A Morte Das Areias do Saara

157 Uma Perseguição Mundial


Notas iniciais
bem vindos a mais um cap. espero n ter demorado muito. tá muito difícil escrever esses caps de forma convincente q dê pra acreditar que o Setne durou mais de 1 segundo contra qualquer deus kkkk imagem de hj, um templo colorido e meio abandonado com a natureza engolindo ele. parece ser de Sekhmet.

Não seria possível tornar-se como Rá no céu e na terra, e tornar-se senhora da terra, e uma deusa [poderosa] — assim ela meditou em seu coração — pelo conhecimento do Nome de o deus santo? Eis que Rá entrava [no céu] todos os dias à frente de seus marinheiros, estabelecendo-se no trono duplo dos dois horizontes. Agora o divino havia envelhecido, ele babava pela boca e deixou que suas emissões saíssem dele para a terra, e sua saliva caiu no chão.

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

Numa pequena casa esquecida nas redondezas de uma pequena vila perto de um dia cresceria a cidade de Istambul, dentre as plantações cuidadosamente preservadas para manter a vila, Setne passava mais um dia debruçado sobre seus papiros. Atrás dele, junto com ele no único cômodo da humilde casa, Qebui se sentava, emburrado, de braços cruzados.

A casa tinha muito pouco. Um punhado de feno com um pano por cima servindo de cama, uma mesa e uma cadeira na qual Setne sentava-se, e um saco com comida largado num canto ao lado de Qebui. Sobre a mesa onde Setne se debruçava sobre Livro de Thoth, também havia um incenso aceso, ao qual ele prestava bastante atenção. Havia uma pequena janela, que apenas um pano rasgado escondia qualquer coisa que acontecia dentro da casa e a porta de madeira tinha uma tranca tosca mas suficiente para os problemas mundanos mais comuns da região.

Qebui queria correr dali ou fazer algo que fizesse os deuses descobrirem para onde Setne havia fugido, mas graças ao controle que Setne tinha sobre ele, Qebui estava proibido de fazer qualquer uma dessas coisas. Tinha tentado algumas coisas nos 9 dias que já haviam se passado desde que chegaram ali, mas Setne tinha sido tão específico nas ordens, que Qebui conseguia fazer pouco além de ficar sentado encolhido num canto.

— O que raios está fazendo aí a tantos dias sem mal tirar a cara desse papiro? — perguntou Qebui.

— Olha só quem decidiu falar depois de dias… — respondeu Setne sem tirar os olhos do papiro — Acha que eu vou contar assim pra você tão fácil?

A voz de Setne podia parecer calma, mas seus olhos denunciavam o quão preocupado ele estava. Setne mal dormia desde que deixou Chipre para trás, suas olheiras denunciavam isso. Seu olhar tinha pura ansiedade estampada nos olhos e nas pupilas encolhidas. Ele estava começando a entrar em desespero.

— Já consegue ouvir quando estamos escondidos, invisíveis dos mortais… — resmungou Qebui — Aparentemente sabe quando estamos por perto… sei lá como. O que mais pode querer?

— Sei muito mais que isso. — disse Setne, olhando para seu fiel incenso, que tinha feito questão de comprar aos montes com os recursos recebidos de um breve assassinato de aluguel que resolveu fazer naquela vira para não ter que ficar eternamente gastando o ouro que tinha trago.

A prova que Setne estava de fato pronto a qualquer momento para dar o fora dali, é que nunca deixava de lado sua bolsa com ouro e os incensos dentro. O próprio Livro de Thoth só saía quando ele ficava lendo, o que era o dia inteiro.

— Seja lá o que for, é só uma questão de tempo até te encontrarem aqui! — respondeu Qebui.

— Ah eu sei disso… — falou Setne — Mas aí é só eu ir magicamente pra outro lugar, seja usando você ou indo por conta própria. Com você aqui posso ficar pulando de lugar em lugar sem parar. E perceberem quando chegarem perto tentando me capturar. Estou preparado.

— Está nos subestimando. — respondeu Qebui.

— Considerando o quão longe cheguei, creio que seja o contrário. — disse Setne, soltando uma risada que não chegava até seu olhar repleto de ansiedade — Por acaso ficaram suspeitando de outra pessoa nesse tempo todo? Responda, Brisa Pungente.

— Tiveram algumas suspeitas, sim. — disse Qebui — Mas nessa lista você está a bastante tempo.

— Chegaram a suspeitar de algum envolvimento divino? — perguntou Setne.

