A Morte Das Areias do Saara
140 Bronze vs. Ferro
Notas iniciais

Eles são assim neste portão: Como esta ba-alma em imagens feitas por Horus. Este deus, ele os chama por seus nomes e eles respiram quando ouvem sua voz. Eles são aqueles que guarda o portão de Sais que é desconhecido, invisível (e) imperceptível.
~ Fragmento de “O livro do Amduat”
Nas fronteiras asiáticas do Egito, os gritos acompanhavam como sinfonia os sons de batalha e de sangue jorrando. Os egípcios e hititas se gladiavam, lutando pela posse daquele pequeno pedaço meio desértico de terra com poucas vilas para contarem a história das batalhas que aconteciam.
Seti deixava seu poderoso cavalo liderar o caminho pois, com o seu arco e flecha na mão, ele não tinha como guiar o cavalo que puxava sua biga de batalha. Ainda assim, com as mãos ocupadas e um equilíbrio invejável, o jovem puxava a corda de seu grande arco e deixava a flecha cortar o ar até atingir um hitita mais além no pescoço.
O suor escorria pelo corpo de Seti e ele não deixava sua concentração se perder no meio dos corpos caindo mortos para todos os lados. Suor também escorria pelo corpo de Tuya, enquanto ela, lá em Tebas, segurava no fundo da garganta o grito de dor do trabalho de parto.
— Está indo bem. Respire fundo. — incentivava a parteira.
— Tawaret me proteja… — resmungou Tuya, ofegante, num espaço entre duas contrações, protegendo com as mãos trêmulas a enorme barriga de 9 meses de gravidez — e a esse bebê também.
Logo o grito de Tuya ocupou toda a confortável casa digna de um oficial de alto cargo. Mesmo em meio aos gritos, ela clamava silenciosamente pelos nomes de Tawaret, Isis, Bes e Thoth. Mas estes eram nomes diferentes dos que clamava Seti. Mesmo com Amon-Rá em seu corpo, era pela força de Hórus que ele constantemente clamava. Afinal, guerra era com ele mesmo.
Mas foi pelo nome de Amon-Rá que Seti clamou quando seu cavalo foi acertado por uma flecha. O animal se debateu de dor e a pobre biga que carregava atrás em alta velocidade logo perdeu o controle.
Seti quase caiu ao guardar o arco e flecha para se segurar na biga desgovernada, mas isso não foi o suficiente quando uma lança de um adversário perto atingiu seu cavalo no pescoço. O cavalo caiu, morto, e a biga capotou por cima de seu corpo volumoso.
Quando Seti percebeu, já estava voando por cima do cavalo e logo caindo dolorosamente no chão, que ralou sua pele dolorosamente e lhe causou dor de pancadas e deslocamentos em lugares que ele não tinha tempo para parar e sentir. Ele resmungou de dor, fechando as mãos e os olhos com força, sentindo mais intensamente dor nos antebraços, que tentaram automaticamente amortecer a queda e proteger a cabeça, e na lateral da cintura que recebeu uma boa parte do impacto da queda.
— Amon-Rá… — resmungou Seti tentando se erguer.
— Não desmaie, pois isso será pior. — alertou Amon-Rá.
— Eu sei. — resmungou Seti de volta, puxando o ar numa tentativa de aguentar a dor no corpo.
— Deixe comigo um pouco. — pediu Amon-Rá.
Tudo que Seti pôde fazer foi sentir seu braço se movendo sozinho, sacando sua khopesh mesmo com o esforço que foi fechar a mão dolorida ao redor no punho da espada. Então, no último segundo, sua mão se ergueu no ar parando subitamente um golpe vertical, de cima para baixo, que apareceu repentinamente. O autor foi aquele que tinha matado seu cavalo e tinha arrumado uma outra lança no tempo que levou para o cavalo de Seti cair. A khopesh impediu o ataque do hitita de descer ainda mais, em direção à cabeça de Seti. Mas, o que fez o coração de Seti dar um pulo em seu peito, foi ver sua khopesh trincando levemente sob a lâmina da lança hitita.
