A Morte Das Areias do Saara

139 Aquele Com o Nome do Deus


Notas iniciais
bem vindos a mais um cap! yeey!! aproveitem

Estas são imagens escondidas por Horus.

Eles estão no segundo portão da escuridão unificada.

Nos caminhos proibidos de Sais, quando este deus os chama (e) então suas cabeças secretas aparecem depois que eles engolem suas imagens novamente.

~ Fragmento de “O livro do Amduat”

Os deuses olharam para Set surpresos e em choque, tentando digerir aquela informação que ele tinha simplesmente jogado contra eles. Parecia algo tão amedrontador pensar que Amon-Rá tinha sumido, que os deuses ali presentes torciam para Set anunciar que era apenas uma pegadinha. Contudo, além dessa possibilidade não fazer tanto sentido, todos bem sabiam que Amon-Rá, na falta de uma palavra melhor, parecia estar lentamente caducando cada vez mais a cada década.

— COMO ASSIM AMON-RÁ DESAPARECEU?! — esbravejou Horus indo a passos pesados até Set.

— Não o encontro em lugar nenhum! — explicou Set, também não muito calmo.

— Se isso for outra de suas artimanhas…. — ameaçou Hórus.

— Sabe bem que não brinco nem ouso tramar nada quando se trata de Amon-Rá. — defende-se Set.

— Isso é verdade. — interveio Osíris — Além disso, ele ainda está magicamente ligado em servitude à mim.

— Infelizmente… — resmungou Set entredentes.

— Felizmente — corrigiu Horus encarando Set.

— Não temos tempo para essas briguinhas de vocês. — lembrou Isis — Temos que procurar Amon-Rá o quanto antes!

— Aqueles que podem se transformar em pássaros poderiam varrer os céus. — sugeriu Hathor — Por terra aqueles que se transformam em animais com ótimo olfato.

— Acho que vale a pena varrer o submundo também ... — disse Anúbis em dúvida entre onde seria mais útil, entre o submundo que conhecia e a terra onde o olfato de chacal já tinha se provado útil para achar os pedaços de Osíris.

— Eu posso vasculhar o submundo. — interveio Néftis.

— Ammit pode ajudá-la. — ofereceu Anúbis.

— Eu e Hapi podemos ver o Nilo e suas margens. — sugeriu Sobek.

— Posso ver o mar. — ofereceu-se Tefnut.

— Posso ajudar também? — perguntou Kebechet só para os pais ouvirem.

— Podemos ir juntas. — sugeriu Anput, passando a mão pela cabeça da menina, que sorriu em resposta.

Logo cada deus foi tomando para si, em voz alta ou não, algum lugar para olhar por Amon-Rá até que ninguém restou no Salão do Julgamento além de Osíris, incapaz de sair de lá. Todo deus foi para algum lugar procurar Amon-Rá, fosse esse deus importante ou não. Eles queriam ter certeza de que cada pedaço do Egito seria vasculhado.

Enquanto isso, em Tebas, mais um dia se acabava sem nada de muito diferente. Nos fundos da grande casa que pertencia a Paramessu e sua família, o agora não tão pequeno, Seti, já um jovem de quase 19 anos, aproveitava a brisa fraca da noite para fazer um último treino antes de dormir.

O suor do exercício físico escorria pelo seu corpo de um tom levíssimo de pardo e pingava pelo grande nariz aquilino que havia puxado do pai. A cada movimento que fazia com sua espada contra um boneco de feno feito amarrado ao redor de uma alta tamareira, seus cabelos ruivos balançavam. Seti treinava seus golpes contra o pobre boneco, ciente de que tinha que ficar forte. O conflito com os hititas no nordeste do Egito estava ceifando muitas vidas, de ambos os lados, e ele logo iria se juntar a linha de frente. Havia uma grande tensão nos egípcios em não deixar os hititas avançarem, o que não estava sendo fácil. Repentinamente então, Seti parou seu treino ao sentir que não estava sozinho.

Seti achou que poderia ser sua esposa ou seus pais chamando-o para entrar, limpar-se e dormir, mas quando olhou para trás, viu um homem. O homem era alto e indiscutivelmente forte, mas mais importante que isso, olhar para ele fazia os pelos da nuca de Seti se arrepiarem.

