A Morte Das Areias do Saara
134 A Cada Dia Crescendo
Notas iniciais

Eu sou seu servo deste dia em diante até a eternidade, e darei . . . deben* todos os meses como taxa de servo diante de Anúbis, o grande deus.
Nenhum espírito, um antigo, um demônio, um grande, uma pessoa que está no ocidente, qualquer pessoa na terra poderá exercer autoridade sobre ela além de você a partir deste dia até a eternidade.
~ Fragmento de “Papiro ‘Autodedicação aos deuses egípcios’”
No palácio de Tebas, longe dos olhos de oficiais, nobres ou quem quer que fosse, o jovem Tutancâmon aproveitava seu tempo livre. Aos 13 anos, ele já era um jovem rapaz, e não a criança que anos atrás havia subido ao trono. Contudo, isso não significava que ele era menos subestimado. O fato de ter deficiência não contava em seu favor dentre as pessoas importantes do Egito e fora dele.
Nos jardins do palácio, apoiado firmemente em sua bengala com uma mão e com a outra segurando sua adaga feita de meteorito, o jovem fitava seu adversário naquela luta de brincadeira.
— Tem certeza que quer brincar disso? — perguntou o adversário do faraó, ninguém menos do que Ihy, que apesar de ser centenas de anos mais velho que Tutancâmon, aparentava ser até poucos anos mais novo.
— Eu tenho que saber lutar se eu quero provar para todos que eu sou um faraó forte. — defendeu-se Tutancâmon — Um faraó tem que saber lutar.
— Não precisa ser literalmente lutar com os punhos e tal. — disse Ihy — Por exemplo, as batalhas de Hatshepsut eram praticamente estritamente intelectuais.
— Eu preciso de força física para repelir os invasores. — lembrou Tutancâmon.
— Não de um exército forte? — perguntou Ihy.
— O faraó luta com o exército. — lembrou o jovem faraó — Olhe Sekenenré Taa! Um exemplo que livrou o Egito dos hicsos. Não é sem motivo que é chamado de Sekenenré Taa, o Bravo.
— Ele não foi capturado, torturado e morto pelos hicsos? — perguntou Ihy.
— Mas se não fosse ele, o que seria do Egito agora? — perguntou Tutancâmon — Provavelmente nem teria mais Egito! E Agora estamos com outro perigo, os hititas!
— Mas... — disse Ihy preocupado, olhando para Tutancâmon de cima a baixo, sofrendo para ficar de pé — Você parece com dor.
— Eu vivo com dor. — respondeu Tutancâmon — Tenho que lidar com isso. Vamos, vamos lutar. Por favor, Ihy.
— Preferia quando a gente só jogava bola… — resmungou Ihy.
— Por favor, Ihy! — implorou Tutancâmon novamente.
— Tá. Tá… — resmungou Ihy cruzando os braços — Depois quando ficar todo dolorido quando for dormir, não reclame comigo.
— Peço uma massagem para os servos depois. — disse o faraó.
— Meu pai diz que, como uma adaga é uma faca de lâmina curta, você terá que aprender a lutar em combate corpo a corpo. — falou Ihy — Acha mesmo que é uma boa arma para começar? Na maioria dos casos, você terá que socar, chutar e bloquear ataques que se aproximam simultaneamente ao seu contra-ataque com uma adaga. Que tal começar com arco e flecha?
— Já sei arco e flecha… — respondeu o faraó — suficientemente por agora, pelo menos.
Ihy suspirou pesadamente mais uma vez e pegou a adaga de madeira que Tutancâmon havia, minutos antes, jogado entre os dois. A adaga de meteorito de Tutancâmon nunca poderia ferir um deus como Ihy, mas Ihy poderia machucar Tutancâmon facilmente se fosse o contrário. Assim, seria com madeira que Ihy lutaria, e pegando leve.
Mesmo que lutar estivesse bem longe de ser algo que Ihy gostava de fazer, não podia negar ter aprendido uma coisinha aqui ou ali. E quem não gosta de brincar de lutinha às vezes também?
Nesse meio-tempo, o dia estava definitivamente calmo no Salão do Julgamento. Cada deus estava cuidado de seus afazeres ou simplesmente tirando um tempo para descansar, já que não estavam julgando almas no momento. Numa quina do Salão do Julgamento, ao lado dos brinquedos de Kebechet largados no chão, Anúbis estava cumprindo sua parte do acordo de revesar com Anput quem cuidava de Kebechet, para que assim ambos pudessem resolver seus assuntos e ter tempo livre.