Ainda deixando Amon-Rá controlar seu corpo, Seti rolou habilidosamente para longe do hitita, deixando o ataque do adversário acertar o chão arenoso inofensivamente. Seti ergueu-se e, mesmo com o corpo bem dolorido pelo capotamento da biga, mostrou para seu adversário que estava pronto para a batalha e que não foi abalado pela fragilidade de sua khopesh.
Por fora, Seti podia se mostrar valente, mas a verdade era que, por dentro, estava com medo de sua espada não aguentar o combate. Seti não sabia ainda, mas ele tinha acabado de ver a mais recente invenção de guerra dos hititas. Os egípcios podem ter muitos méritos em seu histórico, terem sido os primeiros da história a inventar muitas coisas, como o azul, o papiro, próteses, maquiagem, peruca, cadeiras e até nem sabiam que tinham inventado a penicilina. Podiam ser a civilização com as melhores técnicas de agricultura e com a construção mais alta do mundo e podiam ter quase descoberto o número pi e serem muito bons em matemática e astronomia. Mas tudo isso era irrelevante diante dos hititas, os primeiros a aprenderem a usar ferro.
Os dois se encaravam, seus olhos fixos um no outro, esperando pelo momento certo para atacar sem ter total noção do embate que acontecia ali, a Era do Bronze versus a Era do Ferro que já dava seus primeiros sinais de estar chegando. Os barulhos dos outros combates que aconteciam ao redor logo se tornaram irrelevantes. Seti sabia que sua Khopesh era sua maior vantagem, pois sua curvatura e tamanho permitiam atingir o inimigo de perto, com força e precisão. O guerreiro Hitita, por sua vez, tinha uma grande vantagem em alcance com sua lança afiada.
Um grito aleatório vindo de alguém ao redor serviu como um apito para iniciar o combate, Seti avançou, sentindo a força de Amon-Rá em seus braços e pernas, que lutavam contra a dor da queda da biga. Graças à Amon-Rá, ele estava confiante em sua habilidade e experiência em batalha. O guerreiro Hitita respondeu ao movimento, mantendo a lança estendida, pronta para atacar.
Contudo, a maior dificuldade de Seti era precisar chegar perto para usar a área de ataque de sua khopesh. Ele tinha que desviar constantemente dos ataques do hitita, especialmente quando outro hitita surgiu às suas costas, querendo ajudar o colega. Mas Seti não deixou, ele aproveitou que o novo adversário não teve tempo de entender a agilidade divina de seu corpo e passou por baixo da lança dele, cortando-lhe a cintura profundamente.
— FILHO DA PUTA! — gritou o primeiro hitita, e Seti sorriu brevemente com a lembrança de seu pai insistindo que aprendesse a língua hitita.
O segundo hitita caiu no chão de joelhos e cuspindo sangue, segurando a própria barriga ensanguentada numa tentativa fraca e desesperada de se manter vivo. Enquanto isso, o primeiro hitita avançou na direção de Seti, mirando na cabeça dele com sua lança. Seti desviou e investiu, os dois ficaram trocando golpes rápidos e agéis, mas os de Seti eram mais rápidos mesmo enquanto ele tentava chegar perto do hitita apesar do joelho reclamando de ser usado tanto depois da queda da biga. Contudo, logo a espada de Seti foi cortada que nem manteiga pela lança do adversário.
Metade da Khopesh caiu inocentemente na areia e o hitita sorriu, considerando a luta já ganha. Mas o hitita não ia deixar Seti pensar no que fazer e logo atacou novamente. Seti tentou desviar com o que lhe restava de espada, mas não era tão fácil e o feio corte longitudinal que logo recebeu no braço, era prova disso. Ele segurou o grito de dor que quase escapou de sua garganta.