— Havia uma suspeita de que Set estivesse envolvido… — admitiu Qebui com um pesado suspiro — Mas acho que descartaram já que ele está magicamente obrigado a servir Osíris.

— Entendo… — disse Setne — Agora fique quieto, Brisa Pungente, está atrapalhando.

O uso do seu nome secreto fez a boca de Qebui se fechar tal como se tivesse sido colada com cola. Seu mau humor piorou ainda mais, mas não havia nada que ele pudesse fazer no momento. Nem a levantar-se estava autorizado por Setne.

Sem Qebui para o atrapalhar, Setne continuou debruçado sobre os papiros. De vez em quando passava a mão pelos cabelos, preocupado, em busca de uma solução para o problema que se debruçava à sua frente dentre dezenas de hieróglifos que dançavam no papiro.

Tal como os dias anteriores, a noite logo chegou e Setne não parou de tentar fazer o que queria. Sua cabeça latejava, seus olhos pesavam e um escorpião amarelado de ferrão bem gordo e cerca de 10 centímetros entrou sorrateiramente em sua pequena casa. O escorpião parecia até aproveitar que Setne estava de costas para boa parte da casa. Qebui acompanhou o bicho com o olhar enquanto o escorpião o ignorou completamente e se escondeu nos fenos sobre os quais Setne costumava dormir. Com sua coloração de areia, o escorpião, mesmo grande, se escondeu perfeitamente no monte de feno. Esperançoso, Qebui se perguntou se aquele seria um dia que Setne iria dormir ou se iria virar a noite debruçado nos papiros.

Eventualmente, quando faltava meras três horas para o sol nascer, o sono derrotou Setne. Ele guardou tudo que havia sobre a mesa dentro de sua bolsa com um cansaço tão grande que nem conseguia sentir fome, e se arrastou para sua cama de feno. Ele praticamente se jogou no fino lençol que cobria o feno, sem qualquer ciência que um escorpião se escondia ali num comportamento tão calculado e perfeito que Qebui tinha dificuldade em acreditar que havia sido completamente natural.

O coração de Qebui marcava cada segundo que passava, na expectativa de uma ferroada. Longe de ser especialista em tipos de escorpião, mas esperava que aquele fosse o mais venenoso possível. Um minuto se passou, e então vários outros. Setne babava no pano de linho, tão cansado que mais parecia morto. O coração de Qebui então deu um salto quando viu o escorpião saindo de seu pequeno esconderijo. Com incrível delicadeza, o escorpião se aproximou de Setne, evitando pisar por cima do príncipe fugitivo ao tentar se aproximar logo do pescoço dele.

Aquela escolha tão certeira de ir no pescoço de Setne encheu o coração de Qebui com uma certeza, aquele escorpião estava sendo controlado por Serket. Claramente o plano era apelar para animais comuns e tentar passar pela segurança de Setne, que impedia a aproximação desavisada de qualquer deus. Qebui sentiu a ordem de proteger Setne de qualquer ataque de deuses se remoendo dentro de si, mas tentou contra argumentar com ela… aquilo era só um escorpião afinal de contas, não um deus. Não tinha prova alguma que sequer Serket estava por trás daquilo.

Então, seguindo aos apelos de Qebui, o escorpião picou Setne no pescoço. O príncipe acordou num grito estridente e com muita dor.

— MAS QUE PORRA?! — gritou Setne se erguendo de uma vez.

Ao ver o escorpião do seu lado, num susto, ele rolou para longe e o escorpião rapidamente saiu correndo. Setne lançou uma pequena explosão mágica na direção do escorpião, mas o bicho era mais rápido, além de ser um alvo pequeno. Num piscar de olhos o escorpião estava do lado de fora da casa e Setne estava com o pescoço latejando terrivelmente.

— PORQUE NÃO FEZ NADA? — gritou Setne.

— hmm… humm… — resmungou Qebui, ainda impedido de falar.

— Pode falar, Brisa Pungente. — reclamou Setne, com a mão sobre a picada, pensando desesperadamente no que fazer.

— Era só um escorpião. — disse Qebui, dando de ombros.

— Merda. — resmungou Setne.

Com o trabalho completo, o grande escorpião saiu correndo para longe enquanto nem Setne, nem Qebui, sabiam que um pequenino segundo escorpião, de uma espécie completamente diferente, estava ali na janela, observando tudo que acontecia ali dentro. Enquanto o pequeno escorpião olhava tudo, o grande foi até mais além, já no limite da cidade, onde havia um pequeno grupo de deuses esperando por ele. Serket se abaixou e pegou o bicho gentilmente em sua mão direita, logo fazendo carinho na cabeça dele com a esquerda como se fosse um pequeno e fofo hamster.