Sabia que, apesar de suas constantes tentativas de ficar mais tempo com Kebechet, ainda era Anput a que mais tinha que cuidar da menina. Exatamente por isso, sempre que podia, mesmo se tivesse coisa para fazer, tentava se dispor a cuidar de Kebechet para que Anput pudesse ter seus momentos livres também.
Anúbis tinha, como sempre, muita coisa para resolver, mas felizmente Kebechet estava aproveitando de uma boa soneca. Infelizmente, ele foi rebaixado para o cargo de ‘colchão’ para essa soneca. Ele estava sentado todo inclinado, com um pequeno morro de almofadas sendo usado como encosto. Deitada de barriga no peitoral dele, estava a pequena Kebechet, dormindo, somando já um ano de vida e com o cabelo grande o suficiente para ser amarrado na lateral da cabeça, onde os cachos negros se aglomeravam um em cima do outro, formando um tufo de cabelo do tamanho de uma bola de golf.
A menina estava com a boca um pouco aberta, principalmente por sua bochecha estar sendo apertada no lado que se apoiava no pai. Além disso, dois de seus pequenos dedos da mão direita estavam um pouco enrolados no colar que Anúbis usava e o segurava, como se quisesse ter certeza de alguma forma de que ele não iria embora.
Não era a melhor das posições para trabalhar. Contudo, era suficientemente boa para que Anúbis colocasse uma rudimentar prancheta de madeira apoiada nas próprias coxas e, com as pernas dobradas para conseguir ver a prancheta, conseguisse ler e escrever no papiro fixado na prancheta.
O conteúdo do papiro sobre qual Anúbis tentava se debruçar era bem simples, uma mera lista de seus sumo-sacerdotes, quais haviam morrido e quem os substituiu, onde cada um morava e trabalhava e detalhes a se prestar atenção. Foi seguindo um interesse por esse exato papiro, que Thoth se aproximou timidamente e tentando fazer o mínimo de barulho possível.
Com uma expressão de que se sentia culpado de ter que cobrar pelo papiro justamente quando Kebechet estava dormindo tão bem, mas que ao mesmo tempo não tinha escolha, Thoth parou logo ao lado de Anúbis, sem nada dizer. Anúbis suspirou, já sabendo bem o que Thoth queria. O deus da sabedoria estava atrás daquele papiro a dias, mas era uma lista meio difícil de fazer quando além dos deveres, que já ocupam boa parte do tempo, você ainda tem que cuidar de um bebê.
Anúbis rabiscou rapidamente alguns hieróglifos já no limite da folha do papiro, e logo estendeu o papiro para Thoth.
— Obrigado e desculpe. — sussurrou Thoth pegando o papiro.
— Porquê quer guardar essas listas? — perguntou Anúbis aos sussurros também.
— Quero fazer uma análise de como as coisas mudam no decorrer dos anos. — admitiu Thoth, ainda aos sussurros — Afinal, alguns de nós ficam mais ou menos importantes com o passar dos anos. Ísis mesmo, por exemplo, já era bem popular mas está ficando cada vez mais. E sabe-se lá o que nos aguarda no futuro.
— Todo mundo morre, será que a minha é tão válida assim ainda? — questionou Anúbis.
— Não se preocupe, irei levar isso em consideração. — prometeu Thoth logo dando as costas para resolver seus próprios deveres agora que tinha todas as listas que precisava e já que havia notado uma movimentação de Kebechet e não queria ser o responsável por acordá-la.
Agora com o papiro que Thoth tanto queria pronto e Kebechet dormindo, Anúbis pôde se dar um tempo de realmente relaxar, por mais que ainda tivesse um peso sobre si dormindo, impedindo-o de se mexer. Os dois passaram alguns minutos ali, simplesmente descansando, ignorando qualquer outra coisa que acontecia no Salão do Julgamento, até Kebechet começar a se mexer.
Com muita preguiça, Kebechet abriu os olhos, levantou um pouco a cabeça, deixando uma pequena poça de baba onde antes sua boca estava, e trocou qual bochecha estava apoiando no pai. Com sua pequena mão, que não estava enrolada no colar do pai, ela coçou um dos olhos
— Bom dia. — disse Anúbis carinhosamente acariciando a menina pela cabeça.