Do outro lado do Egito, Tuya não segurou o grito que cresceu em sua garganta. Seu rosto estava suado e seus cabelos grudavam em sua testa e ela sentia que não tinha mais uma migalha de força. Ela não aguentava mais ficar lá de cócoras tentando dar a luz.
— Vamos, você consegue Tuya… — motivava Sitre, segurando firmemente a mão de Tuya, na expectativa de conhecer seu novo neto enquanto acompanhava o esforço de Tuya e o trabalho da parteira.
— N-Não consigo… — resmungou Tuya.
— Consegue sim! Já deu luz à uma menina linda e agora tem mais um lindo bebê vindo. — motivou Sitre.
— Eu sinto que vou desmaiar… — choramingou Tuya.
— Empurre! — motivava a parteira.
— Oh, os deuses me ajudem! — gritou Tuya com a voz bem aguda fazendo força mais uma vez.
O grito de Tuya logo virou um ofego que foi acompanhado pela sinfonia de um choro. Tuya suspirou, sentindo-se exausta e aliviada e fitou o pequeno ser, sujo de sangue, que estava nas mãos da parteira. Tuya sentiu as lágrimas encherem seus olhos e foram essas mesmas lágrimas que rolaram pelo seu rosto quando ela pegou o pequeno bebê nos braços.
Invisíveis, escondidos dos olhares dos mortais presentes naquele cômodo, estavam Hórus, Bes, Tawaret e Hathor. Hórus não conseguiu disfarçar o sorriso quando o pequeno bebê nasceu.
— Espero que isso não seja por ter a confirmação total agora de que é um menino. — disse Hathor, olhando para Hórus.
— Não. — admitiu Hórus — Aprendi minha lição já. De toda forma, vou ver como Seti está indo no campo de batalha. Seria problemático se ele morresse.
Hórus se transformou num falcão e deixou a casa para trás. Enquanto isso, lá na fronteira asiática, o conflito de Seti contra o hitita continuava. Sem sua espada e com sangue pingando da dolorosa ferida em seu braço, Seti estava numa situação bem complicada.
Com passos trôpegos, enquanto ainda tentava fugir dos ataques do hitita, Seti se aproximou do guerreiro com a barriga aberta, que já estava em seus últimos suspiros de vida. Seti tomou a lança do guerreiro quase morto na esperança de ser do mesmo material misterioso e ignorando o braço que pingava sangue na areia, voltou para a sua luta com o primeiro hitita enquanto o que lentamente morria, só olhava como havia perdido sua lança.
O sangue de Seti pingava na areia, os golpes do hitita eram bloqueados por Seti, que contra-atacou com um golpe certeiro. Mas o hitita conseguiu se esquivar já acreditando que tudo era uma questão de prolongar a luta pois Seti, naquele estado, não iria durar muito. E ele estava certo, a ferida aberta começou a prejudicar os movimentos de Seti. Mas, apesar da dor, Seti não desistiu. O resto do campo de batalha parecia ter até desaparecido, era como se não existisse mais ninguém ali além dos dois.
Seti sentia a força de Amon-Rá passando por todo o seu corpo quando canalizou-a em um último golpe. Desviou da lança do hitita e com uma agilidade e força que surpreendiam até a ele mesmo, atingiu o hitita no peito. O hitita olhou para a ferida surpreso e, quando Seti puxou a lança de lá, o sangue começou a jorrar pelo buraco. O homem caiu de joelhos no chão quando também começou a sair sangue de sua boca.
O hitita olhou para Seti, mas nada disse. Seti, por outro lado, foi para o hitita com a barriga aberta, que a essa altura já havia dado seus últimos suspiros, e arrancou um longo pedaço de pano da roupa dele. Esse pedaço de pano, com a mão trêmula, Seti usou para amarrar o próprio braço ferido. A expressão de dor no seu rosto ficou óbvia quando forçou o pedaço de pele frouxo para o lugar certo e apertou o pano com um nó usando os dentes. Seti quase achou que ia desmaiar ali mesmo, mas ficou alguns segundos respirando, tentando encontrar suas forças novamente e se convencer que agora estaria tudo mais ou menos bem, já que o pano estava segurando o sangramento.
