A Morte Das Areias do Saara
133 Um Dia Com o Papai
Notas iniciais

Kebechet, a filha de Anubis, sai ao encontro de Pepi, com quatro vasos nemset.
Ela refresca o peito do Grande Deus no dia de sua vigília, e ela refresca o peito de Pepi com vida.
Ela lava Pepi, ela incendeia Pepi.
~ Fragmento de “Texto da Pirâmide do Faraó Pepi”
Anúbis e Kebechet deixaram o submundo micênico para trás e, tal como prometido para Anput, foram em busca do sol. O primeiro lugar no qual Anúbis pensou foi a capela que Hatshepsut havia construído para ele no seu Templo de Milhões de Anos. A capela não havia mudado muito. Ainda tinha lá uma de suas partes favoritas, as grossas e grandes pilastras abriam a capela de Anúbis para a imensidão da área verde e extremamente fértil aguada anualmente pelo Nilo logo além, depois do jardim que foi construído na entrada do templo de Hatshepsut (e agora parcialmente negligenciado).
O sol entrava timidamente ali, o suficiente considerando o quão forte o sol podia ser no Saara, e trouxe um calor bem vindo para Kebechet, que estava confortavelmente no colo do pai, agarrada a sua boneca firmemente. Usando um pouco de magia, Anúbis enfiou a única mão livre no Duat e puxou de lá um tapete enrolado num rolo. O deus colocou-o no chão, tentando não joga-lo, já que não queria acabar levantando a fina camada de areia que cobria quase tudo pelo Egito, e então empurrou o tapete com o pé, desenrolando-o até criar uma superfície macia e, mais importante, livre da mesma camada de areia que tentou não levantar.
Agora com uma área limpa, Anúbis colocou Kebechet sentada no centro do tapete. Kebechet enfiava o braço da boneca de pano na boca e o mastigava, provavelmente tentando aliviar o desconforto dos dentes que cresciam. Continuando a arrumação do lugar, o pai da menina Anúbis enfiava o braço no Duat mais uma vez, fazendo com que ele parecesse sumir no meio do ar e passava a procurar mais alguma coisa ali, como se o Duat fosse uma grande bolsa bagunçada. O tempo que procurava o que queria naquele bolso de realidade que havia se transformado na bolsa de bebê compartilhada de Anúbis e Anput, Kebechet focou os olhos na pintura do próprio pai preservada na parede.
Enquanto Anúbis começou a tirar de lá algumas almofadas e brinquedos extras feitos de pano ou madeira, os olhos de Kebechet subiam pelas pinturas na parede até começar a admirar o teto. E ela continuou erguendo os olhos, subindo e subindo, com o olhar caminhando em linha reta pelo teto, até o ponto que queria olhar estar atrás demais. Ainda assim, ela não tentou girar o corpo, continuou na linha reta, o que fez ela perder o equilíbrio e começar a cair com a cabeça e as costas em direção ao chão. Mas, no último segundo, Anúbis segurou a cabeça dela com suas mãos numa concha, impedindo que a filha batesse a cabeça no chão.
Ele suspirou, aliviado, apesar de consciente que, como deusa, Kebechet não iria se machucar com uma pancada na cabeça como aquela, mas isso não significava que não doesse. A garotinha, por outro lado, ao ver o pai chegando tão subitamente de um jeito tão diferente, simplesmente começou a rir.
— É tudo brincadeira para você. — disse Anúbis com um pequeno sorriso.
Anúbis arrumou a menina novamente sentada novamente sobre o tapete, agora rodeada de almofadas e brinquedos, e ela ficou olhando para ele. Consequentemente, ele não resistiu, fez um barulho de pum com a boca tal como já havia feito quando ela era recém-nascida e várias outras vezes no espaço de tempo entre o nascimento de Kebechet e aquele dia. Tal como das outras vezes, a menina caiu na gargalhada mas, ao contrário de todas as outras vezes, dessa vez ela tentou imitar.