— Disse que ele conseguiria. — disse Serket — É um dos mais venenosos do Egito. Especialista em fazer exatamente o que precisamos.

— Só precisamos agora que Setne não se cure… se não teremos que ir para o nosso próximo plano. — disse Hórus.

Ao lado de Hórus, estavam ainda Anúbis, Nefertem e Wadjet. Leves lágrimas escorriam pelo rosto de Nefertem e o motivo delas logo ficaram claros quando ele perguntou:

— E como está Qebui?

— Está sentado num canto aparentemente… — disse Serket, recebendo magicamente o que seu fiel pequenino escorpião estava vendo.

— Vai dar tudo certo… — disse Anúbis para um desolado Nefertem.

— Ele parece ter entendido que foi você quem mandou o escorpião? — perguntou Wadjet.

— Não. Parece muito cansado para pensar direito… tal como queríamos. — respondeu Serket.

Setne não fazia a menor ideia, mas já tinha dois dias que aquele pequeno escorpião estava de olho nele. Então, os deuses sabiam, que ele não dormia bem, que ele estava tramando algo que estava o estressando bastante, que ele tinha ordenado Qebui, usando seu nome secreto, a tirar os dois dali assim que qualquer deus aparecesse perto deles. Também tinham visto ele fazendo uma magia no incenso que sempre lhe acompanhava. Era a fumaça do incenso que estava desde do começo dedurando quando os deuses estavam por perto.

Dado a velocidade que um teletransporte tinha, eles tinham receio de, por causa de um segundo de erro, perderem Setne novamente e então o pobre Qebui, que sabe se lá quais outras ordens havia recebido desde que ficou sob o controle de Setne.

— Ele não vai deixar Qebui para trás provavelmente. — disse Hórus — Não podemos deixar ele fugir.

— Ele começou a se curar com magia. Tsc. — reclamou Serket — Não vai dar tempo pro veneno ou a paralisia fazerem efeito desse jeito. Ele está sentado no chão… meio fraco mas ainda vivo, e curando o veneno.

— Chão… certo.. “Plano chão” então. — disse Hórus, olhando para Anúbis.

— Ah… que pena… — sussurrou Wadjet, decepcionada — Queria atacar o maldito.

Anúbis e Hórus bateram com seus enormes cajados no chão e algo invisível se espalhou pelo campo ao redor e se dispersou. Logo, no meio da plantação que rodeava a casinha que Setne estava, coisas começaram a se mexer. Chacais que se escondiam na plantação alta, trazidos desde do Egito até lá por Anúbis, se aproximavam da casa ao mesmo tempo que falcões de Hórus ficavam à postos ao redor da casa, prontos para entrar também.

Do lado de dentro, o pequeno escorpião de pouco mais de um centímetro, disfarçadamente subia pelo corpo de Qebui. O pequeno animal se escondeu nas vestes do deus, pronto para pegar carona para qualquer aventura que pudesse acontecer em seguida.

Os chacais se aproximaram devagar, não querendo serem notados antes da hora. Usaram toda sua habilidade de caça para se aproximarem em silêncio total. Só quando chegaram perto o suficiente para pegar impulso, eles começaram a correr para ter potência e velocidade o suficiente para pular e entrar na casa pela janela. Com seus corpos magros e ágeis, não foi tão difícil. Mais fácil que tentar arrombar a trava fajuta da porta de madeira. Dois chacais entraram um após o outro e ambos foram imediatamente atacar, com os dentes afiados, a cara de Setne.

Setne gritou enquanto seu rosto era rasgado com maior foco na sua boca. A dor tomava conta do rosto sangrento de Setne, que tentou olhar para Qebui, apenas para ser atacado por falcões também no rosto, impedindo-o de olhar Qebui. No meio daquele caos todo, as ordens que Qebui recebeu de proteger Setne de ataques divinos não podiam mais ser ignoradas. Uma coisa era um escorpião aleatório, um problema comum, outra era chacais e falcões atacando ao mesmo tempo especificamente o rosto de Setne.