Fitando suas mãos tremendo, Seti respirou fundo algumas vezes antes de pegar a lança roubada firmemente mais uma vez. Apoiando-se nela, ele se ergueu e notou que o adversário original ainda estava vivo, mas já deitado no chão.
— Por favor. — resmungou o adversário quase engasgando no próprio sangue.
Seti entendeu bem o que ele queria então se aproximou, e com sua lança roubada, atingiu-o no peito mais uma vez, acertando no coração. Ele viu o brilho sumir dos olhos do hitita, mas não se deu tanto tempo para ficar de luto, a batalha ainda acontecia ao seu redor. Ele pegou a lança do hitita recentemente morto também, decidido a levar ao menos alguma prova desse material estranho que eles usaram na lança de volta para Tebas. Quem sabe ele poderia dar uma para seu pai, se encontrasse ele no meio da confusão.
Ele pegou a lança que já estava usando e cortou fora uma mão de cada um dos dois hititas derrotados e colocou no fundo do cesto de flechas em suas costas. Ao testar o arco-e-flecha em seguida, viu que o arco não sobreviveu à queda da biga, então deixou-o para lá.
Seti percorreu os olhos à procura do pai no campo de batalha e em busca de onde poderia ser mais útil, e logo viu o pai, numa biga puxada por dois cavalos, atirando flechas em todos em seu caminho que os cavalos não afugentaram.
— PAI — gritou Seti mesmo sabendo que ele não o escutaria.
Ele apressadamente prendeu a lança extra nas costas e correu na direção do pai, atacando qualquer hitita que aparecesse pelo caminho, seja com a ponta afiada da lança ou com a madeira dura de seu cabo. Era uma corrida complicada, que o forçava a pular por cima de corpos e às vezes ajudar um parceiro egípcio a se erguer. Para um desses soldados que ajudava, ele acabou dando a lança extra, ao notar que, assim como ele, o soldado em questão havia ficado sem arma.
— Não perca. — pediu Seti — Temos que fazer essa lança chegar em Tebas.
— Obrigado! Tem algo estranho na arma de alguns deles, né? — perguntou o soldado, ao pegar a lança — Uma lança cortou minha khopesh como se fosse feita de carne. Mas com os adversários de antes eu não tive problema.
— Sabe onde foi parar essa lança? — perguntou Seti.
— Não. — respondeu o soldado — Perdi o hitita no meio dessa confusão quando o senhor Paramessu passou por aqui.
— Me ajuda a chegar nele? — pediu Seti.
— Claro. — disse o soldado.
Com tantos obstáculos no meio do caminho, era difícil chegar perto de Paramessu. Entretanto, antes que ele pudesse chegar até o pai, algum soldado egípcio por perto gritou.
— OLHEM PARA OS CÉUS, HÓRUS ESTÁ CONOSCO! — gritou o soldado.
Ofegante, Seti olhou para o céu e viu um falcão sobrevoando o campo de batalha e, por um segundo, pareceu que o falcão olhava para ele. Os gritos de empolgação se espalharam pelo campo de batalha com a mera visão de Hórus trazendo força para os egípcios. Logo pareceu até que a carnificina só aumentou graças à força extra que Hórus trouxe para os egípcios.
Numa área mais esquecida do campo de batalha, com corpos acumulados, outro que viu Hórus sobrevoando o campo de batalha, foi Anúbis. Seu olhar não se demorou tanto no primo, dando-lhe assim pouca atenção, pois o que fazia era mais importante.
Anúbis segurava a mão de um jovem soldado egípcio que parecia até ter a mesma idade que ele. Lentamente, a respiração e os batimentos do jovem iam ficando mais lentos e a força que ele tinha dentro de si já era tão pouca que ficou apenas a cargo dos olhos dizer “obrigado” ao deus.
