A Morte Das Areias do Saara

138 Uma Questão de Idade


Notas iniciais
bem vindos a mais um cap. em pleno Carnaval! uhuuul na imagem de hj: a entrada de um templo para Sekhmet com uma parede bem alta, grande e branca com vários hieróglifos pintados com várias cores. de cada lado da estupidamente alta entrada, uma enorme estátua de Sekhmet sentada com cabeça de leão. também tem um espelho d´água e várias esfinges maiores que uma pessoa ficam de cada lado da calçada que leva até a entrada do templo.

Eles são assim: Quando este grande deus os chama por seus nomes: Vinde a mim, os ocultos. Brilhe para mim (com) o braço secreto.

Vida para almas, que pousem sobre as sombras.

Vocês são aqueles que revelam o que estava escondido e colocam a imagem em (seu) lugar proibido. A você pertence a respiração da vida.

~ Fragmento de “O livro do Amduat”

Foi com uma boa dose de alívio que Ay olhou para a conclusão do que havia ordenado quando as portas se abriram. Ele deixou para os guardas do lado de fora o trabalho de segurar Anquesenamon enquanto ele se aproximava do cômodo e via a carnificina deixada para trás.

Anquesenamon chorava e sentia suas pernas fraquejando, os guardas deixaram ela ficar de joelhos no chão e Ay tranquilamente confirmava a morte do príncipe hitita.

— Cuide disso e não deixe que a rainha mande mais carta alguma. — disse Ay olhando para um guarda, que afirmou com a cabeça — Vou preparar uma carta para enviar para Suppiluliuma.

— Sim, senhor. — disse o guarda.

Ay, mostrando mais calma do que realmente estava, deixou a carnificina para trás e foi para o cômodo onde estava antes. Sua mente estava pensando em várias coisas ao mesmo tempo, todas referentes aos hititas. No cômodo onde Ay estava antes, estava um rapaz, que ao ver a aproximação do faraó, se debruçou apressadamente sobre o papiro, no qual escrevia.

— Nakhtmin! — exclamou Ay.

— Sim, Vossa Majestade. — disse o rapaz, deixando seu papiro de lado, se erguendo apressadamente da cadeira e se curvando para o faraó.

— Terminou suas atividades? — perguntou Ay.

— Quase, Vossa Majestade. — respondeu Nakhtmin.

— A essa altura já deveria ter terminado. — disse Ay — Como quer que eu te adote e te nomeie meu sucessor?

— Estou dando meu melhor, Vossa Majestade. — disse Nakhtmin, abaixando a cabeça, envergonhado pela falta de velocidade.

— Pois quero mais que seu melhor. — pediu Ay jogando-se ele mesmo sobre uma das cadeiras na mesa e logo se perdeu em pensamentos sobre se deveria mandar para Suppiluliuma algo e se sim, o quê.

Ay nem tinha se decidido ainda sobre a melhor abordagem, e dificilmente o faria logo, já que estava a meses sem conseguir decidir de vez, quando Horemheb irrompeu na sala. As portas bateram contra a parede ao serem abertas bruscamente. Cada passo pesado do poderoso general parecia que tremia o chão, como um terremoto, e quando ele gritou, sua voz tremeu as paredes.

— AY! VOCÊ É IDIOTA OU O QUÊ? — esbravejou Horemheb.

— Olá, Horemheb. — respondeu Ay, mostrando uma calma que, na verdade, não tinha em seu coração — Quanto tempo vai demorar até me tratar como o seu faraó?

— NÃO ME VENHA COM ESSA CALMARIA! — gritou Horemheb, parando diante do faraó — O QUE RAIOS PASSOU PELA SUA CABEÇA MATAR O PRÍNCIPE ZANNANZA? SABE COMO SUPPILULIUMA VAI REAGIR COM ISSO?

— Falarei que não temos nada a ver com isso. — disse Ay dando de ombros — Pessoas morrem na estrada todo dia.

— Acha que ele é idiota? — perguntou Horemheb sem conseguir acreditar em tamanho absurdo.

— Ou então pode ter se perdido no deserto… — sugeriu Ay.

