A Morte Das Areias do Saara

159 O Derradeiro fim da Era do Bronze


Notas iniciais
bem vindos a mais um cap! desculpa pela demora. esse foi difícil escrever pq eu tive q estudar kkk

E o poderoso deus abriu sua boca, e o grito de Sua Majestade (vida, força, saúde!) alcançou os céus, e a companhia dos deuses disse: "O que é?" e seus deuses disseram: "Qual é o problema?" E o deus não encontrou [palavras] com as quais responder a respeito de si mesmo. Suas mandíbulas tremeram, seus lábios tremeram, e o veneno tomou posse de toda a sua carne assim como Hapi (ou seja, o Nilo) toma posse da terra por onde flui.

~ Fragmento do papiro “A Lenda de Rá e Ísis”

Com a morte de Ramsés II, mais do que só o trono do Egito mudou no mundo. Era como se o universo estivesse só esperando o grande faraó morrer para trazer grandes mudanças para o Egito, mas simplesmente o poder de Ramsés II era tão grande, que até os problemas tinham medo de mexer com ele.

Quando Merneptah, o 13º filho do falecido grande faraó, subiu ao trono já idoso, o futuro, silenciosa e secretamente, já tinha muito planejado. Mas, por enquanto, o Egito tinha preocupações muito mais simplórias do que teriam se soubessem o que viria pela frente. A cada ano que se passava do reinado do novo faraó, se perguntava quanto um faraó idoso iria durar, mas também ficava o questionamento se Merneptah iria conseguir chegar aos pés do pai.

Discutindo sobre as mudanças que os anos haviam trago para ambos, sem ter noção total de que estavam diante dos últimos momentos de relativa calmaria, Anúbis e Hades compartilhavam um vinho sentados em um precipício nas montanhas perto da cidade de Swenett, no extremo sul do Egito, não muito longe de onde a imponente construção de Ramsés II marcava a divisa entre o Egito e a Núbia.

Nas montanhas da margem oeste de Swenett, diversas tumbas já bem antigas de nobres egípcios se escondiam atrás de pequenas portinhas. Sacerdotes, oficiais de alto escalão e governadores tinham na montanha seu descanso eterno em tumbas, em maioria, a muito saqueadas, enquanto os dois deuses sentavam numa beirada, viramos para o esplendor do Nilo logo abaixo e Swenett mais além.

Hades tomava quase todo o conteúdo do copo de vinho em suas mãos de uma vez só e logo suspirava audivelmente, deixando claro seu cansaço e talvez até uma depressão e falta de esperança no futuro. Mesmo considerando como Hades era, ele parecia mais para baixo do que o normal. Era claro que algo o preocupava e não se sentia capaz de solucionar.

— Está tão ruim assim? — perguntou Anúbis, não deixando de notar o comportamento do deus diante do assunto do qual estavam falando já a alguns minutos.

— Ainda não, mas vai ficar. — admitiu Hades — Tantos conflitos estão acontecendo por todo lado em Micenas que a quantidade de mortos consequentemente aumenta. Um caos completo como nunca vi igual por lá.

— Porquê tanto caos? — perguntou Anúbis.

— As cidades se revoltaram contra a autoridade e administração palacianas… — explicou Hades, revirando os olhos, claramente achando as ações dos mortais no mínimo idiotas — Aí começaram a destruir tudo e obviamente os palácios revidaram. Agora estão matando uns aos outros. Atena acha que pode ser o começo do nosso fim.

— Não pense tão negativamente… — disse Anúbis sem muita confiança, e Hades apenas deu de ombros.

— Civilizações caem… sabe muito bem disso, por mais aparentemente imortal que seja a sua. — rebateu Hades, sem muita paciência — Pode muito bem ter chegado nossa hora. Os minoicos não duraram muito também… talvez seja a hora de Micenas. Seria contar muito com a sorte permanecer para o que seja lá que vier depois.