Quando o último suspiro deixou os lábios do jovem, Anúbis fechou os olhos dele delicadamente e então ergueu-se, olhando o campo de batalha e contando quantas vidas já haviam sido perdidas ali. Foi nesse momento também que Hórus pousou ao seu lado e trocou de forma.
— Raro você vir consolar aqueles que estão morrendo no campo de batalha. — disse Hórus.
— Ele me chamou. — justificou Anúbis — Pediu para cuidar da irmã caçula que deixa para trás, já que eles só tinham um ao outro. E você? Veio só para ver como estavam as coisas e dar uma motivação extra pros soldados?
— Mais para ver como está Seti. — admitiu Hórus — Queria vir sempre dar motivação extra, mas sabe que não posso abusar ou os deuses do outro lado começam a fazer mais do mesmo.
— Hm.. — resmungou Anúbis.
— Vai levar algum dos mortos para mumificar? — perguntou Hórus.
— Os que acabarem sendo deixados para trás depois que tudo acabar. — respondeu Anúbis.
— Acha que serão muitos? — perguntou Hórus.
— Estou sinceramente preocupado com o resultado dessa batalha e do que vier pela frente. — admitiu Anúbis — Pelo o que entendi, parece que os hititas estão com um novo tipo de material nas armas deles.
— Um novo tipo de material? — perguntou Hórus, olhando para o campo de batalha em busca de algo diferente.
— Não todos. — continuou a explicar Anúbis enquanto andava para um dos cadáveres largados ali perto, acabando por pegar a lança de um hitita que estava morto logo embaixo de um egípcio — Apenas alguns têm. Acho que estão testando ainda.
Ele então jogou a lança para Hórus, que a pegou facilmente e começou a analisar o material da ponta.
— É pesado… — disse Hórus analisando o material — Podem perder agilidade com isso.
— Pode ser… — disse Anúbis pegando uma khopesh usada e largada no chão — Mas tente atacar contra uma arma de bronze. Só não com toda sua força, óbvio. Algo mais “mortal”...
Anúbis segurou a khopesh para Hórus, que tentou medir sua força para atacar com a lança como se fosse um humano usando toda a sua força. A pobre khopesh de bronze sofreu com o golpe, trincando por quase toda sua extensão.
— É… isso é preocupante… — admitiu Hórus — Espero que ao menos por hoje eles consigam compensar em motivação e agilidade então. Vou levar essa lança para Thoth. Desse jeito ela passa até pelas armaduras então.
Focado na arma, Hórus sentou-se no canto e ficou comparando as duas armas minuciosamente, querendo tirar suas próprias conclusões antes de mostrar a lança para Thoth. Despreocupadamente, ele passava os dedos no fio das armas, bem consciente que nenhuma conseguia cortar ele.
Anúbis acabou então sentando ao lado de Hórus e ficou vendo os humanos se matarem enquanto Hórus analisava a arma. Silenciosamente, Anúbis pensava em como os mortais nunca mudavam. Sempre inventam alguma guerra e às vezes surgia alguma novidade. Da outra vez foram os cavalos, agora esse novo tipo de arma. Se perguntava então qual seria a próxima invenção bélica dos mortais.
— Será que a dos hititas é simplesmente mais velha ou o fio dela não dura tanto? — perguntou Hórus eventualmente, tirando Anúbis de seus devaneios.
— O fio está ruim? — perguntou Anúbis.
— Sim. — disse Hórus — Não parece tão afiada quanto a de bronze.
— Mudando de assunto.. o bebê de Seti já nasceu? — perguntou Anúbis.
— Sim. — confirmou Hórus — Está tudo bem.
— Essa segunda parte eu já tinha sentido. — disse Anúbis se levantando e se espreguiçando — Se tivesse morrido eu teria sentido.
— Já vai? — perguntou Hórus — Achei que ia ficar vendo eles se matando.
— Não… — disse Anúbis fechando a cara — Só ver os funerais que é interessante. E eu combinei de ir ver Hades para resolver uns assuntos.
