A Morte Me Dá Spoilers
13 Capítulo 12: A busca pela menina do balão
Liguei para o Brian — já que ele disse que eu podia chamá-lo assim — e perguntei sobre as buscas pela menininha.
— Você a conhecia também? — perguntou, num tom de deboche, embora parecesse preocupado com todas as coincidências.
— Esbarrei com ela numa conveniência. Peguei o balão que estava indo pra rua e ela me agradeceu. Só isso. Vi o rosto dela no cartaz de procurados no mesmo lugar e, como a mídia não fala nada, resolvi te ligar. Só isso.
— Sabe... andei pesquisando algumas coisas sobre você. Sua vizinha sofreu uma tentativa de assassinato, depois desapareceu e, bom, a irmã dela apareceu morta. Sua chefe fugiu de um stalker que teve um fim trágico enquanto você a ajudava. Descobri que um assaltante foi eletrocutado na cerca do prédio do seu escritório porque você gritou antes e mandou fechar o portão. E agora você conhece a menina que desapareceu... Tô começando a achar que ter te dado meu número não foi uma boa ideia.
— Quem te contou sobre o cara na cerca elétrica? — perguntei, quase no susto. Quem no trabalho teria falado?
— O porteiro. Ele ficou muito agradecido pelo seu raciocínio lógico. Mas por que será que você sempre está perto de situações assim? Ou conhece pessoas que passam por elas?
— Se não vai me falar nada da menininha e prefere ficar fazendo suposições vazias, vou desligar.
— Espera. Pode me encontrar pra um café e eu te conto o que sei da menininha...
— Mas...? Sempre tem um "mas". Nada nunca é de graça.
— Mas quero que me ajude a entender sua relação com esses casos.
— Ah, você não quer tanta maluquice assim na sua vida e eu não quero parar num sanatório. Eu arranjo outro jeito de descobrir sobre a menininha do balão.
— O nome dela é Viviene — ele disse. — É só um café. E gostaria que não bancasse a detetive. Além de perigoso, configura crime de obstrução da Justiça.
— Okay. Um café. Mas tem que ser próximo ao meu escritório. Não tenho muito tempo. — Eu tinha, mas não queria me deslocar até onde ele estivesse. Na pior das hipóteses, sairia e voltaria ao escritório. Ou mandaria mensagem pra Rachel pedindo que a Sally me resgatasse. Sally adora um drama, e se ele fosse insistente, Bob com certeza me ajudaria.
— Certo. Só mandar o endereço do café e o horário.
— Você realmente acha uma boa ideia falar com o detetive? Ele tá desconfiado dos mesmos padrões que eu também percebi — Rachel tinha razão. Mas de que outro jeito eu descobriria algo sobre a menina?
— Qualquer coisa, mando mensagem e peço pra você acionar a Sally ou o Bob. E pronto. — Não era tão simples, eu sabia. Mas queria me convencer disso. E, com um pouco de sorte divina, convencer ela também.
— Tá bom. Mas só concordo com essa merda porque sei que, se eu não concordar, você vai fazer do mesmo jeito. Turrona do jeito que é. — Que bom que ela me conhecia.
— Acha que mais alguém percebeu?
— Sally não acreditaria nem se você falasse pra ela. Ela acha que você é uma super-heroína. Bob talvez esteja desconfiado, mas, depois de anos trabalhando aqui, ele deve estar ponderando se realmente quer entrar nesse problema... O resto do pessoal se importa só com o próprio umbigo ou trabalha home office a maior parte do tempo. Os estagiários só querem manter o emprego. Acho que não tem com o que se preocupar. Mas isso não justifica você ser tão desleixada em camuflar... essa cara de que morreu quando tem uma visão... ensaia outra. Fecha os olhos, sei lá. Da última vez, parecia que tava tendo um AVC.
— Por que você nunca me disse isso?
— Porque a gente não tinha intimidade pra isso. Você não tinha se arriscado tão descaradamente pra salvar minha vida...
— Vou pensar em algo. Já tô descendo porque tá quase na hora e você sabe que eu me recuso a usar aquele elevador. Deixa o celular ligado e com som, por favor. Um toque: fala com a Sally. Dois toques: chama o Bob. Três toques: vai você e me dá um esporro por estar muito tempo no café.