— Tudo que ele precisava era seguir o Mediterrâneo e então o Nilo! — lembrou Horemheb — Não era um caminho difícil!

— Somos o Egito… — respondeu Ay — Os deuses nos protegerão.

— Você certamente é um idiota. — respondeu Horemheb.

— Tenha mais respeito! Sou o seu faraó! — exclamou Ay, fazendo Horemheb soltar uma risada.

— Claro, lembre disso quando Suppiluliuma decidir apagar o Egito do mapa! — disse Horemheb — Nosso exército não é tão forte como antes, graças à Akhenaton e você certamente não ajuda em nada. Seremos DESTROÇADOS! Antes éramos só mais um problema para Suppiluliuma, agora vai ser pessoal!

— Não irá usar isso como uma chance de investir mais no exército! — disse Ay, apontando para a cara de Horemheb — Não irei te dar mais poder e recursos pois sei bem o que fará! Tem muita sorte de eu não ordenar sua execução!

— Não é sorte… você sabe bem que não viverá para contar a história se ousar fazer isso. — respondeu Horemheb calmamente — Queria muito que estivesse pedindo mais recursos para o exército simplesmente para tomar o trono de você. Agora, graças à sua estupidez, é o Egito que corre perigo.

Era exatamente isso que assustava Ay, mas não era como se ele fosse admitir em voz alta, muito menos para Horemheb.

— O que esperava que fizesse? Que deixasse Anquesenamon se casar com Zannanza e tomar o trono para si? — perguntou Ay.

Horemheb não conseguiu responder. Achava que Anquesenamon faria um trabalho melhor do que Ay, o problema era casar especificamente com Zannanza, um príncipe hitita. Era um passo grande demais para que o Egito se tornasse parte do Império hitita.

— Que os deuses tenham piedade do Egito… — resmungou Horemheb, bem desanimado.

Não importava se Ay contasse ou não para Suppiluliuma uma mentira do que havia acontecido, alguns dias depois, uma carta bem irritada de Suppiluliuma chegou em Tebas. No meio da noite, Hórus surrupiou a carta para ler em voz alta no Salão do Julgamento para todos os deuses, já que todos estavam extremamente curiosos.

— “Eu estava pronto para enviar meu filho para ser faraó. Mas você já estava no trono e eu não sabia.” — lia Hórus — “Sobre o que você me escreveu: “Seu filho morreu, mas eu não lhe causei nenhum mal”.”

— Não… imagina… — resmungou Sobek — Ay só chamou ele pra conversar e beber. Nada demais.

— Trazendo mais problemas para a gente e esperando que tomemos conta de tudo. — reclamou Set.

— Continua… — disse Hórus — “Mas se você tivesse subido ao trono nesse meio tempo, deveria ter mandado meu filho de volta para sua casa. O que você fez com meu filho?”

— Ele deveria mesmo. — resmungou Anúbis que estava no canto sentado no chão, ao lado de Anput, enquanto Kebechet estava entre os dois, debruçada sobre um papiro no qual desenhava.

— Não aguento mais os mortais criarem os problemas e contarem com a gente para arrumar as merdas que eles fazem! — exclamou Serqet.

— As coisas vão ficar mais intensas agora na fronteira. — disse Hórus, fechando o papiro e suspirando pesadamente

— Quanto tempo Ay tem de vida mesmo? — perguntou Ptah olhando para Anúbis e Osíris — Ele é velho, afinal de contas.

— Pouco. — respondeu Osíris e Anúbis confirmou com a cabeça.

— 5 anos no máximo, na melhor das hipóteses. — completou Anúbis.

— Ele está preparando um herdeiro para nomear. — lembrou Hathor — Temos que deixar bem claro nosso descontentamento com Ay para que Horemheb seja apoiado pelos sacerdotes. Precisamos de um faraó forte, guerreiro.

— Talvez nem precisemos disso… — disse Ísis — Se o estrago que os hititas fizerem for intenso, até os sacerdotes vão ver que é hora de contar com o exército. Só espero que a memória de quando o Egito quase caiu para os hicsos não esteja assim tão apagada devido ao passar dos séculos.