— Pode perguntar pra ele se sabe de algo dos hititas usando essa mesma arma nas lutas contra os micênicos? — pediu Hórus.
— Claro. — garantiu Anúbis e logo sumiu de lá, indo ao encontro de Hades.
Quando Anúbis chegou no submundo de Hades, não demorou muito para notar que Hades estava meio estressado. Afinal ele havia bufado quando se sentou na cadeira e pegou os papiros com os nomes dos mortos que tinham condições confusas entre submundo egípcio ou micênico.
— Aconteceu algo? — perguntou Anúbis, movido pela curiosidade.
— Só Hera, Afrodite e Atena me perturbando… — admitiu Hades — Mas está melhor agora que estou aqui, bem longe delas.
— Combinação estranha serem logo essas três… — opinou Anúbis.
— Estranho mesmo é tudo isso ter começado por causa de uma porcaria de maçã dourada. — reclamou Hades.
— Maçã dourada? — repetiu Anúbis, estranhando a descrição.
— É! — disse Hades — Éris ficou com ressentida de não ter sido convidada para um casamento e então resolveu criar uma pequena confusão para irritar todos, deixou uma maçã de ouro com a seguinte inscrição: “à mais bela”.
— E imagino que agora elas estão brigando pra saber quem é a mais bela? — perguntou Anúbis.
— Exato! — respondeu Hades — Agora elas decidiram sair interrogando todo mundo para decidir. Ficaram me pressionando pra responder algo insistentemente, ainda bem que consegui fugir. Não tem resposta pois qualquer coisa vai irritar alguma delas! Quero só ver o que Zeus vai fazer… sei que ele adora trair Hera mas não vai querer desfavorece-la, mas também não vai querer fazer isso com Atena, sua filhinha querida… Afrodite nem se fala, já que ela consegue se parecer como seja lá qual for epítome de cada um de atração física.
— Hm…. — resmungou Anúbis.
— E quem você acha que é? — disse Perséfone, que claramente tinha ouvido a conversa, ao entrar no cômodo — À mais bela entre nós todas?
— Não me faça responder essa em público… — resmungou Hades.
Perséfone abriu um pequeno sorriso e depositou um beijo no topo da cabeça dele e foi embora. Anúbis ficou segurando a risada enquanto via Hades fingir que não aconteceu nada.
— Bem… — disse Hades, seguindo ignorando o que havia acontecido — Primeiros temos o Aiguptios… Só por esse nome já digo que é problema seu. A mãe desse tinha mal gosto pra nome. Por isso que o coitado não sabe escolher um submundo só pra acreditar.
— Tudo bem. — respondeu Anúbis marcando em seu papiro que Aiguptios era problema seu.
Nesse momento Kebechet apareceu correndo no cômodo, ignorando quase completamente os dois, só se dignando a dizer rapidamente:
— Oi pai…
— Oi. — respondeu Anúbis.
Ela passou correndo direto para a estante, onde ela aparentemente já sabia que havia um pequeno conjunto de caixas de alguns jogos de tabuleiro. Nos pequenos segundos que ela levou para colocar os jogos em seus braços, Macária apareceu na porta do cômodo. Macária era uma prova viva do tempo que passou. Era uma mulher alta, de aparentemente 20 anos apesar de já ter passado disso, com longos cabelos negros que escorriam pelas suas costas e um vestido tão branco quanto sua pele.
Macária acenou para Anúbis breve e respeitosamente com a cabeça, mas logo voltou sua atenção para Kebechet com um pequeno sorriso quando ela voltou com os jogos. As duas então sumiram para se divertirem com os jogos.
— Certeza que Kebechet não atrapalha ficando aqui tanto tempo quando vem? — perguntou Anúbis para Hades.
— Certeza. — respondeu Hades — Perséfone, Macária e Cérbero adoram quando ela vem.
— E você não… — concluiu Anúbis.
— Indiferente. — disse ele dando de ombros — E Poulxeria?
— Poulxeria é com certeza problema seu. — disse Anúbis.
