A Morte Me Dá Spoilers

6 Capítulo 5: Trabalhando sem receber para a Morte


Hoje seria o primeiro dia que testaria minhas regras. Precisava estar concentrada.

Saí de casa e fui para a parada de ônibus. Odiava andar de carro no horário do rush e, de carro, não dava para interferir em muita coisa…

Peguei meu ônibus usual, no mesmo horário, quase vazio. Adorava poder escolher o lugar. Escolhi sentar-me no fundo do ônibus — assim podia ver tudo o que ia acontecer. Boa parte dos rostos eu já conhecia. Pessoas que faziam a mesma rota todos os dias. Era quase um clube informal dos que não tinham escolha.

Então veio a visão.

Um cara de boné subia no ônibus e anunciava o assalto. Pedia os celulares, as bolsas, as mochilas. Ninguém reagia. E quando todos pensavam que tinham saído ilesos, ele sorria — daquele jeito despreocupado de quem já decidiu — e atirava. Primeiro no motorista. Depois numa passageira aleatória. Só porque podia.

Acordei com o estômago virado. O ônibus ainda não tinha parado. Olhei para o ponto seguinte. Era ali que ele entraria. Tinha dois minutos. Três, no máximo.

Levantei-me devagar, me apoiei no corrimão, e então... deixei o corpo cair. De propósito, claro. Fingi um desmaio daqueles dramáticos de novela mexicana. Com direito a olhos revirados e tudo. Funcionou.

— Moça? Moça, tá ouvindo? — alguém dizia. Ignorei. Era parte do teatro.

O motorista parou o ônibus. Chamaram a emergência. Cinco minutos depois, ambulância e viatura chegaram juntas. Me colocaram numa maca, me colocaram oxigênio, mediram meus sinais.

— Seus sinais estão bons — disse o paramédico, franzindo o cenho.

Claro que estão, eu só fingi passar mal, pensei. Mas sorri como uma boa paciente colaborativa.

Enquanto me retiravam do ônibus, reparei que um rapaz de boné, parado na calçada ao lado do ponto seguinte, observava o movimento. Assim que viu as viaturas, virou de costas e sumiu na esquina.

É. Funcionou.

Me deixaram no hospital por protocolo. Emergência lotada, cheiro de éter vencido e gritos abafados de dor. Fiquei no corredor por quase uma hora, deitada na maca, até que alguém finalmente me liberou com um “foi só uma queda de pressão”.

Levantei-me e fui embora. Peguei outro ônibus. Sem visões dessa vez.

Cheguei no trabalho com quase duas horas de atraso. A recepcionista me olhou como se eu tivesse cometido um crime.

— Passei mal no ônibus — falei, e antes que ela pudesse abrir a boca, completei: — Mas relaxa, não tô grávida. Só se for do Divino Espírito Santo.

Ela torceu o nariz. Claro. Para ela, eu era só mais uma funcionária irresponsável.

Mas tudo bem.

A mulher no banco do meio ainda estava viva.

O motorista também.

Mais um dia salvando desconhecidos…

E trabalhando sem receber para isso.

Passei a olhar o obituário dos jornais com uma certa frequência. Afinal, queria saber de alguma morte bizarra que pudesse ter tomado o lugar de alguém que eu salvei. Como saberia? Sei lá. Ainda sou um trabalho em andamento e estou começando a entender bem melhor o pensamento de Sócrates: "Só sei que nada sei." Genial para época... e oficialmente meu mantra a partir de hoje.

Eu olhei todos aqueles obituários e tentava separar quais eram improváveis e quais eu poderia ter causado de maneira não intencional salvando os outros... mas eram muitas variáveis para analisar.

Era como tentar resolver uma equação com mil incógnitas usando um lápis sem ponta e um bloquinho de recados com propaganda de pizzaria.

Eu precisava arranjar um método. Alguma forma de classificar, cruzar dados, rastrear as possibilidades…, Mas como?

Fazer um quadro com fotos e barbantes vermelhos?

Criar um algoritmo baseado em tragédias bizarras?

Me infiltrar no IML e perguntar “e aí, essa morte parece um acidente ou a Morte só estava de tédio hoje?”

No fim, só consegui fazer três categorias bem subjetivas:

"Essa morte é tão absurda que só pode ser real.""Claramente uma pegadinha do universo.""Ups… talvez isso tenha sido culpa minha."

Resolvi analisar cada morte e relembrar cada bizarrice que eu já tinha visto nas minhas visões antes de mudar as regras do jogo...