Na sua boca morria a pergunta não dita de "quem é você?". Ao invés disso, os joelhos de Seti tremiam e ele sentia, mesmo sem poder entender ou explicar, que estava diante de algo grandioso demais. Como se precisasse ainda de qualquer confirmação, a silhueta do homem imitou um brilho dourado, contornando-o em meio à crescente escuridão.

Os joelhos de Seti cederam e ele se ajoelhou humildemente abaixando a cabeça no processo. Sua espada caiu no chão, tilintando, e o rosto dele estava pálido como a lua. Tentando entender o que acontecia ali, Seti não teve coragem de olhar para outro lugar com exceção das próprias mãos, então assim permaneceu quando o homem tocou-lhe a cabeça.

— Está tudo bem. — disse o homem — Eu sou Amon-Rá.

Seti engoliu em seco. Milhares de perguntas surgiram em sua mente, mas a única coisa que conseguiu dizer foi:

— Porquê? E-Eu não sou digno de vossa presença… — gaguejou Seti, não ousando tirar o olhar do chão.

— Erga os olhos… É digno sim. — pediu Amon-Rá lentamente, esperando uns segundos enquanto Seti juntava a coragem para olhar para o deus — Eu preciso de você para salvar o Egito.

— E-Eu? — gaguejou Seti incrédulo, com olhos arregalados ainda sentindo que não deveria estar assim, tão casualmente, olhando para Amon-Rá.

— Você. — confirmou Seti.

— Mas eu sou só um soldado qualquer… — disse Seti.

— Não por muito tempo. — disse Amon-Rá, apesar de Seti não ter entendido o que ele poderia acabar virando que não um soldado. Só pensava que talvez um general ou comandante, considerando que deveria herdar o posto do pai eventualmente e, imaginando os questionamentos que surgiam na mente de Seti, Amon-Rá simplesmente respondeu — Não posso contar mais que isso.

— O que eu puder fazer pelo Egito… — disse Seti — Irei para a guerra mesmo em uns dias.

— Eu sei. — disse Amon-Rá — Irei com você.

— I-Irá comigo? — perguntou Set, incrédulo.

— Sim. — disse Amon-Rá — Mas temos algo a tratar antes também.

— Temos? O quê? — perguntou Seti.

— Para isso, antes vamos ter que nos unir. — explicou Amon-Rá, estendendo a mão para Seti — Se assim concordar.

Sem entender plenamente as palavras, Seti olhou para a mão de Amon-Rá tentando processar todas aquelas palavras. Lentamente, quase parando, Seti ergueu sua mão para pegar na mão do deus. Contudo, faltando apenas poucos centímetros para as duas mãos se tocarem, o barulho de alguém se aproximando atraiu a atenção dos dois.

Tanto Amon-Rá como Seti olharam para a direção do som, e viram um grande chacal negro. Seti ficou tenso. Não precisava de muito para entender que aquele não era um chacal normal, até porque nunca havia visto um chacal daquele tamanho e completamente negro.

— Confie em mim, sim? — pediu Amon-Rá, olhando para Anúbis.

Anúbis ficou em dúvida do que fazer. Obviamente, era Amon-Rá e com base nisso, ele deveria confiar no motivo que levava aquela cena inteira a acontecer. Contudo, já havia algum tempo que Amon-Rá não estava num estado normal de consciência. Será que naquele momento ele estava normal ou não?

— Eu estou bem. — garantiu Amon-Rá, notando a dúvida refletindo nos olhos de Anúbis.

Sem esperar uma resposta de Anúbis, Amon-Rá voltou a olhar para Seti. Os dois se olharam e Amon-Rá sentiu uma centelha de felicidade ao notar a determinação no olhar de Seti.

— Aceita? — perguntou Amon-Rá.

— Sim. — respondeu Seti.

Amon-Rá sorriu e antes mesmo de as duas mãos fazerem qualquer contato físico, o deus sumiu e então Seti sentia um formigamento em sua nuca e uma sensação estranha, como se não estivesse sozinho. Seti ofegava, assustado, sentindo o corpo pesado e tentando se acalmar em meio a tudo que havia acontecido.

