A Morte Das Areias do Saara

135 A Linha de Sucessão


Notas iniciais
olá olá. o cap novo saiu com recorde de faraós aparecendo no mesmo cap kk

Da câmara escondida ao lado de Duat, o grande deus atravessa sua imagem surgindo no horizonte.

Esta é a câmara secreta de Amenti onde Khepri está unido com taciturno Rá e com espíritos akhu e com a face da imagem que é no túmulo

Se tal imagem que é retratada na câmara oriental do Lado oeste de Duat

Se seus nomes forem conhecidos, ele viajará e passará por Duat e ele não será impedido de voar antes de Rá.

~ Fragmento de “O livro do amduat”

Mais um dia começou no Egito. Se preparando para mais um dia, o soldado de alto escalão de uma nobre família militar, Paramessu, se preparava para seus deveres do dia. Depois de molhar o rosto, ele olhou para si mesmo no espelho de bronze, mais especificamente para seu cabelo. O espelho refletiu de volta para Paramessu um nariz bem reto e elevado e uma pele levemente mais clara, dedurando que a família, séculos antes, havia vindo do Levante.

Não havia mais memórias nem histórias de quando a família trocou de endereço, mas havia um chute entre seus membros de que deviam ser descendentes dos Hicsos, que haviam invadido o Egito e quase derrotando-o de vez, mas isso tinha ficado muito tempo para trás e se instalaram bem na cidade onde a família se estabilizou. Agora, eram egípcios, tanto que haviam conseguido um lugar de nobreza e um alto cargo do exército. Seguiam a fé, a cultura e o idioma egípcio. Ninguém questionaria sua nacionalidade apesar da aparência diferente.

— Amor… — disse Paramessu indo ao encontro da esposa, Sitre, e de seu café da manhã — Acha que dá para ir com o cabelo assim hoje?

— Deixe-me ver. — disse a esposa quando Paramessu sentou-se.

Ela se levantou, se aproximou e olhou o cabelo dele de perto. Com os dedos delicados, ela abria caminhos pelo cabelo do marido, vendo a raiz de seus cabelos. Enquanto isso, Paramessu apoiou, com um sorriso no rosto, a bochecha contra a barriga inchada de leve gravidez da mulher.

— Por hoje dá sim. — respondeu ela eventualmente — Ainda está bem preto. Mal dá para ver o vermelho. Mas podemos pintar quando voltar.

— É melhor. — disse Paramessu com um suspiro pesado quando ela se afastou — Não quero arriscar verem que meu cabelo é da cor do vermelho de Set.

— Não vão. — disse ela tranquilizando-o enquanto ele começava a devorar um pão — E também, Horemheb confia e gosta de você.

— Ele pode ser o mais importante do exército, mas não fará nada se os outros se voltarem contra mim. — justificou Paramessu.

— Será? — questionou Sitre — Porque falta só aquele homem te adotar. Além disso, os tempos são outros. Não acho que problematizarão tanto assim a cor do seu cabelo.

Com a barriga cheia e tudo pronto, Paramessu deu um beijo em sua esposa, e deixou sua cara que, embora grande e luxuosa, não chegava aos pés do palácio real, para trás. Paramessu foi em direção ao palácio de Tutancâmon e, chegando lá, depois de cumprimentar seus colegas de trabalho, foi ao encontro de Horemheb.

Horemheb, o comandante mais importante do exército de Tutancâmon estava debruçado sobre uma mesa com os mais diversos papiros e mapas. A ruga de expressão entre seus olhos, era profunda. O homem estava muito tenso e preocupado e as constantes vezes que passava a mão na cabeça era prova disso.

— Ah, Paramessu… — disse Horemheb ao ver o seu braço direito entrar — Já estava torcendo para que chegasse logo. Sua família veio do Levante, certo?

— Isso foi provavelmente antes mesmo do reinado da faraó Hatshepsut… — respondeu Paramessu — Já faz muito tempo. Hoje em dia nos consideramos mais do Baixo Egito do que qualquer outra coisa.

