A Morte E A Sonhadora

10 Capítulo 10 - O Primeiro Diário Suicida do Mundo


Notas iniciais
Eu sei que demorei a escrever, foi mais pela falta de ideia do que por preguiça. Espero que gostem, boa leitura!

A bela menina de cabelos encaracolados ruivos presos em uma trancinha e curiosos olhos verdes me olhava atenta. Seu vestido branco com um laço laranja era divino, típico de crianças com boa vida e família estruturada. Abraçava o meu diário fortemente contra o peito como se ele fosse uma boneca, do jeito que toda criança do sexo feminino faz quando está com medo ou constrangida. Fiquei tão feliz por ela estar com o diário que ignorei sua pergunta original.

_Hein?_ Ela retornou a perguntar_ O que você está procurando?

_Ah, o meu diário que eu deixei cair no caminhão sem querer... Por coincidência é esse daí_ Estiquei minha mão para pegá-lo, mas ela o colocou atrás das costas_ Por favor, ele é meu.

_Não!_ Ela resmungou_ Ele é meu_ Sua voz estava manhosa, seria fofo se não fosse angustiosa a situação em que eu me encontrava.

_O que você quer em troca do diário?_ Perguntei docilmente_ Por favor, ele é muito especial para mim e eu daria qualquer coisa em troca.

_Hum..._ Ela colocou o dedo na boca, como se estivesse pensando. Parecia uma boneca de porcelana quando seus olhos brilhavam_ Qualquer coisa mesmo? Tudo o que eu quiser? Por que tem tanta coisa que eu quero e é difícil escolher somente uma.

_Sim!_ Me animei_ Desde que o diário seja meu e fique comigo para sempre! Combinado?

_Combinado!_ Ela sorriu e eu pude ver que ela estava banguela, que gracinha!_ Me dê sua bicicleta!

_O que?_ Parei de sorrir.

Quando ela disse isso eu automaticamente me lembrei das palavras de Julia:

“Okay, pegue. Mas tome muito cuidado com um dos meus xodós”.

O que eu faço? Opção 1: Dou a bicicleta, traio a confiança da minha melhor amiga, mas fico com o diário e volto a me sentir completa? Ou então opção 2: digo a essa menina que não, deixo a minha amiga em primeiro lugar pensando em todas as consequências e sendo alguém responsável, mas incompleta? Sempre pensei que os amigos eram muito mais importantes que qualquer relacionamento amoroso, ainda mais melhores amigos! Não posso trair a confiança da Julia assim, tenho que me lembrar de todos os momentos em que ela me colocou em primeiro plano!

Mas por outro lado, aquele diário é muito especial para mim, eu não aguento mais ficar sem ele. E Náthan, que segundo Julia parece ter algum envolvimento com o diário. Eu quero ele e o diário de volta, é isso que tem me deixado melhor e mais feliz, que tirou minha vida do stress e me fez ver o amor. Talvez não somente ver, mas sentir também. E o ciúmes que eu tive por Joana d’Arc? Aquilo foi o que? Um exemplo de amor pelo NML, que eu conheço apenas os pensamentos e nem sei se realmente existe...

_Ela é toda sua_ Depois eu vou deixar a Julia me dar uns tapas, eu estou precisando disso pra acordar para a realidade e parar de desenhar castelos no ar.

_Sério?_ Os olhos da menina brilharam de emoção_ Agora me ensina? É que eu não sei andar de bicicleta, ninguém tem tempo ou paciência para isso e...

_O que?_ Eu quase não acreditei_ Opa, era apenas uma coisa. Eu já te dei a bicicleta e já estou com peso na consciência..._ Será que ela sabe o que é consciência?

_E agora vai me ensinar a andar nela_ Seu sorriso banguela voltou ao seu rosto, mas eu me senti desanimada e traída.

_Depois disso você me dá o diário?_ Tentei dar nem que fosse um vestígio de esperança pra mim.

_Sim_ Ela colocou o diário na frente do corpo e abraçou ele contra o peito_ Prometo.

_Então está bem... Vem cá, sobe nela_ Meio desajeitada, a garotinha subiu na bicicleta apavorada_ Segura aqui, esse é o freio. E aqui você guia. Coloca o pé aqui, esse é o pedal. Coloca no outro. Muito bem, quanto mais você pedalar, mais equilíbrio terá.

_Assim? Mas eu vou cair! E se eu cair, vou me machucar e você terá que me levar no hospital...

E assim foi o meu dia inteirinho, ensinando a Ísis a andar de bicicleta e encorajando ela pra se equilibrar sozinha. Ela era corajosa e tinha um jeitinho bem orgulhoso, mas desencorajava no ultimo momento. Não conseguia tirar a mão do freio e sua maior dificuldade parecia se equilibrar. Lembro-me de quando aprendi a andar de bicicleta, na verdade foi agora pouco. Sempre tive medo de bicicletas e esportes, e não sei como consegui pedalar até aqui em busca do caminhão. Estava para desistir de ensinar a ela, pegar o diário e sair correndo quando tive uma ideia.