— Ela foi mumificada. — disse Hades.
— Contra a vontade dela. — explicou Anúbis — O marido tentou forçar a conversão nela para que ela fosse considerada egípcia. Mas o coração dela não aceitou verdadeiramente.
— Hm... — resmungou Hades marcando em seu papiro o nome da moça.
— Depois daqui vai fazer o mesmo com Lelwani? — perguntou Anúbis.
— Ela te contou, foi? — perguntou Hades.
— Ereshkigal… — justificou Anúbis — Vou pra lá depois. Admito estar protelando ter que me encontrar com Lelwani dado que… muitos dos mortos de cada um foram feitos pelos mortais do outro.
— Acontece isso aqui também, mas imagino que não tanto quanto entre vocês dois. — respondeu Hades.
— Por acaso algum dos mortos que você cuidou que morreram em confrontos com os hititas você notou terem morrido por conta de uma arma feita de um material diferente que não seja bronze? — perguntou Anúbis.
— Material diferente que não seja bronze? — repetiu Hades estranhando a pergunta.
— É. — afirmou Anúbis e Hades negou com a cabeça, curioso com o motivo da pergunta — Eles estavam usando lanças com um material diferente hoje na batalha que deve estar acontecendo ainda.
— Diferente como? — perguntou Hades.
— Mais pesado e mais capaz de acabar com uma arma feita de bronze. — respondeu Anúbis.
Enquanto isso, no campo de batalha, sob o grito de “recuar”, os hititas deixavam o campo de batalha para trás. As armas experimentais podiam ter feito um grande estrago, mas a motivação egípcia entregue por Hórus, a agilidade que as armas de bronze davam e a maior quantidade dos egípcios, motivaram eles a bater em retirada.
Os egípcios vivos se arrastavam ou eram carregados para enfermarias, e os mortos ficavam jogados no campo de batalha com poucos tendo forças para chorar ao seu lado antes de passarem pelos cuidados de um médico. Paramessu e Seti andavam juntos, um apoiando o outro enquanto Paramessu puxava seus cavalos, felizmente ainda vivos, pela corda amarrada em seus corpos.
Tanto Paramessu quanto Seti estavam ensanguentados. O braço de Seti pingava sangue a ponto de quase tudo do cotovelo para baixo estar vermelho, ele estava tonto e mancava dolorosamente. Pequenos cortes se espalhavam pelos corpos dos dois e os joelhos de ambos estava ralado. Paramessu tinha uma flecha em seu ombro esquerdo e sangue escorria de seu nariz, boca e de um corte meio profundo na coxa.
Eventualmente eles foram recebidos no caos da enfermaria, cujos poucos médicos tentavam se dividir para dar atenção a todos. Eles se sentaram dolorosamente no chão, esperando sua vez, mas agradecidos por não terem que gastar energia para ficar de pé.
— Acho que nunca tivemos tantas pessoas feridas. — disse Paramessu.
— E tantos mortos… — disse Seti olhando rapidamente para o campo de batalha.
— Coloquem isso nos seus ferimentos. — disse rapidamente um médico colocando entre os dois uma cesta com pão cheio de bolor falando alto o suficiente para quem quisesse ouvir.
O médico rapidamente olhou de Paramessu para Seti e então o contrário, até Paramessu indicar Seti com a cabeça.
— Foda-se o cargo. Ele está pior. — disse Paramessu — Perdeu muito sangue.
O médico afirmou com a cabeça e prontamente começou a desfazer o pedaço de pano sujo que deixava a pele cortada do braço de Seti no lugar. Seti imediatamente começou a gritar de dor até que alguém, que Seti não prestou atenção, ofertou à ele uma garrafa cheia de cerveja e ele, sem pensar duas vezes, pegou-a e bebeu tudo o mais rápido possível. O médico ignorou tudo e rapidamente colocou uma fatia de pão mofado sobre o ferimento e enfaixou o braço apropriadamente dessa vez. Podia parecer estranho e nem os médicos sabiam explicar direito o que tinha no pão mofado, mas ali havia penicilina, o primeiro antibiótico do mundo.