Atrás deles, Kebechet e Melione saíram de um dos portais que levavam para as tumbas da montanha. Um dia aqueles portais foram portas lacradas, mas saqueadores já tinham os arrombado a muitos séculos, deixando para trás apenas o que não lhes interessava e tumbas que não acharam. Melione, cuja idade já se acumulava, estava na verdade visualmente com a mesma idade de Kebechet. A filha de Hades exibia, como sempre, seu corpo dividido ao meio entre o branco e o preto, um visual que aumentava os arrepios que causava por onde passava e a intensidade do seu olhar, mas havia claramente optado por uma aparência bem mais jovem que o seu normal no momento.

— Obrigada por me deixar explorar as tumbas dos nobres, senhor Anúbis. — disse Melinoe com sua voz um tanto arrepiante e apática.

— De nada. — respondeu Anúbis.

— Podemos ver as que ficam mais escondidas aqui? — perguntou Kebechet — As ainda lacradas.

— Só não mexam em nada. Especialmente nos corpos. E sejam respeitosas! — pediu Anúbis — E não desfaçam nenhum lacres.

— Eu sei… — respondeu Kebechet antes de sair andando com Melinoe.

— Quando fui ao seu submundo ano passado, Melinoe não estava aparentemente mais velha? — perguntou Anúbis quando Kebechet e Melinoe já estava longe.

— Ela só fica assim quando é pra sair com Kebechet… — respondeu Hades.

— Ah… Legal da parte dela. — respondeu Anúbis — Uma pena que Macária não pôde vir também ver as tumbas.

— Está ocupada… — respondeu Hades, claramente pensando em outra coisa apesar de estar respondendo — Eu teoricamente também estou, mas se ficasse mais um dia inteiro trabalhando eu ia explodir e mandar todo mundo à merda.

— Razoável. — opinou Anúbis — E como está Perséfone? Sua vítima de sequestro.

— Cala boca! — reclamou Hades, tendo sua mente puxada de vez para a conversa diante da menção de Perséfone e sua ligação como vítima de sequestro..

— Estou mentindo por acaso? — perguntou Anúbis, se divertindo em silêncio ao ver Hades reagir às suas provocações — Ex-vítima de sequestro então.

— Tenho um encontro marcado com ela ao pôr do sol. — admitiu Hades, um tanto tímidamente.

Levando seu copo de vinho para a boca, Anúbis olhou para Hades com o canto do olho e um pequeno sorriso travesso de quem sabia que a noite de Hades prometia. Hades fechou a cara, e imediatamente resmungou:

— Vai à merda.

Anúbis segurou uma pequena risada e por uns segundos só o vento batendo e carregando a areia levemente fez qualquer barulho ao redor deles. A conversa para trocar as mais recentes fofocas só foi voltar quando Hades perguntou:

— Rá continua na mesma?

— Na mesma… — respondeu Anúbis — Nem faz mais sentido tentar guardar segredo disso pra fora do Egito. Todos já sabem.

— Falando em todos... — disse Hades, de forma pensativa — Estão tendo uma reunião nesse exato momento, ouviu falar? Quer dizer, não bem todos, mas ao menos os que lidam com o clima de alguma forma.

— Sim, Hórus e Hapi acho que foram. — respondeu Anúbis mais interessado nos barquinhos passando pelo Nilo no que no assunto da conversa — Geralmente não dá em nada essas reuniões.

— Não sei… — opinou Hades — Ouvi alguns boatos…

— Que boatos? — perguntou Anúbis, subitamente mais interessado no assunto.

— Que tem-se levantado ideias para fazer os mortais terem uma lição. — explicou Hades de forma um tanto enigmática — Lembrarem de sua irrelevância e que dependem dos deuses. E fazer isso de forma que afete vários lugares, não só em nossos domínios específicos. Algo mais geral.

— O que estão pensando então? — perguntou Anúbis, não gostando muito da ideia mas não achando tão inesperada assim — Terremoto? Seca?