A imitação dela não parecia um barulho de pum. A tentativa de Kebechet fez um barulho de “abruuuuuu” quando ela colocou a pequena língua entre os lábios e começou a soprar, produzindo não só o barulho, como também várias bolhas de baba. Logo depois, a menina caiu na risada com o próprio barulho. Podia ser uma tentativa fraca de barulho de pum, mas por ter sido a primeira tentativa dela, Anúbis olhou chocado para Kebechet.
— Você me imitou? — perguntou ele enquanto ela ria e, mais uma vez, ela o imitou e caiu na gargalhada.
Como ele resistiria a aquela risada gostosa? Logo estava sorrindo também e então, quando ela ameaçou fazer sua versão de barulho de pum pela terceira fez, ele fez a dele. Consequentemente, ela não conseguiu fazer a dela, pois estava, mais uma vez, ocupada demais rindo.
Sorrindo, acabando até por rir um pouco também, ele deixou ela se recuperando do momento de risada, quando ela parou um pouco de rir, limpou rapidamente a boca cheia de baba dela, que já pingava para o tapete. Com a pausa para limpeza da baba, ela acabou lentamente parando de rir. Assim, Anúbis sentou-se perto dela, encostado em uma das pilastras da capela, com o sol atingindo-lhe um lado do corpo.
Nesse meio tempo, Kebechet olhou ao redor, fitando os brinquedos que ele havia trago e se atraiu por um pequeno brinquedo de madeira no formato de um pequeno pássaro com asas fechadas rudemente entalhado com um par de pequenas rodas, também em madeira, para se locomover pelo chão, e começou a tentar estudá-lo e testar como ele funcionava. Suas bochechas fofas e a genuína inocência de uma criança, faziam a cena ser extremamente graciosa apesar de ela parecer séria como um cientista diante de um novo mistério.
Kebechet estava tão entretida em entender o pássaro de brinquedo, que demorou a notar que o pai fazia algo ainda mais interessante. Logo após sentar, Anúbis havia tirado do Duat uma vasilha de cerâmica com um dois figos dentro e uma faca. Até Kebechet notar o que ele estava fazendo, ele já havia cortado um dos figos ao meio perfeitamente e cortado a base triangular levemente mais dura de uma das metades.
Curiosa, Kebechet largou os brinquedos e foi engatinhando até ele, olhando curiosa para as metades de figo nas mãos de Anúbis, acompanhando a segunda metade também perder sua base triangular e a mesma sequência acontecer com o segundo figo. Anúbis alternava o olhar entre o figo e o interesse da filha, mas logo parou uns segundos para botar as bases triangulares removidas de lado junto com a faca, do lado oposto de onde Kebechet estava. Ele deixou as quatro metades do figo na vasilha e ofereceu a vasilha para Kebechet.
— Pegue uma. A mamãe tá demorando hoje e eu não tenho leite. — disse Anúbis, tentando ser criativo ante a falta da invenção da mamadeira — E seus dentes crescendo devem estar incomodando também.
Kebechet, que até então estava com joelhos e mãos sobre o tapete, sentou-se e olhou, curiosa, da vasilha para Anúbis. Com a mesma curiosidade que brincava com o pássaro de madeira segundos antes, Kebechet esticou a mão e pegou uma das fatias de figo.
Sem ainda a delicadeza para pegar uma fruta mole como o figo, a mão de Kebechet espremeu ele um pouco, melando sua mão e amassando o figo parcialmente. Ela olhou o fenômeno curiosa, analisando o comportamento do figo e tentando entender sua textura estranha e o que era o líquido que agora se formava como uma gota prestes a pingar em sua mão. Colocar as coisas na boca era uma das coisas que Kebechet recentemente mais gostava de fazer, os dentes crescendo certamente influenciavam isso, então Anúbis só precisou ficar observando até quando Kebechet decidiu que o lugar do figo era a boca.
Usar os dentes não era ainda uma habilidade que Kebechet dominava muito bem, então ao invés de morder o figo, ela chupou a polpa. Aprender a usar aqueles pequenos dentes era um dos motivos para a escolha de um figo.
— Gostou? — perguntou Anúbis e, numa resposta silenciosa, Kebechet olhou para ele com um olhar brilhante que parecia dizer que sim, figo era gostoso — Que bom.