— Creio que não, eles destruíram muito por onde passaram. — lembrou Osíris — Principalmente templos.

— Aposto que é sobre isso que a previsão de Nerkhbet se referia. — disse Thoth — Olha o problema que estamos entrando. Alguém discorda que o que precisamos agora é de um faraó no mínimo do nível de Hatshepsut, Khufu ou Djoser?

— Ou Tutmosis I... — lembrou Khonsu.

— Horemheb pode ser uma opção melhor do que Ay, mas está bem longe de Hatshepsut, ou Khufu, ou Djoser, ou Tutmosis I. — disse Anput.

— Poucos estão perto deles. — disse Ísis suspirando pesadamente — Nefertiti tinha potencial, apesar de tudo, infelizmente.

— Vou devolver a carta para o lugar dela… — resmungou Hórus, soltando um suspiro cansado por antecipação para o que imaginava que viria.

Tal como suspeitavam, o assassinato de Zannanza complicou muito a situação entre o Império Egípcio e o Hitita. As batalhas se tornaram constantes e eternas. Com o passar do tempo, logo Ay não estava mais lá para defender o Egito… e nem Anquesenamon, que tempos depois de sua tentativa de casar-se com o príncipe hitita, morreu misteriosamente. Ay até nomeou Nakhtmin como seu sucessor, mas diante da tamanha necessidade do Egito de um bom exército, o garoto não foi páreo para Horemheb.

Com a chegada do julgamento de Ay no submundo, Horemheb sentava no trono do Egito. Nunca antes na história egípcia até então o exército foi tão importante, ainda assim, Horemheb valorizava o lado religioso do país, e as constantes obras em Karnak eram uma prova disso. Mas só porque um general havia se proclamado faraó, não significava que os problemas do Egito haviam acabado. Os hititas eram um páreo duro e os egípcios estavam constantemente no lado perdedor das batalhas.

Sentindo que os problemas do Egito estavam longe demais de si, Kebechet e Macária se divertiam. As duas garotas, agora bem mais velhas, com 10 e 9 anos respectivamente, riam ao apostarem, em terras micênicas, uma corrida de cavalos. As duas haviam mudado muito com o passar dos anos, mas eram, aparentemente, essencialmente as mesmas. A maior diferença, além do tamanho, era que haviam investido no cuidado dos cabelos, que havia crescido bastante para ambas.

Kebechet sorria ao sentir o vento refrescante e com um leve cheiro de mar que batia no seu rosto enquanto o cavalo corria numa praia perto de um pequeno vilarejo, que um dia iria se tornar a cidade de Corinto, enquanto o sol começava a nascer.

Seu cavalo ofegava, pedindo o fim da corrida no mesmo momento que Macária alcançava Kebechet.

— Ei! — exclamou Kebechet e Macária estirou a língua para ela.

Segundos depois, Macária atravessou entre duas árvores que marcaram a linha de chegada.

— Ha! Finalmente ganhei! — disse Macária erguendo os braços em vitória e parando de correr.

— Foi sorte. — resmungou Kebechet alcançando a amiga, mas Macária simplesmente deu de ombros.

— Se acha… podemos ter uma revanche depois. — disse Macária — Mas temos que devolver logo os cavalos para os donos…

— Já tá amanhecendo… — disse Kebechet, olhando para o sol — Vamos lá.

Elas voltaram calmamente para o vilarejo, onde devolveram os cavalos para seus respectivos estábulos, deram-lhe água e um pouco de comida e logo saíram andando calmamente deixando os dois animais terem seu momento de descanso também.

— Pena que vai demorar para a gente poder correr com eles de novo. — disse Macária — Amanhã começa a época do ano que o cara começa a usar eles pra valer pra ajudar na colheita.

— Podemos tentar encontrar algum livre mais para leste… acho… — disse Kebechet — Na Ásia. Dizem que lá tem muito.

— E será que eles obedecem o suficiente para apostarmos uma corrida? — perguntou Macária.

— Hmmm… talvez não. Mas podemos tentar treinar eles! — sugeriu Kebechet pulando de alegria com a ideia.

