A Morte Me Dá Spoilers

18 Capítulo 17: Terças, Quintas e Loucuras Casuais


O mundo ainda estava girando — o que era um mistério, considerando o nível de caos mental que eu vinha acumulando nos últimos dias. Dormir? Só se fosse com o pesadelo de alguém prestes a morrer me fazendo companhia. Comer? Só se fosse entre uma previsão catastrófica e outra. E respirar fundo? Ah, isso já era artigo de luxo.

Eu estava no limite. O tipo de limite que faz você questionar se está enlouquecendo ou só se tornando uma versão cínica e funcional do Coringa. O mais irônico é que, entre um corpo no chão e outro na cabeça, eu continuava tentando manter uma aparência minimamente decente. Porque admitir que estava caindo aos pedaços? Jamais. Ainda tinha alguma dignidade. Ou orgulho. Ou teimosia crônica. Provavelmente os três.

Então, quando Brian apareceu na porta da sala da delegacia, me encarando como se fosse um técnico analisando um aparelho que emite faíscas e fumaça, eu já sabia que vinha bomba.

Brian me olhou como quem analisa uma bomba que talvez exploda ou talvez só esteja com defeito na pilha. Aquele olhar de “não vou te julgar, mas talvez você precise de ajuda profissional”.

— Você tá muito ansiosa, Nadine — ele disse, encostado no batente da porta, com os braços cruzados e a testa franzida. — Talvez isso esteja atrapalhando suas previsões. Você já pensou em... terapia?

Terapia. Claro.

Quase ri. Quase.

— Claro, Brian. Uma terapeuta vai ouvir que vejo as pessoas morrendo desde criança e que inclusive vi a morte dos meus pais antes de acontecer... isso é muito normal. Ela deve ver isso todas as terças e quintas. Junto entre os pacientes que falam com os móveis e os que acreditam que são Napoleão ou Hitler reencarnado.

Ele deu um meio sorriso, mas não recuou.

— E mesmo assim... seria melhor do que ficar carregando isso sozinha. Você confia em mim pra entrar em cena de crime com cheiro de podre e tripa exposta, mas não confia pra dizer que tá no limite?

Fiquei martelando aquela conversa na minha cabeça...Não pensava em mais nada...

Era a tarde já, estava gastando um tempo num café com a Rachel e a Sally – vantagens em ser amiga da chefe e já ter a salvado algumas vezes da morte certa...

— Brian acha que eu tô muito ansiosa — comentei, jogando um sachê de açúcar dentro do café já sem esperança.

Rachel arqueou uma sobrancelha. Sally apenas riu com um som que beirava o deboche educado.

— Ansiosa? — Rachel repetiu. — Nadine, quem não é ansioso atualmente? Isso é praticamente nossa configuração padrão.

— Exato — Sally emendou. — Se você não tá ansiosa, é porque tá morta ou medicada. Ou os dois.

— Pois é. Mas ele acha que isso pode estar atrapalhando... – quase soltei sobre as visões, mas lembrei na hora que a Sally vivia no próprio mundinho dela e não precisava adicionar visões de assassinos ao mundo de crochê, tricô e fadas.

Rachel me olhou enquanto chutava a minha perna. Silêncio. Depois, Sally soltou:

— Eu conheço uma terapeuta muito boa, se quiser o contato. Atende umas pessoas... fora do padrão.

— Fora do padrão como?

— Como “Sou uma mulher maravilha e vivo salvando os outros.” — Definitivamente a Sally era uma pessoa diferenciada... e fofa.

— Nossa, super comum — comentei. — Imagino que ela tenha até um clube do livro chamado “Show de horrores nas Terças e Quintas”

— Ela é calma, sensata, discreta. Me ajudou muito quando... bom, quando precisei. Pega o contato, Nadine. Não custa nada.

Custava, sim. Custava admitir que eu talvez estivesse à beira de um colapso. Mas custava mais ainda continuar tentando fingir que estava tudo sob controle.

Foi assim que eu fui parar no consultório da tal Dra. Helena Fox. Uma sala silenciosa, com cheiro de lavanda e zero julgamento no ar. Ela me recebeu com um sorriso que não parecia automático, o que já foi desconcertante o suficiente.

