A Morte Das Areias do Saara

158 A Promessa de um Mentiroso


Notas iniciais
bem vindos a mais um cap e desculpa mais uma vez pela demora.

Esta Ísis amassou em sua mão, com [algum] pó, e ela a moldou na forma de uma serpente sagrada, e fez com que ela tivesse a forma de um dardo, para que ninguém pudesse escapar vivo dela, e ela o deixou caído na estrada por onde o grande deus viajou, de acordo com seu desejo, pelas duas terras. Então o deus santo levantou-se no tabernáculo dos deuses na grande casa dupla (vida, força, saúde!) entre aqueles que estavam em seu séquito, e [enquanto] ele viajava em seu caminho de acordo com seu costume diário, o santo a serpente atirou nele suas presas, e o fogo vivo partiu do próprio corpo do deus, e o réptil destruiu o morador entre os cedros.

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

No salão do julgamento, Nefertem chorava. A situação parecia cada vez mais desesperadora e, pior, entrando já em caminhos que os deuses não tinham ideia do que Setne planejava. O fato de Setne estar claramente perto de morrer não era tranquilizante o suficiente, já que ele se mostrou claramente atrás de sheut de Qebui.

Sheut, a sombra, uma das cinco partes da alma, representava a marca que a pessoa deixa no mundo. Se alguém não tem sombra, não tem efeito no mundo, portanto não pode existir. E tal como as pessoas comuns, os deuses também tinham almas. A diferença, contudo, era que escondiam suas almas e nem tocavam no assunto direito pois imaginavam a grande lista de coisas perigosíssimas que alguém poderia fazer com eles usando suas sheuts apesar de a lista de vezes que algo ruim de fato aconteceu com alguma sheut até então ser nula.

Sendo assim, era de se esperar que o humor no Salão do Julgamento estivesse bem tenso. Nefertem até mesmo podia sentir seu peito se comprimindo e querendo explodir de tanta preocupação e ansiedade. Sua respiração estava ofegante, como se tivesse corrido uma maratona, e sentia um peso de um leão esmagando-lhe o peito. Era inegável que Setne havia chegado longe demais, e eles não podiam se dar ao luxo de deixar ele escapar mais uma vez, ainda mais com Qebui em perigo.

— COMO VOCÊ NÃO SABE ONDE QEBUI GUARDOU A SHEUT DELE? — gritava Hórus para Nefertem — VOCÊS ESTÃO JUNTOS HÁ SÉCULOS!

— EU NÃO SEI! — choramingou Nefertem, encolhido no chão, chorando rios de lágrimas e abraçando os próprios joelhos — NÃO É UM ASSUNTO QUE ELE GOSTA DE TOCAR! ENTÃO NÃO TOQUEI!

— Não precisa gritar com ele. — disse Hathor, calmamente, mas se sentindo meio ignorada — Aqui o tempo passa mais devagar… temos algum tempo pra pensar.

— Ele falou de uma ilha na terceira catarata do Nilo, — lembrou Anúbis — na pior das hipóteses vamos em todas, não é como se fossem muitas ou muito grandes.

— Tem algo de especial em alguma ilha que possa indicar que ela possa ser a escolhida? — perguntou Anput gentilmente para Nefertem, se ajoelhando ao lado dele e colocando a mão no ombro dele.

— N-N… — começou a dizer Nefertem.

— Ah! Estrelinha! — exclamou alguém que atraiu a atenção de todos.

Entrando no Salão do Julgamento, olhando para o teto pintado com estrelas, como uma criança maravilhada, estava Rá. A aparição repentina, com uma fala tão estranha para alguém que tinha mais do que 5 anos, desviou a atenção de todos os deuses do problema com Setne.

— O que está fazendo aqui? — disse Ísis indo apressadamente até Rá, como uma enfermeira preocupada.