_Vamos apenas mais uma vez que eu já estou cansada, morta de sono e com fome_ Empurrei ela e parei de segurá-la, mas continuei atrás dela_ Está melhorando.

Ela andava sozinha, meio torto, mas ainda sim sozinha. Quando olhou pra trás e viu que eu não estava a segurando ficou apavorada e parecia que perderia o controle. Não perdeu o controle, mas ficou meio sem entender que conseguiu andar sozinha. Ela acelerou um pouco mais, e mais, e só mais um pouquinho e...

_Pronto, já sabe andar de bicicleta!_ Ela estava se divertindo tanto que se esqueceu do diário_ Ísis! O diário!

_Pega!_ Ela gritou de volta e jogou o diário na minha direção.

Acho que ela foi para algum parque ou então para casa, mas em um instante já havia a perdido de vista. O diário voo do lado da minha cabeça e fez um barulho péssimo, quando olhei pra trás vi que havia se dilacerado. Sozinho. Fiquei em choque e não consegui mais parar de olhar o diário se corroendo, ele parecia estar se suicidando ou algo do gênero.

Peguei o diário e o enfiei na bolsa. Corri o máximo que pude e comecei a me arrepender amargamente de ter jogado ele no caminhão, mais ainda de ter dado a bicicleta de Julia para a Ísis sendo que era só conversar com os pais dela e dizer que o diário é meu, algo que não é mentira. Adentrei um beco meio escuro e retirei o diário semi-destruído e suicida da minha bolsa. Peguei uma caneta que estava largada pela minha bolsa e escrevi bem grande no diário, nas folhas que ainda estavam intactas.

“Você está doido? Dei a bicicleta da minha amiga pra te recuperar e você decide virar suicida?”

Veja pelo meu lado: Se o diário é sobrenatural, talvez ele me responda ou então entenda o que eu escrevo. Se ele pode se regenerar, ficar quente como um celular, vibrar como um celular, mudar a ordem das páginas e praticamente atualiza-las, por que não poderia me responder? Senti quase um solavanco quando o primeiro diário suicida do mundo decidiu parar de se automutilar. Em letras elegantes e claramente masculinas, apareceu uma mensagem para mim como se fosse o diário de Tom Riddle:

“Não vejo o motivo disso, se queria tanto me jogar fora. Não quero mais ficar em tuas mãos, não aguento mais ter que aguentar o silêncio”.

Fiquei parada olhando para o diário e me lembrei do motivo inicial por eu ter jogado o diário naquele caminhão e tentado falhamente abandonar ele para sempre. Essas coisas sobrenaturais não fazem parte do meu ser e eu não sei se um dia vou conseguir me acostumar com isso. Escrevi com toda a sinceridade possível:

“Me perdoa, mas eu não sou acostumada ao sobrenatural. Pensei que estava ficando paranoica”.

Bem lentamente, quase despercebidas, as letras voltaram a aparecer e dessa vez pareciam mais calmas e mais amorosas, do mesmo modo que eram quando falavam de Joana d’Arc.

“Jamais repita isso”.

_Ouviu-me?_ Dei um pulo ao notar Náthan parado na minha frente_ Jamais repita isso novamente.

Fiquei sem palavras por vê-lo ali na minha frente ensanguentado. Seus olhos estavam sem o brilho divertido de sempre, não havia sorriso no seu rosto e, como disse antes, ele estava encharcado de sangue. Levantei-me correndo para ver melhor o motivo do sangue, coloquei o diário e a caneta dentro da bolsa (Sério mesmo que eu iria abandonar aquele pequeno suicida de novo?). Percebi cortes espalhados por todo o corpo dele, aranhões e até mesmo feridas abertas.

_O que aconteceu contigo?_ Não acreditava no que estava vendo_ Vem, vamos para um hospital..._ Já puxava ele para fora do beco, mas ele não deixou que eu continuasse.

_Não!_ Ele caiu de joelhos no chão por falta de força_ Se fizer isso jamais vou me restaurar, somente você tem essa regalia_ Demorei, mas entendi que regalia era a mesma coisa que “Privilégio”, “Direito”.

_Por que eu?_ Estava indignada, ele estava coberto com o próprio sangue e queria ficar escolhendo quem iria curá-lo.

_Por que você é a minha prometida. Eu sou NML. Eu sou o verdadeiro dono do diário. Eu sou o bruxo da Morte. Eu sou Náthan Mayan Lamouke. A coisa que te atacou no elevador é uma cobra. É o MordeOssos. Eu te explico tudo, mas por favor me leva para o seu apartamento e me ajuda, caso contrário eu morro!_ Seus olhos eram suplicantes e pareciam a beira da morte.

E eu estava completamente desesperada.

Notas finais
Obrigada por lerem!
Agradeço as pessoas que favoritaram a estória e que comentaram!