— Podemos sim! — concordou Macária — Vou ver com meu tio se ele sabe algo que pode nos ajudar.

— Legal! Vai poder vir amanhã? Podemos ir numas dunas. — sugeriu Kebechet.

— Amanhã não. Mas depois de amanhã podemos nos ver. — garantiu Macária — Prometo.

— Até depois de amanhã então. — disse Kebechet.

As duas se abraçaram rapidamente, por um segundo Kebechet notou algo estranho, mas nada disse. Apenas soltou do abraço normalmente, deu um “tchau” breve para a amiga, e sumiu dali. Pensativa, Kebechet chegou no salão do julgamento, passou praticamente correndo pelos deuses concentrados em seus afazeres, e foi até onde Anúbis conversava com Thoth.

— Foram 213 para Ammit na última leva… — dizia Thoth mostrando sua lista para Anúbis.

— Mais que na última… — comentou Anúbis — Por isso ela está tão cheia.

— Cheguei! — anunciou Kebechet sorridentemente, acabando por tirar Anúbis da conversa.

— Se divertiu com a Macária? — perguntou ele olhando para ele com um leve sorriso.

— Sim! — respondeu Kebechet — Corremos com cavalos.

— Cuidado nessa de pegar os cavalos dos mortais… eles precisam deles. — alertou Anúbis pela terceira vez.

— Por isso estamos pensando em pegar algum cavalo selvagem na próxima. — respondeu Kebechet.

— Tome cuidado então. Na Ásia creio que tenha mais. — completou Thoth — Perto da região do povo Srubnaya.

— Onde fica isso? — perguntou Kebechet.

— À nordeste dos hititas. — explicou Thoth — Entre dois mares. Lá tem uma região que parece um pouco com as savanas que tem à sul da Núbia, só que com mais montanhas no horizonte e menos árvores.

— Hmm… — resmungou Kebechet, digerindo aquela informação — Ah! Thoth! Posso perguntar uma coisa?

— Claro… — respondeu Thoth.

— Os micênicos costumam ser maiores que os egípcios? — perguntou Kebechet — Eu ouvi Shu dizendo que os egípcios tinham não sei o que maior.

— Pare de ouvir Shu! Por favor! — implorou Anúbis com o rosto vermelho.

— Bem… — disse Thoth interrompendo a fala com uma tosse falsa enquanto tentava distrair Kebechet de exatamente o que Shu dizia que os egípcios tinham maior que os micênicos — Não é como se eu tivesse algum dado oficial sobre isso… Mas sim, aparentemente os micênicos tendem a ser um pouco mais altos, mas apenas levemente. Não é nada tão absurdo quanto os núbios. Mas em compensação, acho que ganhamos dos etíopes. Acontece, é bem normal.

— Entendi… — respondeu Kebechet, pensativa.

— Porquê a pergunta? — perguntou Anúbis.

— Ah, acho que a Macária me alcançou… mesmo eu sendo mais velha… — admitiu Kebechet um pouco cabisbaixa.

— Acontece… — respondeu Anúbis.

— Posso ir distribuir água na fila das almas? — perguntou Kebechet já pensando em outra coisa.

— Claro. — respondeu Anúbis.

— E ver as múmias? — tentou Kebechet.

— Não. — respondeu Anúbis.

Emburrada e com um biquinho, Kebechet deu as costas para os dois e foi para o lado de fora do Salão do Julgamento, para, mesmo emburrada por ainda não ter conseguido ver as múmias, distribuir água e consolo para as almas que aguardavam sua vez de serem julgadas. Anúbis ficou acompanhando a garota com o olhar e Thoth não deixou de notar o olhar de preocupação que estava estampado no rosto de Anúbis.

— Eu conheço esse olhar… — disse Thoth — No que está pensando?

— Anput acha que Kebechet não cresceu tanto assim esse ano… — admitiu ele — É meio difícil de notar algo gradual e pequeno assim, mas… essa de Macária ter alcançado ela me fez pensar sobre isso.