— Senhora ÍsIs! — exclamou Tawaret surgindo logo em seguida, correndo ofegante atrás de Rá — Me desculpe! Eu não tive outra escolha.

— Não deveria estar repousando com ele, senhor Rá? — perguntou Ísis preocupada olhando para Rá, que continuava a repetir ‘estrelinha’ enquanto olhava para o teto do salão do Julgamento e por isso ela logo mudou de atenção para Tawaret — Porque ele parece pior?

— Muito pior, eu diria… — disse Osíris, preocupado.

— E-Eu não sei… — gaguejou Tawaret — Ele piorou bastante repentinamente. Por isso fiquei preocupada. Sei que estão com várias coisas para lidar mas… Parecia urgente o suficiente.

— Estrelas… — resmungou Nefertem, olhando para o teto estrelado também e logo ficando com uma cara de surpresa ao aparentar lembrar de algo — Tem uma… uma com uma estela de Tutmósis I de quando ele fez uma expedição até a Núbia, fica bem onde o Nilo começa a fazer uma grande curva. Tivemos um lindo encontro lá.

— Estela de Tutmósis I… Eu sei qual é! — exclamou Hórus, claramente estressado tentando focar em um problema de cada vez.

— Hórus, não se precipite… — começou a dizer Osíris, mas Hórus já havia ido.

— Onde que Tutmósis I botou essa estela? — perguntou Anúbis apressadamente.

— Eu sei. — disse Hathor enquanto se transformava em Sekhmet.

Apressadamente, antes que Hórus botasse tudo a perder, mais deuses foram com Sekhmet. Logo Sekhmet, Anúbis, Serqet e Nefertem chegaram na pequena ilha que cortava o Nilo ao meio. Atrás deles, a estela de Tutmósis, uma placa alta calcária com topo arredondado com um longo texto em egípcio registrando, sob o nome de Tutmosis I, o pai de Hatshepsut, expedições militares realizadas pelo faraó na Núbia, conquistando mais ao sul do continente africano e do curso do Nilo do que qualquer outro faraó antes dele conseguiu.

Na frente deles, Qebui avançava contra sua vontade para cima de Hórus e logo atrás, estava Setne. Setne estava largado no chão, de joelhos, a respiração já um mero suspiro fraco. Uma pequena fogueira de papiros queimando ardia na sua frente, mas na mão fraca dele, estava um outro papiro, o Livro de Thoth.

— Se me matarem… — dizia Setne num mero suspiro — Eu espalharei para o mundo como se mata um deus.

Com espada na mão, Hórus tentava se livrar de Qebui, que a contra-vontade protegia Setne. Pronto para resolver esse problema, Anúbis rapidamente lançou suas faixas de linho e apressadamente enrolou Qebui nelas o máximo possível e o puxou para o canto. Qebui rolou no chão quase tão amarrado quanto uma múmia e Sekhmet rapidamente usou todo o seu peso para mantê-lo lá, sem atrapalhar.

— Quietinho aí. Já nos deu trabalho o suficiente — disse Sekhmet sentando-se sobre Qebui e apertando-lhe pela garganta com sua mão forte enquanto ele se debatia fortemente.

— Desculpa. Eu quero ficar quieto… mas ele mandou… e eu não consigo deixar de obedecer. — choramingava Qebui, com lágrimas rolando pelo seu rosto enquanto Anúbis também puxava as faixas de linho, e acrescentava mais delas, para ter certeza que Qebui não ia escapar.

— Qebui… — disse Nefertem, apressadamente indo se ajoelhar na frente do amado e acariciar-lhe o rosto.

Enquanto isso, com Qebui devidamente controlado e Setne aos pedaços, Hórus simplesmente parou na frente de Setne e os dois se encararam. Era obviamente pura teimosia que mantinha Setne ainda vivo. Estava cheio dos mais diversos ferimentos, uma pequena poça de sangue se forçava na sua frente com sangue escorrendo de seu corpo. Graças aos ataques putrefadores de Anúbis, Setne não tinha mais nariz, seu rosto estava cheio de buracos grotescos e negros que se repetiam em tamanhos maiores nos seus braços… se é que ainda dava para chamar aquilo de braço.