Ainda sonolenta, Kebechet não respondeu, mas continuou de olhos abertos. Ela levou o dedo na boca e lá o manteve enquanto gastava alguns minutos fitando o movimento no Salão do Julgamento tranquilamente enquanto de fato despertava. Lentamente, Kebechet foi acordando e, quando o fez suficientemente, ergueu a cabeça e olhou para o pai.
— Oi. — disse Anúbis.
— Oi. — respondeu Kebechet com um grande sorriso exibindo seus quatro dentes.
— Dormiu bem? — perguntou Anúbis.
— Miu bem. Miu papa. Mama umiu. Caê mama? — respondeu a menina enrolando ainda mais a mão no colar de Anúbis, que começou a tentar desenrolar o nó.
— Mamãe já volta. — disse Anúbis entendendo bem o que ela estava tentando dizer — Aí vamos conhecer a Macária, sua amiguinha nova.
— Maáia, mi’ia noa. — repetiu Kebechet.
Anúbis pegou a menina e a deixou sentada ao seu lado enquanto Ammit ia se aproximando alegremente, com a língua pendurada e o rabo indo de um lado para o outro. Anúbis aproveitou também que agora Kebechet estava sentada no chão, para se sentar melhor. Suas costas já estavam incomodadas de passarem tanto tempo naquela posição um tanto torta, em prol do sono da criança.
— Ami! — exclamou Kebechet, erguendo os braços no ar, ao ver a aproximação de Ammit.
A devoradora de corações, com um carinho que não combinava com seu título, se aproximou da menina e acariciou-a com a ponta do focinho de crocodilo. Na própria linguagem difícil de entender que Kebechet compartilhava com Ammit, Ammit pareceu ter a chamado para brincar.
Com um pulo alegre para trás, Ammit fez Kebechet ter certeza que a hora do descanso tinha acabado e a hora do pique e pega tinha começado. Kebechet colocou as mãos no chão e com muita calma, erguendo o bumbum primeiro, ela se levantou. Anúbis estava atento a cada movimento dela, afinal a menina ainda não era profissional em se erguer e correr por aí, mas certamente gostava de o fazer.
Depois de alguns poucos segundos de pé, como se quisesse testar seu equilíbrio, Kebechet deu seu primeiro passo na direção de Ammit. Um passo típico de bebê que recém aprendeu a andar. Imediatamente Ammit correu na direção oposta, uma corrida lenta e falsa, acompanhando o ritmo da pequena garota, mas que fez a pequena Kebechet começar a rir e, no seu ritmo, que não era muito, correr atrás de Ammit.
Com Kebechet ocupada em seu pique e pega, Anúbis se ergueu e foi até onde Hórus conversava com Osíris e Ísis e aproveitavam um copo de vinho e alguns pães dispostos sobre uma pequena mesa entre eles.
— Ihy estava só esperando ela acordar. — disse Hórus assim que Anúbis se juntou aos dois — Vou chamar ele.
— Logo vai chegar o Wepet Renpet. — disse Ísis enquanto Hórus virava um falcão e saía voando atrás do filho caçula — Vai dessa vez para a festa?
— Sim. Kebechet deve gostar. — respondeu Anúbis olhando para Ísis — Ia perguntar para Hórus mas… imagino que deva saber… — Como estão as lutas contra os hititas na Ásia?
— Não muito boas. — admitiu Ísis — Horemheb é um bom general até onde sei, mas o exército está muito fraco, sem armas e treinamento, graças a Akhenaton. Não só não conseguimos recuperar Kadesh, como começamos a perder território.
— Uma pena que Tutancâmon ainda seja muito novo e tenha muitos impedimos para ser um guerreiro. — comentou Osíris.
A conversa de todos no Salão do Julgamento foi interrompida por um leve barulho de algo pequeno tropeçando nos próprios pés. Todo mundo, principalmente Anúbis, olhou para Kebechet, que havia acabado de cair no meio do Salão do Julgamento. Anúbis até deu um passo para apressadamente correr até a filha, mas Ísis o segurou na hora.
— Espere para ver se ela chora ou não primeiro. — disse Ísis — Dê a chance de ela se levantar sozinha.
— Você a mima um pouco demais, acho. — disse Osíris com um sorriso torto.