Um cara morrendo ao engolir uma abelha — era provável.

Já vi uma pessoa morrer por aspirar uma folha pequena enquanto fazia crossfit.

Isso era claramente uma pegadinha do universo: a pessoa tenta ser saudável e morre. (Se bem que... crossfit... é quase uma seleção natural, não?)

Teve também a influencer que caiu do alto de uma cachoeira tentando tirar uma selfie com o drone. Legenda da última foto postada: “A vida é feita de riscos 🌈✨”.

Eu com certeza comentaria: Seleção natural, com filtro de glitter.

Um senhor de idade morreu sufocado com a própria dentadura enquanto ria de um vídeo de gato tocando piano.

Improvável? Com certeza. Mas pelo menos morreu feliz. (E agora eu desconfio de todos os vídeos de animais talentosos.)

Uma mulher tropeçou na guia enquanto fugia de um pombo e caiu direto na frente de um caminhão de sorvete.

Ironia com gosto de baunilha.

E o melhor (ou pior?): um homem escorregou no banheiro, bateu a cabeça na pia e... o secador automático de mãos caiu em cima da cabeça dele.

Morto por tecnologia de banheiro público.

Essa eu não sei nem em qual categoria entra. Talvez na minha nova favorita: “Quando a vida quer te zoar até o fim.”

No fim do dia, fechei o jornal e respirei fundo.

Não adiantava me culpar por tudo. Mas também não dava pra fingir que minhas ações não tinham consequência.

Enquanto a humanidade morria de maneiras cada vez mais criativas, eu precisava encontrar um jeito de lidar com isso tudo.

Ou pelo menos não enlouquecer no processo.

Na última página, uma notinha no canto inferior me chamou atenção:

“Homem morre após ser atingido por pedaço de satélite desativado.”

A probabilidade disso acontecer era tipo... uma em um bilhão.

Mas alguém tinha que ser o escolhido, né?

Revirei os olhos e murmurei:

— Certo. A morte tá tão entediada que já tá pegando ideia dos filmes de Premonição.

Fechei o jornal, mas antes de largar, completei em voz baixa:

— E o mais assustador... é que ainda temos sete ganhadores que não foram resgatar o prêmio.

Amanhã era outro dia.

E provavelmente, outra bizarrice.


Sabe, pensando bem, eu tô começando a entender por que a Morte iria querer terceirizar o trabalho pra qualquer louco que aceitasse. Porque, veja bem, eu podia continuar só tendo minhas visões e acabar internada, falando com uma parede acolchoada… mas não. Parece que tô prestes a bater ponto oficialmente nesse emprego cósmico não-remunerado.

Vamos parar pra pensar um pouco: inventar formas de matar pessoas durante mais de três mil anos é MUITA coisa. Imagina a pressão criativa. No começo, guerras funcionavam bem. A humanidade se matava com lanças, espadas, e ideais duvidosos. Agora, não são tão eficazes assim… exceto quando se tem um povo genocida que já foi vítima de genocídio. (De quem será que estou falando, hein?)

Ou algum outro país que resolve enfrentar o único país que já venceu Napoleão e Hitler. De novo, quem será? Façam suas apostas. Tá virando bingo geopolítico da Morte.

A pandemia deu um up no processo, graças a alguns governos negacionistas que dizem ser de direita, mas parecem um tutorial de “como ferrar uma nação”. Podia ter sido pior? Claro. Mas não foi uma gripe espanhola (que, aliás, não surgiu na Espanha) nem uma peste negra — afinal, a humanidade evoluiu e parou de jogar cocô pela janela.

Ainda assim, deve ser um saco ficar bolando novas maneiras de controlar o crescimento populacional. Era mais fácil antigamente: um espirro e pronto, cem pessoas morriam. Uma guerra mal organizada e milhares morriam só de infecção. Aí vem a penicilina, as vacinas, a ONU* (asterisco porque só atua quando convém), e a Morte se viu precisando... inovar.

Voltamos aos tempos bíblicos: terremotos, furacões, maremotos. Só que agora temos prédio com sistema anti-sísmico, detector de tsunami, plano de evacuação. A humanidade avançou muito no conceito de “vamos povoar essa merda de planeta e sobreviver mesmo que ele tente nos expulsar”.