— Pode não ser nada ou só impressão de vocês… — sugeriu Thoth, embora também não parecesse acreditar 100% nas próprias palavras — Ou… será que ela vai se juntar a Ihy e não ficar mais velha do que já está? Afinal… mãe é mãe… e se Anput notou algo…

— Existe algum jeito de descobrir? — perguntou Anúbis, olhando para Thoth esperançoso.

— Sem ela desconfiar? — perguntou Thoth.

— Preferencialmente. — respondeu Anúbis e Thoth suspirou pesadamente.

— Vou tentar pensar em algo. — garantiu Thoth — Mas pode simplesmente esperar também, por mais agoniante que seja. Não é como se tivesse algo que possamos fazer e disso eu tenho certeza. Sabe como, no geral, ainda somos difíceis de entender. Pegue Ihy por exemplo, ele também parou muito cedo. Bem, você parou um pouquinho cedo também. Não tanto quanto ele, claro. Se for comparar com os mortais… não é uma mera questão de aparentar uma idade ou não. Veja você, já está caminhando para os 2000 anos e ainda é…

— Ainda sou o quê? — perguntou Anúbis encarando Thoth, que desistiu de continuar sua frase por uns segundos, mas logo tentou parafraseá-la.

— Não se ofenda… — pediu Thoth.

— Depende do que vier depois… — ameaçou Anúbis.

— Não é uma mera questão de ‘viver mais’, paramos de envelhecer em vários sentidos, se não todos. Pelas minhas pesquisas, um cérebro mortal normal se desenvolve até os 20 anos de idade. — explicava Thoth começando a temer a escolha de palavras — Você parou de envelhecer antes disso, talvez… explique porque… mesmo com quase 1800 anos… você ainda seja… meio… temperamental e… impulsivo… como um jovem.

Anúbis encarou Thoth por alguns segundos, mas nada disse além de:

— Vou conversar com Anput. — garantiu Anúbis, enquanto Thoth segurava um suspiro de alívio.

Anúbis cumpriu sua promessa para si mesmo e, assim que Anput chegou, conversou com ela longe dos ouvidos de Kebechet. Os dois conseguiram enganar Kebechet o suficiente para marcar em uma pilastra qualquer o ponto que a cabeça da menina alcançava, e deixaram por isso mesmo por uns dias, afinal precisavam do tempo para confirmar ou negar suas preocupações.

Infelizmente, logo as suspeitas dele se confirmaram. O traço que eles marcaram na pilastra continuava fidedigno com a altura de Kebechet mesmo quando ela completou 11 anos. Um ano de averiguação podia não ser muito, mas crianças são para crescer rápido. Assim, quando foram checar a altura de Kebechet quando ela completou 11 anos, acharam que talvez era hora de ter uma conversa difícil.

— Porquê não mudou? — perguntou a menina, olhando para o traço na pilastra.

— Keb… — começou Anúbis, agachado na frente de Kebechet junto com Anput, sem saber bem para onde ir no resto da frase — Como sabe… nós… temos algumas diferenças com os mortais.

— Sei… — respondeu Kebechet enquanto Anput acariciava a bochecha da menina — A gente vive um bocado mais e não morre tão fácil.

— Isso. — confirmou Anput — Os mortais nascem, crescem até ficarem bem velhinhos, se derem essa sorte, com cabelo branco, rugas e tudo mais, e então morrem.

— A gente não fica velhinho… — disse Kebechet.

— Sim… nós paramos de envelhecer… — disse Anúbis — É complicado… às vezes depende de como está o Egito, afinal dependemos muito disso, e deuses estrangeiros têm os próprios sistemas também…

— Ihy parou bem jovem, por exemplo. — lembrou Anput — Não só em aparência, seu coração também é jovem. A mamãe e o papai também pararam meio cedo… não tanto quanto Ihy, mas… ainda mais cedo que geralmente o resto de nós para.

— Eu… não vou mais crescer? — perguntou Kebechet.

— Provavelmente… não… — disse Anúbis lentamente, bem atento aos olhos da filha.

— Eu vou ser criança pra sempre, que nem o Ihy? — perguntou Kebechet mais uma vez.

— Sim… — disse Anput cautelosamente, mas com uma centelha de esperança de ela lidar melhor com isso sob a ótica do ‘ser criança’ do que a do ‘não crescer mais’.