— Não sabe matar um deus. — disse Hórus — Se soubesse já teria matado algum de nós… e aqui está, caindo aos pedaços. Sem falar que não conseguirá fazer nada estando morto.

— Estou caindo aos pedaços, admito… mas sei como matar um deus e sei segredos do Livro de Thoth… — disse Setne fracamente, sofrendo para dizer cada palavra enquanto o céu ficava lentamente mais escuro como se acompanhasse sua lenta fala — Mas não é a última vez que lidarão comigo.

— Vai ser sim. — respondeu Hórus.

Hórus ergueu levemente sua kopesh e a balançou no ar na horizontal. A realidade pareceu se dobrar sobre si mesma como uma lâmina mortal e viva que saiu da espada do deus em direção ao pescoço de Setne. Em questão de segundos, o pescoço de Setne era cortado. Sua cabeça caiu perto da pequena fogueira que estava na sua frente e Hórus a chutou antes que atingisse o fogo e começasse a queimar.

— Não o quero queimado. — disse Hórus — Quero julgá-lo.

— Podia ter matado ele de um jeito que desse menos problema então para mumificar… — reclamou Anúbis — Imagino que sobrará pra mim essa.

— Claramente. — disse Hórus, suspirando pesadamente enquanto olhava para o céu, finalmente dando atenção para a escuridão que começava a engolir tudo.

Estava muito cedo para o sol se pôr. E enquanto Qebui parava de se debater e suspirava aliviado diante das lágrimas de alívio de Nefertem, Hórus e os demais notaram que o que trazia a escuridão não era a noite, era um eclipse solar.

— Será que tem alguma relação com porque Rá estar pior? — perguntou Anúbis enquanto Hórus pegava o Livro de Thoth da mão inerte do cadáver de Setne — Ele nunca ficou assim em eclipses mas…

— Quão rápido ele ficou assim? — perguntou Serqet — Faz tempo que não víamos ele fora dos cuidados de Isis.

— Deve ser apenas uma coincidência matar Setne bem num eclipse né? — perguntou Sekhmet, saindo de cima de Setne.

— Ele não fez nenhuma magia antes de chegarmos? — perguntou Serqet olhando para Qebui.

— Fez sim… — respondeu ele enquanto se livrava das faixas de Anúbis e se sentava na areia, exausto — Mas não conheço. Ele criou muitos feitiços… deve ser os que estão nas coisas que ele queimou.

— Que não sobrou muita coisa… — reclamou Serqet, cutucando o punhado de cinzas que se apagavam sem deixar praticamente nada para trás — Merda. Porque papiro tinha que ser tão inflamável?

— Ele não fez nada de estranho com você não né? — perguntou Nefertem, segurando o rosto de Qebui entre suas mãos carinhosamente.

— Tirando me controlar? Felizmente não. — respondeu Qebui, exausto, apoiando a cabeça no ombro de Nefertem, que logo o abraçou com força — Como soube que era aqui que estava minha sheut?

— Pegamos você falando de uma ilha depois da terceira catarata… — justificou Nefertem — Não foi aqui que tivemos nossa primeira vez?

— Informação demais! — reclamou Hórus logo olhando para Anúbis, ansioso por trocar de assunto — Cuide da mumificação dele e tente ver com minha mãe se descobrimos algo do que ele fez antes de partir. Verei como está a situação com Rá.

