A Morte Me Dá Spoilers

14 Capítulo 13: Agulha no Palheiro


Já era noite e eu tentava descansar no sofá, lutando com uma dicotomia interna: Antes eu queria desesperadamente que as visões fossem embora e agora eu ficava buscando qualquer coisa que pudesse ser útil para encontrar a menininha...

Passei o meu sábado todo pensando nela, no Hernandez e na Margaret... eles eram minhas pontas soltas... não era possível que a morte se esqueceria deles.

Quando já estava comprando um livro que dizia: "Saiba como negociar com a morte" só para ver se eu tinha alguma inspiração, sei lá um conselho... a temperatura da sala parecia diminuir, aquela brisa que sempre me aprisionava nas visões começou a surgir e antes de emergir na visão me lembro de pensar:

"Obrigada morte por não me deixar gastar 50 dólares num livro que deve ser uma merda"

A mesma sensação de sempre: estômago revirado, mundo ficando mais cinza que café requentado, e aquela voz lá no fundo gritando: “Lá vem merda.”

E veio.

A garotinha apareceu primeiro. Cabelos embaraçados, moletom roxo com estampa de coelho. Estava no canto de um galpão metálico, sentada no chão como quem espera que alguém venha buscá-la. Só que ninguém vinha. E ela não chorava. Só olhava para frente, com olhos tão arregalados que pareciam tentar fugir do rosto.

Esperei ver sangue, um tiro, uma queda, sei lá… mas não veio. Só silêncio.

— Ué. Cadê a tragédia? — murmurei pra mim mesma, como se a visão tivesse me ouvido.

Foi aí que os detalhes começaram a surgir. As paredes de aço, o som oco do vento batendo lá fora, duas janelas pequenas — uma de cada lado do galpão, em paredes opostas. A primeira dava pra um outdoor enorme, com uma propaganda colorida e brega de um camping: Fazendinha Azul – Diversão garantida nas férias!. Um mascote de vaca sorria como se tivesse consumido algo ilegal.

Na segunda janela, uma torre. Alta, metálica, parecia de transmissão. Talvez telefone. Talvez vigilância. Talvez só estivesse ali pra parecer ameaçadora. Funcionava.

Comecei a andar na visão. Cheguei até a porta do galpão. Hesitei. Não sabia o que me esperava do lado de fora, mas parte de mim já sentia o frio na espinha.

Abri.

Dei um passo pra fora e o chão sumiu sob meus pés.

A luz mudou.

O ar era outro

O galpão ficou para trás. Agora era um lago. Calmo, quase bonito, daqueles que a gente vê em cartões-postais falsos. Mas a água estava estranhamente parada, como se tivesse medo de se mover. E foi ali que os corpos apareceram. Flutuando. Lentamente. Como folhas em uma piscina de pesadelos.

E os rostos...

Alguns eram desconhecidos. Gente que, com sorte, eu nunca encontraria pessoalmente. Mas outros... outros doeram.

Margaret estava lá. A primeira que salvei, agora estava enterrada naquele rio... a pessoa que fez toda lógica e ordem da minha vida ir por terra... ela não merecia aquele fim.

Foi para isso que a salvei?

Não me parecia justo.

E não era, não só com ela, mas com todos que estavam ali... a vida deles não foi ceifada por um acidentes, descuido ou morte natural... Alguém achou que tinha o direito de tirar os sonhos, os anos que ainda teriam de vida...* Eu os impedi de morrer antes, para agora serem enterrados como João Ninguém num fundo de um lago. Sou mesmo uma filha da puta. *

Mas uma coisa ainda me incomodava, de todas as pessoas que ajudei o Hernandez não estava em mais nenhuma visão.

Saí da visão arfando. Tentei segurar o vômito e o choro. Consegui metade. Sentei no chão, respirei fundo e começei a desenhar.

O galpão. As janelas. O outdoor. A torre. O lago.

Talvez, só talvez, tivesse alguma pista ali.

O nome "Fazendinha Azul" parecia mais nome de grupo de WhatsApp de mães desesperadas do que de camping, mas estava lá, com aquele sorriso bovino cretino estampado como selo de aprovação do inferno. Comecei a pesquisar. Nada perto de Nova York. Nem perto dos estados vizinhos, na verdade.