— Por isso a Macária passou de mim… — concluiu Kebechet, em outra situação, Anúbis e Anput estariam orgulhosos dela ter sido inteligente para juntar os pontos, mas agora só estavam preocupados com a reação dela.

Ao primeiro sinal de lágrimas se formando nos olhos de Kebechet, Anput imediatamente a puxou para um abraço. A deusa apoiou a menina em seu peito, abraçando-a bem apertado enquanto Kebechet deixava, silenciosamente, as lágrimas rolarem por seu rosto. Anúbis logo se juntou ao abraço também, e os três ficaram ali, em silêncio, aproveitando o calor do abraço, enquanto a menina ainda tentava processar e entender tudo.

— Você vai ficar bem… — dizia Anput para Kebechet — Nunca vai estar sozinha.

— Mas a Macária vai ficar grandona e eu não, né? — perguntou Kebechet.

— É… — disse Anúbis suspirando pesadamente, nunca havia tido uma conversa tão difícil — Mas pode continuar brincando com ela…

— E eu nunca vou ver as múmias, né? — perguntou Kebechet.

— Vai sim. — garantiu Anúbis — Não tem nada a ver.

— Promete? — perguntou Kebechet.

— Prometo. — disse Anúbis, olhando para Anput em busca de aprovação e ela afirmou com a cabeça — Vai me ajudar como sempre pediu.

Como promessa era dívida, para alegrar um pouco a menina, Anúbis viu-se impelido a cumprir sua promessa imediatamente. Com a menina ainda um pouco chorosa, eles foram para o corredor que levava até a sala das múmias.

— Espere um pouco… — pediu Anúbis entrando sozinho na sala das múmias.

Kebechet afirmou com a cabeça e olhou para a mãe, que passou carinhosamente a mão pelos seus cabelos trançados. Enquanto isso, dentro da sala de múmias, Anúbis olhou para a dezenas de corpos em diferentes estados de mumificação que tinha e suspirou profundamente. Pensava em algum jeito de deixar a cena o menos macabra e pesada possível.

Assim, ele desapareceu com quase todos os corpos. Deixou apenas um corpo ali, o de uma moça, sem nenhum ferimento exposto, que não havia começado ainda a mumificação e que até parecia dormir tranquilamente. Acendeu então alguns incensos, para diminuir ao máximo possível o cheiro de morte, e voltou para a entrada da sala.

Ele parou diante de Anput e Kebechet e falou calmamente.

— Temos que fazer um acordo primeiro. — disse ele.

— Qual? — perguntou a menina.

— Temos algumas condições… ao menos por enquanto. — disse ele — A primeira, e a mais importante de todas, é que se você se sentir mal, ficar com medo, nojo ou qualquer coisa, e quiser sair ou respirar um pouco, você vai falar. Combinado?

— Combinado. — disse Kebechet.

— Segundo, você não vai fazer nada que eu não deixar. — continuou Anúbis.

— Não vou. Prometo. — prometeu Kebechet.

— E se achar que não está aguentando, não precisa se forçar. — pediu Anúbis — Não vai ser a última chance de tentar ver as múmias.

— Tá bom. — disse Kebechet, suspirando aliviada quanto a isso.

Anúbis então virou o corpo, abrindo caminho para Kebechet para dentro da sala das múmias e indicando com o braço a única pessoa que havia deitada ali. Kebechet entrou num misto de fascínio e intimidação, sempre com Anput seguindo-a a cada passo e com os pais prestando atenção em cada emoção dela.

Kebechet parou ao lado da falecida moça, e a fitou demoradamente. A jovem parecia dormir lá, deitada na pedra dura e fria que Anúbis usava para a mumificação.

— Qual o nome dela? — perguntou Kebechet.

— Irunefer. — respondeu Anúbis.

— O que aconteceu com ela? — perguntou Kebechet.

— Ela morreu no parto. — explicou Anúbis — Muitas mortais morrem quando estão tentando ter um bebê, infelizmente.

— O bebê ficou bem? — perguntou Kebechet, olhando para Anúbis preocupada.