Kebechet ficou alguns segundos no chão, felizmente sem chorar. Ammit esfregou o focinho na cabeça da menina, que logo levantou-se do mesmo jeito que anteriormente. Ammit chamou-a para voltar a brincar, mas Kebechet apenas olhou ao redor do Salão do Julgamento, claramente atrás do pai. Quando achou-o, foi andando com aqueles passos tão típicos de bebê até ele.
— Papa, caiu. — disse Kebechet ao alcançá-lo.
— Eu vi. — disse Anúbis se agachando para ficar mais perto da altura dela — Está tudo bem?
— Bem. — respondeu Kebechet, afirmando com a cabeça.
— Muito bem. — parabenizou Anúbis dando leves tapinhas na cabeça da menina, que logo abriu um radiante sorriso, cheia de orgulho.
A atenção da menina logo foi para a mesa com a comida e as taças de vinho. Curiosa e com vontade de comer, ela foi até a mesa, segurou em seu tampo e se esticou na pontinha dos pés para tentar ver direito o que tinha em cima, o que fez ela começar a balançar perigosamente numa promessa de um segundo tombo.
— Qué! — pediu ela.
Osíris prontamente pegou o prato de pão e estendeu para ela e então fez o mesmo com a taça de vinho que, até chegar nas mãos de Kebechet, estava magicamente com água. Ela comeu com gosto um pequeno pedaço de pão, mas quando pegou a taça de ouro, apenas encarou a água dentro dela como se o ouro refletindo na água fosse um fenômeno muito curioso.
Na pura aleatoriedade dos bebês, ela então virou a taça, deixando a água cair toda no chão, para completa surpresa dos que estavam ao seu redor. Kebechet ficou encarando o chão molhado por alguns segundos e então estendeu a taça de volta para Osíris.
— Obrigado… — respondeu ele apesar de não entender o motivo (se é que havia algum) da água no chão.
— Oigado. — respondeu Kebechet.
— Quando alguém fala “Obrigado”, a gente fala “De nada”. — explicou Osíris calmamente — “De nada”.
— Dê ada. — repetiu Kebechet.
— Muito bem. — parabenizou Osíris, fazendo a menina abrir um sorriso.
— MAS PAI! — exclamou Ihy ao entrar no Salão do Julgamento com Hórus, atraindo a atenção de todos.
— I’y — disse Kebechet apontando para Ihy.
— É, o Ihy chegou. — disse Anúbis para ela.
— Eu sei que tem preocupações sobre ensinar Tutancâmon a lutar. — disse Hórus continuando sua conversa com o filho — Duvido que vão colocar o garoto para de fato ir para uma guerra, a não ser que ele seja muito burro para ordenar que o façam.
— Não chama ele de burro… — pediu Ihy com um biquinho.
— De toda forma, aproveite que viraram amigos. — disse Hórus — Não custa nada tentar fazer ele saber lutar um pouco. Quem sabe aumenta a moral dele.
Enquanto Ihy e Hórus discutiam entre si, Kebechet foi andando até seu montinho de brinquedos no canto e pegou sua fiel boneca e um cavalo de madeira. Em seguida, ela foi andando até Ihy e interrompeu completamente a discussão que ele tinha com Hórus ao estender o cavalo para ele.
— I’y bincá? — perguntou ela.
Liberando Ihy da conversa, Hórus brevemente passou a mão na cabeça de seu filho e foi se juntar com Osíris e os demais, tal como estava antes. Ansioso para brincar e feliz por ter se livrado daquela discussão, Ihy pegou na mão de Kebechet e foram juntos brincar. Os dois só pararam a brincadeira quando Anput chegou.
Quando Anput chegou, ela, Kebechet e Anúbis foram conhecer Macária, a filha de Hades que agora já estava com praticamente 2 meses de vida. Os pais das duas crianças certamente imaginam e torciam que dali sairia uma nova amizade, e certamente essa expectativa se concretizou. Afinal, quatro anos depois, Anúbis se viu preparando Kebechet para brincar com Macária numa praia micênica deserta.
— Presta atenção… — dizia Anput.
— Estou prestando. — garantiu Anúbis.
Os dois estavam sentados no chão, logo atrás de Kebechet, que estava na frente deles de costas com os longos cabelos soltos pelas costas. Eram justamente os cabelos da menina o foco da conversa.
— Primeiro você tem que desembaraçar o cabelo dela com o pente e sem puxar muito forte. — disse Anput demonstrando o que dizia pegando o pente que tinha ao seu lado e penteando o cabelo da filha delicadamente.
— Eu não puxo forte… — defendeu-se Anúbis tentando imitar Anput.