Anúbis pegou a garota, que rapidamente se lambuzava de figo, e colocou ela sentada em sua coxa, mais em contato com o sol não tão quente de um final de dia. Um braço dele impedia que ela acabasse caindo para trás, e o outro segurava a vasilha de figos perto dela, para caso ela quisesse mais. Ele esperou ela comer, dando uma breve olhada para o céu, determinando quanto tempo havia se passado.
Anput estava sem dúvida demorando demais, o que deixava ele um pouco preocupado. Sabia que ela se virava muito bem e dificilmente seria algum problema que a colocasse em real perigo, especialmente considerando que nenhum outro deus havia ido atrás dele para alertar de algo.
Sem mais polpa na fatia de figo que segurava para chupar, Kebechet largou ela na tigela de cerâmica e, pensativa e lentamente, pegou mais duas fatias, uma com cada mão. Ela olhou para cada fatia, colocou uma na boca e estendeu a segunda na direção da boca de Anúbis.
— Pra mim? — perguntou ele.
— Baba. — respondeu ela sem tirar da boca o figo que segurava com a outra mão.
— Obrigado. — disse ele e logo apoiou a vasilha no chão, pegou o figo e mordeu-o.
Os dois ficaram lá aproveitando os figos por uns minutos, até Anúbis resolver levar Kebechet para um dos espelhos d’água que havia no templo de Hatshepsut para conseguir limpar a melequeira que Kebechet fez consigo mesma (e com ele por extensão) nas tentativas de comer figo. Voltando para a capela de Anúbis, os dois brincaram um pouco com os brinquedos de Kebechet, mas ela logo caiu no sono em uma das almofadas.
Sem sinal de Anput e com o tempo livre de Anúbis sendo declarado como esgotado quando o sol tocou o horizonte atrás do templo de Hatshepsut, Anúbis arrumou a bagunça que haviam feito, pegou Kebechet adormecida, e foi para o Salão do Julgamento.
Com Kebechet dormindo com a bochecha apoiada em seu ombro e baba escorrendo de lá, Anúbis chegou no Salão do Julgamento e percorreu os olhos pelos deuses presentes, concentrados em seus afazeres finais para logo começar os julgamentos. Não era a primeira vez que Kebechet ficaria ali durante algum julgamento, logo, ela já tinha o cantinho dela, tal como quando era recém-nascida, escondido dos mortais por paredes mágicas.
Foi lá então que Anúbis foi e, com cuidado, deitou a menina no mesmo cesto confortável e cheio de lençóis que ela havia deitado quando recém nascida, acariciou sua cabeça, lhe deu um doce beijinho na testa e deitou a querida boneca de Kebechet ao lado dela. Antes, o cesto era grande demais para ela, agora ele estava com os dias contados.
Ele então deixou ela lá, dormindo tranquilamente, magicamente protegida de qualquer barulho que acontecia no resto do salão mas não o oposto, afinal ele precisava ouvir se ela acordasse. Era, infelizmente, hora de Anúbis trabalhar, e ainda nada de Anput. Assim, quando saiu do cantinho de Kebechet, Anúbis foi direto para Seshat, na esperança de que ela soubesse mais sobre o que Anput havia ido checar.
— Seshat, você sabe o que aconteceu no nomo da Anput? — perguntou Anúbis — Ela saiu correndo sem nem explicar direito.
— Parece que começou uma briga grande com uma caravana de estrangeiros saindo de Amarna voltando para a casa deles. — disse Seshat — Não sei os detalhes.
— Ah, nada mágico então. — disse Anúbis mais aliviado.
— Não até onde sei. — respondeu Seshat.
— Anput não está aqui para ficar com Kebechet? — perguntou Hórus, aparentando estar um pouco preocupado, enquanto se aproximava da conversa.
— Não… — disse Anúbis — Mas Kebechet está dormindo.
— Acha que ela não vai acordar? — perguntou Hórus.
— Não sei. — admitiu Anúbis dando de ombros.
— Quero só ver você tentando meter medo com um bebê no colo. — disse Set que passava por perto e acabou ouvindo a conversa um pouco — Já tem que esconder o fato que não consegue crescer um fio de barba.