Enquanto os chacais e os falcões atrapalhavam e feriam Setne, um único chacal tentava puxar dele a bolsa com o Livro de Thoth. Setne se encolhia e Qebui imediatamente se ergueu, pronto para alcançar Setne em meio ao seu caos sangrento de tentar fugir das garras afiadas dos falcões e presas violentas dos chacais. Ao mesmo tempo, Wadjet e Nefertem surgiram ali, prontos para levar Qebui para longe de Setne e prender Setne de qualquer forma que fosse. O mero segundo em que tudo aconteceu pareceu câmera lenta, Nefertem e Qebui trocaram um olhar doloroso que durou um milésimo de segundo, os olhos de Qebui pareciam pedir desculpas quando Qebui conseguiu tocar Setne antes que qualquer um dos seus o tocassem e, num piscar de olhos, Setne e Qebui não estavam mais lá.

— Merda. — xingou Wadjet.

— Pelo menos o amiguinho de Serket também foi… — disse Nefertem, de certa forma tentando se consolar também enquanto olhava ao redor em busca do pequeno escorpião e ficando feliz por não encontrá-lo.

— Vamos encontrá-los. — disse Wadjet enquanto Anúbis, Hórus e Serket apareciam ali, provavelmente depois do pequeno escorpião de Serket denunciou que o caos na cabana havia acabado.

— Ele deixou algo para trás? — perguntou Hórus enquanto estendia o braço para os falcões que ajudaram pousarem um a um e ele conseguir dar um cafuné e um agrado na forma de um lanchinho, um lagarto.

— Comida. — respondeu Anúbis enquanto fazia cafuné nos chacais, que abanavam o rabo extremamente felizes com alegria estampada nas bocas sujas de sangue diante da confirmação que eram sim bons garotos.

— Já consegue ver onde eles foram, Serket? — perguntou Nefertem esperançoso.

— Não… — respondeu ela — Está muito escuro já que o sol não nasceu. No pouco que consigo ver graças à luz da lua, diria que estão no meio do mato.

— O que estão fazendo? — perguntou Nefertem e Serket abriu um sorriso.

— Ele está com muita dor… e bem machucado… — respondeu ela.

À vários quilômetros dali, Setne e Qebui haviam aparecido em um novo lugar.

— MER… — começou a xingar Setne, mas a palavra ficou incompleta, pois falar doía demais.

No meio da escuridão de alguma parte do mundo, Setne caiu de joelhos na grama amarelada engolida pela noite. Seus braços estavam repletos de ferimentos, mas nada chegava perto do estrago que tomava conta de seu rosto, desfigurado e pingando sangue para todo lado. Tremendo e sentindo as lágrimas se misturarem com sangue, ele levou suas mãos até seu rosto. A dor foi dilacerante, mas ele tinha que usar o que lhe restava de forças para se curar. Se alguma vez tinha duvidado que tinha atraído a ira dos deuses, agora ele tinha certeza.

Qebui ficou de pé ao lado dele, não fazia nada, não dizia nada e não tinha ciência do minúsculo escorpião espião que resolveu pegar carona em sua saia. No meio de toda a dor que Setne com certeza estava sentindo, Qebui não tinha um pingo de dó, por isso também não ajudava. Não havia nenhuma ordem dada que o obrigasse a ajudar mais do que havia ajudado, e Setne estava incapaz de dar novas ordens sem muita dor no momento, já que sua boca estava terrivelmente dilacerada.

Assim, Qebui esperou… tal como a vários quilômetros dali, os deuses também esperavam a luz do sol para que o pequenino escorpião pudesse dar mais informações de onde Setne estava. Enquanto a noite passava, Setne se curava o suficiente para deixar apenas alguns arranhões para trás do nível de machucados que seu corpo conseguiria lidar sem problemas. E então, ele se largou no chão.

— Brisa Pungente, me acorde quando o sol nascer e não deixe nenhum animal me atacar. — disse Setne, já de olhos fechados — Amanhã me estresso com esses malditos.

Qebui nada disse e assim, as horas se passaram e, no primeiro sinal dos primeiros raios de sol começando a iluminar a Savana africana, Qebui chutou o pé de Setne para acordá-lo. Ninguém falou que tinha que ser delicado ao acordá-lo, mas também não queria deixá-lo irritado demais a ponto de ganhar uma ordem extra.

Setne acordou num pulo e logo se sentou abraçando sua fiel bolsa. Passado um segundo, levou um tempo para digerir o lugar que estava. Havia viajado bastante com o pai, mas ali era longe demais até para Ramsés II.

— Aqui é Punt? — perguntou Setne.

— Oeste de Punt, tal como pediu. — respondeu Qebui enquanto ambos não sabiam que aquela descrição havia acabado de viajar pelos ouvidos de um pequeno escorpião.