Mas talvez, só talvez, se a Morte tiver um pouco de paciência, esses últimos anos sejam o começo da nossa derrocada. Afinal, quem em sã consciência votaria no Trump? Ele com certeza consegue causar mais mortes e impacto global do que qualquer outro ser humano vivo — e olha que temos concorrentes de peso. O problema é que ele tem muito poder e é burro. Hitler, por pior que fosse (e era), era estrategista. Um nazista repulsivo, mas estrategista.

Já o Trump… bom, como minha mãe sempre dizia: "um burro com poder mata mais que cem generais sábios".

E quer saber? Acho que a Morte anda cansada. Tipo burnout espiritual. E sinceramente? Com razão. Porque no fim das contas, o ser humano se esforça tanto pra sobreviver… só pra, eventualmente, se matar de outras formas. A Morte podia estar de férias em algum lugar bonito — tipo Plutão, porque não tem gente — mas não, tá aqui, tentando acompanhar o cronograma do apocalipse versão patch 2025.

Talvez seja por isso que eu comecei a ver o que vejo. Talvez a Morte tenha olhado pra mim, uma pessoa com um histórico de surtos, ansiedade, humor instável e ironia natural, e pensado: "é isso. Perfeita. Essa aí vai saber lidar."

E aqui estou eu. Vendo gente morrer antes de morrer, e tentando fingir que não tô surtando. Porque mesmo que eu tenha um humor afiado, não existe stand-up interno que cure o baque de saber que alguém vai morrer e você não pode fazer nada. Nada mesmo. Nem quando tenta. A morte não negocia.

Às vezes eu me pergunto se ela já tentou. Sério. Vai que em algum momento ela olhou pra um bebê fofinho e pensou “não hoje” — e aí foi demitida por compaixão. Pode ser por isso que ela terceiriza agora. Porque sentir demais atrasa o serviço.

Mas eu não sou a Morte. Eu sou só... Nadine. Uma mulher com um dom que parece mais uma maldição com identidade visual retrô e trilha sonora de filme de terror indie. E ainda assim, sigo aqui. Tentando viver, fingir normalidade e não deixar escapar em voz alta: “Você vai morrer em dois dias, aproveita o almoço.”

Aliás, falando nisso, será que já teve alguma pessoa que morreu enquanto comia? Tipo, morreu mesmo, do nada, na terceira garfada de um risoto bom pra cacete? Seria um jeito honesto de ir.

Não sei.

Mas sei que quanto mais eu penso nisso tudo, mais eu entendo que a Morte não é má. Ela é só… inevitável. Chata, persistente, criativa e um pouco dramática, mas não má. Talvez seja por isso que ela não vem me buscar, mesmo depois de tudo que eu sei. Talvez ela ache divertido me ver tentando entender um sistema que nem mesmo os mortos entenderam.

Ou talvez, só talvez, eu seja parte do plano. O que é péssimo. Porque o plano da Morte nunca envolve férias.

Mas será que ela não percebeu que é questão de tempo para nos destruirmos?

O mundo está tão polarizado que hoje ou você é terraplanista, antivac e apaixonado pelo Trump e pelo Elon Musk — ou você é um ser humano que sofre diariamente por ter que conviver com esses idiotas e ainda ter que explicar por que eles são idiotas. Resumidamente, ou você é burro, ou você aprendeu algo útil no ensino fundamental.

Eu, como leitora de manuscritos, já sofro com as ideias sem pé nem cabeça que sou obrigada a ler. Mas nem de longe é comparável ao sofrimento dos cientistas de hoje, que precisam explicar coisas que os nossos ancestrais já sabiam… Tipo, não é possível que a humanidade precise reaprender o conceito de “vacina” ou “planeta redondo”.

É questão de tempo até que toda essa polarização nos mate. Literalmente.

E se o lado burro ganhar… bem, viveremos na pele o conceito de Idiocracia. (Eu, pessoalmente, não quero estar aqui quando isso acontecer. Já basta minha profissão.)

O mundo parece mais um barril de pólvora do que o próprio Oriente Médio. Qualquer coisa vira briga. Todo mundo armado, burro e orgulhoso disso. Pensando por esse lado, talvez quem está sendo burra esse tempo todo seja a própria Morte. Os estadunidenses podiam destruir o mundo fácil, e não pelo poder bélico — mas pela burrice mesmo.

Como era aquela frase mesmo?

"Um dia os burros irão nos vencer… não pela sua inteligência, mas pelo número."

E esse dia tá parecendo segunda-feira. E eu odeio segundas.


Notas finais
Não esqueçam dos comentários, meus queridos leitores. Gosto de saber a opinião de vocês!!! :D