— Você não tem nada melhor para fazer? — reclamou Anúbis fazendo Set rir um pouco antes de sumir dali.
— Ignora… — disse Hórus apesar de ter encarado Set com igual desprezo — Cedo ou tarde isso iria acontecer.
Os julgamentos começaram logo em seguida, todavia, Anput certamente estava tomando o seu tempo no nomo, pois já estavam na metade do segundo julgamento e ainda nada de Anput. O segundo julgamento era de um homem com uma quantidade de músculos que certamente não combinava com o choro e o desespero e estava prostrado no chão, diante de Anúbis e da balança, rezando com a testa tocando o chão.
— Meu coração pelo qual eu nasci! — gritou o homem — Não se oponha a mim no meu julgamento…
Como o homem estava de joelhos e todo encolhido com a testa no chão, Anúbis não tinha como puxar o coração dele pela frente. O homem não era de todo bom, sabia disso, mas também não era de todo mal e nem havia desrespeitado ninguém ao chegar no Salão para justificar Anúbis ser bruto e forçar ele ficar numa posição melhor para Anúbis pegar o coração. Assim, Anúbis resolveu puxar o coração pelas costas mesmo, mas parou, ao ouvir um choro.
— Que não haja oposição a mim na presença dos Chefes Tchatcha. — continuava o homem — Que não parta de mim na presença daquele que guarda a Balança!
— MAMA! BABA! — chorava Kebechet mais alto do que da primeira vez.
Anúbis não precisava ouvir mais nada. Largou tudo o que estava fazendo e foi com passos apressados até onde Kebechet estava. Foi tão repentino que até a alma a ser julgada, que também ouviu o choro, estranhou e ficou acompanhando a cena com o olhar. Quanto aos outros deuses, a maioria deles eram pais ou mães, não estranharam nem falaram nada.
— Oi. Estou aqui. — disse Anúbis pegando Kebechet no colo, que logo se agarrou ao seu pescoço e parou de chorar depois de uma fofa fungada no nariz — O que houve? Teve um pesadelo ou só não queria ficar sozinha?
— Mama? — perguntou Kebechet.
— Mamãe ainda não voltou. Mas ela está bem. — prometeu Anúbis pegando a menina no colo e limpando as lágrimas do seu rosto enquanto ela parava de chorar.
Com Kebechet agarrada a si, Anúbis parou uns segundos para ter alguma ideia genial. Dificilmente Kebechet voltaria a dormir, já a conhecia. Assim como também sabia que ela não iria querer ficar sozinha. Usar Ammit de babá também não era uma escolha no momento, afinal ela estava ocupada com algo que era longe de ser bom para os olhos de um bebê.
— Quer ficar com o vovô? — tentou Anúbis, julgando o trono de Osíris um lugar melhor.
Sua tentativa não deu tão certo, Kebechet negou com a cabeça. Anúbis então suspirou, estava de fato prestes a julgar uma alma com um bebê no colo. Então ele voltou para onde estava antes, com Kebechet agarrada em seu colo, segurando-a com um braço e encaixada na sua cintura, uma ótima tática para conseguir ficar com um braço livre e não gastar tanta energia ou esforço para segurar um bebê.
— Ahm… — disse a alma olhando para Kebechet que, tímida, escondeu o rosto no pescoço do pai.
— Algum problema? — perguntou Anúbis, nem um pouco simpático para a alma do homem.
— Não. Nada… senhor… — respondeu o homem tentando fingir que nada aconteceu.
— Quer que eu fique com ela? — perguntou Osíris.
— Ela não quer… — justificou Anúbis sentindo Kebechet apertar mais o abraço.
Não era como se Kebechet não gostasse do resto da família, de fato gostava. A questão era que às vezes ela era um pouco grudenta com os pais, que apesar de tudo, não se incomodavam e a mimavam ainda assim. Assim, sabendo que a alma, apesar de estar vendo-o com a cabeça de chacal, também estaria vendo que ele segurava uma bebê que claramente gostava muito dele, Anúbis mesmo assim tentou não perder a pose ao falar para o mortal:
— Continuemos.