Presenciando toda a cena, Anúbis deixou sua forma de chacal de lado e, com sua forma mais humanóide, foi andando até diante de Seti no mesmo segundo que um abutre pousou no teto da casa de Seti. Anúbis olhou com o canto do olho para o abutre, reconhecendo Nekhbet imediatamente, mas não pensou muito sobre. Afinal, todos haviam ido procurar por Amon-Rá também. Provavelmente a área de busca dele havia simplesmente coincidido com a de Nekhbet e ela acabou por encontrar Amon-Rá quase ao mesmo tempo que ele.

— Você está bem? — perguntou Anúbis para Seti.

— E-Eu… — começou Seti a dizer mas ele foi interrompido por Nekhbet.

— A jóia do Nilo pode ter seu fim derradeiro… — disse Nekhbet — A não ser que confiem e aceitem, todos, o semi-deus filho do deus do grande sol. Filho de um faraó poderoso, portador do nome sagrado de um deus, com sucesso no estrangeiro.

— Sua profecia? — perguntou Anúbis meio em voz baixa, mais para ele do que para Nekhbet, era a primeira vez que ouvia o texto completo da profecia que Anput lhe contou que Nekhbet fez tantas décadas atrás.

— Com sua coragem e habilidade, ele libertará o Egito das sombras da crueldade. — continuava Nekhbet — Os inimigos tremerão diante de sua presença, sua fama se espalhará pelo mundo. Com a força de um leão, ele liderará o seu povo e ele será o maior de todos.

Seti e Anúbis ficaram em silêncio, ambos olhando para Nekhbet. Anúbis engoliu em seco antes de conseguir falar qualquer coisa para Nekhbet.

— Você… tinha contado essa segunda parte para alguém antes? — perguntou Anúbis.

— Ela veio a mim agora. — respondeu Nekhbet.

— Você sabia que Amon-Rá estava aqui… — concluiu Anúbis.

— Sabia. — respondeu Nekhbet.

De repente, Seti deu um grito e segurou firmemente a sua cabeça, tampando seus ouvidos.

— Q-Que voz é essa dentro da minha cabeça!? — gritou ele com o olhar esbugalhado para Anúbis e Nekhbet — O que fizeram comigo!?!

— Claro que ele não explicou direito… — resmungou Anúbis — Seti… calma… está tudo bem…

— Vou chamar Ísis… — disse Nekhbet e Anúbis agradeceu silenciosamente, pois ia pedir para ela fazer justamente isso.

— Essa voz dentro da sua cabeça é Amon-Rá. — explicou Anúbis para Seti — Foi isso que ele quis dizer com vocês se juntarem. Ele está aí dentro de você e está falando com você provavelmente.

— A-Ah… — disse Seti ainda meio inseguro até ouvir uma movimentação vindo de dentro da sua casa, provavelmente por causa do grito que deu.

— Seti? — disse uma voz feminina de dentro da casa.

— Invente uma desculpa e fale que está tudo bem. — pediu Anúbis rapidamente — Faça ela ir embora.

Por um segundo, foi muita informação para Seti. Ele repentinamente não conseguia mais ver Anúbis, em sua mente, Amon-Rá sussurrou “Faça o que ele disse” e então, de dentro da casa, apareceu sua esposa, Tuya, carregando nos braços a primeira filha do casa, Tia, com apenas 1 ano.

Tuya era bela, tinha um longo e volumoso cabelo negro preso em várias trancinhas e a pequena Tia estava já sonolenta no colo da mãe, pousando a bochecha em seu ombro e enchendo-o de baba. Provavelmente a menina tinha acabado de acordar de seu sono, já que quando Seti saiu para treinar, ela estava dormindo tranquilamente.

— Querido, está tudo bem? — perguntou Tuya.

— S-Sim… — disse Seti tentando pensar desesperadamente numa mentira.

— Ouvi gritos… — continuou Tuya.

— Diga que levou um susto… — sussurrou Amon-Rá na mente de Seti.

— Eu levei um susto. — justificou Seti.

— Susto? — perguntou Tuya.

— É… Eu… — disse Seti lentamente, montando sua mentira — Eu tinha parado um pouco para descansar… Sentei no canto e aí apareceu um escorpião do nada. Mas já lidei com ele.

— Hmm… — disse Tuya olhando ao redor, em busca de algo, não parecendo acreditar tanto assim na história do marido — Entre para banhar-se e descansar então. Chega por hoje. Queremos te aproveitar enquanto não vai para a guerra de novo.

— Já vou. — garantiu Seti — Só mais um pouco.

