A Morte Me Dá Spoilers
7 Capítulo 6: Tá ficando difícil arranjar desculpas...
Quem inventou o conceito de happy hour deve estar morto já, porque essa merda é bem antiga. Mas, se não estiver, morte, nunca te pedi nada: mata o desgraçado engasgado com a própria saliva.
As pessoas do meu trabalho são legais, de verdade. Boas. Gentis. Com um gosto musical questionável e um amor preocupante por karaokê temático. Mas depois de passar 8 horas olhando pra cara de alguém enquanto sou paga pra isso, me parece emocionalmente abusivo pagar pra continuar olhando.
Não bebo nada alcoólico. Não por juízo ou virtude, mas porque não seria de bom tom ter visões no meio de um porre. "Ai, olha só a Nadine bêbada chorando porque viu mais um assassinato futuro". E lá vou eu de novo, arruinando o clima da rodada.
Estávamos saindo da portaria do prédio, em formação preguiçosa. A luz do fim da tarde refletia nos vidros, e eu fazia força pra parecer minimamente sociável. Foi aí que veio. A visão. Sem aviso. Como um assombro, como sempre.
Carro de polícia com sirene apagada, se aproximando devagar. Um homem entra pela portaria ainda aberta — não era nosso colega de trabalho. Era um ladrão. Rosto coberto, arma na mão.
Em segundos, éramos reféns. Gritos, correria, mãos pra cima.
Pânico.
E então piora. Snipers surgem nos prédios vizinhos. A mira oscilando, gente gritando no rádio. O sequestrador se movimenta, irritado, imprevisível.
A arma encostada na minha cabeça.
Não respiro.
Ele dá um passo.
Um disparo.
Rachel — que estava atrás de mim — é atingida no pescoço. Ela cai dura no chão. Olhos arregalados. Sangue. Muito sangue.
Acordo da visão com um engasgo, parada no hall, a meio caminho entre o lado seguro e o lado onde o mundo real insiste em se enroscar com o caos.
— Fecha o portão! — gritei, virando pro porteiro.
Ele não hesita. Assustado, mas eficiente, aciona o botão, e o portão fecha com aquele rangido lento, quase teatral.
— Eu… não tô bem. Deixei meu remédio lá em cima. Alguém pode pegar pra mim?
Minha voz sai embargada. As palavras meio desconexas, mas verdadeiras.
Entro de volta no prédio e sento nos degraus da escada. O ar ainda me escapa como se eu tivesse corrido uma maratona.
— Nadine, o que foi isso? — alguém pergunta, mas não respondo.
Os outros se entreolham, confusos, preocupados.
Então, do lado de fora, o inevitável.
O carro da polícia passa devagar, do jeito exato da visão.
Meu coração ameaça sair do peito.
Um vulto se move perto da lateral do prédio — o homem tenta pular o muro. Toca na cerca elétrica e é arremessado de volta, o corpo tremendo antes de cair no chão, inerte.
O silêncio que se segue parece durar anos.
Rachel se senta ao meu lado, meio pálida.
— Tá. Você precisa me explicar o que foi isso.
Mas eu só consigo pensar em uma coisa:
Não era um pressentimento.
Era um aviso.
E dessa vez, eu consegui impedir.
odos estavam olhando pra mim.
Alguns em silêncio absoluto. Outros trocando olhares como quem tenta montar um quebra-cabeça com peças de outro jogo.
E, dessa vez, nem eu sabia o que fazer. O coração batendo na garganta, a mão ainda trêmula. Se eu falasse a verdade — "Oi, gente, vi o futuro mais uma vez, e spoiler: ele é uma merda" — provavelmente me internariam antes da sobremesa.
Então, saquei minha baboseira padrão.
— Foi só um pressentimento ruim vindo da rua... Meu ônibus foi assaltado. — Mentira. Eu evitei isso de acontecer. Mas tecnicamente… podia ter acontecido. — Acho que é estresse pós-traumático.
Parei por um segundo. O olhar de Rachel em cima de mim, como se ela estivesse tentando ver se eu estava mentindo ou só desmoronando em tempo real.
— No dia que me atrasei… eu passei no hospital. Porque desmaiei durante o assalto.
Dei uma risada nervosa, como quem tenta tornar o trauma palatável.
— Tava tentando juntar as pontas, sabe?
Mas... nem sei se isso tá me ajudando ou só piorando as coisas.
Suspirei.
— E tentaram matar minha vizinha tem menos de um mês. Foi no andar de cima.
Dei uma pausa dramática.
— Acho que ando mais assustada que o normal.
Fiquei esperando alguma reação. Uma pergunta, um julgamento, qualquer coisa.
— Desculpa, pessoal — completei, encolhendo os ombros como quem tenta desaparecer dentro do próprio corpo.