— Brisa Pungente, traga-me comida! — reclamou Setne, rangendo os dentes de puro mal humor e logo deixando de se maravilhar com o lugar e abrindo sua bolsa e percebendo que boa parte da comida havia ficado para trás — Vai levar mais um tempo para nos acharem de novo mesmo.

— Mortal miserável… — resmungou Qebui, mas Setne não escutou.

Setne já estava debruçado sobre seus papiros largados no chão, buscando mais desesperadamente ainda a resposta da magia que tanto queria fazer. Mas depois de tanto que acontecia, estava numa situação pior do que no dia anterior. Os hieróglifos dançavam na sua visão, seus olhos ardiam, seu rosto latejava, sua cabeça estava pesada e doía.

Depois de praticamente uma hora, Qebui voltou com um punhado de frutas primas da ameixa e um peixe. Setne deixou de lado os papiros, e comeu as frutas e o peixe com um misto de cansaço e fome extrema que mal quis esperar a fogueira porcamente preparada terminar de assar o peixe. A prova que Setne estava cansado foi que nem perguntou para Qebui se as frutas venenosas. (In)felizmente, não eram e assim, movido por uma falsa segurança de que os deuses iriam demorar mais vários dias para encontrá-lo ali, Setne guardou suas coisas, abraçou a bolsa, caiu no chão e voltou a dormir.

Enquanto isso, no Egito, os deuses estavam muito menos atrasados do que Setne imaginava. Anúbis, Hórus, Nefertem, Serket e Wadjet já haviam deixado as terras estrangeiras para trás e estavam de volta ao Egito, usando um templo de Hórus para se reunirem com outros deuses.

— Tem muita coisa “A oeste de Punt”... — disse Hórus, considerando as palavras que Serket disse.

— Não parece ter mar por muito perto…. e nem parece seco demais para estar perto do deserto. — disse Serket, tentando ajudar mais.

— Vamos nos organizar em áreas então… — disse Hathor — Um grupo no mar Leste, outro no mar oeste e um grupo nas margens de todo o trajeto do Nilo na altura de Punt já ajuda bastante.

— Ainda tem muita coisa no meio. — lembrou Sobek.

— Usamos os povos que vivem por lá de referência… — sugeriu Ísis — Os Nok, os Bantu, os Mandé… o que for.. Sei que não sabemos muito do que acontece ao sul do deserto sem seguir o curso do Nilo, mas vamos ter que lidar com isso.

— Posso usar os leões de Sekhmet para ajudar a procurar. — disse Hathor, já a séculos fundida com Sekhmet.

— O deserto é uma poderosa barreira. — lembrou Seth.

— Sim e não me faça me arrepender de ter incluído você nessa busca. — ameaçou Hórus, apontando para o rosto de Seth.

— Já disse que não tenho nada a ver com tudo isso! — ralhou Seth — Vai mesmo ficar perdendo tempo brigando comigo?

— Não se preocupe com ele, Hórus. — disse Ísis — Não esqueça que ele ainda está obrigado a obedecer ao seu pai.

— Mas Seth disse uma coisa certa, não podemos perder tempo. — disse Thoth — Eu e Hórus podemos mapear um pouco a região sobrevoando ela. Tenho alguns dos deuses locais decorados de nome.

— Serket, continue prestando atenção no que seu escorpião consegue ver que pode nos ajudar a localizar onde exatamente eles estão. — disse Hathor.

— Não acho que eles vão se mover novamente tão cedo. — disse Serket — Setne acabou de dormir largado no chão no mesmo lugar que eles apareceram.

— Vamos correr. — disse Hórus — Ele cansado fica descuidado…

— Por mais que não ache que ele vai conseguir descansar tanto do jeito que está largado tão aleatoriamente ao relento. — disse Serket — Ele está tão cansado que nem fez a magiazinha dele idiota do incenso.

— Mesmo assim… — disse Anúbis lentamente — É muita coisa… é uma área muito maior de busca do que o que tínhamos antes.

— Antes tínhamos a informação de que alguém havia visto um egípcio suspeito e que aparentemente sabia magia naquela região… — disse Wadjet lentamente e parando uns segundos para sibilar — Precisamos do mesmo agora.

— Tem deuses demais ao sul do deserto e não os conhecemos tanto assim. — lembrou Hórus — Muitos nem sequer conhecemos ou sabemos se existimos. Nunca focamos tanto nas coisas por lá já que qualquer problema ou contato vindo de lá era extremamente raro…

— Porque o deserto é uma barreira muito boa. — lembrou Seth.