— Ahm… T-Tá… — disse o homem abaixando a cabeça novamente — Meu coração pelo qual eu nasci. Não se oponha a mim no meu julgamento. Que não haja oposição a mim na presença dos Chefes Tchatcha. Que não parta de mim na presença daquele que guarda a Balança!
Anúbis tentou de novo, com o olhar parcialmente escondido de Kebechet em seu pescoço, mas ainda muito atento, Anúbis tirou o coração do peito da alma, visivelmente mais tranquila do que antes. Um que estava menos tranquilo do que antes era Anúbis, que a cada ação que fazia, se perguntava se estava mesmo tudo bem Kebechet ver as etapas do julgamento. Ela sempre havia acompanhado de longe, sem de fato ver o que acontecia. Pelo menos com certeza daria um jeito de ao menos esconder dela a refeição que Ammit viria a fazer, seja com aquela alma ou outra. Essa parte ele tinha certeza que não era bom ela ver.
— Tu és meu Ka, que habita em meu corpo; O Deus Khnemu que une e fortalece meus membros. — continuava o homem, com a voz mais fraca, enquanto Anúbis colocava o coração dele na balança — Que vá para o lugar de felicidade para onde vamos. Que os oficiais de Sheniu, que fazem as condições da vida dos homens, não façam com que meu nome cheire mal, e que nenhuma mentira seja pronunciada contra mim na presença do deus. Preste bem atenção, ó justo Juiz da Balança, para apoiar o testemunho de meu coração.
O homem mal piscava quando o coração tocou a balança, e também mal respirava quando Anúbis fez surgir na palma de sua mão a bela pena branca de Ma’at, a qual logo colocou do outro lado da balança. Agora, com tudo pronto na balaça, a alma começou a ficar nervosa novamente, e a pequena Kebechet, que estava com o dedo na boca, notou isso.
Por alguns segundos, a balança ficou em dúvida, indo de um lado para o outro. A cada vez que ela começava a pender para o lado do coração mais pesado, o homem parecia que ia recomeçar a chorar. Contudo, como não havia meio termo, eventualmente a balança decidiu que a Pena da Verdade era mais pesada, e logo o homem respirou mais aliviado.
— E-Eis que estou em tua presença, Senhor dos Ocidentais. — disse o homem, chorando de alegria, proferindo o discurso decorado — N-Não há pecado no meu corpo. Eu não falei aquilo que não é verdade conscientemente, nem fiz nada com um coração falso. Concede que eu seja semelhante àqueles favorecidos que estão em teu segmento, e que eu possa ser grandemente favorecido pelo deus Osíris, amado Senhor das Duas Terras.
Com um olhar curioso e atento, Kebechet acompanhou toda a cena até o homem, indiscutivelmente feliz, entrar no Aaru. Quanto a Anúbis, ele certamente ficou aliviado de não ter que dar um jeito de esconder da menina Ammit comendo. Seria certamente triste, considerando que Kebechet e Ammit gostavam bastante de brincar juntas.
Foi nesse momento também que Anput timidamente entrou no Salão do Julgamento, com um sorriso amarelo no rosto.
— MAMA! — gritou Kebechet super feliz.
— Oi, meu amor. — disse Anput indo a passos apressados para a filha e pegando-a no colo e logo enchendo-a de beijos que fizeram a menina cair da gargalhada — Desculpe a demora.
— Está tudo bem no nomo? — perguntou Anúbis.
— Agora sim. — disse Anput — Desculpe ter demorado tanto. No começo era só uma briga, apesar de grande, com uns estrangeiros saindo de Amarna. Sabe como tudo relacionado à Akhenaton e àquela cidade tem péssima fama entre o povo.
— Dizem até que ela é amaldiçoada. — disse Anúbis.
— Sim… — concordou Anput — Arrumar a briga em si foi rápido, mas depois… Fiquei tanto tempo sem ir pra lá desde que Kebechet nasceu que fiquei com peso na consciência e o povo também ficou bem insistente, querendo que eu ficasse mais lá. Então uma coisa começou a puxar a outra. Mas sei que gosta de ficar com a Kebechet… só não esperava que fosse demorar tanto a ponto dos julgamentos começarem.