Anúbis afirmou com a cabeça, e ficou uns segundos olhando para Nefertem abraçando Qebui, e então para o corpo de Setne, largado no chão, claramente morto. Não tinha como ter dúvidas de que Setne estava morto já que a cabeça estava desconectada do corpo e mortais não costumavam sobreviver daquele jeito, ainda assim, Anúbis custava a acreditar que tudo tinha acabado. Vai ver era só uma sensação falsa deixada para trás devido ao tanto de vezes que Setne escapou, pensou ele antes de levar o corpo para sua sala das múmias.

Ele largou o corpo de Setne de qualquer forma sobre a mesa de pedra, e o olhou sentindo o desgosto subindo pela garganta lembrando-se de tudo que ele havia feito com Hatshepsut. Sentia vontade de pegar a cabeça de Setne e jogar pra longe. E se amassasse ou quebrasse alguma parte, melhor ainda. Ele suspirou, bufou, e acabou decidindo deixar aquele problema para depois. Merecia algum tempo de qualquer jeito pra processar tudo o que aconteceu e realmente ficar aliviado.

Dando as costas para Setne sem nenhum remorso, Anúbis foi para o Salão do Julgamento, e antes mesmo de chegar lá, já soube que estava um caos. Qebui havia acabado de chegar, mas ele estava perto das paredes, claramente ignorado, pois o problema era outro. No centro do círculo de deuses, estava Rá, rodeado por deuses importantes como Osíris, Ísis, Thoth, Hórus e Hathor. Todos os deuses estavam tentando processar a cena de Rá brincando com Ammit como se fosse criança e batendo palmas para a demônio enquanto Thoth abraçava o seu livro, finalmente recuperado.

— Tá ruim assim? — perguntou Anúbis ao se juntar no canto junto com Anput e Kebechet.

— Pela cara, sim. — respondeu Anput.

As duas estavam junto com Sopdet, Seshat, Nefertem e Qebui. Eram os únicos que estavam fazendo alguma comemoração ou demonstração de alívio com a volta de Qebui. Naquele momento, Sopdet o abraçava enquanto Qebui nem por um momento soltou a mão de Nefertem.

— Você deu um baita susto na gente. — disse Sopdet.

— Tá tudo bem agora. — disse Seshat.

No meio do abraço que Sopdet lhe dava, quase o esmagando, Qebui abriu os olhos e deixou sua atenção ir para outro assunto. Mesmo em meio ao abraço, ele fitou Anúbis, lembrando muito bem que a anos estavam com vários problemas entre si. Quando Sopdet finalmente soltou Qebui, ele e Anúbis continuaram a se encarar e os demais ali sentiram a tensão e, por isso, não falaram nada. Só Kebechet que ficou um pouco perdida, mas notou que estava acontecendo alguma coisa ali.

— Obrigado por… ter tentado tanto… — disse Qebui finalmente, ainda tenso e sério.

— De nada… — respondeu Anúbis, com a mesma expressão.

— E… desculpa por… aquele dia… — completou Qebui, sem saber bem como reagir então continuando com sua expressão tensa e séria.

— Tudo bem… — respondeu Anúbis sem saber também como reagir.

Seshat, Sopdet, Nefertem, Anput e Kebechet ficaram olhando de um para o outro, como se silenciosamente estivessem pensando “é isso, ou tem mais?”. Quer qualquer um dos dois planejasse fazer algo mais, logo Nefertem ficou irritado com aquele clima todo e resolveu acabar com ele imediatamente. Ele entrelaçou seu braço no de Qebui, puxou-o para junto de Anúbis para fazer o mesmo com o braço de Anúbis, e logo gritou:

— AGORA ABRAÇO EM GRUPO!

— YAAY! — gritou Kebechet, sendo a primeira a responder ao chamado, logo se agarrando ao pai.

Anput, Seshat e Sopdet logo se juntaram, criando mais ainda um abraço em grupo que era ignorado completamente pelos outros deuses ali, que estavam mais focados em Rá se comportando como um velho senil. No meio daquele monte de abraço, Anúbis e Qebui eram esmagados, e só se olhavam desconfortáveis, ansiosos pelo fim daquele abraço.