— Tá. Tá. Tá. Já entendi que você gosta da porra do deserto. — resmungou Hórus — Não precisa ficar repetindo que ele é a parede mais grossa do mundo. De toda forma, não podemos deixar ele escapar de novo. Ele já causou muito caos.

— Ainda bem que Ramsés II acreditou em nós quanto à morte de seu primogênito. — disse Isis — Seria terrível se mais uma vida fosse perdida pelas ações de Setne.

— Ainda mais levando a culpa pelo o que na verdade foi obra de Setne. — completou Hathor.

Horas se passaram, as buscas dos deuses estava frenética, e Setne continuava dormindo, tostando sobre o sol. Setne só acordou brevemente para fazer uma mera troca de lugar, para poder usar uma sombra de uma árvore, e logo voltou a dormir. Já tinha passado algumas horas depois do meio dia, quando um pequeno grupo de jovens, ao longe, avisou Setne.

Os três jovens, de idades que deveriam ir de 15 a 22 anos, eram altos, negros, e tinham os cabelos amarrados em pequenos tufinhos ao longo de toda a cabeça. Seguravam lanças e arcos, mas seus corpos estavam repletos de acessórios. Um cinto grosso, colares grandes, coloridos e belos, e várias pulseiras e braçadeiras.

Os três jovens olharam para Setne e Qebui ao longe e imediatamente os julgaram estranhos. Depois de uma breve discussão, deram as costas e foram embora de volta para suas casas junto ao povo Nok, que ocupava uma parte do que um da seria a Nigéria. Algumas horas depois, sem nem saber nada da passagem dos três jovens, Setne repentinamente acordou de um sobressalto ao ter uma ideia genial durante o sono, como os sonos assim fazem as vezes para quem não consegue desgrudar de um problema nem enquanto está dormindo.

— É ISSO! — gritou Setne.

— O quê? — perguntou Qebui, esperançoso de tentar pescar uma pista.

— Não me lembro de ser da sua conta. — respondeu Setne enquanto se debruçava novamente sobre o Livro de Thoth e suas próprias anotações com um sorriso no rosto.

— Não vai conseguir esconder eternamente de mim o que está tramando… — disse Qebui — Uma hora vou descobrir. Você também tem claramente medo de sair de perto de mim, qualquer teste que fizer vai pela cara ser comigo por perto.

— Nisso, você tem razão. — disse Setne exibindo um sorriso que, juntando com seus ferimentos, olheiras pesadas e cabelo desgrenhado, era aterrorizante — Me diga, Brisa Pungente, onde está escondida sua sombra? Sua sheut.

— C-Como? — gaguejou Qebui, com a cor sumindo de seu rosto.

— Eu te ordeno, fale imediatamente, Brisa Pungente, onde está escondida a sua sheut!? Um pedaço da sua alma! — exclamou Setne, perdendo os poucos fragmentos de paciência que ainda restavam nele.

— N-Numa ilha… depois da terceira catarata do Nilo… — respondeu ele à contra-gosto.

Um sorriso estampou imediatamente o rosto de Setne, mas ele não sabia o que o esperava nos próximos segundos. Os três jovens nok que o viram descansando, dormindo por praticamente o dia inteiro, seriam mais importantes do que ele podia imaginar. Uma cena simples e que teria terminado inofensiva… se não fosse o fato que a presença de dois estranhos perto do povoado Nok virou o assunto do povoado… que chegou nos deuses do povoado… que chegou em Hórus.

E quando a localização chegou em Hórus graças ao poder da fofoca, leões começaram a se concentrar em onde Setne estava e logo depois Hórus chegou na localização. Como não tinha a localização milimetricamente exata, ele apareceu alguns metros além, mas perto o suficiente para todos se verem. Setne se ergueu em alerta, leões rugiram cada vez mais perto sob o controle de Sekhmet e correram, lambendo os beiços, na direção de Setne. Setne estava pronto para fugir novamente mas, no mesmo milésimo de segundo que ele esticou a mão para Qebui, Sobek, Wadjet, Anúbis e Nefertem também apareceram. Dentre eles, Sobek foi o que estava mais perto, e conseguiu ser rápido o suficiente para agarrar Setne pelo braço no segundo seguinte enquanto Qebui lançava uma forte rajada de vento contra Hórus à contra gosto.

