A Morte E A Sonhadora
9 Capítulo 09 - A Bicicleta de Julia
Notas iniciais
A casa de Julia é simples, mas muito acolhedora. Antigamente nós vínhamos depois do trabalho aqui, era muito legal! Nós dormíamos na casa uma da outra e fazíamos a comida predileta uma da outra e praticamente confessávamos coisas uma para a outra. Foi o mais próximo que eu tive de uma amizade verdadeira, na verdade, depois de ponderar agora, posso ter certeza de que é uma amizade verdadeira e que eu posso contar tudo pra ela.
Por dentro a casa, pelo que eu me lembro, é cheia de coisas recicláveis e tudo é tão colorido e aconchegante... É por isso que sempre venho na casa dela quando me sinto sozinha e sem rumo, na verdade eu sempre vou me recorrer a ela. Não consigo ignorar aquela que sempre ficou do meu lado, ela é a única que consegue ver através da barreira que coloquei em volta do meu coração . Lembro que quando éramos pequenas brigávamos por tudo, mas quando mudamos de escola começamos a nos arrepender e agora estamos juntas de novo.
_Julia_ Bati na porta e a mesma se abriu, então adentrei_ Posso entrar?
_Ai, meu Deus!_ Julia estava apenas de toalha e com uma máscara facial e fatias de pepino no rosto_ Um ladrão! Socorro!_ Ela começou a correr, mas estava cega graças as fatias de pepino.
_Julia!_ Comecei a rir da cena que seguia_ Sou eu, Alana.
_Ah, ufa!_ Ela suspirou de alívio_ Entra, deixei a porta aberta.
_Eu notei_ Eu sorria levemente enquanto fechava a porta atrás de mim_ O que está fazendo? Digo, com essa máscara facial e pepinos nos olhos... E com a porta aberta_ Eu deixei escapar um risinho, mas logo me controlei.
_Estava me “renovando”, afinal toda mulher precisa de um dia de beleza. Não é mesmo?_ Ela dizia toda cheia de pose, e eu não conseguia acreditar que era apenas aquilo_ Ainda mais quando se tem um encontro no dia seguinte...
_Com quem?_ Nunca me senti mais curiosa do que estava naquele momento.
Se querem saber, Julia tinha uma lista de relacionamentos melhor do que a minha. E eu sempre achei-a mais bonita do que eu, ninguém prefere as altas e certinhas e grossas. Julia era um doce com todos, fazia amizade facilmente. Diferente de mim, que não aguentava que as pessoas se dirigissem a mim antes de me conhecer direito, foi isso que me fez ser antissocial metade da minha vida.
_Devon, um cara de uns oito anos a mais que eu_ Dei uma risadinha.
_Oito anos?_ Me surpreendi, admito_ Nossa, eu também estou saindo com um cara e..._ Suspiro no meio da frase me lembrando do por que de estar ali_ É por isso que preciso falar contigo.
_Senta aí que nós temos o dia inteiro_ Demos uns risos e nos sentamos no sofá, jurei sentir o cheiro de biscoitos de chocolate assados, na verdade a cozinha da Julia tem esse cheiro mesmo sem os biscoitos. Isso sempre foi um mistério pra mim.
_Está bem... Eu meio que sou atrapalhada com o amor e..._ Respirei fundo antes de começar_ Lembra do diário que te contei? E te mostrei também, alias.
_Lembro, aquele que parecia um “diário de tortura bruxa”. Mas me conta como é o cara!_ Dei um meio sorriso só de pensar em seus olhos.
_Ele só fala em uma linguagem arcaica e isso me deixa muito irritada!_ Mesmo que no fundo eu goste, mas eu odeio ficar confusa então não conta. Não falei isso em voz alta_ Eu já comentei isso com ele, só que ele não me escuta! Eu também acho que ele só quer amizade e quem está se preocupando toda sou eu..._ Criando castelos no ar, literalmente.
Julia ficou boquiaberta. Eu também ficaria se eu estivesse prestando atenção no que estava falando, mas no momento isso parecia ser tão doloroso que não me importei. Quanto mais penso nele, mais penso no que ele fez pra mim. De certa forma, ele virou um grande amigo e talvez algo mais, talvez tenha virado o homem por quem me apaixonei.
_Eu ainda estou tentando entender. O que o livro tem a ver? Ás vezes eu me perco no mundo..._ Não é apenas ela que está perdida no mundo e no tempo, também estou tentando me achar, só que até agora não tive nenhum sucesso.
_É que... Eu não sei, esse livro começou a tremer do nada e agora sempre que eu o abro está em uma página diferente... Não consigo achar tudo o que li!_ Esfreguei os meus olhos por que tive a sensação de que choraria pela minha insanidade_ E ele começou a tremer quando eu estava do lado dele_ Murmurei a ultima parte, Julia só ouviu por estar muito perto de mim.
_Isso é, realmente, muito estranho. Esse livro tem algo de sobrenatural. Nenhum livro vibra igual a um celular!_ Pensando bem, a situação era até cômica.
_Ou fica quente igual a um_ Adicionei me lembrando de como estava quente quando o peguei no elevador_ Mas agora não tem jeito de estudar ele, não dá para estudar aquele livro ou te mostrar alguma coisa_ Comecei a me sentir idiota por ter o jogado fora.