— Seu chute é tão bom quanto o meu. — disse Hades, suspirando pesadamente — Mas sabe o que isso pode significar pra gente dependendo dos planos né?

— Mais morte. — respondeu Anúbis — O que significa mais trabalho também.

— Podemos estar de fato nos últimos momentos de relativa tranquilidade… mesmo que esteja numa situação mais tranquila que eu. — disse Hades, deixando o copo vazio de vinho de lado e então se levantando — Sendo assim, vou aproveitar a minha esposa.

Já de pé, Hades foi até as várias tumbas e, sem sinal imediato de Melinoe, apenas falou em voz alta:

— Melinoe, vamos!

Hades esperou alguns poucos minutos e logo Melinoe e Kebechet apareceram na frente dele, surgindo do nada. Melinoe, como sempre, o olhava praticamente sem piscar com aqueles olhos intensos que ela tinha, mas desviou por um momento para olhar para Kebechet e se despedir apropriadamente.

— Tchau. — falou Melinoe brevemente, olhando para Kebechet, antes de ela e o pai sumirem dali.

— Tchau. — respondeu Kebechet no exato segundo que a amiga e Hades foram embora.

Saltitante, Kebechet foi até onde momentos antes Hades estava sentado, e sentou-se ao lado de Anúbis. Ela fitou o brilho do sol refletindo lindamente no Nilo, balançou as pernas no ar sem se importar com os vários metros que separam seus pés do chão naquela beirada de precipício e então suspirou, feliz.

— Gostei de Melinoe ter vindo. — disse Kebechet — Achei que não ia conseguir ser amiga dela também. Ela é bem mais fechada que a Macária.

— Eu achei que vocês se deram muito bem. — respondeu Anúbis.

— Ela gostou de ver as tumbas dos nobres… — explicou Kebechet — A gente pode ir um dia explorar os corredores das pirâmides junto com Ihy? Só as vazias.

— Já estão em maioria bem vazias de toda forma… — disse Anúbis — Mas tome cuidado. Você sabe. Não são lugares para brincar, e sim lugares de descanso… Mas como sei que Melinoe quer mais é aprender e ver com os próprios olhos...

— Vamos ser respeitosos. Prometo. — garantiu Kebechet.

— Eu sei que dá pra confiar em você… — respondeu Anúbis — Mesmo assim, é sempre bom lembrar. Lembre-os também. Você vai estar tomando conta deles.

— Eu sou responsável. — disse ela, orgulhosa.

— O que vocês exploraram nas tumbas? — perguntou Anúbis.

— Uma lacrada e uma de uma família… — disse Kebechet — Aquela que morreu toda doente e tá todo mundo lá junto sabe? Tá até lacrada.

— A com três filhos? — perguntou ele.

— Sim. — respondeu Kebechet — Eles estão juntos no Aaru agora? Achei tão triste.

— Sim… estão… — confirmou Anúbis — Faz muito tempo que eles morreram. Nem sempre famílias inteiras ficam juntas… nem sempre famílias inteiras se amam também, mas é bom quando isso acontece.

— Quando a gente morre… o que acontece? — perguntou Kebechet, curiosamente — Já se perguntou? Alguns deuses já morreram de vez né? Lá na Suméria, por exemplo.

— Eu não sei… — admitiu ele, acabando preso em sua própria mente pensando no assunto enquanto fitava os barquinhos cruzando o Nilo — A Suméria é bem velha… e a Nubia está aqui de nossos vizinhos a séculos e cada vez mais eles estão nos adorando também… sei que alguns deuses caíram em sono profundo e não ficamos mais sabendo deles, e outros simplesmente sumiram. Aten, por exemplo, que Akhenaton adorava, eventualmente sumiu sem ter a linhagem e os seguidores de Akhenaton para o adorar.