— Lembre que está me devendo. — disse Tuya dando uma piscadela que fez Seti corar, por saber que eles não estavam tão sozinhos quanto ela imaginava.

— Irei resolver isso antes de partir sem dúvidas… — disse Seti enquanto sua esposa dava as costas e voltava para dentro da casa.

Seti suspirou aliviado e então, quando já estava tudo solitário o suficiente, Anúbis reapareceu e, pouco depois, Ísis acabou surgindo também e se juntando à comoção.

— É mesmo verdade o que Nekhbet me disse? — perguntou Ísis.

— Se o que ela disse foi que Amon-Rá se fundiu com o filho de Paramessu e que provavelmente o filho dele é o faraó da profecia, então sim. — disse Anúbis.

— Meu filho vai ser o quê!? — exclamou Seti.

— Se gritar de novo sua esposa vai voltar… — alertou Anúbis.

— Como assim meu filho vai ser faraó… e de uma profecia…? — perguntou Seti, dessa vez, aos sussurros — Aliás… nem filho tenho! Só filha!

— Ainda. — corrigiu Ísis.

— Vamos resolver isso antes de você ir para a guerra. — explicou Amon-Rá.

— Hórus e Thoth estão tentando impedir os outros de virem até aqui, para controlar o caos… — explicou Ísis olhando para Anúbis, que olhou para o céu e notou os dois voando em círculos ao redor da casa — Mas verdade seja dita, eles também estão doidos para virem até aqui e entender tudo isso.

— Isso é muito pra uma noite só… — resmungou Seti.

— Pois respire e tome seu tempo. — pediu Ísis firmemente — Você vai para a guerra em alguns dias e, pelo o que parece, tem que ir muito bem nela e, antes de ir, preferencialmente engravide sua esposa.

— Sem pressão… — resmungou Anúbis.

— Vou ficar com Amon-Rá na minha mente pra sempre? — perguntou Seti, ainda com as mãos na cabeça.

— Isso é ele quem decide. — explicou Ísis, dando de ombros — Sei que é muito para processar agora. Muitos têm dificuldade em lidar com a mente não estar mais tão sozinha. Mas você já está indo bem.

— O que eu tenho que fazer agora? — perguntou Seti lentamente abaixando as mãos e respirando fundo, tentando-se acalmar.

— Siga com sua vida, escute Amon-Rá… — sugeriu Ísis — Escute sua esposa e vá descansar por hoje. E não conte para ninguém que Amon-Rá está dentro de si.

— S-Sim senhora… — disse Seti.

Ísis então olhou para Anúbis e disse:

— Vá para o submundo e atualize todos disso enquanto peço para Hórus e Thoth para continuarem afastando os outros daqui para que ele possa ter uma noite tranquila. — disse Ísis.

Anúbis afirmou com a cabeça e, assim como ela disse, foi para o submundo. No Salão do Julgamento, tudo estava um completo caos. Aparentemente, Nekhbet já tinha compartilhado o que tinha acontecido, pois Anúbis ouvia os nomes de Seti, Amon-Rá e Paramessu para todos os lados com todos os deuses falando ao mesmo tempo.

— Imagina! Um faraó usando meu nome! — exclamava Seth orgulhosamente.

— Para Seti ser um faraó com sucesso no estrangeiro, e o filho dele também ser faraó, o trono tem que chegar na família dele… — falava Sobek — Será que vão dar um golpe em Horemheb?

— Horemheb e Paramessu se dão bem… — lembrou Tefnut — Horemheb deve declarar Paramessu como o herdeiro dele.

— Melhor ele fazer isso logo então… — resmungou Min.

— Ou então Amon-Rá quer que Seti faça um golpe de estado… — ponderou Sobek.

— Sabia que não ia ser Hatshepsut a da profecia… — dizia Shu.

Quando viram Anúbis surgindo, uma onda de deuses sairam correndo em direção à ele querendo saber de informações mais atualizadas ainda. Mas todos estavam falando tanto ao mesmo tempo, que ele não entendia nenhuma palavra. Os pedidos por novidades só foram se acalmar porque Kebechet se esgueirou entre os deuses, até engatinhando entre as pernas de uns, até ficar entre o pai e os imortais curiosos e começar a gritar para que todos a ouvissem:

— UM DE CADA VEZ! UM DE CADA VEZ! UM DE CADA VEZ!