— Você puxa um pouco forte sim, papai. — disse Kebechet.
— Tá, eu puxo então. — disse Anúbis.
— Primeiro desembarace as pontas, e aí vai subindo. — sugeriu Anput.
— Não é melhor ela ir para a praia sem as tranças? — perguntou Anúbis.
— Eu quero ir que nem a mamãe! — pediu Kebechet.
— Está tudo bem desde que você faça direito. — falou Anput.
— Estou dando meu melhor. — disse Anúbis suspirando longamente.
— Agora você tem que dividir o cabelo em partes. Assim. — continuou Anput demonstrando como fazia — Aí pega uma mecha dentre essas partes. Da mecha que pegar, divida o cabelo em 3 seções. Coloque cada parte entre os dedos bem assim.
— Calma. É aí que fica complicado. — reclamou Anúbis — Devagar.
— Prepare sua mecha entre os dedos e faça junto comigo a parte de trançar agora. Vou fazer devagar. — prometeu Anput.
— Certo… — disse Anúbis, inseguro — Pode começar.
Lentamente, Anput trabalhou com as mechas que tinha entre as mãos formando gradualmente uma trança. Anúbis a imitava praticamente sem piscar e Kebechet apenas esperava seu penteado ficar pronto. Trança após trança, os dois iam fazendo em Kebechet o mesmo penteado que sua mãe usava, por mais que tivessem que desfazer e refazer algumas das tranças feitas por Anúbis.
Depois Anput juntou essas dezenas de trancinhas em duas marias-chiquinhas amarradas bem baixas. Podia não ser exatamente o mesmo visual que Anput, mas ao menos era um meio termo que ainda tinha um ar de infância.
Com tudo pronto, Kebechet se ergueu toda feliz e balançou alegremente seu cabelo de um lado para o outro, claramente feliz com o resultado. Agora com cinco anos, não dava mais para chamar ela de bebê. Tanto que tinha até um dente mole, o qual ela gostava de ficar balançando para frente e para trás, como se o provocasse para ver quando ele iria cair.
Logo os três foram imediatamente aproveitar esse momento de folga, um tanto raro, numa praia em uma das ilhas micênicas. Assim que Kebechet viu Macária, ignorando completamente Perséfone e Hades, a menina correu para abraçar a amiga mais nova.
— MACÁRIA! — gritou Kebechet ao abraçar a amiga.
Macária, que era mais quieta, simplesmente abraçou a amiga de volta com um sorriso no rosto.
— Vamos nadar? — perguntou Macária imediatamente em micênico e Kebechet afirmou com a cabeça.
Crianças são como esponjas, tendo convivido com os dois panteões desde pequenas, as duas meninas aprenderam suficientemente o idioma do outro lado. Às vezes tinham alguns problemas de comunicação e tradução, mas nada que não pudessem resolver. Se davam tão bem que agora corriam de mãos dadas para pular as ondas da praia, com o vento bagunçando os cabelos negros de ambas e o sol brilhando na pele branca de Macária e na pele parda de Kebechet.
— Não vão muito fundo! — gritou Perséfone em micênico.
— Não deixem a água chegar até o joelho! — gritou Anput, em egípcio, olhando para as duas garotas, preocupada.
— Não sei como me convenceram a vir até aqui. — resmungou Hades em micênico.
— Você está precisando de um pouco de sol. — disse Perséfone — E também passar um tempo com sua filha.
— Só até o sol atingir seu auge. — pediu Hades — Tenho coisas a tratar no submundo.
— Não é só você. — acrescentou Anúbis — Logo tenho que voltar aos julgamentos.
— Sabe que Kebechet vai tentar te ajudar né? — perguntou Anput — Ela quer te ajudar de alguma forma, já que vive tão ocupado.
— Nos julgamentos é mais complicado, mas não é impossível… — disse Anúbis — Mas não queria que deixasse ela tentar entrar na sala das múmias de novo. Não é exatamente um lugar muito bonito e bom para uma criança pequena. Sei disso.
— Ela puxou o pai. — disse Anput rindo.
— Sinceramente espero que não. — disse Anúbis — Não é legal ser a criança estranha.
— Você não era estranho. — reclamou Anput.
— Você não é exatamente imparcial… — disse Anúbis com um suspiro.