— Eu lembro de Tutancâmon… — comentou Kebechet — E de vocês falando de Akhenaton.

— Não vimos mais nada de Aten desde então… — falou Anúbis — E ele preocupou Hórus e Rá por bastante tempo. Então imagino que eles tenham tentado de tudo pra ter certeza que ele sumiu.

— Mas pra onde ele foi? — questionou Kebechet, pensativa, sem realmente esperar uma resposta — Não sabemos né?

— Não… Imagino que todos tenham suas teorias, ao menos. Vamos para o Salão do Julgamento. — sugeriu Anúbis — Quero ver se Hórus e Hapi já voltaram.

Kebechet afirmou com a cabeça, Anubis guardou os copos e a âncora de vinho num bolsão do Duat, e os dois foram prontamente para o Salão do Julgamento. Chegando lá, era bem claro que Hórus não havia voltado. Afinal, não havia qualquer sinal dele e de Hapi ali. O salão dos julgamentos estava tranquilo e um tanto vazio. Pelo menos os dois encontraram Anput alegremente conversando com Seshat e Nefertem, e resolveram se juntar à conversa mesmo sem saber qual era o assunto.

Hórus e Hapi estavam também demorando bastante para chegar, tanto que eventualmente Kebechet desistiu da conversa que lhe cansava e saiu correndo para procurar Ihy para brincar com ele nas belas praias do Mar Mediterrâneo. Osíris, que até então estava distraído lendo um papiro completamente absorto, eventualmente ergueu o olhar dos hieróglifos que lhe distraíam e se virou para onde Seshat, Nefertem, Anput e Anúbis conversavam.

— Hórus está realmente demorando mais que o normal… — disse Osíris.

— Estávamos falando a mesma coisa. — falou Anput.

— Hades estava me falando que ele ouviu falar que tem algum plano de alguma coisa para fazer os mortais “terem uma lição” em mais do que só nossos domínios específicos... — disse Anúbis, dando de ombros, mas com a preocupação estampada no rosto — Deve ser por isso que estão demorando. Algo que pegue várias partes não é algo que costuma ser concordado tão facilmente.

— Fazer os mortais terem uma lição? — repetiu Osíris — E eles estão merecendo alguma coisa assim?

— Não temos como saber o que se passa na cabeça dos outros deuses de outros lugares… — disse Seshat, dando de ombros — Mas ouvi falar que as coisas não andam tão bem no Império Hitita recentemente, por exemplo.

— Nem em Micenas… — completou Anúbis.

— Essas reuniões sobre o clima costumam ser tão banais… — comentou Osíris, soltando um pesado suspiro — Mas me vejo surpreendentemente preocupado com essa. Tenho um mal pressentimento. Acha que podem tentar descobrir mais o que está acontecendo no Império Hitita?

— Posso tentar falar com Lelwani. — sugeriu Anúbis.

Com expressão pensativa, Osíris afirmou com a cabeça enquanto a mente estava claramente longe, pensando sobre tudo que estava acontecendo. Foi nesse momento que, bufante e claramente revoltado, Hórus chegou com Hapi o seguindo timidamente.

— Estávamos falando da reunião que você foi. — disse Anúbis ao ver Hórus entrando.

— Absurdo! É isso que ela foi! — exclamou Hórus — Estão querendo fazer uma seca em todos os lugares desse lado do Mediterrâneo! Do norte de Micenas até na Núbia! E até os hititas e mais além do deserto!

— Tudo isso? — perguntou Anput, surpresa.

— Tarhunna aparentemente já tem feito seca há uns meses para os hititas…. — disse Hapi, timidamente — E ao norte de Micenas as coisas não estão muito melhores…

— Bando de ninguém ao norte de Micenas… — reclamou Hórus — Povos pequenos e irrelevantes com deuses igualmente pequenos e irrelevantes.

— Mas temos que deixar o clima de forma que faça sentido… preferencialmente… — lembrou Hapi, tentando apaziguar a revolta do pai — Então eles também importam.