— É! UM DE CADA VEZ! — gritou Ihy se juntando ao coro de Kebechet.

As vozes de uns foram morrendo até os deuses se mostrarem civilizados o suficiente para perguntarem as coisas mais ou menos um de cada vez. Mas na verdade, três ou quatro de cada vez, o que pela situação, era um recorde.

— Lady Ísis vai ficar por lá? — perguntou Ptah.

— Seti já sabe da profecia? — perguntou Bes.

— Hórus ficará por lá? — perguntou Hathor.

— Acho que não. Sim. Sim, ao menos por hoje. — dizia Anúbis tentando responder as perguntas que conseguia distinguir em meio a bagunça.

— Amon-Rá ficará com Seti só até ele engravidar a esposa? — perguntou Tawaret.

— Falaram para Seti que ele vai ter que dar um golpe no Horemheb? — perguntou Sobek.

— Já podemos ir lá ver o garoto? — questionou Hathor.

— Seti perguntou porque não era eu a ir me fundir com ele? — perguntou Seth..

— Não. Não…? Não… — respondeu Anúbis para cada pergunta só revirando os olhos para a de Seth.

— Sei que estamos todos cheios de questionamentos e inseguranças… — disse Osíris fazendo a voz poderosa se sobressair das demais, o que fez todos se calarem — Mas temos que ter calma. Deixem Seti descansar por hoje, afinal deve ter sido um dia muito intenso para ele. Amon-Rá claramente sabia o que estava fazendo e, se a profecia de Nekhbet estiver certa…

— Eu não erro… — lembrou Nekhbet repentinamente.

— Se for dessa vez que a profecia de Nekhbet for se concretizar… — corrigiu Osíris — Então é um bom sinal.

— Só temos que aguentar até o filho de Seti ser concebido, nascer e crescer… — disse Wadjet levantando um dedo para cada item — Me parece tempo demais.

— Não esqueça que a profecia fala que Seti vai ter sucesso no estrangeiro… — lembrou Anput — Pode ser ele então que vai conseguir frear os hititas por um tempo.

— Espero que tempo o suficiente para esse filho dele crescer. — concluiu Heka.

— Espero que esse filho dele seja mesmo páreo para arrumar toda a situação do Egito… — disse Min meio tenso.

— Lembra o quão incrível foi Hatshepsut. — lembrou Hathor.

— Ela não pegou um reino tão fragilizado. — argumentou Heka.

— Como disse, só nos resta esperar. — insistiu Osíris — O que quer que o fluxo da história decida que cairá sobre nós, temos que simplesmente aceitar.

Só esperar não era algo que parecia estar na lista de Seti. Depois de um bom banho, ele ainda estava extremamente tenso. Até se sobressaltou quando, no caminho para o quarto, o pai o chamou repentinamente.

— Filho… — disse Paramessu, não deixando de notar como o filho se sobressaltou — Está tudo bem? Tuya disse que um escorpião chegou perto de você. Ele não te picou né?

— Não não… — garantiu Seti — Foi mais um susto mesmo. Acho que estava desatento demais.

— Entendo… — disse Paramessu olhando para o filho de cima a baixo — Está tudo bem mesmo? Parece meio pálido.

— Acho que exagerei no treino… só isso. — garantiu Seti — Vou dormir logo. Amanhã vou acordar melhor.

— Avise se não acordar bem. Tem que estar em plena saúde para ir para o fronte de batalha. — lembrou Paramessu.

— Eu sei… — disse Seti parando diante da porta do próprio quarto por uns segundos antes de entrar — Boa noite.

— Boa noite. — respondeu Paramessu um pouco preocupado.

Ansioso por fugir das interações sociais, Seti entrou no quarto pisando com cuidado para não acordar a pequena Tia, que Tuya havia acabado de colocar para dormir. Tuya, por outro lado, estava bem acordada, sentada sobre a cama, esperando pelo marido.

— Está tudo bem mesmo? — perguntou Tuya aos sussurros.

— Sim. Tudo bem. — garantiu Seti, falando bem baixinho, se aproximando da esposa e dando-lhe um beijo na bochecha antes de deitar na cama — Foi um dia longo. Só isso.

