação fosse só um adiamento, será que valia a pena continuar?
Rachel tinha dito que sim. Que mesmo que tudo desse errado depois, aqueles momentos extras valiam algo. Ela falava como quem está tentando convencer os dois — a mim e a si mesma.
Talvez eu não consiga encontrá-los. Talvez nunca saiba se o motorista ainda dirige ou se a passageira chegou viva em casa. Talvez a mulher do cruzamento ainda atravesse olhando para o celular, esperando a próxima chance de morrer com estilo.
Mas eu ia tentar.
Primeiro, resolver o caso Rachel. Depois, Margaret. Depois o técnico, o motorista. As outras… bom, talvez o universo me devesse essa. Talvez uma coincidência me colocasse frente a frente com alguma delas.
Ou talvez não.
E eu só ficasse aqui, sentada nesse banco de praça disfarçado de roteiro mal escrito, tentando lidar com o fato de que prever a morte não é a mesma coisa que vencer ela.
É só adiar o inevitável. E torcer para que, no intervalo, a pessoa tenha tido ao menos um bom café.
Chegamos sãs e salvas no escritório. Sem perseguições, sem explosões, sem stalkers disfarçados de entregadores — um verdadeiro milagre moderno. Rachel me encarou com aquele olhar que já dizia tudo antes da boca abrir.
— Ainda tá pensando na menininha e nas outras pessoas?
— Esse vai ser meu novo karma. Troquei o karma da omissão pelo karma do “e se eu tiver condenado alguém a uma morte pior?”. Troféu evolução espiritual, versão trágica.
— Juro que assim que a gente resolver isso, vou me matricular numa aula de autodefesa, tirar porte de arma, nem que seja pra carregar um taser cor-de-rosa. Me recuso a ser tão vulnerável a ponto de te transformar na minha babá. A vida continua, Nadine.
— Bob, não esquente água no micro-ondas! Ela pode voar na sua cara quando você colocar o sachê de chá!
A frase escapou como um reflexo, sem freio, sem filtro. Eu nem tinha visto o Bob. Nem sabia que ele tava na copa. Mas gritei. Alto. Porque, no fundo, sabia que ele estava longe demais pra ouvir se eu falasse baixo.
E agora?
Rachel correu até a copa. Pra checar se ele tinha escutado. Ou se ia sair de lá com queimaduras de terceiro grau e um processo.
Ela voltou calma. Muito calma.
— A parte boa: ele escutou. E se afastou a tempo. A parte ruim: todo o escritório também escutou. Então... arranja uma desculpa. Agora — sussurrou.
Uma desculpa. Claro. Porque prever acidentes domésticos é só uma terça-feira comum na firma.
Ri. Ri daquele jeito forçado de quem tenta parecer no controle enquanto a mente roda igual processador velho.
Sally virou pra mim com os olhos brilhando de emoção mal interpretada.
— Eu disse que ela é uma super-heroína.
— Não exagera, Sally. Eu ouvi o barulho do micro-ondas. O único que não estava prestando atenção era o Bob, que insiste nesse péssimo hábito de fazer chá do jeito mais perigoso possível. Nada demais.
— Ele sempre faz isso — Rachel entrou no coro, como boa escudeira. — Isso precisa ser pauta no RH. Questão de segurança no trabalho.
Sally assentiu, séria. Pegou uma caneta. Anotou.
Ótimo. Além de prever mortes, agora eu também iniciava comitês de prevenção de acidentes com eletrodomésticos.
Passei o resto do dia com o rosto do gostosão psicopata desfilando na minha cabeça, como se fosse o protagonista de um comercial de perfume — versão serial killer. Tentei puxar alguma visão perdida, um pensamento intrusivo, uma piscadela do além… nada. Pensei no carro no estacionamento... zero. Imaginei o prédio, a rua ao redor, um raio-x mental do quarteirão inteiro. Nada.
Tentei forçar a barra: imaginei eu, Rachel e Sally saindo pra fazer compras no shopping. O máximo que vi foi a Sally discutindo com a atendente por causa de um cupom vencido.
Talvez comigo pensando não funcione. Precisava de um catalisador.
Bati na porta da Rachel.
— Pode entrar, Nadine. Quem? Onde? Quando? — perguntou virando a cadeira com uma eficiência olímpica, como quem tá pronta pra correr uma maratona com salto alto se eu dissesse “agora”.
— Ninguém — falei, e vi ela murchar de alívio. — Preciso que você se imagine em alguns lugares, ver se ele tá por perto.
— Ok... que tipo de lugares?
— Tipo: andando pelo bairro do escritório, indo ao estacionamento pegar o carro, saindo comigo e com a Sally pro shopping... cenas do cotidiano. Tá pronta?
— Sim. — Ela fechou os olhos, séria, concentrada. Tenho certeza que a primeira coisa que ela imaginou foi o estacionamento.
— Ele já localizou o carro — falei na mesma hora. — Tem alguma coisa esperando lá. Tá vindo um calor forte... provavelmente uma bomba. Consegue se imaginar apertando o botão pra destravar? E entrando?
BUMMMM.
— É. Tem uma bomba no seu carro. Onde, pelo amor de Deus, você conheceu esse psicopata?
— Encontro às cegas.
— Sério? Nunca te disseram que esse é o método mais eficiente pra ser assassinada?
— Não, essa parte ninguém mencionou.
— Ok. Seu carro morreu. Agora pensa no bairro, no prédio, na portaria, no elevador, no escritório.
Ela obedeceu. Eu vi. Ou melhor, senti. Ele ainda não tinha decidido o próximo passo. Podia tentar entrar como entregador, talvez mandar alguma encomenda, mas deixaria rastro... Tava indeciso. Parecia mais um daqueles assassinos que gostam de brincar com a comida antes de devorar.
Um jogo de detetive: "Quem matou foi o jardineiro, com o candelabro, na biblioteca..."
Meu cérebro já tava quase girando um tabuleiro imaginário.
Do outro lado da mesa, Rachel ria.
— Ih, fodeu. Ficou louca de vez. Tá rindo do quê, criatura?
— Tô impressionada. Seus poderes evoluíram e você nem percebeu. No começo, você disse que via as coisas pouco antes de acontecer. Agora você vê múltiplos cenários, dependendo da minha decisão... e da dele. E ainda prevê acidentes que nem envolvem morte.
Ela tinha razão. Antes, eu precisava estar perto. Agora, consigo prever coisas mesmo longe — como com a Sally.
Antes, eram só mortes. Agora são acidentes, detalhes do cotidiano.
Antes, era tudo em cima da hora. Agora, eu tenho tempo de agir.
Antes, era uma visão só. Agora, vejo variações conforme as pessoas mudam de ideia.
Eu tava deixando de ser um agouro ambulante da Morte pra me tornar uma vidente de verdade. Daquelas que não cobram R$ 30 o mapa astral no Instagram. E que não usam incenso de baunilha como ferramenta de trabalho.
Tava virando um oráculo. Meio surtado. Mas oráculo.
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