— Certo. Certo. Está tudo bem por aqui então… — disse Anúbis se soltando do abraço — Vou ver como está Rá.

Enquanto Qebui estava aliviado de tudo ter mesmo acabado, Seshat, Sopdet, Anput e Nefertem sorriam entre si por talvez as coisas terem finalmente ficado menos tensas entre eles. Anúbis se afastou deles e, com Kebechet o seguindo, foi em direção a onde Rá era o centro das atenções. Quando chegou, Ísis calmamente afastava Rá de Ammit e falava gentilmente, tal como falava com Anúbis quando ele era apenas uma criança.

— Porque não vamos lá para o quarto, hum? — perguntou ela gentilmente — Ficará mais confortável lá.

— Estou bem Ísis, não precisa falar assim comigo… — disse Rá, embora parecesse ainda cansado e perdido.

— Oh! — exclamou ela surpresa pela súbita consciência do deus — Ainda assim… vamos descansar, certo? Claramente não está tendo um dia muito bom.

Eles ficaram vendo Ísis se afastar com Rá e eventualmente Tawaret se juntar a eles e só quando as três deixaram o Salão do Julgamento foi que tocaram no assunto de Rá.

— Nenhuma explicação de porque ele está assim? — perguntou Anúbis.

— Ele parece cada vez pior… — disse Kebechet, olhando para a porta por onde Rá tinha saído.

— Sim… — respondeu Osíris — Foi uma boa surpresa ele ter voltado ao normal no final mas… não deixa de ser uma situação preocupante.

— E o pior é que não sabemos o que fazer. — disse Thoth — Às vezes vou ver como estão e tentar sugerir alguma coisa... Ísis já tentou de tudo que conseguimos pensar. Ele tem dias bons e dias ruins… ou meses bons e meses ruins… Mas nunca esteve assim antes.

— Estava acontecendo um eclipse solar, pode ter relação? — perguntou Hórus.

— Não nego as possibilidades. — respondeu Thoth — A essa altura estou aceitando qualquer coisa como tendo alguma conexão.

— Continue a pensar em alguma solução, por favor, Thoth… — pediu Osíris.

— Não precisava nem pedir. — respondeu Thoth com um sorriso cansado de quem já tinha pensado em alguma solução por décadas e já não tinha mais ideias.

— E favor guarde esse livro… ou destrua se assim for possível… — disse Hórus.

— Infelizmente só resta a primeira opção. — admitiu Thoth.

Hórus revirou os olhos sentindo que aquele livro seria uma eterna fonte de problemas. Mas quanto ao problema que sondava a mente de Rá, por mais que Thoth não fosse desistir, os dias se passaram sem muitas mudanças em Rá. Ao menos ele não deu nenhum outro susto como no dia do eclipse solar. Contudo, Ísis e Anúbis também não descobriram qualquer traço de alguma magia que Setne tenha feito antes de morrer e Setne deixou muito bem selada a língua de Qebui, que sentia ordens e feitiços passados de Setne lhe impedindo de ajudar mais. Eventualmente, outro momento que atraia a atenção de tantos deuses havia chegado, o julgamento de Setne.

Sem qualquer sinal de remorso e com o rosto completamente sério, Setne entrou no Salão do julgamento e ficou encarando os deuses ali sem qualquer humildade. Ammit já lambia os beiços em expectativa quando Anúbis se colocou na frente de Setne, entre a alma a ser julgada e a balança, e abriu o papiro que tinha em suas mãos.

Um suspiro cansado escapou de Anúbis quando passou os olhos pelo papiro contendo a lista de crimes que Setne havia deixado para trás. Tão grande que Thoth e o próprio Anúbis tinham se empenhado bastante em montar toda a lista e investigar tudo em detalhes.