— Elas vão ficar bem assim meio sozinhas, certo? — perguntou Anput, em egípcio, preocupada com as meninas que tinham 5 e 4 anos e não pareciam entender o quanto uma onda podia ser forte — São tão pequenas e o mar pode ser forte.
— São deusas… e estamos aqui de olho. — lembrou Anúbis.
Os quatro deuses ficaram vendo as garotas rindo e brincando, pulando cada onda do mar azul cristalino da praia micênica. Logo elas começaram a correr alegremente sem nenhuma preocupação às prendendo.
— Ouvi dizer que ainda estão tendo problemas com os hititas… — comentou Hades, em micênico, olhando com o canto do olho para Anúbis.
— Não acho que vai ser um problema que vai se resolver no reinado de Tutancâmon. — opinou Anúbis, com o micênico finalmente fluente, enquanto Perséfone e Anput começavam a caminhar pela praia, sempre na direção das duas meninas, conversando entre si também.
— Ele vai ter o primeiro herdeiro em algumas semanas, não? — perguntou Hades — A irmã está grávida pelo o que ouvi.
— A Anquesenamom… — disse Anúbis suspirando lentamente — Ela de fato está grávida, de uma menina inclusive, mas…
— Sei que vocês dão mais poderes para as mulheres do que nós mas… — disse Hades — Para um cargo tão importante assim, também conta?
— Mais ou menos. Já tivemos faraós mulheres, que é bem diferente de uma rainha-regente. — explicou Anúbis — Mas muitos não aceitam muito. Quando uma chega no cargo de faraó, tem que ser bem inteligente e forte, em vários sentidos. Mas o problema maior nem é esse…
— Qual é então? — perguntou Hades.
— Dificilmente esse bebê vai sequer nascer vivo. — disse Anúbis cabisbaixo e olhando para Kebechet, se sentindo um tanto culpado por Tutancâmon não está conseguindo ter uma filha também, sabia que a baixa expectativa de vida da filha de Tutancâmon era fruto da maldição que jogaram em Akhenaton.
Anúbis não iria contar para Hades, afinal não eram tão amigos assim ainda e havia certas coisas que eram informações confidenciais, mas parte da preocupação dos deuses egípcios era a profecia de Nekhbet. Quem seria o outro semi-deus que salvaria o Egito?
— Mamãe! Papai! — gritou Kebechet apontando para algo intensamente vermelho na areia — O que é isso?
— Parece uma estrela. — disse Anput em egípcio se aproximando junto com Perséfone enquanto Anúbis e Hades, que estavam mais longe faziam o mesmo — Elas moram no mar.
— Uma estrela? — perguntou Kebechet se agachando ao redor do animal ao lado de Macária analisando as longas pontas da estrela do mar e os pequenininhos tentáculos que se moviam e saíam de uma fenda de cada uma das cinco pontas.
— O que é? — perguntou Macária em micênico não entendendo a explicação em egípcio.
— Uma estrela do mar. — disse Perséfone.
— Ela ainda está viva. — disse Macária em micênico — Não deveria estar no mar?
— Certamente ela gostaria de ir para o mar. — disse Anúbis — Está de cabeça para baixo. Se arrumamos ela deve voltar.
Com muito cuidado, Anput se aproximou da estrela e pegou-a nas mãos delicadamente. Temendo machucar tão frágil animal, Anput virou a estrela para o lado certo sob os olhos atentos das duas meninas.
A estrela, por alguns segundos, nada fez, mas eventualmente começou a, bem devagar, ir em direção ao mar. Kebechet e Macária ficaram com seus olhos castanhos brilhando, maravilhadas ao ver como o animal se movia de um jeito tão diferente. Ajoelhadas na areia, as duas meninas seguiram a estrela até uma onda engolir o animal, levando-o de volta para casa.
— Ela foi para a casa dela! — declarou Kebechet toda feliz ao se erguer e apontar para o mar — Ela vai conseguir encontrar a família dela?
— Acho que sim. Não devem estar tão longe. — disse Anúbis.
— E se ela não encontrar? — perguntou Kebechet novamente.
— Ela vai sim. Não se preocupe. — disse Anput se aproximando da menina e apertando suas bochechas — Quer nadar com a mamãe?
— Quero! — exclamou Kebechet começando a pular no lugar.
— Também quero, mamãe! — pediu Macária, agarrada a barra da saia de Perséfone.
— Vamos. — disse Anput tirando parte da roupa e deixando-a dobrada no canto e logo sendo imitada por Perséfone.
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