O médico continuou a se virar, cuidando daqueles que parecia mais urgente, até que, já mais calmos, devidamente tratados e compartilhando uma garrafa de cerveja, Paramessu e Seti discutiam sobre o dia.
— Então… ? — perguntou Paramessu.
Lentamente, devido a dor no braço, Seti largou a lança de ferro ensanguentada no chão, tirou o cesto do arco e flecha nas costas e mostrou a coleção de mãos, era o jeito deles de mostrar quantos inimigos haviam derrotado. Podiam até mesmo ganhar prêmios dependendo da quantidade. Orelhas e pênis também eram aceitos. Mas mãos eram os mais comuns.
— 11. — respondeu Seti.
— Por isso está tão machucado… — respondeu Paramessu — Depois de lutar com tanta gente assim… óbvio que uma hora ia ficar com o braço nesse estado.
— O braço foi logo no começo. O hitita responsável por isso tinha a arma que eu tentei te falar que estavam usando e era perigosa. — admitiu Seti indicando a lança no chão com o nariz — Cortou minha khopesh como se não fosse nada.
Paramessu pegou a lança e imediatamente sentiu a diferença de peso dela com o uso desse estranho metal, que logo o fez começar a pensar silenciosamente. Enquanto isso, Seti, que lutava contra uma vontade tremenda de dormir, ouviu a voz de Amon-Rá sussurrando em seu ouvido.
— Fale para seu pai voltar para Tebas. — disse Amon-Rá.
— Porquê? — perguntou Seti em pensamento.
— A aparição de Hórus hoje não deve ter sido por acaso nem por causa do material diferente das armas dos hititas. — disse Amon-Rá — Acho que seu filho nasceu.
— Sério? — perguntou Seti depois de quase engasgar com um gole de cerveja.
— Sério. — afirmou Amon-Rá.
— Não deveria ser eu então a voltar para Tebas? — perguntou Seti.
— Depois que seu pai for para Tebas e voltar, quem sabe? — questionou Amon-Rá — O que eu sei é que seu pai tem que ir para Tebas.
— E qual motivo eu vou dar para ele? — perguntou Seti.
— Diga que foi a mensagem que eu passei para você. — disse Amon-Rá.
Seti pensou por um tempo e, quando não viu motivos para duvidar da palavra de Amon-Rá, apesar do coração estar pulando de ansiedade e felicidade pelo filho, o qual queria ver o mais rápido possível, Seti virou-se para o pai, que estava tenso olhando para a lança de ferro.
— Pai? — perguntou Seti.
— Hm? — respondeu Paramessu olhando para Seti.
— Você tem que voltar para Tebas. — disse Seti e imediatamente Paramessu estranhou a fala.
— Porquê? — perguntou ele — Meu lugar é aqui, liderando o exército do faraó Horemheb.
— Eu sei.. mas… — disse Seti — Amon-Rá veio até mim e disse que você tem que ir para Tebas.
Paramessu parou e ficou olhando Seti demoradamente, digerindo aquela informação.
— Se estiver brincando… saiba que isso não é coisa que se brinque. — disse Amon-Rá.
— Não estou. — garantiu Seti.
— Acha que consegue cuidar de tudo enquanto estou fora então? — perguntou Paramessu — Sabe que eventualmente esse vai ser seu trabalho mesmo.
— Darei meu melhor. — disse Seti, se enchendo de uma força que achava que já tinha acabado naquele dia.
— E não tem nada mais que você possa me falar? — perguntou Paramessu — Algum motivo ou o que eu tenho que fazer em Tebas.
— Diga que não. — disse Amon-Rá.
— Não. — respondeu Seti.
— Partirei com o nascer do sol então. — prometeu Paramessu suspirando pesadamente — Com a proteção de Amon-Rá. Espero que sua palavra seja justificativa suficiente para o faraó Horemheb.
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