— Setne Khamwas, filho de Ramsés II … — começou Anúbis — Dentre os vários crimes listados sob seu nome, está acusado de controlar deuses, invadir e saquear tumbas sagradas…

— Para pesquisa! — exclamou repentinamente Setne, querendo se defender.

— Calado. — ordenaram Anúbis e Hórus ao mesmo tempo.

— Não tem vergonha não? — perguntou Hórus — Escute seus crimes quieto.

— Não tenho direito de me defender? — perguntou Setne.

— Em sua devida hora. — falou Osíris — No momento, escute a lista até o final. Continue, Anúbis.

— Invadir e saquear tumbas sagradas, perturbar os mortos, roubar o Livro de Thoth, — continuou Anúbis — blasfemar contra os deuses de diversas formas, incluindo causando um incêndio no templo de Thoth, usar magia para propósitos malignos…

— O que eu fiz de maligno? — perguntou Setne — Além de controlar o amiguinho de vocês que.. depende d-

— Assassinato… — continuou Anúbis, interrompendo Setne completamente.

— Foi auto-defesa. — rebateu Setne prontamente.

— Totalizando o total de 14 mortes diretamente ou indiretamente causadas por você. — continuou Anúbis, ignorando Setne — Incluindo seu próprio irmão mais velho.

— Ah… o incêndio no templo né? Não imaginava que o número ia subir tanto… — admitiu Setne — Mas tem que admitir que o do meu irmão foi g-

— Incluindo também aceitar ser pago para matar com magia enquanto fugia com Qebui. — leu Anúbis, falando mais alto para que Setne não fosse ouvido.

— Auto-defesa para o empregador. — justificou Setne.

— Conspirar contra o faraó e seus filhos e espalhar suspeita e discórdia na Casa da Vida com intenção de derrubá-la. — leu Anúbis e, ao terminar, fechou o papiro e ficou esperando Setne falar.

— Mas se pensar bem… — começou Setne — Eu não tive escolha.

— Tente outra justificativa. — respondeu Anúbis -

— Já disse que os assassinatos foram autodefesa. — repetiu Setne.

— Não foram. — respondeu Anúbis, fazendo o papiro sumir de sua mão e ser substituído por seu cetro — Seu irmão, por exemplo, já passou por nós e temos em detalhes os seus últimos momentos e como era a relação que tinha com ele. Não tem porque também ser auto-defesa o incêndio no Templo de Thoth.

— Não pode pegar leve comigo? — perguntou Setne abrindo um sorriso zombeteiro enquanto Anúbis se aproximava dele.

— Não. — respondeu Anúbis sério um milésimo de segundo antes de esticar a mão na direção do peito de Setne e puxar o coração do príncipe de lá da forma mais brusca que conseguia.

Setne arfou e caiu de joelhos devido à forma brusca e surpreendente meio dolorosa que seu coração foi puxado. Osíris ergueu uma sobrancelha em surpresa ao notar o tratamento nada neutro que Anúbis estava dando, estava claramente bem pessoal. Anúbis sinceramente estava doido para ver Setne se ferrando o máximo possível e não escondia que não estava conseguindo ser muito neutro no momento, mas ao menos o julgamento final era com a balança, e ela não tinha sentimentos para mágicamente deixar de ser neutra.

Anúbis estava praticamente cruzando os dedos quando tanto o coração de Setne quanto a pena da verdade estavam na balança. Contudo, não era uma situação que poderia ficar emblemático e confuso para qual lado a balança ia pender. Os crimes de Setne eram muito longos então, não demorou nem mesmo um segundo para a balança pender vertiginosamente condenando Setne, dando a impressão de que ameaçava quebrar devido ao peso, mesmo que não fosse realmente possível com aquela balança mágica.

— Setne Khamwas, filho de Ramsés II, — disse Anúbis já sentindo o gostinho da vitória na boca — Está condenado a passar o resto da eternidade num pesadelo eterno especialmente feito para você.