— Isso mesmo. — disse Horemheb indo dar uns tapas no ombro do homem — A tantas gerações sob o faraó, falando egípcio e seguindo os deuses egípcios, ninguém pode dizer que sua família não é egípcia. Não deixe ninguém dizer o contrário.

— Sim senhor. — respondeu Paramessu, pensando silenciosamente que ninguém questionava o quão egípcia sua família era.

— Mas… me pergunto… será que teriam algum parente ou conhecimento do Levante que tenha chegado até os dias de hoje? — perguntou Horemheb olhando para Paramessu já sentindo que a resposta seria não.

— Não… — admitiu Paramessu.

— Imaginei… — disse Horemheb soltando um pesado suspiro — As coisas não estão nada bem no Levante. Qualquer mínima ajuda estou aceitando.

— Os hititas fizeram algo novo? — perguntou Paramessu percorrendo os olhos pelas folhas na mesa, atrás de alguma carta com informações novas.

— Além de a cada dia nos empurrar mais? — resmungou Horemheb — O faraó Tutmósis I ficaria triste de ver o quanto das fronteiras já perdemos. Talvez tenhamos que ir para as fronteiras em breve.

Paramessu tentou disfarçar seu olhar de preocupação com a possibilidade de ter que deixar sua esposa grávida para trás. O pensamento de Paramessu e a conversa dos dois foi completamente interrompida quando alguém passou na frente do cômodo correndo, indo para algum lugar.

A movimentação atraiu a atenção dos dois, que foram até a porta e viram outros que também foram atraídos pela movimentação. Por um mero segundo, viram a barra da longa saia de uma mulher entrando na área do palácio destinada às moradias do faraó.

Os dois, e alguns curiosos com títulos altos o suficiente para entrar ali, seguiram a mulher, que a distância, reconheceram como sendo uma médica em treinamento.

— O que aconteceu? — perguntou Horemheb em voz alta para alcançar a moça.

— A rainha! — foi tudo que ela respondeu enquanto corria o mais rápido possível.

Confirmando que era sobre a rainha, a jovem seguiu correndo justamente em direção aos aposentos desta. Quanto mais Paramessu e Horemheb se aproximavam, mais ouviam cochichos, expressões tristes e chorosas. Paramessu, sem achar que podia entrar assim nos aposentos da rainha, diminuiu o passo até parar perto de alguns outros nobres e serviçais, enquanto Horemheb seguiu adiante e um grito de extrema dor da rainha quebrou o coração de todos.

— Estou falando… — cochichava um casal perto de Paramessu — Foi o que ouvi dois sacerdotes conversando. Os deuses amaldiçoaram a linhagem desde Akhenaton.

— O que aconteceu? — perguntou Paramessu para o casal.

— A rainha perdeu o bebê. — respondeu a mulher tão baixo que Paramessu quase não conseguiu ouvir.

A dor, os gritos e o choro que Paramessu ouvia eram realmente compatíveis disso. Não faltava muito para o bebê nascer, mas também ainda estava um pouco cedo. Era um grande infortúnio e infelicidade que isso tivesse acontecido. Todos que não tinham coragem para entrar nos aposentos da rainha ficavam do lado de fora, cabisbaixos em meio a um não-tão-silencioso luto, enquanto tudo que se ouvia de dentro do quarto era a mais profunda dor de uma jovem mãe que agora segurava seu bebê, morto antes de ver a luz do mundo pela primeira vez, nos braços.

Paramessu ficou do lado de fora por um bom tempo, facilmente horas tinham se passado. As pessoas do lado de fora se dispersaram, serviçais saíam do quarto da rainha com montes de panos ensanguentados e um sacerdote do Anúbis entrou no quarto e saiu poucos minutos depois segurando respeitosamente o pequeno falecido ser-vivo enrolado num pano branco limpo que atraiu os olhares dos poucos que ainda estavam ali.

O sacerdote levou o pequeno bebê, uma menina, para ser preparada para o pós-vida. E foi exatamente lá que a pequena alma chegou alguns dias depois. Como uma pequena bola brilhante e saltitante, a alma da falecida princesa entrou no Salão do Julgamento acompanhada de outros bebês cuja vida havia chegado ao fim.

