A Morte Me Dá Spoilers

17 Capítulo 16: Mudaram as regras do jogo


A morte veio no horário errado.

Parece piada, mas não é.

Passei a manhã inteira sentada na esquina da cafeteria, os olhos cravados num senhor de barba branca e sapato social desgastado. Ele andava como se o mundo ainda tivesse algum tipo de lógica. Como se andar fosse só isso: andar.

Ele morreria às 14h17. Eu vi. Eu senti. Como sempre.

Mas às 13h02, o corpo dele caiu na calçada, uma tosse seca anunciando o fim. Foi rápido. Preciso. E completamente fora do script.

Fiquei parada. Tremendo. O copo de café ainda na mão, a boca entreaberta. Todo o meu corpo esperando que alguém gritasse “pegadinha”. Mas ninguém grita essas coisas na vida real. Só o silêncio se pronunciou. De novo. Só ele.

O tempo está me traindo.

Ou alguém está.

Nos dias que seguiram, minha cabeça virou um campo minado. Qualquer som de porta, qualquer mensagem sem nome, qualquer esbarrão no metrô — tudo parecia dizer: "Eles sabem."

E eu não sei quem são eles. Só sei que sabem de mim.

Fui ao mercado com óculos escuros e casaco de moletom, como se meu dom fosse algo que se esconde com tecidos. A caixa do mercado sorriu pra mim como se eu fosse normal. Mas eu vi nos olhos dela. Aquele brilho de quem lê manchetes demais. Aposto que viu meu rosto em alguma thread conspiratória. “A mulher que prevê mortes, ou só mais uma doida de bairro?”

Não sei mais se estão me observando... ou se eu me tornei a observadora de mim mesma. Tem dias que acordo com a sensação de que sonhei que alguém estava sentado na ponta da cama. E tem dias piores, em que acordo com a certeza de que alguém realmente estava.

Comecei a tapar as câmeras do celular. Cobri o olho da fechadura com fita adesiva. Troquei as senhas. Três vezes. Coloquei o nome da minha falecida tartaruga como palavra-chave pra me lembrar que até ela já morreu e eu continuo aqui, sendo cobaia do universo.

E o pior? Continuo vendo.

As mortes vêm, claras como sempre.

Mas os relógios não obedecem mais.

Um rapaz na escola de música: 18h23.

Morreu 18h56.

Uma mulher grávida, fila do banco: 11h14.

Foi às 10h48.

São só minutos, eu dizia no início.

Agora são horas.

O suficiente pra me fazer duvidar de mim.

O suficiente pra me deixar presa dentro do próprio dom.

Comecei a escrever tudo num caderno velho. Anoto nomes, rostos, horários, sensações. Tento mapear os erros. Como se fosse só questão de matemática. Mas não é.

Não é o tempo que está falhando.

Sou eu.

Ou talvez... sou eu sendo sabotada.

Às vezes, ouço batidas na parede do quarto de madrugada. Três toques. Sempre três.

Saio correndo. Nada.

Mas na manhã seguinte, o relógio digital da cozinha pisca 03:00.

Só o número.

Como se zombasse de mim.

Três toques. Três horas. Três segundos até a dúvida me consumir de novo.

Depois que mais policiais ficaram sabendo dos meus poderes — sim, agora eles chamam de “poder”, como se eu fosse um X-Men deprimido —, fico imaginando qual deles não abriria a boca pra fofocar sobre. Talvez já esteja em grupos de WhatsApp com memes tipo “a paranormal da delegacia”.

Talvez já tenha virado piada entre plantões.

Ou talvez eu só esteja... surtando mesmo.

Paranoia.

É isso o que dizem quando uma mulher começa a duvidar de tudo que sente, vê e prevê.

Mas não é loucura se eu estiver certa, né?

Ou é?

Porque já nem sei mais o que é certo.

Talvez a minha própria paranoia esteja me fazendo ver o horário errado.

Talvez a menina tenha morrido às 16h45 em alguma realidade paralela e, nesta, ainda esteja em contagem regressiva.

Talvez ela nunca vá morrer.

Ou talvez já tenha morrido, só que de outro jeito, outro nome, outro rosto, outra roupa que não era de pinguim.

E se a visão que tive foi de uma morte que nunca deveria ter existido e que só existirá porque eu vi?

Já tem dias desde a descoberta do container e nada sobre a menina.

Nada sobre corpos.

Nada sobre pistas.

Só o eco das coisas que eu disse em voz alta e que não sei mais como engolir de volta.

Passei pelo outdoor umas dez vezes.

Aquela porcaria digital onde apareceria o anúncio da Fazendinha Azul.

Um marco.

Uma âncora.

Algo que me diria: “Sim, Nadine, você está na linha certa. O tempo ainda te obedece.”

Mas ele não apareceu.

Só propaganda de remédio pra hemorroida e uma nova pizzaria vegana.

Acho que manipulei tantas variáveis que agora não consigo mais voltar pra temporal correta.

Tipo quando você tenta ajustar o despertador e aperta “soneca” sem querer... e acorda dois anos depois.

Ou nem acorda.

Ou já acorda em outra versão sua, uma que não lembra como chegou até ali.

Não sei se a menina já morreu.

Não sei onde ela tá escondida, caso esteja viva (o que é pouco provável, porque agora o Hernandez já sabe que sabemos do cemitério dele).

Não sei se o futuro ainda é o mesmo futuro que eu vi.

Ou se o presente já me ultrapassou faz tempo e eu só tô andando atrás dele, tentando pegar carona com a próxima premonição.

E agora?

De tanto interferir, acho que daqui a pouco vou acordar numa linha do tempo que nem eu mesma me reconheça.

Tipo: “Oi, eu sou a Nadine da Linha C-32, que nasceu com um coelho no lugar do dom, e não sabe mais como parou aqui.”

Será que isso seria possível?

Ou só seria esquizofrenia mesmo?

Porque às vezes eu esqueço o caminho de casa.

Outras vezes, tenho certeza que já vivi a mesma conversa com as mesmas palavras, mas em outra rua, outro dia, outro mês.

E quando tento lembrar se aquilo foi uma visão ou uma lembrança, dá um nó.

Como se alguém tivesse pego minha linha do tempo, amassado como papel de bala e jogado no chão dizendo: “Agora se vira.”

Tenho medo de mim.

Do que eu posso fazer com uma informação errada.

De quantas Nadines podem surgir se eu continuar quebrando os relógios que ditavam a ordem das coisas.

De virar ruído dentro da própria cabeça.

Ou pior:

De virar irrelevante.