— A maioria concordou com esse plano maluco! — exclamou Hórus — Apesar de que o Nilo não enchendo ser realmente uma mensagem que seria muito útil de se mandar para Merneptah, uma seca desse tamanho é simplesmente exagero.

— E Zeus também concordou com isso? — perguntou Nefertem — Pelo o que sei as coisas já não andam muito bem em Micenas.

— Não. Não primeiramente ou totalmente, pelo menos. — falou Hórus — Mas colocaram muita pressão… Em todo mundo, aliás. Dava para ver que tinha gente lá com medo de não aceitar essa ideia maluca. Ficaram insistindo muito que os mortais precisavam de uma lição, que ficaram prepotentes agora que estão aprendendo a usar o ferro… Que devem ser lembrados que são irrelevantes… Querem fazer algo grandioso para ficar na história! Então Zeus disse que ia falar com Poseidon para fazer um terremoto.

— Isso ainda vai dar tanto problema… — disse Seshat, suspirando pesadamente.

— Também fiquei com essa sensação. — concluiu Osíris.

— Merenptah não chega nem aos pés do pai. — falou Hórus — Fazemos uma seca não tão forte esse ano pra lembrá-lo disso, e o povo também. Não duvidaria se Poseidon fizer um terremoto fraco, só pra dizer que cumpriram a parte deles. Eu pelo menos pretendo só fazer o mínimo.

— Seria bom não termos conflitos internacionais demais enquanto Merenptah for faraó… — disse Sehat.

— Fazemos uma seca mediana… — sugeriu Hórus — e vemos o que fazemos ano que vem. Se ele ainda estiver vivo até lá.

— Provavelmente vai estar… — disse Anubis dando de ombros — Mas daqui a cinco… aí já não…

— O que coloca ele então praticamente na metade do reinado dele… — disse Anput e Anúbis afirmou com a cabeça.

— Quem mais concordou com essa ideia de seca? — perguntou Osíris.

— Baal. — respondeu Hórus — Vários povos pequenos de cultura hitita…Muitos dos mesmos idiotas que ficaram do lado dos hititas na Batalha de Kadesh.

— Já vi que estou perto de ficar com muito trabalho…. — disse Anúbis.

— Eu não gosto disso. — disse Osíris — Vamos nos atualizar mais e torcer pra Merenptah entender o recado e tentar ser um faraó mais capaz apesar da idade.. ou simplesmente passar logo o trono para algum filho, por mais não costumeiro que essa ideia possa soar.

— Falei antes de você chegar que posso perguntar para Lelwani se ela sabe algo. — explicou Anúbis, informando Hórus do combinado que ele perdeu.

— Vamos juntar por hoje o que sabemos entre nós… — sugeriu Hórus — As decisões da reunião de hoje certamente vão ser bem impactantes e podem trazer algumas mudanças nas próximas horas. Não vamos nos deixar parecer desesperados. Afinal ainda estão todos tentando avaliar o quanto de Ramsés II Merenptah realmente tem. Seshat, pode ver com Thoth o que ele sabe?

— Pode deixar comigo! — prometeu ela.

— Posso tentar ver com minha mãe também… e… — disse Hórus de forma pensativa — Bes talvez saiba alguma fofoca passando pelos povos nômades… Saber algo do Levante e do oeste pode ser útil e muitas conversas andam pelos desertos.

— Vou ver com Qebui para irmos atrás de alguns deuses para saber como andam as coisas ao sul. — ofereceu-se Nefertem.

— Uma boa ideia, mas as coisas ao norte me preocupam mais. — disse Hórus — Vou ver o que mais posso encontrar depois que falar com Bes.

Hórus então se transformou num falcão e saiu voando dali, em busca de Bes. Osíris suspirou, cansado, se espreguiçou mais confortavelmente em seu trono, quase se esparramando sobre ele, e voltou a fitar o papiro em suas mãos sem realmente ler os hieróglifos nele registrados.