Tentando se controlar para permanecer com o rosto neutro não deixar o sorriso escapar pela ansiedade de colocar Setne no pesadelo eterno que havia passado dias planejando, Anúbis ergueu seu cetro e o bateu no chão. Assim que o cetro bateu no chão, Setne já não estava mais no Salão do Julgamento. O falecido príncipe se viu na completa escuridão. Não conseguia mexer seu corpo, nem abrir os olhos, e nem respirar. Sentia seu corpo espremido, amarrado fortemente sem lhe dar qualquer centímetro de movimento enquanto lhe dava o máximo de claustrofobia possível.

Não sendo suficiente, tudo sacudia violenta e dolorosamente. Ele queria gritar de dor enquanto batia por todos os lados no que pareciam ser paredes de madeira estreitas o rodeando, mas não conseguia abrir a boca. Quando ele bateu a cabeça na madeira pela quarta vez, ele chegou a conclusão que estava dentro de um sarcófago.

Seus pulmões já gritavam desesperados por ar a tempo demais quando o sarcófago quicou muito alto e se quebrou. Setne caiu numa areia tão quente que ele sentiu-a queimando na sua pele mesmo por baixo de todo o linho que o envolvia e impedia seu movimento. Repentinamente, sentiu que algo estava lhe agarrando pela cabeça. O normal seria essa força misteriosa simplesmente conseguir o erguer, mas ao além disso arrancou o linho que envolvia toda a cabeça e pescoço dele de uma forma tão brusca e dolorosa que até sua pele foi puxada junto.

Setne gritou e praticamente implorava para morrer de novo quando seu rosto e pescoço ficaram em carne viva. Quando a luz chegou até si novamente, se viu sozinho no meio do deserto, de joelhos na areia escaldante. Seus joelhos ardiam com o calor da areia e sentia os grãos de areia carregados no vento batendo no seu rosto como se fossem dezenas de agulhas. Ele tentava fugir, se esconder e se debater, mas seu corpo estava ainda muito bem amarrado. A areia carregada no vento aumentou a intensidade, assim como a dor em seu rosto, até que a areia criou forma na sua frente. De repente, Ramsés II estava na sua frente.

O faraó olhou para o filho, de joelhos na sua frente, com um misto de desgosto e decepção no olhar, e confirmou isso com uma breve frase.

— Você é minha maior decepção.

— … pai… — resmungou Setne com um sussurro tão fraco que mal dava para ouvir.

Aquela imagem falsa de Ramsés II então ergueu sua espada, e com um poderoso movimento do braço, decapitou Setne. Setne sentiu a dor explodir em seu pescoço, mas antes que as demais dores sumissem por completo também, ele se viu novamente completamente atado em livro dentro de um sarcófago que era brutalmente carregado pelo deserto.

No Salão do Julgamento, todos ficavam aliviados e comemoravam, era decididamente uma vitória dos deuses e, apesar de todos os problemas que poderiam vir, e eles sempre viriam, ao menos aquele estava encerrado… ou assim eles achavam.

Por algumas décadas, eles realmente não tiveram tantos grandes problemas, além de toda a questão de Rá ficando cada vez pior. A passagem do tempo, contudo, era muito mais simpática com os deuses do que com os mortais. A passagem das décadas trouxe muitas mortes e nascimentos dentre os mortais e havia filhos de Ramsés II em ambas as listas. Numa bela tarde, o faraó estava sentado na sacada de seu quarto em seu palácio enquanto via o lindo pôr do sol iluminar o Nilo e o infinito deserto.

O cansaço estava nos olhos e nos ossos do faraó. O jovem uma vez forte e musculoso havia se tornado um idioso magro, de corpo fraco, mas mente sagaz e forte. Sua boca estava com gosto de ervas e seu rosto um pouco inchado, ambos os detalhes devido a uma dolorosa infecção de dente que lhe causava dor até na mandíbula e pescoço.