Anúbis fitava, triste como sempre estava naqueles momentos, as jovens almas que lentamente saltitavam, sem tocar o chão, em direção ao Aaru. Um olhar triste era compartilhado também por boa parte dos presentes e o silêncio era total no Salão do Julgamento. Entretanto, ninguém havia notado ainda que, escondida no portal que conectava o Salão do Julgamento até o corredor que levava, dentre outros lugares, para a sala das múmias, estava Kebechet observando cada coisa que acontecia ali.

Olhando especificamente para a alma da falecida filha de Tutancâmon e de Anquesenamon, Anúbis juntou as mãos como uma concha, e a pequenina alma foi flutuando até ele. A pura alma flutuou até pousar inocentemente nas mãos de Anúbis, que olhou para ela pesaroso e então para Osíris.

— Não tem mesmo como desfazer a maldição? — perguntou Anúbis.

— Infelizmente não… — admitiu Osíris suspirando pesadamente.

— Imaginei que fosse perguntar isso quando a alma da filha de Tutancâmon chegasse aqui. — disse Hórus, que também estava cabisbaixo.

— Não se sente culpado? — perguntou Anúbis — Não é a primeira vez que um bebê da linhagem de Akhenaton morre antes do parto ou antes de chegar a ser criança. O próprio Akhenaton perdeu filhos assim. Ele já morreu faz tempo e Tutancâmon no final das contas é um bom rapaz.

— Também me sinto culpado. — rebateu Hórus — Não sou assim tão cruel.

— Tentamos fazer umas análises e testes para reverter a maldição, mas… nenhum sucesso. — admitiu Thoth — Na melhor das hipóteses talvez Tutancâmon consiga algum herdeiro mas… vai ser uma linha familiar que vai sofrer muito para continuar… se continuar.

— Se todos nos juntarmos, como da outra vez, não há algo que possa ser feito? — perguntou Anúbis.

— Primeiramente, não acho que consigamos isso, juntar todos. — disse Osíris.

— Mas sim, mesmo se nos juntarmos. — completou Thoth.

— Já chegou num ponto injusto demais e a culpa no final das contas é nossa. — disse Anúbis andando até a porta do Aaru — Acha que Tutancâmon vai conseguir gerar algum herdeiro?

— Só o tempo dirá. — disse Osíris.

— E ele já não tem muito. — completou Anúbis soltando, com o coração partido e cheio de culpa, a pequena alma para o Aaru, sem necessitar de um julgamento devido a sua tão pouca idade — Me desculpe, pequenina.

— As vezes me pego pensando no dia que Akhenaton nos perguntou quem nos julgará. — disse Thoth.

— Argh… eu também. — resmungou Hórus — Desgraçado. Já morreu e ainda me irrita.

Ao ver Anúbis se virando para o Aaru, Kebechet se escondeu, pois poderia ser vista logo ao lado. Ela tinha esperança de ele não ter a visto, mas ele viu. Então, sabendo que as almas das crianças novas demais para serem julgadas já tinham entrado no Aaru, depois de se permitir um minuto de silêncio não só pelas almas, mas pela culpa que assolava seu coração, ele foi calmamente até o esconderijo de Kebechet. Ele encontrou-a de cócoras no corredor, parecendo uma bolinha, tentando se esconder nas sombras.

— Oi. — disse ele calmamente.

— Oi. — respondeu ela com sorriso de quem sabia que foi pêga no esconderijo.

— Acordou cedo hoje. — disse ele.

— Quero ver os jumentos, papai. — pediu Kebechet com um biquinho.

— Julgamentos. — corrigiu Anúbis se agachando na altura dela enquanto pensava no caso dela.

— Por favor! — pediu Kebechet — Eu quero te ajudar! Eu pedi por favor! Fui educada.

Anúbis olhou para ela, tentando inútilmente resistir a aqueles olhinhos pidões. Por fim, suspirou derrotado.

— Com uma condição. — disse Anúbis — Se eu falar que não dá mais para você ajudar, você não vai insistir e vai brincar com o Ihy ou qualquer coisa assim.

Os olhos de Kebechet imediatamente se irradiaram de alegria. Depois de tantas vezes pedindo e tentando entrar de fininho nos julgamentos ou na sala de múmias, era a primeira vez que poderia de fato acompanhar.