— Droga. — sussurrei, encarando o papel.

A garota estava em outro estado. Longe.

Mas havia algo ali. Um padrão. Pessoas que eu salvei... agora mortas. Outras que nunca vi, mas que provavelmente vou ver. E a garotinha, viva, por enquanto. Foquei ao máximo na parte dela ainda está viva.

Peguei meu telefone. Abri a câmera, mas não pra tirar selfie — infelizmente, não é esse tipo de história. Fotografei o desenho. Mandei pro Brian.

"Temos um problema. E talvez uma pista. Me avisa quando puder falar. Sem ninguém por perto."

Esperei alguns segundos antes de jogar o celular no sofá. Passei a mão na testa. Estava suando frio.

Quase uma hora depois, escuto alguém batendo na porta, deduzo que deve ser o Brian com toda a delicadeza dele que deve achar que é muito melhor bater na porta da casa de uma mulher de madrugada do que avisar a ela que estava chegando por meio de uma ligação...

— Tá. Então temos um galpão de aço, uma criança perdida, um lago cheio de corpos e um outdoor de acampamento... E eu achando que meu problema da semana seria pagar o aluguel.

— Bem-vindo ao meu mundo. A regra aqui é normalmente não tem regra, e quando você pensa que entendeu a regra, tudo muda e a regra não faz mais sentido. — disse enquanto entrego a xícara de café para ele... o sol já quase nascia e eu nem tinha pregado o olho.

Sorri, por um instante apenas por me lembrar que a menina ainda estava viva.

Aquele sorriso torto que a gente dá quando o mundo desaba, mas pelo menos ainda tem café em casa.

— A parte boa é que sabemos onde ela está a parte ruim é que saiu da minha jurisdição e vou ter que informar ao FBI o que vai dificultar em muito a sua participação. Principalmente se mandarem o grupo de perfiladores deles... digamos que eles odeiam pessoas "paranormais" intrometidas nas investigações. Para chamá-los eu teria que dizer como eu sei que ela não está mais no meu condado.

— Eu sabia que a burocracia iria dificultar e muito. Já que eles vão entrar, eu tenho que sair. Não to a fim de virar um ratinho de laboratório do FBI ou da CIA.

— Mas e se isso...

— Nem termine Brian, sei onde sua pergunta vai dar... me importo com a menina e isso ninguém pode questionar, mas eu não vou abrir minha vida para investigação. Lamento. Aqui encerra a nossa parceria.

— Pera ai... eu tenho uma fonte lá, posso tentar passar uma dica para ele e você pode fazer uma ligação anônima dando as informações...

— Vai conversando com sua fonte, mas não prometo nada...

Fui acompanhando-o até a porta até que me lembrei de perguntar:

— Alguma notícia sobre o Hernandez?

— Ah, isso eu precisava conversar com você mesmo. Que bom que me lembrou. Ele foi dado como desaparecido pela família logo depois que se aposentou. E... ao contrário do que a Sally falou, a família disse que ele não conhece ninguém em Laked Place. Acha que pode estar no fundo do lago?

— Não, nada ali me remete a ele... eu vi todos os rostos que estão lá...

— Todos? — ele pareceu bem surpreso. — Posso trazer as fotos de pessoas desaparecidas na região para você olhar? Consegue lembrar deles?

— Infelizmente sim. Vou me lembrar desses rostos para sempre...

— Ótimo, que dizer... desculpa... eu sei que é perturbador, mas eu posso juntar mais informação sobre as vítimas e tentar achar um lugar em comum na rotina delas. Isso seria um ponto importante... Eu sei que as visões são uma merda, mas talvez...

Enquanto ele falava sem parar sobre algo que já tinha parado de ouvir, eu pensei:

— E se a parede de aço fosse na verdade um container, eu escutei o vento batendo com força nas paredes, parece um lugar aberto do lado de fora... sem construções... talvez numa rodovia para ter um outdoor... e se o container e o lago ficam mais próximos do que eu imaginei?

— Container..., lugar aberto..., rodovia..., fazendinha azul..., lago..., torre — Do jeito que ele fala enquanto anota parecia muito a narração de um episódio de as meninas superpoderosas: "Açúcar..., tempero..., e tudo que há de bom"...

No meu caso esses foram os ingredientes para criar uma noite de insônia perfeita.