— Nadine, né? Fica à vontade.

Sentei. Avaliei a decoração. Nenhum filtro dos sonhos, nenhum crucifixo tremeluzente, nenhum cristal pendurado nem olho grego. Ponto pra ela.

— Como posso te ajudar? — ela perguntou, com aquele tom neutro de quem não vai se assustar se eu disser que sonho com cemitérios em detalhes arquitetônicos.

— Você acredita que as pessoas podem ter dons diferenciados? — perguntei, com uma sobrancelha arqueada.

Ela devolveu com outra pergunta:

— Você sente que tem?

— Eu vejo mortes. Antes de acontecerem. Às vezes com dias de antecedência. Às vezes minutos. Já errei uma ou duas. E ultimamente... tenho errado mais. O tempo me obedece menos. E eu... tô surtando?

Ela não anotou. Não arregalou os olhos. Só cruzou as pernas e inclinou um pouco a cabeça.

— Você já via isso desde criança?

Fiz que sim com a cabeça, esperando a hora que ela ligaria para uma ambulância falando que com certeza eu deveria ter fugido de algum hospício

—E como é para você experenciar isso desde criança?

— Como dormir com alarme ligado na cabeça. Mas o alarme nunca toca igual. Às vezes é uma imagem, outras um cheiro, uma sensação. E, independente da forma, sempre... pesa.

Ela assentiu, devagar.

— E quando você erra?

— É como perder o único motivo que ainda me faz sair da cama. Se eu erro, então pra que eu existo? Não sou normal, não sou estável, e agora nem útil eu sou. Ótimo combo pra enlouquecer devagar.

Pela primeira vez, a terapeuta sorriu. Não de deboche, mas com uma espécie de tristeza empática que me irritou um pouco. E depois me aliviou.

— Você não é o seu dom, Nadine. E não é a sua utilidade. Às vezes, o peso que você sente não é o do erro, mas o de tentar ser perfeita com algo que nunca foi justo com você.

Fiquei ali quarenta e cinco minutos. Falei mais do que costumo. Disse menos do que queria. E saí... diferente. Como se o ar estivesse um pouco menos espesso.

Na saída, ela me entregou um cartão.

— Me liga se quiser conversar de novo. Terças e quintas eu atendo o pessoal que vê coisas. Segunda-feira é o dia da senhora que conversa com formigas. Você tá bem dentro da média.

Saí com um sorriso torto e uma parte de mim irritada por ter, talvez, gostado da ideia de voltar.

Quarenta e cinco minutos sem prever nenhuma morte. Só minha resistência desmoronando um pouco.

— Maldita Sally.

E, talvez, bendita também

Voltei da consulta com a terapeuta me sentindo… estranhamente menos pior. Não era bem paz interior. Era mais como se alguém tivesse varrido um canto da minha cabeça onde há séculos só existiam poeira emocional e caixas mal etiquetadas de traumas.

Sentei no sofá. Olhei pro teto. Pensei em como a doutora Helena não tinha tentado me convencer de nada. Não sugeriu floral, regressão, nem me disse que “Deus dá batalhas grandes para soldados fortes”, o que, francamente, já teria me feito levantar e incendiar o consultório.

"Você não é o seu dom." Essa frase ficou ecoando na minha cabeça como uma música chiclete, mas do tipo que não dá raiva. Eu nunca tinha parado pra pensar que talvez houvesse mais em mim do que ver mortes. Tipo... um gosto por café ruim. Um senso de humor que espanta gente decente. Um talento incrível pra evitar qualquer possibilidade de intimidade emocional.

E ok, talvez um charme ácido que o Brian aparentemente curte. Vai entender.

Quando me dei conta, já estava deitada na cama. Nenhuma previsão de morte no ar. Nenhum flash estranho no canto da visão. Nada de frio na espinha, nem sensação de que o teto vai desabar. Nenhum relógio interno gritando que alguém vai morrer em 3, 2, 1...

Só silêncio.

Deitei de lado. A cabeça afundou no travesseiro. Me preparei pro tradicional desfile de imagens macabras, mas... nada.