— Já pensou em tudo, né? Tá bom. Tomara que sejam três toques, ia adorar dar uma de chefe filha da puta.
Desci as escadas lentamente e segurando o corrimão, como sempre faço. Pensava nas perguntas que ele poderia me fazer — e nas melhores respostas. As melhores mentiras, na verdade. Não quero sair direto de um café para um hospício. Meu maior medo na infância era esse. Por isso fingi que as visões tinham parado... Se meus pais tivessem levado isso tão normal quanto a Rachel... mas a Rachel não é minha mãe. Talvez seja mais fácil aceitar vindo de alguém de fora. Afinal, que pai ou mãe iria querer uma filha maluca como eu?
Terminei de descer as escadas e logo cheguei ao café — ao lado do meu prédio. Sentei numa mesa com saída fácil. Pedi um café descafeinado com creme. Esperei uns 5 minutos mexendo o café, como sempre fazia. Foi tempo suficiente para ele chegar.
— Olá, Nadine. Se importa? — apontou para a cadeira.
— Bem, viemos aqui conversar e tomar café. Acho que não seria confortável pro meu pescoço fazer tudo isso com você em pé.
— Vou levar isso como um sim. — Ele desabotoou o blazer, levantou a mão e pediu um expresso sem creme e sem açúcar.
Quem toma café assim?
— O que quer saber sobre a menina Viviene?
— Alguma notícia do paradeiro? Acharam algo? Ainda acham que ela pode estar viva?
— Sumiu na saída do supermercado. A mãe foi colocar as compras no carro, deixou a porta aberta enquanto levava o carrinho de volta. Quando voltou, a menina não estava mais lá. Avaliamos as câmeras de segurança, mas não dá pra identificar o sujeito. Eles somem uns três quarteirões depois, numa área residencial sem câmeras. Já batemos em todas as casas da quadra e usamos cães farejadores, mas o cheiro some do nada. Provavelmente havia um carro ou uma minivan esperando. Isso é tudo que sabemos.
— Obrigada.
— Agora pode me contar como você se envolveu em tudo isso? Vizinha desaparecida, chefe com stalker, conhece a menina que sumiu, foi assaltada por um cara que morreu com taser e impediu que invadissem o prédio onde trabalha. Você por acaso é a Mulher-Maravilha?
— Lugar errado, na hora errada...
— Pra mim, parece mais lugar certo, na hora certa. — Ele me encarava. Eu não podia quebrar o contato visual, senão pareceria culpada. Sendo que eu não tinha culpa nenhuma. — Então?
— Então o quê? — Pensei por um momento e resolvi perguntar —Além da menina, tem mais gente desaparecida, não? Que sumiram de jeitos parecidos? Com um cara parecido?
— Tem.
— Um motorista de ônibus, duas mulheres loiras, a menina e um cara de origem mexicana?
— O mexicano não, mas o resto... acertou. Como sabe?
— Se eu te contar a verdade, promete não me internar?
— Prometo. — Ele me olhou fixamente.
— Eu já vi todas essas pessoas... e interferi no destino delas. Não ri. Okay? Eu vejo como as pessoas vão morrer. E algumas coisas do futuro também, essa segunda parte eu não controlo muito bem. Mas definitivamente vai cair uma mosca agora no seu café.
Ploc!
— Vai precisar de mais do que uma mosca pra me convencer, mas já fiquei intrigado.
— Tá vendo o ciclista na esquina? — Ele assentiu. — Um carro Chevrolet verde vai virar sem dar seta, o ciclista vai desviar em cima da hora e ainda vai gritar “¡Hijo de la puta madre!”
Três segundos depois, a cena aconteceu.
Ele olhou surpreso para mim, mas nem tive tempo de contemplar o seu choque.
Veio aquela brisa suave. Aquela bendita brisa que vinha antes da visão. Tentei fechar os olhos para ficar menos esquisita. Eu sabia o que vinha e tentei afastar. Não aqui, não agora, mas perdi a batalha.
Era o mesmo café.
Olhei o celular: 14h21.