A saída de Hórus logo foi seguida pela de Seshat e Nefertem, até que Anúbis e Anput se viram sozinhos no Salão do Julgamento com Osíris. O casal se olhou, e imediatamente Anúbis viu o sorriso travesso que Anput exibia.

— O que está planejando? — perguntou ele.

— Que pela cara eu tenho que aproveitar enquanto você ainda não está atolado de mortos para julgar… — disse Anput levianamente — E que Nefertem me deu algo que eu queria que você usasse.

— Algo pra eu usar? — perguntou Anúbis, confuso.

Anput segurou sua mão e entrelaçou seus dedos nos dele antes de levá-lo para longe dali. O casal apareceu novamente longe das margens do Nilo. Dessa vez, estavam na Península do Sinai, perto do golfo cujas águas molhavam o deserto dando a forma triangular da península do sinal, com um lado o Egito, e do outro lado a imensidão do deserto dos povos semitas que um dia viraria a Arábia Saudita.

O lugar onde eles estavam era simplesmente lindo e completamente novidade para ambos. Muito bem escondido no meio do deserto, eles estavam num belo canyon que deixava pouca luz do sol entrar e iluminar o que ele escondia. Era como se a Terra tivessse decidido pintar um quadro usando imponentes paredes de arenito com belos tons de vermelho, laranja, amarelo e até pequenos detalhes azuis e roxos que combinavam com o pequeno lago que o canyon escondia.

Pedras mais lisas adornavam as margens desse lago como se implorassem para que alguém deitasse sobre elas para acompanhá-las na admiração das passagens estreitas do cânion que se torciam e retorciam como um labirinto.

— Que lugar é esse? — perguntou Anúbis.

— Lindo né? — perguntou Anput — Seshat comentou que o descobriu por acaso, enquanto registrava para Thoth algumas coisas dos povos nômades… Fica muito bem escondido dentre as montanhas e o deserto.

— O que Nefertem te deu então? — perguntou ele — Perfumes?

— Não exatamente… — respondeu ela tirando de um bolsão do Duat, como uma bolsa invisível, uma pequena ânfora — É um óleo de massagem. O cheiro é maravilhoso.

— Senti daqui… — respondeu ele, pegando o frasco que ela estendia para ele.

Por um segundo, Anúbis puxou o ar e abria a boca para responder que não tinha lá muita certeza se tinha grandes habilidades de fazer massagem assim, já entendendo que era isso que ela queria que ele fizesse. Contudo, no segundo seguinte o vestido de Anput caiu aos seus pés e Anúbis esqueceu completamente o que ia dizer. Podia sem dúvida aprender a fazer massagem ali mesmo.

Os seios desnudos completamente visíveis, o corpo curvilíneo, tudo de Anput estava à mostra. Podia ser a milionésima vez que Anúbis o via, mas mesmo assim lhe parecia a mais belas das pinturas. Se já houvessem inventado o Renascimento, chamaria a visão de um quadro renascentista. Mas, dado o momento, era um quadro que nenhum artista era capaz de sequer chegar aos pés. Certamente não era só Hades que iria aproveitar aquele dia muito bem.

Anput estirou seu vestido na pedra mais lisa que achou e lenta e cerimonialmente deitou-se sobre ele, com as costas viradas para o céu, e tirou o longo cabelo trançado de suas costas. Anúbis acompanhou cada movimento um tanto hipnotizado, e só se mexeu novamente quando ela olhou para ele, com olhos que claramente pediam silenciosamente por sua massagem.

Ele se ajoelhou ao lado dela e abriu o pequeno frasco. O cheiro forte do óleo de massagem tomou conta do cânion rapidamente. A bela pele negra das costas dela parecia implorar não só pelo toque delicado do óleo, mas também pelo contato das mãos dele. Pensando no passo a passo escasso que sabia de um processo de massagem, Anúbis derramou o óleo entre as mãos, esfregando-as para aquecê-lo, e logo tocando na pele de Anput.