Ninguém respondeu de imediato.
A respiração coletiva estava meio suspensa, como se todos ainda estivessem processando o que tinham acabado de ver: eu congelando do nada, gritando com o porteiro, e segundos depois evitando uma cena de crime.
Rachel, que tinha se sentado do meu lado, desviou o olhar por um instante. Ela era esperta. Sabia que algo estava fora da curva, mas parecia não querer confrontar isso ainda. Talvez medo. Talvez respeito. Talvez fosse só o efeito colateral de quase levar um tiro imaginário.
— Quer que alguém te acompanhe até o apartamento? — ela perguntou, num tom que parecia mais profundo do que a pergunta.
Balancei a cabeça.
— Só meu remédio mesmo. Depois a gente vê se esse happy hour ainda vai ser happy ou se a gente só finge que tentou ser social.
Uma risadinha tímida ecoou do fundo. Nervosa. Alívio camuflado. Aos poucos, eles voltaram a respirar.
Mas algo mudou.
Eles me olhavam diferente agora.
E dessa vez, nem eu conseguia fingir que não percebia.
O happy hour seguiu como se nada tivesse acontecido — porque, pra eles, de fato nada tinha. Sentamos num barzinho com luz baixa e cardápio escrito com giz na parede, desses que fingem que uma batata-frita de dez dólares é algo gourmet. Eu fui direto na água com gás. Não era o momento de correr o risco de ter uma visão no meio de um gole de gin tônica.
Rachel se sentou perto, sem dizer nada de imediato. Ela sempre foi discreta, mas agora observava como quem busca brechas. Como se tentasse me decifrar.
— Tá tudo bem? — ela perguntou, num tom baixo, olhando pro copo.
— Acho que sim. Só cansada. — respondi, o clássico "não quero falar sobre isso" disfarçado de educação.
Ela assentiu devagar, como quem respeita o silêncio alheio. Mas não largou o assunto por completo.
— Se quiser, posso te levar pra casa depois.
Assenti. Preferia mil vezes estar num carro com ela do que encarar transporte público naquela altura. Minha mente ainda estava um caos, e a ideia de dividir vagão com cinquenta estranhos não ajudava.
O caminho de volta foi silencioso por uns bons minutos. Rachel dirigia com a mesma calma de sempre, mas dava pra sentir o peso do que ela queria dizer.
— Aquilo que você disse… do assalto, da vizinha. Muita coisa pesada num intervalo curto.
— É. A vida não tem sido exatamente... gentil.
— Você fala tudo isso como se fosse normal. Como se já estivesse acostumada.
— Talvez eu esteja.
Ela lançou um olhar rápido, mas voltou a focar na estrada.
— Você não precisa fingir o tempo todo. Se não tá bem, tudo bem.
Fiquei quieta. Quis dizer alguma coisa, mas tudo parecia fraco demais pra verbalizar. Então só agradeci quando ela parou o carro, e entrei em casa com a cabeça pesada e o coração tropeçando nos próprios passos.
Mais tarde, já em casa, o celular vibrou.
Bob:
"Oi. Foi surreal o que aconteceu hoje. Tá tudo bem com você? Sério, se precisar de qualquer coisa, me avisa."
Fiquei encarando a tela. Digitei umas quatro respostas antes de decidir:
Eu:
"Ainda tentando entender tudo. Mas obrigada por perguntar."
Na manhã seguinte, Sally chegou no escritório como um furacão de café e bom humor.
— Nossa heroína chegou! — disse, com aquele sotaque carregado do Texas que transformava qualquer frase em entusiasmo. — Primeiro me salva de cair da escada, agora salva a gente de um sequestro? Você devia vir trabalhar de capa!
— Eu preferia vir com fone de ouvido e sem interação humana, mas valeu. — Respondi, jogando a bolsa na cadeira.
Ela riu, meio sem saber se era piada ou verdade. Eu também não sabia mais.
Rachel, que sempre chegava mais tarde, encostou-se à mesa ao lado com o café na mão e a testa franzida.
— Espera aí... — disse em voz baixa, se aproximando de mim. — O que a Sally quis dizer com você ter salvado ela da escada?
Revirei os olhos e respirei fundo. Claro que ela ia perguntar. Claro que esse passado inútil ia voltar pra me assombrar logo agora.
— Nada demais — falei, como quem conta que salvou um copo de cair da pia. — Um dia o salto dela estava soltando e eu avisei ela antes que ela descesse as escada — Rachel arqueou a sobrancelha com aquela expressão de "tá, mas isso não me convenceu".
— Reflexo rápido? Você viu ela tropeçando antes dela tropeçar, por acaso?