Um carro preto virava a esquina, abria o vidro e metralhava o café e mais dois comércios ao lado. O detetive levava múltiplos tiros. Eu não sofria um arranhão, a morte só poderia estar zoando comigo. Olhei em volta e só tinha pessoas caídas sobre a mesa, poças de sangue e eu procurando algo em mim, mas nada. Eu sobreviveria. Que jeito filho da puta da morte dizer que ela controla tudo.
Despertei da visão sobressaltada
Olhei o celular: 14h15.
— Parece loucura, mas acredita em mim. Em seis minutos, um carro preto vai virar na esquina e começar a metralhar esse café e outras duas lojas.
Ele correu de loja em loja, mandando fecharem. Eu avisei o pessoal do café. As grades foram abaixadas e todos se deitaram no chão.
14h21. Os tiros começaram. Brian me olhou como se não entendesse nada. Chamou reforço e mandou interditar quatro quadras à frente para pegar os suspeitos.
— SUV. Honda. Preta. Vidros fumê. Placa WW4RT500 — eu disse. Nem sabia que lembrava de tantos detalhes, mas lembrava. Ele ainda olhava como uma pessoa incrédula que não via uma alternativa se não acreditar — Acredita em mim agora?
Meu celular tocou: Rachel.
— Ouvi os tiros. Tá bem?
— Tô sim. Todos estão.
—Que alívio, mas que merda. Ele tá aí, né?
— Tá...
— Então ele já...?
— Já sabe. Mas acho que depois de salvar a vida dele de um tiroteio, pelo menos interditada eu não vou acabar — disse olhando pra ele. — Depois te ligo.
— Não sei como explicar isso sem te envolver nessa merda toda. Mas vou pensar em algo. — ele disse enquanto se levantava para abrir o café e receber os polícias que estavam chegando junto com a equipe médica.
Fiquei sentada com os outros no café, enquanto o detetive conversava com a equipe que chegou. Prenderam os bandidos graças à placa.
— E aí? Quantos psiquiatras preciso ver pra não ser internada? — perguntei quando ele voltou.
— Nenhum. Recebi uma chamada anônima antes de vir. Não durou cinco segundos, não disse nada. Era de um pré-pago. Eu disse que avisaram de um tiroteio no café Bulks. Não dá pra rastrear e ficaram felizes.
— Por que mentiu por minha causa?
— Porque você salvou umas vinte pessoas. E uma delas fui eu. — Ele olhou bem nos meus olhos e disse — Posso não entender porra nenhuma do que aconteceu, mas sei que você é uma boa pessoa. Se expôs para salvar essas pessoas, você tinha tempo para sair e deixar todo mundo morrer...
Eu tinha tempo mesmo, mas a ideia nunca me passou pela cabeça.
— Isso quer dizer que seu instinto de ajudar o próximo é maior do que o de manter o seu segredo. — Bem-vindo ao meu mundo. — Cruzei os braços sobre a mesa. — Onde ser útil me faz parecer maluca, e sobreviver me faz parecer insensível.
— Mas agora tem alguém que acredita em você. Isso ajuda?
— Depende. Vai usar isso pra tentar me estudar como um bicho raro ou pra realmente ajudar?
— Talvez um pouco dos dois — ele sorriu, mas em seguida ficou sério. — A verdade é que a polícia não dá conta de tudo. Se você realmente consegue... ver o que diz, podemos impedir muita tragédia.
— Você fala como se eu fosse uma ferramenta. Um detector de catástrofes.
— Eu falo como um cara que viu um café inteiro abaixar a grade e deitar no chão por causa de você... e não perdeu ninguém. Não tô dizendo pra te explorar. Tô dizendo que você pode escolher. Pode ajudar, ou pode continuar tentando fingir que é normal.
— Eu não sou normal. E fingir tá começando a me cansar.
Ele assentiu, como se entendesse mais do que dizia.
— Se aceitar, posso arranjar uma forma de você trabalhar com a gente... de maneira discreta. Você escolhe quando. Sem pressão.
— Não quero salário, distintivo, nem ficar famosa. Só quero impedir mortes idiotas e dormir em paz — dei de ombros.
— Então tá. Sem distintivo. Mas, se topar, podemos trocar informações. Eu te ajudo com o caso da Viviene, e você me ajuda a evitar mais mortes. Fechado?