— Sim. — respondeu ele com um pequeno sorriso — Ainda é pequeno, e vai ter que se esforçar para crescer, mas está vivo e sendo bem cuidado.

— Eu posso ajudar a mumificar ela? — perguntou Kebechet.

— Eu estava pensando… como você gosta de levar água para as pessoas da fila, pensei que poderia me ajudar no primeiro ritual. — sugeriu Anúbis, ainda bem inseguro — Se quiser…

— O ritual de limpeza e purificação! — exclamou Kebechet, acertando em cheio.

— Isso. — afirmou Anúbis.

— Era esse que eu queria mesmo. — disse Kebechet invocando em suas mãos uma jarra cheia de água, a qual segurava com dificuldade devido ao peso da água.

— Ah não… tem que ser uma água específica. — disse Anúbis assim que viu o jarro — Água sagrada. O que significa…

— ÁGUA DO NILO! — exclamou Kebechet, imediatamente sumindo de lá para pegar a água do Nilo.

Anput e Anúbis se olharam, aliviados pela expectativa de ajudar na mumificação ter tranquilizado a garota, mas ainda não inteiramente felizes.

— Poderia ser pior… — disse Anput.

— Poderia… — concordou Anúbis — Vai ser quando Macária ficar adulta.

— Não quero nem pensar nisso. — disse Anput — Acha que vale a pena falar com ela? Digo, com Macária.

— Não sei… talvez… — disse Anúbis suspirando pesadamente.

Alguns minutos depois, Kebechet voltou com sua jarra pesada repleta de água do Nilo e a aula continuou. Não avançaram para as etapas seguintes, pois já seria pedir demais e, felizmente, Kebechet já achava uma grande vitória até onde tinha chegado. Depois disso, Kebechet foi brincar e conversar com Ihy, aquele que mais entendia pelo o que ela passava ou iria passar. E assim, Anúbis aproveitou a deixa para ir falar com Hades.

— Então… — disse Hades já no meio da conversa enquanto os dois fitavam, um terreno baldio rachado, com rios de lava, cactos, rochas e gritos dos mortais que estavam sendo punidos no submundo micênico — Kebechet aparentemente não envelhecerá mais?

— É o que parece… — disse Anúbis, agradecendo silenciosamente por Hades ter entendido na primeira explicação.

— Uma pena, ela e Macária se dão tão bem. — disse Hades.

— Não tem porquê isso mudar… — disse Anúbis, mais esperançoso do que confiante disso, e o olhar que Hades lançou para ele confirmava que também duvidava disso.

— Dificilmente um adulto e uma criança conseguem ter um relacionamento de mesmo nível. — disse Hades — Não sei como te aturo.

— O que está insinuando com isso? — perguntou Anúbis encarando Hades de volta.

— Que é um pirralho. — disse Hades, dando de ombros.

— Eu sou mais velho que você. — lembrou Anúbis.

— Irrelevante. — disse Hades — É um moleque.

— Macária é menos irritante e egocêntrica, sem dúvida. — disse Anúbis — Puxou mais Perséfone na personalidade.

— Está me chamando de irritante e egocêntrico? — perguntou Hades.

— Acho que meu micênico está bom o suficiente para acertar as palavras. — disse Anúbis.

— Não sou como Zeus. — disse Hades, começando a aparentar irritação.

— Ah tenho que concordar nisso… Zeus é extremamente pior. — disse Anúbis — Verdadeiramente insuportável e arrogante.

Ouvir Zeus ser xingado melhorou um pouco o humor de Hades e isso, com o detalhe de um grito bem agudo vindo dos Campos de Punição, fez ele abrir um pequeno sorriso de canto.

— Você realmente gosta de ouvir esses gritos? — perguntou Anúbis.

— Entenderia se deixasse seus mortais a serem punidos assim tão perto. — garantiu Hades — Em vez de só dar para Ammit devorar ou ser criativo às vezes, mas deixando-os bem longe.

— Não acho… — disse Anúbis — Mas então… acha que pode falar com Macária? Não queria que as duas deixassem de ser amigas por causa disso.

— Falo. — disse Hades — Mas sabe que não vai ser fácil para elas né?