— Pai? — disse uma de suas filhas mais novas entrando no cômodo.

— Hum? — resmungou ele fracamente.

— Está na hora de dormir. — disse ela gentilmente.

Ramsés II não tinha certeza se lembrava do nome daquela filha. A dor e a fraqueza que sentiam eram justificativas mais fortes para isso do que o fato de ter atingido a incrível marca de mais de 100 filhos. Um feito que teria sido muito difícil atingir se não tivesse chegado tão longe como havia chegado, 91 anos de idade. A filha lhe ajudou a se levantar, lhe dando apoio em um braço enquanto o outro se apoiava numa bengala.

A dor em cada passo e cada respiração era tão grande quanto ver a cama vazia, eternamente lembrando-se de Nefertari, que havia falecido tantas décadas antes dele. A filha ajudou o pai a deitar na cama, conferiu se ele estava com febre, e ficou preocupada ao notar que sim, ele estava com febre novamente. Já acostumada com isso, ela colocou o pano úmido gelado na testa do faraó e perguntou se ele queria comer algo antes de dormir.

— Não… — resmungou ele novamente.

— Você precisa comer alguma coisa… — disse ela, delicadamente, colocando num copo um chá de ervas que esperava do lado da cama do faraó dentro de uma jarra — Se conseguir tomar o remédio… pode tentar um pouco de pão.

— Tá… — concordou o faraó.

Ele tomou o analgésico de ervas lentamente, gole a gole, e foi sentindo a sua dor diminuindo um pouco, mas longe de realmente combater a dor por completo. Estava com dor e cansado, muito cansado. Acabou se aconchegando demais na cama e caindo no sono. Reconhecendo a necessidade do pai dormir, a filha não quis insistir no momento. Voltaria depois para tentar convencê-lo pela milionésima vez naquele dia à comer.

Contudo, quando ela voltou horas mais tarde com uma fatia de pão, o maior faraó de todos os tempos havia deixado o mundo dos mortais para trás e abrindo espaço para grandes mudanças, e o começo do fim.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Ramsés II (fodão), também chamado de Ramsés, o Grande, é considerado como o maior, mais celebrado, mais vitorioso, mais foda, mais importante, mais poderoso, mais (insira qualquer adjetivo foda aqui) faraó de todos os tempos. Ele nunca conseguiu deixar a extensão do Egito do mesmo tamanho que Tutmósis I deixou (o pai da Hatshepsut), mas teve uma influência absurda dentro e fora do Egito, grandes vitórias, riquezas e é o faraó que mais construiu coisas, tirando o posto da Hatshepsut. Foram 15 campanhas militares, das quais ele ganhou todas, com exceção da de Kadesh, que acredita-se que foi um empate. Ele teve literalmente mais de 100 filhos e viveu mais do que boa parte dos filhos dele, já que morreu com cerca de 90 anos de uma infecção no dente. A múmia dele está em exposição no Museu da Civilização Egípcia, no Cairo. A múmia dele em 1974 viajou para Paris para ser reparada e serem realizados estudos (que indicaram a causa da morte). E por causa de regras internacionais de transporte de corpos, o cara teve que ganhar um passaporte e tudo kkk foi recebido em Paris como um rei e líder de estado. Estudos subsequentes na múmia dele também confirmaram que ele era ruivo. O link pra foto da múmia tá aqui nos links mas né… é uma múmia… um corpo morto… então só abra se estiver ok com isso. Aos leitores de CDK, sim, Setne foi acusado de conspirar contra 3 faraós e matar 23 pessoas, então a conta n bate.. ainda kkk **** REFERÊNCIAS **** Estela de Tombos - https://en.wikipedia.org/wiki/Tombos_Stela A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm Ramsés II - https://pt.wikipedia.org/wiki/Ramess%C3%A9s_II Múmia do Ramsés II - https://egypt-museum.com/mummy-of-ramesses-ii/