— Tudo bem. — respondeu Anúbis — Ela se comportou bem.
— Vai ajudar o papai nos julgamentos quando crescer, Keb? — perguntou Anput logo dando um beijo na bochecha de Kebechet .
Em resposta, Kebechet abriu um grande sorriso, exibindo orgulhosamente seus quatro pequenos dentes.
— Ah, ela me imitou hoje. — disse Anúbis — Olha.
Ele repetiu o barulho de pum e Kebechet imediatamente começou a rir, mas logo ela fez sua versão de barulho de pum, fazendo Anput olhar para ela surpresa enquanto Kebechet caía na risada consigo mesma.
— Sabia que era uma menina muito inteligente. — disse Anput abraçando a menina bem forte e ela abraçou a mãe de volta fazendo o barulho de pum de novo.
Os julgamentos logo recomeçaram e o dia se seguiu. O Egito foi engolido pela noite e logo foi iluminado pelo sol da manhã. No palácio real, o jovem Tutancâmon pré-adolescente, sentava-se em seu trono dourado com sua fiel bengala apoiada em um dos braços do trono. Mordendo o lábio inferior por uma mania tão insistente que já estava deixando seus dentes tortos, o jovem faraó fitava a estranha adaga que havia confiscado dos presentes asiáticos de seu falecido pai. O interesse pela adaga era tanta que Tutancâmon mal ouvia as palavras daquele que falava consigo naquele momento, seu conselheiro, Ay.
Toda a atenção do menino ia para a adaga que, apesar de já ser diferente o suficiente por usar técnicas de decoração e ferraria nada comuns e até desconhecidos para os egípcios, ele sentia que havia algo mais que ele não entendia. Só séculos depois descobririam que o metal daquela adaga não existia na terra, era feita de meteorito.
— Trocar a capital para Mênfis talvez seja melhor. — dizia Ay — É a primeira capital do Império e o povo precisa sentir de fato que está alinhado com voltar tudo a como era antes.
— Também nos deixará mais perto das fronteiras com hititas. — disse um homem, claramente um general de alta patente, pela forma que se vestia, entrando no cômodo também.
— Horemheb… — disse Ay — Estou conversando com o faraó.
— É o conselheiro mas eu sou o general. — respondeu Horemheb — Tenho tanto direito quanto você de aconselhá-lo, especialmente com o crescente problema hitita.
— Trocar a capital para Mênfis é bom então? — perguntou Tutancâmon, desviando sua atenção da adaga.
— Ficar mais perto das magníficas pirâmides. — lembrou Ay — É uma bela vista. Mas também é algo tático para os sumo-sacerdotes verem que estamos querendo de fato voltar tudo a como era antigamente. Embora não podemos ignorar Karnak.
— Mas é uma mudança que pode sair cara. — lembrou Horemheb — Desde Akhenaton a situação econômica do Egito não está das melhores, as relações externas também.
— Reconstruímos as relações com os mitannni. — falou Ay.
— Que já perderam quase todo seu poder e território para os hititas. — respondeu Horemheb diminuindo a conquista — E não esqueça da Núbia, que já se revolta ao ver a nossa fraqueza.
— O que você sugere que eu faça então? — perguntou Ay, acidentalmente colocando sobre si a responsabilidade, não sobre o jovem faraó.
— Mostrar um Egito forte já ajuda muito. — respondeu Horemheb cruzando os braços, não deixando de notar a maneira com que Ay falou.
Ay apontou para Tutancâmon com o olhar com uma clara pergunta: como fazer o Egito parecer poderoso com um faraó como ele? Tutancâmon, sem mal participar da conversa, suspirou e fechou a adaga estrangeira dentro de sua bainha feita de ouro.
— Se eu for pra guerra, o Egito fica forte? — perguntou Tutancâmon, mostrando que estava prestando atenção suficientemente na conversa.
— Talvez… — disse Ay recebendo um olhar cruel de Horemheb.
— Com todo respeito, meu faraó… — disse Horemheb desviando o olhar de Ay para o menino — mas será melhor ficar no palácio ao invés de ir para a guerra.