— Sei… — admitiu Anúbis suspirando pesadamente — Mas pelo menos elas vão ter alguma pouca ideia pelo menos do que pode vir de dificuldade… e Macária é uma boa garota.

— Ela é… — sussurrou Hades mais para si mesmo do que como resposta.

Certamente não foi fácil para as duas, principalmente para Kebechet, que via sua amiga crescendo a cada ano que passava. Mas Macária sempre lembrava Kebechet, que iria ser sua amiga para sempre.

Foi um passar de anos com trancos e barrancos, que Kebechet acabou encontrando em Ihy e na ajuda com a mumificação duas boas fontes de apoio, especialmente quando Macária começou oficialmente a trabalhar com o pai como a deusa da boa morte.

Macária levava a morte para pessoas cuja hora havia chegado no momento que dormiam ou que estavam num estado de paz e calmaria. Enquanto Kebechet logo se viu como sendo aquela que refresca e purifica, orgulhosamente responsável pelo ritual de purificação e limpeza do corpo do falecido, fortalecendo o corpo contra corrupção e, de quebra, ainda dava água e tranquilidade para os espíritos que esperavam o julgamento.

A prova da passagem do tempo era tanto o envelhecimento de Macária quanto o do pequeno Seti, filho de Paramessu. Seti agora nada tinha de pequeno. Havia se tornado um jovem rapaz, alto, forte, ruivo, com um grande nariz aquilino, como o do pai, e não menos importante, recém-casado.

No meio de tantas emoções e passagem do tempo, contudo, o problema hitita ainda era uma constante. Dezenas de vidas egípcias haviam sido perdidas, mas ao menos a fronteira se mantinha suficientemente estável. Os núbios começavam a serem esquecidos como os inimigos de mais longa data dos egípcios, e por todo o Egito, o ódio e aversão era dirigido para praticamente um só povo, os hititas, que haviam tomado o lugar nada honroso de maiores inimigos do Egito.

Mas os problemas nunca andam sozinhos, pois um dia, em 1304 a.C, Seth irrompe no Salão do Julgamento, pálido de medo e assombro, gritando a plenos pulmões para todos que olharam preocupados e curiosos para o motivo de tão repentina chegada.

— AMON-RÁ SUMIU! — gritou Seth.

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL ** A carta que o Hórus leu é original. O povo Srubnaya que o Thoth mencionou, é descendente de outros povos mas ainda está aberto a disputa se eles se originaram no leste, no oeste ou onde hoje é o irã. Ocuparam uma área que corresponde à parte da Rússia, Ucrânia e Cazaquistão. Especificamente entre o Mar Negro e o mar Cáspio e um pouco mais ao norte de ambos, uma região que faz parte do que é chamado de Cáucaso. O Cáucaso é uma região da Eurásia compreendendo principalmente Armênia, Azerbaijão, Geórgia, partes do sul da Rússia e uma pequena parte do nordeste da Turquia. Historiadores suspeitam que é de onde, séculos atrás do ponto que estamos da história, os hicsos (e ancestrais do Paramessu) vieram. Também é daí que vem o termo ‘caucasiano’. MUITO importante esse último parágrafo para não virem me acusar depois de white-washing quando um certo personagem aparecer kkk sim, é pelo cérebro não completamente desenvolvido de adolescente que adolescente é como é kk ps: GENTE EU TINHA Q PARAR A KEBECHET ALGUMA HORA KK DESCULPA KKK BOTA A CULPA NA SADIE KKK **** REFERÊNCIAS **** Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810 Carta de Anquesenamon para os hititas - https://ancientegyptonline.co.uk/suppiluliuma-letter/#:~:text=The%20Egyptian%20queen%20answered%20my,and%20I%20have%20no%20son. Kebechet - https://www.worldhistory.org/Qebhet/ Srubnaya - https://en.wikipedia.org/wiki/Srubnaya_culture Ihy - https://en.wikipedia.org/wiki/Ihy cérebro adolescente - https://www.healthychildren.org/English/ages-stages/teen/Pages/Whats-Going-On-in-the-Teenage-Brain.aspx