— Ah, para. Tá sugerindo o quê? Que eu sou tipo uma médium das escadas?
— Eu tô sugerindo que você é boa demais em estar no lugar certo na hora certa. Duas vezes já.
Fitei o monitor como se algum relatório fosse me salvar daquela conversa.
— É só coincidência, Rachel.
— É... — ela respondeu, mas sem nenhuma convicção. — Mas sabe o que dizem, né? Coincidências demais viram padrão.
Me levantei e peguei minha garrafa de água só pra cortar o assunto. Não era hora de explicar que eu tinha visões da morte de pessoas como quem tem flashbacks num filme ruim — e, mesmo se fosse, Rachel merecia algo melhor do que uma confissão mal feita entre uma planilha e outra.
Ela me acompanhou com o olhar, sem insistir, mas com aquela expressão de quem vai montar o quebra-cabeça, peça por peça, mesmo que demore.
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No almoço, Rachel me arrastou pro restaurante tailandês da esquina — não literalmente, mas com aquela insistência que só ela sabia fazer sem parecer chata. Sentamo-nos perto da janela, e ela ficou me observando como quem analisa uma testemunha no tribunal.
— Você parece cansada — ela comentou, depois de uns bons minutos de silêncio.
— E você parece prestes a fazer uma intervenção — rebati, dando uma golada no suco.
Ela riu. Mas os olhos não riram junto.
— Tá. Vou direto ao ponto, então. Desde ontem, não paro de pensar no que aconteceu. Na sua reação. Você congelou antes de tudo acontecer. Aquele tipo de susto não é de quem viu algo acontecendo. É de quem viu algo que ainda ia acontecer.
Suspirei. Meus dedos giravam o copo como se a água ali dentro pudesse me dizer o que fazer. Parte de mim queria continuar mentindo — ou, pelo menos, omitindo. A outra... bom, a outra tava cansada. E Rachel não era só “colega de trabalho legal”. Ela tava virando amiga. Daquelas raras.
— Tá bom — falei, baixinho, quase como um pedido de desculpas. — Tem... tem algo que acontece comigo, às vezes. Não sei explicar muito bem. Mas eu vejo coisas.
Ela me olhou como se tentasse decidir se eu tava zoando.
— Tipo... o futuro?
— Tipo mortes. — pausei. — Mortes inevitáveis. Ou pelo menos eram, até eu começar a tentar mudar as coisas.
O silêncio entre a gente foi pesado por alguns segundos. A garçonete chegou com os pratos, o que me deu tempo de respirar e dela processar.
— Você tá dizendo que... viu aquilo ontem? Antes de acontecer?
Assenti.
— Então... quando a Sally quase caiu da escada... aquilo também foi...?
— Foi. — Suspirei. — Eu vi. O salto dela estava solto. Eu avisei. Ela olhou, viu que tava mesmo soltando e me agradeceu. Tirou os sapatos e desceu as escadas a pé, tranquila... Mas eu tinha visto o que teria acontecido se ela não fizesse isso. Ela rolando escada abaixo, o pescoço quebrado...
Rachel encostou no encosto da cadeira e soltou um suspiro lento.
— Ok. Eu não vou fingir que isso não é... insano. Mas eu também vi o jeito que você reagiu ontem. E não tem como isso ser só “pressentimento”.
— Eu sei como soa — falei, encolhendo os ombros. — E por isso eu não conto pra ninguém. Você foi... exceção.
Ela ficou alguns segundos em silêncio, depois sorriu — e não era um sorriso debochado, nem assustado.
— Obrigada por confiar em mim.
— Ainda não confio totalmente. — Dei um meio sorriso. — Mas você me pagou o almoço, então achei justo.
Ela riu de novo. E, por um instante, foi bom poder dividir um pedacinho do peso com alguém.
— Só mais uma coisa, quem ia morrer ontem? – Ela perguntou olhando fundo nos meus olhos.
— Você, um sniper ia errar o tiro, ao invés de acertar a cabeça do sequestrador ia acertar o seu pescoço. Você ia morrer na hora.
— Seu ônibus foi assaltado ou ele seria assaltado – eu já disse que odeio o fato da Rachel ser extremamente inteligente, não? Se não disse, agora está dito.
— Eu fingi um desmaio para o ônibus parar um ponto antes do assalto. Fui parar no hospital mesmo e por isso cheguei atrasada... – A essa altura já não via muitos motivos para mentir. — Vi minha vizinha sendo assassinada e liguei para a policia antes que ela morresse. Mas alguma dúvida?
Ela permaneceu em silêncio e entendi que aquela era a minha deixa para sair do carro.
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Entrei em casa e desabei logo após a porta fechar.
Eu salvei uma vida. Mas a morte... ela não se dá por vencida. Só muda o alvo.
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