Tuya deitou-se ao lado do marido, olhando bem atentamente para ele em busca de alguma emoção facial que fosse preocupante. Ao notar isso, Seti sorriu para ela. Ele nem tinha pensado nisso, mas o fato de Amon-Rá estar quieto nos últimos minutos provavelmente tinha feito ele se acalmar mais.

Seti então passou o braço ao redor da cintura da esposa e puxou-a para mais perto. Com o coração tranquilo pela presença dela ali, ele falou:

— Obrigada por se preocupar comigo.

— Sempre. — respondeu ela.

— Amanhã eu cumpro minha dívida com você. — promete Seti.

— Não precisa se forçar… se precisar descansar… pode descansar. — disse Tuya acariciando o rosto de Seti — Você não está com uma cara muito boa hoje.

— Amanhã estarei melhor. — garantiu ele — E também, não posso ir para a guerra sem cumprir minha dívida.

Tuya sorriu levemente e lhe deu um rápido beijo. Ela ficou fazendo cafuné nos cabelos ruivos dele, tentando relaxá-lo para que pudesse descansar bastante, mas ela acabou dormindo e ele não. Por causa das reviravoltas do dia, Seti demorou para conseguir dormir.

— Senhor Amon-Rá… consegue ouvir meus pensamentos também? — quis saber Seti, pensando, enquanto Tuya dormia tranquilamente, encolhida em seus braços.

— Sim… — respondeu Amon-Rá.

— E também vê o que eu vejo, escuta o que escuto? — perguntou Seti.

— Exatamente. — respondeu Amon-Rá.

— O que é meio estranho… e desconfortável… droga… — pensando automaticamente, não tendo tempo de fazer um filtro nas palavras, pois pensar não é como falar — Como vou fazer sexo com Tuya? Quer dizer… desculpa… não queria dizer isso.

— Queria sim. — disse Amon-Rá — Está tudo bem. Imagino que seja complicado, mas vai se acostumar. Por hoje, Ísis está certa, vá dormir.

— Não é exatamente fácil. — disse Seti — Não imaginava que o meu dia ia acabar assim quando fui dormir.

— Aproveite o conforto de sua esposa, aproveite por hoje. Me ignore, por mais difícil que seja, e vá dormir. — disse Amon-Rá.

Seti não teve uma noite fácil. Contudo, o cansaço logo tomou conta e ele dormiu. Pode ter sido uma noite curta, especialmente com a pequena Tia chamando pelos pais no meio da noite, mas era melhor do que nada. No dia seguinte estava com sono, mas isso não significou que ele não separou umas horas do dia para conversar com Amon-Rá e tentar se acalmar e acostumar com a situação.

Por vezes, entretanto, Seti notava que o deus não respondia de imediato ou que precisava ser relembrado qual era o assunto da conversa. Repentinamente a cena de Amon-Rá falando para Anúbis que estava bem, ganhava um novo significado. Contudo, segundo o próprio Amon-Rá lembrava Seti, ele não tinha tempo de se preocupar, afinal, a ida de Seti para a guerra estava com os dias contados.

Exatamente pela contagem regressiva ser uma pressão existente, que Seti ia todos os dias se deleitar no carinho da esposa, aproveitando cada segundo que tinha com ela. Também aproveitava para brincar com a filha o máximo possível. Não tinha tempo para lidar totalmente com o fato que o todo poderoso Amon-Rá estava em sua mente a cada segundo do dia. Logo estaria na guerra, no conflito entre matar ou ser morto.

Eventualmente, o dia de Seti ir para a guerra chegou. Não só Seti iria, como também Paramessu, afinal era o comandante mais importante agora e como faraó, Horemheb não tinha tanta liberdade assim, ainda mais com a idade avançando. Os dois se despediram do resto da família, com Seti dando um forte abraço na filha e na esposa. Cada uma das duas também ganhou um beijo, a filha na bochecha e a esposa nos lábios.

Com muita dor no coração, Seti e Paramessu foram para a guerra montados em seus cavalos, que não só eram práticos, como também provavam o status elevado que a família havia conseguido.

— Vai dar tudo certo… — garantiu Paramessu enquanto eles e mais vários homens deixavam a cidade de Tebas rumo à guerra, para fortalecer os números de soldados egípcios.

— Espero que sim. — disse Seti.

— Você não vai sozinho… — lembrou Amon-Rá.