Um terceiro segundo chegou e o vento da rajada criada pelo próprio Qebui bateu contra ele mesmo sem causar qualquer dano, mas derrubou o pequeno escorpião-espião no chão, Anúbis e Wadjet se transportaram para mais perto, Sobek abriu a bocarra na direção da cabeça de Setne, Setne se agarrou com força à Qebui com uma mão e com a outra apontou para o rosto de Sobek, pronto para preparar uma magia. Com medo de machucarem Qebui, Nefertem não soube reagir enquanto os leões não tinham nenhuma duvida que queriam fazer de Setne sua janta.

Hórus foi levemente empurrado pelo vento, mas desviou da maior parte e se aproximou. Anúbis e Wadjet se agarram à Setne ou Qebui, tentando tanto manter o contato com ele como puxar a bolsa, que sabiam que continha o Livro de Thoth, para longe. Hórus tentou se transportar para mais perto, os leões pularam na direção de Setne, mas Qebui os transportou de lá e o caos começou. Ninguém teve qualquer tempo de processar qual era o novo destino, mas se tivessem, teriam reconhecido as margens do Eufrates. As ordens antigas de Qebui já estavam o orientado à ir “para qualquer lugar com exceção do Egito”. Setne claramente tinha subestimado as coisas depois de tantos sucessos.

Setne lançou uma explosão na boca aberta de Sobek e o deus crocodilo cambaleou para trás pisando fundo na lama do eufrates, perdendo um pouco do equilíbrio e acabando por soltar Setne, mas causando arranhões no mortal por onde suas mãos tocaram e tentaram se agarrar. Ao mesmo tempo, Qebui lançou uma rajada contra Anúbis, tentando fazer ele se soltar de Setne, contudo, Wadjet conseguiu morder o pescoço de Setne com suas presas de cobra e Anúbis conseguiu se prender a Setne usando também suas faixas de linho enroladas ao braço dele, complicando ainda mais qualquer tentativa de solta-lo.

Com seu pescoço sendo mordido por grandes presas de cobra venenosa e ainda por cima seu braço começando a ser putrefazido, Setne gritou estridentemente. Sobek se ajeitou para voltar para a briga, Setne soltava explosões para todo lado.

— DESCULPA GENTE! — disse Qebui, desesperado antes de trocar de lugar novamente, aproveitando a chance de deixar Sobek para trás — ELE ESTÁ ME CONTROLANDO!

— NÓS SABEMOS! — disseram Anúbis e Wadjet no mesmo momento que apareceram no meio do nada do deserto do Saara, provavelmente já fora do território egípcio.

Eles rolaram duna abaixo, as presas de Wadjet se soltaram dolorosamente do pescoço de Setne, fazendo-o começar a jorrar sangue. Mesmo com as dunas inclinadas os derrubando, nem por um momento eles pararam de brigar. Setne gritava de pura e excruciante dor com seu braço ficando com a carne podre e cada vez menos carne graças a faixa de linho ainda o segurando, por mais que Anúbis tenha rolado duna abaixo um pouco mais pra longe, mas sempre segurando a faixa.

Wadjet pulou na direção de Setne como uma cobra pronta para o bote. Setne se encolheu, agarrando-se a Qebui de forma humilhante enquanto ele começava um vendaval ao redor de ambos. Areia subiu pra todo lado, um redemoinho separou Qebui e Setne de Anúbis e Wadjet. Contudo, a faixa de linho de Anúbis continuava lá enrolada no braço de Setne mesmo que estivesse começando a ameaçar sair devido ao braço cada vez mais fino de Setne.

Wadjet e Anubis então se transportaram para dentro do redemoinho, fugindo de todo vento que os impedia de entrar. Os quatro estavam acabados, colecionando ferimentos que até, no meio de tanta confusão, alguns haviam sido feito pelos próprios aliados. Anúbis e Wadjet iam atacar e acabar com aquilo de vez, mas um sinal no olhar de Qebui mostrou que ele estava pronto para trocar de lugar novamente. Os dois então decidiram por gastar seus preciosos segundos se segurando a Qebui e Setne para ter certeza de que iriam junto para seja lá onde fosse.

Num piscar de olhos, estavam na cidade de Aleppo, no Império Hitita, causando gritos de todos que estavam por perto. Qebui, Setne, Anúbis, Wadjet se digladiavam. Os deuses tentado segurar Setne e o separá-lo de Qebui, e Setne e Qebui tentando ficar juntos. E naquela briga de deuses divinos que no máximo tentavam não matar Qebui, a humanidade de Setne era uma terrível desvantagem. A proximidade em demasia de cada um fazia com que os machucados se acumulassem para todos os lados, mas Setne ainda era o que mais sofria.