— Combinado? — perguntou Anúbis.

— Só se puder chamar a Macária também para brincar com o Ihy! — pediu Kebechet com olhos brilhantes.

— Pode ser. — disse Anúbis.

— Combinado! — disse Kebechet saltando de felicidade.

Não era, no geral, um trabalho bom para uma criança acompanhar. No salão do Julgamento havia Ammit para devorar os corações e na sala de múmias havia dezenas de corpos. Felizmente, agora que tinha tratado das almas recém nascidas, as próximas seriam almas de crianças. As chances de Ammit entrar em ação eram bem baixas.

Ele se ergueu, pegou na mão de Kebechet e voltou andando com ela para o Salão do Julgamento, onde a colocou sentada num cantinho escondido ao lado do trono de Osíris.

— Ela pode ficar aqui? — perguntou Anúbis.

— Claro. — respondeu Osiris olhando sorridente para Kebechet — Vai nos ajudar hoje, Keb?

— Vou! — exclamou

— Só nas crianças. — explicou Anúbis — e talvez nos idosos depois, enquanto não aparecer um que precise de Ammit.

— Exatamente o que eu iria sugerir. — disse Osíris — Ela me lembra um pouco você quando tinha essa idade. Mas o nível de travessura tá mais para a mãe.

— Acho que ela se comporta mais que Anput, pra falar a verdade. — disse Anúbis, fazendo Osíris rir.

Julgar as crianças não era nada fácil. Muitas chegavam assustadas e chorando, chamando pelos familiares, mas Anúbis tranquilamente pegava uma a uma pela mão e tentava tranquilizar. Ammit até às vezes servia de animal de apoio, ao menos para as crianças que não ficavam com medo dela só de ver. Mesmo assim, apesar de tentar passar calma para cada criança que passava ali, a mente e o coração de Anúbis ainda estavam repletos de pensamentos e culpa pela filha de Tutancâmon.

Nesse meio tempo, entre uma alma de criança ou outra, Osíris gentilmente chamou Kebechet para sair de seu esconderijo ao lado de seu trono, e sentar no colo dele. A menina prontamente o fez, feliz por agora ter uma visão muito mais privilegiada dos julgamentos.

Ela observou, atentamente como o pai acalmava as crianças que chegavam transtornadas, seja com tempo para respirar, palavras gentis, um carinho em Ammit ou um copo d’água. Quando uma terceira criança chegou, um menino de três anos chorando tanto que uma bolha de catarro aparecia em seu nariz, Kebechet sabia o que ia fazer. A menina se virou para Osíris, com a mão do lado da boca, como se quisesse contar um segredo. Atiçado pela curiosidade, Osíris aproximou o ouvido.

— Eu posso ajudar? — perguntou Kebechet.

— Hm… acho que pode. — disse Osíris — Mas seja gentil, tudo bem?

— Tudo bem. — respondeu Kebechet descendo do colo do deus.

Ela não foi muito longe. Pegou uma taça dourada que havia em uma mesa pequena logo ao lado de Osíris, que estava cheia de vinho. Mas Osíris logo se esticou, pegou a taça da mão dela e lhe deu uma outra magicamente criada ali mesmo, mais simples e com água.

— Essa é melhor. — disse Osíris.

Com o copo em mãos, ela foi andando até a criança, que agora fungava já bem mais calma, mas ainda não calma o suficiente e lhe estendeu o copo. Anúbis lhe olhou surpreso e a criança lhe olhou pensativa. Com uma mera fungada, o menino choroso estendeu as mãos para a taça que Kebechet lhe oferecia e bebeu vorazmente.

— Bigadu. — resmungou o menino ao estender a taça de volta para Kebechet.

— De nada. — disse Kebechet logo dando um abraço na criança chorosa, que a abraçou de volta e ficou mais tranquila — O papai é legal. Vai ficar tudo bem.

O menino deu uma profunda fungada final e afirmou com a cabeça e Kebechet sorriu triunfante para o pai, que lhe devolveu um sorriso de orgulho e um cafuné na cabeça.