É assim que gente normal dorme?

Fechei os olhos.

E pela primeira vez em muito, muito tempo... dormi.

Sem ver ninguém morrendo.

Sem me preocupar com o que deixei de prever.

Sem medo de acordar com o rosto de alguém que não vai passar da manhã.

Só eu, a escuridão...e um sono sem alarme.

Se era isso que a tal de “terapia” fazia, talvez Sally tivesse razão. Mas jamais direi isso em voz alta. Ela já se acha o suficiente.

Na manhã seguinte, acordei me sentindo… bem. Descansada, leve. Quase como se tivesse tirado férias de mim mesma. Por uns cinco minutos, a vida parecia simples: travesseiro, coberta, respiração lenta. E aí, claro, olhei pro relógio.

Atrasada.

Esqueci de colocar o alarme no celular. Porque, né? Esses dias eu não tava precisando. O “dom” fazia questão de me acordar antes de qualquer coisa — às vezes com visões, às vezes com presságios, às vezes com aquele pânico puro e sem forma que gruda no peito feito gosma. Mas ontem... nada. Dormi. Como uma pessoa comum. Como alguém que não acorda no meio da noite sentindo cheiro de sangue que ainda nem foi derramado.

Dormi tanto que quase perdi o dia.

Inacreditável.

E, de alguma forma, meio maravilhoso também.

Levantei da cama como quem é lançado por um cataclismo invisível. Em três segundos, já tinha chutado o cobertor, esbarrado no criado-mudo e quase derrubado meu celular no chão tentando ver as horas de novo — como se ele fosse magicamente ter voltado no tempo só porque eu entrei em negação.

— Merda, merda, merda... — era meu mantra matinal enquanto tropeçava até o banheiro, com o cabelo em estado de calamidade pública e o hálito mais mortal que algumas das cenas de crime que eu já vi.

No banheiro, escovei os dentes enquanto tentava prender o cabelo com uma das mãos, procurando um rímel que não estivesse ressecado desde o governo anterior. A calça jeans me encarava do chão como quem diz "boa sorte tentando me fechar com essa barriga de pão e ansiedade". Vesti mesmo assim, com a graça de um saco de batata sendo espremido num jeans skinny.

Foi quando ouvi a campainha. E depois, socos na porta. Não batidas delicadas. Socos.

— Nadine?! — a voz da Rachel veio como uma tempestade indignada. — Você morreu? Porque não respondeu NENHUMA mensagem desde ontem.

Abri a porta como quem abre para uma blitz da polícia: descabelada, com olheiras, e mentalmente tentando lembrar se cometi algum crime nas últimas 24 horas.

— Não morri. Só dormi. — Falei isso como se fosse uma ofensa.

Rachel me olhou de cima a baixo como se estivesse fazendo uma perícia.

— Você dormiu? Você? Tipo, sono real? REM, travesseiro, sonho, essas coisas?

— Surpreendente, eu sei.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Achei que tinham te abduzido. Ou que o Brian finalmente te envenenou com aquele café horrível da delegacia.

— Infelizmente, não. Só tive uma noite de sono civilizada. O mundo está mudando.

Dei um último retoque no rímel torto, enfiei o pé no tênis — sem meia, porque já era pedir demais — e peguei minha bolsa que, honestamente, parecia ter passado por um furacão.

— Você vai mesmo sair assim? — Rachel perguntou.

— O importante é que eu tô viva. E vestida. Mais ou menos.

Peguei carona com ela, porque a essa altura, se eu fosse tentar chamar um carro, ia chegar na próxima encarnação. Rachel dirigia como uma mistura de piloto de fuga e mãe apressada. Enquanto ela cortava o trânsito com aquela serenidade assassina que só ela tem, fiquei olhando pela janela e pensando que, se essa fosse a versão “descansada” de mim, talvez o mundo não estivesse pronto pra quando eu decidisse cuidar da saúde mental de verdade.

Mas, pelo menos por hoje, eu tava viva.

Atrasada, amassada, maquiada com cinco produtos vencidos e o humor de um bode com gastrite...

Mas viva.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.