Ele começou pelo meio das costas dela, e foi subindo lentamente, até alcançar seus ombros. Os dedos seguindo as curvas dos músculos como se fossem caminhos que já conhecia de cor, mas que ainda assim descobria pela primeira vez a cada milímetro que tocava. Depois de subir, foi a hora de descer. Descendo e descendo cada vez mais, fazendo um suspiro escapar pelos lábios de Anput que não deu qualquer sinal de que queria que ele parasse. Com certeza não era por causa das propriedades do óleo que eles começaram a ficar com calor.

Talvez por esse mesmo calor, que a cada toque se intensificava, que Anput repentinamente se virou para Anúbis, sentando-se na pedra enquanto ele passou a se sentar sobre os calcanhares enquanto os joelhos ainda tocavam a pedra. Os dois se olharam por pouquíssimos segundos, o suficiente para ela alcançar o frasco, sem desviar o olhar. Ela se ajoelhou diante dele, passou o óleo nas mãos, esfregou-as e começou a massagear os ombros expostos de Anúbis. O toque dela era delicado, exploratório, mas cheio de uma confiança natural que fez os músculos dele se relaxarem quase instantaneamente.

Enquanto Anúbis antes tinha se preocupado com as costas de Anput, agora Anput se preocupava com o peitoral dele. Isso é, nos poucos segundos que as mãos delas trabalharam, pois logo o serviço foi completamente interrompido quando eles se aproximaram e começaram a se beijar.

Por uns segundos o beijo continuou concentrando toda a atenção de ambos, mas logo as mãos decidiram que queriam explorar os corpos enquanto tinham chance. Com movimentos lentos e ritmados, Anput fez suas mãos deslizarem pelas costas dele, os dedos firmes, mas ao mesmo tempo tão gentis que cada toque parecia uma carícia. Já Anúbis, antes de continuar a explorar o corpo dela, considerou que o melhor uso de suas mãos era para se livrar de seu saiote, já que era o único ali ainda vestindo alguma coisa.

Se livrando do saiote, o que causou uma momentânea interrupção do beijo, e deixando bem claro o quanto aquela massagem estava de fato deixando Anúbis com calor, ele tocou a cintura dela e desceu as mãos até o encontro da bunda com a coxa dela para que pudesse segurá-la o suficientemente para puxá-la para seu colo, acabando por interromper novamente o beijo. Ela ficou com uma perna para cada lado do corpo dele com apenas a prova do calor dele entre eles.

Com Anúbis sentado em seus próprios calcanhares, Anput se aproveitou e, permanecendo ainda de joelhos, se ergueu. Deixando de sentar no colo dele e apenas ficando com cada joelho dela apoiado no chão de um lado de Anúbis. Ela olhou-o lentamente e passou os dedos oleosos pelos cabelosnegros bagunçados dele, levando uma mecha para trás enquanto também a sujava um pouco de óleo de massagem. Daquele jeito, ela chegou bem perto. Bem perto. Seus seios estavam praticamente tocando o queijo dele e ela estava perfeitamente alinhada para quando resolvesse sentar novamente… mas um pouco mais pra frente, num lugar mais interessante.

Anúbis respirou fundo, tentando manter o controle enquanto sentia o calor de Anput tão próximo, quase insuportavelmente perto. Seus olhos fixos nos dela, ele podia ver o desejo queimando como brasas no âmbar de suas íris, um reflexo perfeito do que ele sentia dentro de si. Ela era uma visão, uma deusa em toda a sua majestade, e ele se sentia hipnotizado, completamente à mercê de cada movimento dela. Queria segurar a cintura dela e puxar ela para seu colo, naquela posição tão estratégica que ela estava agora, mas se segurou um pouco mais para continuar perdido no mar de seu olhar.