— Fechado. Mas, se eu disser que um esquilo vai roubar seu croissant amanhã de manhã, você precisa acreditar.
Ele riu.
— Já comecei a acreditar em coisas mais absurdas hoje.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. Um silêncio confortável. Até ele tirar algo do bolso e deslizar pela mesa.
— Isso é... um pen drive?
— Dados do caso Viviene. Câmeras, depoimentos, relatório de perícia. É confidencial, então cuida bem.
— Tá me dando material confidencial da polícia? Detetive Brian, você é mais inconsequente do que eu pensava.
— Considera um voto de confiança. E uma péssima ideia que ainda acho que vai dar certo.
Sorri. Pela primeira vez em muito tempo, senti que não estava sozinha com aquilo.
Agora, além das visões e das tentativas de evitar mortes, eu tinha um novo problema: ser útil pra polícia sem acabar atrás das grades ou num hospital psiquiátrico.
Mas hey... pelo menos o café tava bom.
— Mas preciso te avisar de uma coisa, eu não prevejo todas as catástrofes, só algumas... as vezes com um dia de antecedência, as vezes com minutos.
— Isso já melhor que nada. Mas me diga uma coisa, qual foi a última visão que teve antes de agora a pouco.
— Um lago com corpos embrulhados no fundo. Não sei onde fica o lago, mas sei que era um homem que estava deixando um corpo lá. Não tinha nada que identificasse o local. Só tinha um deck, eu mergulhei no lago e vi vários corpos embrulhados em lençóis e presos a pedras.
— Quando falou das pessoas desaparecidas, por que acha que elas estavam desaparecidas?
— Porque todas que eu ajudei, a morte procurou de novo. Evitei que uma colega quebrasse o pescoço na escada e alguns dias depois a casa dela teve vazamento de gás e eu a salvei de novo. Minha chefe ia morrer no dia que o cara tentou invadir o prédio. Um sniper ia errar o tiro e aceitar nela no pescoço. Eu evitei e algum tempo depois um stalker surgiu para enforcar ela. Por isso procurei a Margaret porque achava que ela era a única que estava bem.
— Quem é o homem mexicano?
— Trabalhava na manutenção do elevador, Hernandes, salvei ele de ser esmagado no poço. Ele se aposentou e se mudou sem deixar rastro. Então presumi que ele tivesse sido sequestrado também.
— As duas loiras?
— Uma eu impedi que atravessasse a rua olhando o celular e a outra ia morrer num assalto ao onibus que eu acabei fingindo desmaio um ponto antes do assaltante subir. O motorista também morreria. — Eu lembrei nitidamente dos corpos no lado, e veio um arrepio no meu corpo — Mas se eles tiverem mortos, não são apenas eles no fundo do lago, tem muito mais pessoas, não consegui contar.
— Sabe o nome completo do Hernandes?
— Não, mas posso tentar. Vou ligar para o RH. Só um minuto.
Procurei o número da Sally no celular e disquei.
— Menina, tá tudo bem com você?
— Ta tudo sim, mas preciso de um favor Sally.
— Seu pedido é uma ordem minha heroina.
— Consegue ver qual era o nome do técnico na manutenção que se aposentou. Era Sr. Hernandes... mas o primeiro nome dele, ou telefone ou endereço.
— Vou ver e já te passo por mensagem tudinho, querida. — agradeci e desliguei.
— Agora é aguardar... Não acho que ela vá demorar. Sally gosta de ser útil.
— Por que você é heroina dela?
— É a que salvei da escada e do vazamento de gás... ela é meio desligada da realidade, mas é um amor.
Rua General Grodric, 4005, bloco B
León Afonso Hernandez, 50 anos — Pediu aposentadoria bem antes.
O endereço é antigo, ele não colocou o novo endereço. Disse que estava de mudança, que tinha familía no interior, mas não disse a cidade. — Mas lembro que ele comentou algo com sobre Laked Place*
Respondi agradecendo e mandando um abraço para ela.
Passei os dados para o Brian
— Queria que todas as pessoas no departamento da polícia fossem tão eficientes como ela, rápida e ainda deu mais informação do pedimos. Vou seguir com isso. Te mantenho informada. E mais uma vez, eu imploro, não banque a detetive. Se ver uma catástrofe, pode me ligar.
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