O grupo todo rolou no meio da rua de pedras de Aleppo, Qebui tentou lutar contra as ordens que enchiam sua cabeça e se afastar, Anúbis agarrou o rosto de Setne com uma mão, pronto para o putrefazer também e acabar com tudo aquilo, mas uma palavra divina proferida por Setne espalhou intensa dor por todo o corpo de Anúbis, que acabou se encolhendo em reação. Com o pescoço jorrando sangue, Setne gritou:

— BRISA PUNGENTE, NOS LEVE PARA SEUS DOMÍNIOS OU QUALQUER LUGAR QUE VOCÊ CONSIGA SE LIVRAR DELES DE UMA VEZ! gritou Setne desesperadamente com uma mão sobre o pescoço jorrando sangue.

Anubis segurou firme na faixa e no braço de Setne, Setne gritou de dor sentindo o braço ser corroído enquanto Anúbis já sentia o osso de Setne por baixo da faixa enrolada. Qebui jogou a mais poderosa rajada de vento que tinha enquanto lágrimas escorriam pelo seu olhar e Wadjet, desajeitadamente, se agarrava ao braço de Anúbis.

O caos de Aleppo ficou para trás e foi substituído pelos céus. Os quatro caiam em queda livre, com o vento batendo forte em seus ouvidos com nada além do Mar Mediterrâneo lá embaixo aguardando pelo impacto. Eles caíam vertiginosamente, a consciência de Setne começava a falhar, mas Qebui o agarrou e lançou vento forte para todos os lados. O vento do norte fazendo seu trabalho.

Com já pouco braço para se segurar, a faixa de linho que prendia Setne pelo braço foi se soltando no meio de tanto vento. O braço já quase puramente osso de Setne se revelou, com o estrago começando a engolir seu ombro muito embora a faixa estivesse anteriormente só no antebraço.

Com a faixa solta e Wadjet se segurando em Anúbis, ao invés de em Setne, e o vento os afastando cada vez mais, o príncipe falou:

— Brisa Pungente, nos leve para a tumba de meus irmãos… e me segure... — disse ele fracamente — E pegue uma shabti o mais rápido possível lá e então vá embora… vá para onde guarda sua sheut.

— NÃO OUSE! — gritou Anúbis já pensando não só em mais uma tumba invadida para adicionar na lista de Setne, mas como também no que raios Setne queria com a sheut de Qebui.

Deixando Anúbis e Wadjet para trás, Setne e Qebui sumiram dos céus. Mas Anúbis sabia exatamente onde era a tumba dos irmãos de Setne. Agradecendo silenciosamente por Ramsés II enterrar todos os filhos falecidos na mesma tumba, Anúbis e Wadjet se transportam logo em seguida para a tumba dos filhos do faraó também.

Já pela tumba dos filhos de Ramsés II, Setne gritou de dor antes mesmo de seus olhos se acostumarem com a escuridão. Era tanta dor, que o fato de seu rosto ter começado a putrefazer levemente pelo toque de Anúbis de antes não parecia-lhe tanta novidade assim. Com Setne nos braços, Qebui se abaixou rapidamente para pegar a primeira Shabti sobre a qual seus olhos pousaram e, no segundo seguinte, Anúbis e Wadjet chegaram.

Anúbis e Wadjet avançaram, Qebui praticamente se jogou em cima da shabti, que agarrou de qualquer jeito considerando que ainda por cima estava carregando Setne. Um segundo antes de Anúbis ou Wadjet conseguirem atacar ou agarra-se nele novamente, Qebui e Setne sumiram de lá deixando Anúbis e Wadjet para trás, preocupados, mas com a pequena tranquilidade no coração de saberem que não faltava mais muito tempo para Setne.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** O Saara é uma puta barreira mesmo. Os egípcios não tiveram muito contato com o mundo ao sul do Saara. No máximo até a Somália (Punt) que já era bem difícil para eles chegarem e incluindo a Etiópia e o Sudão (Núbia) e o Sudão do Sul. Tem algumas teorias de algumas pequenas partes da cultura egípcia terem influenciado alguns detalhes da cultura de povos subsaarianos, mas muitos também acham que é mera coincidência. No máximo tem teorias de que eles sabiam que tinha mais coisa, mas para por aí. **** REFERÊNCIAS **** A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm Nok (Nigéria ) - https://en.wikipedia.org/wiki/Nok_culture Bantus ( Camarões e Nigéria ) - https://pt.wikipedia.org/wiki/Bantus Mandé (Mauritânia) - https://en.wikipedia.org/wiki/Mand%C3%A9_peoples