Ambos queriam fazer aquele momento durar mais, ao invés de tão rapidamente ir para o ápice que aquele cânion guardaria em segredo. Anúbis a abraçou, seus corpos se espremeram e ele beijou o corpo dela, na altura da clavícula.

Se o cânion pudesse sentir algo, teria morrido de inveja do momento que Anúbis e Anput estavam pedindo que ele testemunhasse e guardassem entre eles.

Alheio aos gemidos e afegos que escapavam pelas poucas aberturas daquele cânion para o céu, e as preocupações simplórias dos egípcios, algo muito importante acontecia não tão longe dali. Dentre os problemas que o futuro arquitetava, um deles com uma promessa de muito caos enquanto o gatilho dessa reviravolta se escondia numa grande e profunda caverna no continente europeu, quase às margens do Mediterrâneo.

Um ar tenso e eletrizante parecia encher a caverna, afastando qualquer criatura viva de seus arredores e interiores. Era como se a própria natureza soubesse do perigo que se escondia ali, avisando a todos para manterem distância. Dentro da caverna, até o ar parecia faltar ou estar pronto para sufocar aqueles que fossem ingênuos o bastante para se aproximar, o ambiente impregnado com uma sensação de perigo iminente, como se a qualquer momento algo terrível pudesse acontecer.

No coração dessa escuridão opressiva, uma grande figura disforme se encolhia na escuridão da caverna, seu contorno mal discernível no breu absoluto. Aparentemente adormecida, a criatura permanecia inquieta, cada movimento sutil sugerindo uma energia contida, prestes a explodir. Ela não dormia, na verdade, estava bem acordada, os olhos fechados apenas para disfarçar a vigilância constante. Como um predador que contava os segundos, as horas e até os séculos para atacar.

Eventualmente, perto da enigmática figura, no chão frio e úmido da caverna, o rosto de uma mulher adormecida se formou, surgindo da escuridão como um espectro. Quando finalmente falou, sua voz ecoou pelas paredes da caverna como um sussurro amaldiçoado, carregado de promessas veladas e ameaças não ditas.

— Não se preocupe… — disse ela e a figura se remexeu um pouco em resposta ao som da voz da mulher — Já coloquei o plano em movimento. Logo voltarei.

Centenas de cobras pareciam sibilar ameaçadoramente na grande figura disforme em comemoração ao que a mulher disse. A mulher logo sumiu, tão repentinamente quanto havia aparecido, e a figura ficou quieta, continuando a esperar o seu momento, deixando no ar uma promessa ameaçadora e secreta.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Bem-vindos à derradeira troca entre a Era do Bronze e a Era do Ferro (é um “finalmente” ou é um “já”? kkk). Conforme a galera foi aprendendo a usar ferro pra fazer armas, o caos também comeu solto. Ninguém tem muita certeza de todos os eventos que aconteceram (além da galera aprender a fazer ferro) que culminaram no fim da Era do Bronze. Mas, algumas coisas se sabem: — Rolaram secas e mudanças climáticas e provavelmente começou lá pras bandas do Cáucaso (Turquia (Hititas), Azerbaijão, Armênia, Geórgia) — Os micênicos estavam numa situação ruim de conflito interno, tal como o Hades explicou — Ramsés II faz falta no Egito pq ele foi seguido por faraós meia-boca (especialmente considerando que se comparar com Ramsés II é sacanagem) — E outras para próximos caps hehe **** REFERÊNCIAS **** Qubbet El Hawa - https://en.wikipedia.org/wiki/Qubbet_el-Hawa A lenda de Rá e Ísis - https://sacred-texts.com/egy/leg/leg20.htm Merneptah - https://en.wikipedia.org/wiki/Merneptah Povos do Mar - https://en.wikipedia.org/wiki/Sea_Peoples Fim da Era de Bronze - https://en.wikipedia.org/wiki/Late_Bronze_Age_collapse