— Porquê? — perguntou Tutancâmon, apesar de que sabia a resposta.
— É muito… novo. — respondeu Horemheb.
— Quis dizer “aleijado”? — perguntou o garoto.
Horemheb abriu a boca mas a fechou, sem dizer nada. Apenas suspirou e ficou cabisbaixo em vergonha, sem saber também o que responder.
— Horemheb tem razão. — disse Ay eventualmente.
— Como a gente deixa o Egito com cara de forte se eu não lutar então? — perguntou o faraó.
— Fazendo o Egito de fato ficar forte. — respondeu Horemheb — Fortalecendo o exército, por exemplo. Posso cuidar disso.
— Faz sentido. — disse Tutancâmon — Faça isso por favor, Horemheb.
— Sim senhor. — disse Horemheb.
— O que for necessário. — completou o faraó.
— Meu far- — disse Ay, começando a ficar preocupado não pelo Império, mas pelo o exército ficar mais forte já que o Egito era uma constante briga de influência entre o exército e os sacerdotes.
— Ele disse “o que for necessário”. — zombou Horemheb com um sorriso no rosto, logo indo embora.
— Meu faraó… — disse Ay, não querendo ficar para trás — Vou falar com os sumo-sacerdotes de todos os nomos e checar o que eles estão precisam. Afinal muitos estão ainda ressentidos depois de serem tão menosprezados por Akhenaton.
— Certo… — disse Tutancâmon sem notar que não foi uma pergunta ou sugestão que Ay estava lhe oferecendo.
Se dando a liberdade de tomar as próprias decisões, Ay deu as costas para o faraó sem cerimônias e deixou-o sozinho e pensativo no trono. Tutancâmon ficou lá sozinho, com preguiça de sair dali, pois andar era muito doloroso para ele, até que sua irmã surgiu com um sorriso no rosto e ele compartilhou do sorriso.
— Anquesenamon… — disse Tutancâmon chamando a irmã que, assim como ele, havia trocado de nome para algum nome considerado menos herege.
— Já terminou as coisas importantes? — perguntou ela.
— Acho que sim. — respondeu ele.
— Tem que tomar cuidado, Tut. — falou Anquesenamon — Eles estão conseguindo o que querem de você. Você é quem manda, não eles.
— É difícil isso de ser faraó. — admitiu o jovem.
— Você vai pegar o jeito com o tempo. — garantiu ela.
— Será? — perguntou ele — Ninguém me leva a sério. Sei disso.
— Tem que ser firme. — recomendou a irmã.
— Como ser firme se de fato não sei o que fazer para liderar o Egito? — perguntou Tutancâmon — Falam que não posso de jeito nenhum imitar nosso pai, e mal lembro dele. Ninguém me ensinou como ser faraó.
— Acho que talvez vai acabar sendo, para você, algo que vai aprendendo com o tempo. — sugeriu Anquesenamon — Tenho certeza que será um grande faraó.
Não tão longe dali, num belo e colorido jardim em Micenas, Perséfone caminhava preocupada com a mão pousada sobre uma enorme barriga de gravidez coberta pelo seu belo vestido esvoaçante. Preocupada e com passos apressados, ela caminhou pelo jardim até encontrar outra pessoa, sua mãe.
Deméter tinha um longo cabelo ondulado com um tom de loiro quase da cor da cevada. Usava também um vestido verde-pastel no corte de um tradicional vestido micênico, com mangas curtas e largas, decote avantajado e detalhes na barra da saia que, no caso de Deméter, eram marrons.
Deméter estava ocupada tranquilamente cuidando de uma grande e farta horta que dividia espaço com as belas flores do jardim. A prova de que ela estava tranquila, era a de que até mesmo murmurava alguma canção de tom alegre.
— Mãe! — disse Perséfone exasperada.
— Filha… — disse Deméter calmamente olhando para Perséfone, mas logo se erguendo com preocupação estampada no rosto, ao ver como estava Perséfone — Está tudo bem?
— Chame Hades, por favor! — implorou Perséfone — Acho que chegou a hora.
Fale com o autor