_Temos que descobrir, antes que seja muito tarde. Algo quer te mostrar as páginas, tentando chamar sua atenção vibrando o livro, ou esquentando_ Ela deu um sorriso_ Me fale mas sobre o cara, ele talvez tenha muita coisa a ver com o livro.
_O que? O Náthan? Duvido, ele só... Fala meio estranho como se viesse de um ano muito antigo, é muito inteligente, também é carinhoso e preocupado comigo..._ Minha voz diminuiu até ficar um sussurro_ Só que eu joguei o diário fora.
_Mas como você teve essa coragem?_ Quase pude sentir o tapa na minha cara que aquelas palavras queriam me dar, sua voz estava indignada_ O livro estava tentando te mostrar algo, além de você ignorar, você simplesmente joga-o fora? Você ao menos sabe o paradeiro desse livro?_ Seus olhos estavam sérios e todo traço de humor havia sumido do seu rosto.
_Não, por que eu joguei-o em um caminhão de mudança!_ Fiquei assustada com a minha coragem, não havia parado pra pensar nas consequências.
_E o que você vai fazer a partir de então?_ Eu podia me sentir sendo reerguida pela Julia, podia sentir o véu da raiva se dissipando e me mostrando o quão boa eu fui.
_Ah, Julia! Eu estava ficando paranoica, ele começou a vibrar e ficar quente e me mostrar coisas e eu simplesmente joguei ele em algum lugar onde eu não o encontrasse mais!_ Bati a minha mão na minha testa, o que provocou um estalo alto_ Vou me matar.
_Não_ Ela descartou rapidamente a minha teoria de morte_ A resposta virá com o tempo. Talvez tenha sido bom você tê-lo jogado fora. Esse livro não é do bem, de jeito nenhum_ De novo a semente da dúvida foi enterrada a sete palmos a baixo da minha mente.
_Tem razão... Apareceu uma coisa na primeira página, não estava escrito apenas NML e sim NML, o bruxo da Morte. Leitura de 1800_ Encarei seu rosto pensativo procurando por alguma resposta.
_Ei_ Ela me chamou a atenção_ Vamos esquecer isso, okay?
_E 0 mais estranho é que depois que eu joguei o diário naquele caminhão, Náthan começou a me tratar... Diferente_ Confessei enquanto abraçava meus joelhos.
_Diferente como?_ Ela me abraçou e sua voz estava calma e dócil, como a de uma irmã.
_Diferente como... Sem amor_ Suspirei derrotada.
_Como eu falei, ele tem alguma relação com o livro_ Ela fez uma cara engraçada que me fez rir, mas não me senti completa como quando estava com ele.
_Não me faça pensar assim, eu já estou muito arrependida!_ Deixei minha cabeça descansar nos meus joelhos_ Parece que joguei uma parte de mim naquele caminhão...
_Se ele faz parte de você, ele vai ter de voltar_ Olhei para ela com um olhar que demonstrava dúvida_ E você vai ter que fazer algum esforço, não é mesmo?
_Está querendo dizer que eu vou ter que correr atrás de um caminhão de mudança só para pegar um diário sobrenatural por quem eu me apaixonei?_ Pisquei os olhos confusa.
_Não_ Ela começou a rir_ Eu digo, talvez se você tiver de fazer algo em busca do diário, você deve fazer isso. Não corra atrás de um caminhão de mudanças que você será atropelada_ Eu ri desse comentário, mas senti como se uma lâmpada tivesse acendido dentro da minha cabeça.
_Tem razão..._ Olhei para ela com um olhar de cachorrinho e com toda a minha confiança perguntei_ Me empresta sua bicicleta?
_Aonde você quer ir? Depende, você pode acabar sendo atropelada também. Isso não seria bom_ Me advertiu vendo que eu já havia entrado no pior estado de loucura possível.
_Eu sei andar de bicicleta_ Quando a vi hesitar, decidi pressionar_ Rápido, senão ele pode ir muito longe!
_Okay, pegue. Mas tome muito cuidado com um dos meus xodós. Amanhã te dou notícias do meu encontro e você me dará notícias de como foi a busca_ Ela aumentava o tom de voz a cada palavra por eu estar me distanciando.
_Tomarei!_ Grito enquanto corro para a garagem.
A bicicleta de Julia é uma gracinha, eu sempre adorei ela. Uma bicicleta clássica, tem uma cestinha e parece uma bicicleta francesa. Sempre me perguntei se era importada, mas nunca tive a devida coragem para perguntar.
Corri com a bicicleta e pedalei o máximo que pude. Me equilibrar era difícil, por que eu simplesmente não sei andar de bicicleta como disse pra Julia. Eu sabia ir devagar e quase parando, mas não do jeito que eu estava. Me senti a Bruxa Má do Oeste do filme da Dorothy enquanto pedalava, até podia ouvir a musiquinha do ciclone.
Depois de horas e horas pedalando e quase desistindo, achei o caminhão. Só o reconheci por causa do grande selo na traseira do carro que dizia “Hakuna Matata”. Vi que o caminhão já estava esvaziado, mas que ainda tinha uma caixa lacrada. O diário não estava ali, mas eu jurava que era esse caminhão que eu tinha jogado o diário. Quantos caminhões com o selo do Timão e Pumba podem existir?
_Olá_ Uma voz de criança foi ouvida atrás de mim_ Meu nome é Ísis, o que você quer no meu caminhão de mudança?
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