O caminho até o centro do conflito entre egípcios e hititas era um tanto longe, mas Seti e Paramessu continuaram andando. Enquanto isso, antes mesmo que qualquer mortal soubesse, uma novidade começou a se espalhar entre os deuses. Quando a tal notícia chegou no submundo, Anúbis estava terminando a mumificação de um soldado que havia morrido no campo de batalha contra os hititas.

O soldado havia até perdido um braço e então havia chegado ali com o membro faltando, exatamente por isso que Anúbis conseguiu arranjar uma prótese de madeira para o soldado, assim ele continuaria tendo o membro quando chegasse para o julgamento. Completar o corpo com próteses era algo comum para as múmias, colocando assim os egípcios como os ganhadores do prêmio de serem os primeiros a criarem próteses.

Assim, Anúbis enrolava o corpo, cheio de cicatrizes e com o braço faltando, do soldado em faixas de linho, vez ou outra olhando com o canto do olho Kebechet derramando água do Nilo em um corpo três mesas de pedra além. Foi nesse momento que Anput entrou lenta e silenciosamente, não querendo distrair os dois, mas Anúbis notou na hora quando ela entrou.

Ela sorriu para ele, ele correspondeu, e ela se aproximou até conseguir dar um leve selinho nos lábios dele.

— Ela tá bem aplicada né? — perguntou Anput, baixinho.

— Sim. — concordou Anúbis — Faz tempo que não dá atenção para a boneca dela.

— Ela já está um pouco grandinha para bonecas e ainda bem que amanhã vai nadar com a Macária e Ihy… — completou Anput — Mas ficou sabendo? Tawaret já passou por aqui.

— Não… o que aconteceu? — perguntou Anúbis.

— A Tuya, sabe? A esposa do Seti. — disse Anput mordendo o lábio inferior diante da alegria com a notícia — Ela está grávida! E é um menino!

— O da profecia! — respondeu Anúbis também feliz e até aliviado — Será que agora a situação na fronteira melhora? Já perdi a conta de quantos soldados já tive que mumificar ou que passaram pelo julgamento.

Mesmo a notícia já circulando entre os deuses, essa notícia demorou chegar até Seti, pois os deuses acharam melhor não contar para Amon-Rá, com medo de a notícia vazar para Seti. Assim, para a notícia chegar até Seti, primeiro era necessário esperar a própria Tuya descobrir a gravidez e além disso, a notícia tinha que viajar todo o território do Egito até chegar no centro da batalha.

Quando a notícia chegou até o centro da batalha, Seti estava sentado diante da tenda onde estava o médico, curando todos os feridos que ainda tinham chance de sobreviver. Com o braço esquerdo completamente enfaixado, Seti abria e fechava a mão lentamente ou tentava levantar o braço, fazendo uma cara de dor para ambos os movimentos. Seus joelhos estavam ralados, mas os ferimentos já haviam sido limpos, e sua coxa também havia sido enfaixada devido a uma flecha que havia o alcançado em alguma batalha anterior à que feriu seu braço, então sua coxa já estava parcialmente curada.

Então, Seti viu o pai indo em sua direção com passos firmes e um olhar sério. Seti imediatamente levantou-se e colocou-se como um soldado esperando seu comandante, não como filho. Com o corpo reto e o rosto sério, Seti esperou pelo pai. Paramessu parou diante de Seti com o olhar de um soldado endurecido pela guerra em seu rosto. Os dois ficaram ali por uns segundos, suficientes para Seti notar os fios brancos que começavam a aparecer nos cabelos ruivos de Paramessu.

— Filho… — disse Paramessu colocando a mão no ombro de Seti — Um mensageiro acabou de chegar de Tebas…

— Aconteceu algo? — perguntou Seti preocupado, mas, sem conseguir manter sua encenação, um sorriso logo começou a aparecer no rosto de Paramessu.

— Sim… — disse Paramessu com a voz começando a tremer de alegria — Tuya está grávida!

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL ** Seti e Paramessu lutaram contra os hititas, que já tinham virado um problemão para o Egito. Com isso, a cada ano o exército ficava mais e mais importante. **** REFERÊNCIAS **** Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810 Kebechet - https://www.worldhistory.org/Qebhet/ Tia - https://en.wikipedia.org/wiki/Tia_(princess) Tuya - https://en.wikipedia.org/wiki/Tuya_(queen)