— Eu posso ajudar no próximo também? — perguntou Kebechet enquanto pegava a taça de volta para si — E com os grandões também?

— Vamos ver. — disse Anúbis.

Ela abaixou os olhos para o copo vazio, se concentrou no fundo do copo e, lentamente, água cristalina começou a surgir no copo. Ao notar isso, Anúbis ficou um pouco surpreso, mas também aliviado. Certamente era uma primeira demonstração de magia bem melhor que a dele, que começou matando um adolescente que maltratava Neby.

— Você fez sua primeira magia! — disse Anúbis, feliz e aliviado pela diferença com ele mesmo — Vamos ter que contar essa novidade para a mamãe também.

— Ela fez a primeira magia! — disse Thoth se aproximando enquanto a alma da criança a ser julgada ainda olhava tudo sem entender nada — Essa é minha aluninha! Na aula de amanhã vamos pegar um tempo para treinar e ver o que mais consegue fazer com isso.

— Minha pimeira magia… — disse Kebechet olhando com um sorrisinho para a taça cheia d’água.

O menino para ser julgado acompanhava tudo extremamente perdido, olhando de um deus para outro tentando entender melhor a cena que acontecia. Notando o menino perdido, Thoth passou a mão na sua cabeça, com um sorriso gentil.

— Vamos terminar por aqui primeiro. — disse Thoth.

— Aí podemos parar um pouquinho pra ver a mamãe? — pediu Kebechet.

— Sim. — disse Anúbis — Eu deixo você lá com ela e vocês podem ir atrás de Ihy e Macária.

— YEY! — gritou Kebechet erguendo os braços no ar e acabando por derrubar parte da água no chão ao fazer isso.

O julgamento seria finalizado e a promessa para Kebechet seria cumprida, mas a sensação de que tudo ia bem era como uma fina camada que os deuses usavam para tentar não pensar nos problemas. O bebê natimorto de Tutancâmon era um lembrete dos problemas e de seus erros. Dia após dia, os hititas avançavam, diminuindo as fronteiras egípcias ao norte, os fazendo lembrar desconfortavelmente de quando os hicsos fizeram o mesmo e quase encerram a história do Egito.

Era exatamente por isso que Paramessu, nos meses que se seguiram ao sepultamento da filha de Tutancâmon, teve que deixar a esposa grávida para trás para acompanhar Horemheb até as fronteiras do Egito. Servindo como braço direito de Horemheb, eram poucas as vezes que Paramessu tinha que se juntar ao conflito sangrento que ceifava cada vez mais vítimas egípcias e cada vez mais empurrava o Egito para trás.

Contudo, não era sem dificuldade que os hititas ganhavam dos egípcios que, sob o comando de Horemheb, a cada dia ficavam mais fortes com o exército constantemente treinando para suprir os danos deixados por Akhenaton. Outro esforço intenso eventualmente aconteceu na casa de Paramessu quando sua esposa, sem a presença do marido, entrou em trabalho de parto.

Ao contrário do que aconteceu com Tutancâmon e Anquesenamon, o bebê de Sitre veio ao mundo na hora certa e gozando de plena saúde. Acompanhada apenas das parteiras, Sitre deu luz a um menino que chorava ruidosamente quando as parteiras o colocaram sobre o peito da mãe. Sitre, ainda de cócoras, abraçou o pequeno menino e pousou a bochecha gentilmente sobre a cabeça dele, ocupada por uma rala cabeleira ruiva.

— Irá esperar Paramessu voltar para darem o nome ao bebê? — perguntou uma das parteiras.

— Já havíamos combinado o nome no caso de ser menino. — disse Sitre — E agora que o pequenino veio ao mundo, me parece um nome que combina com ele.

— Qual? — perguntou a assistente da parteira.

— Seti. — disse Sitre, fazendo a parteira e sua assistente se entreolharem brevemente.

— Por causa dos cabelos? — perguntou a parteira.

— Sim. — disse Sitre tranquilamente — Paramessu também os tem. O deus Seth tem sido bom para nossa família, se é que ainda podemos nos chamar de estrangeiros.

— Seth pode ser o deus dos estrangeiros, mas já são muito egípcios, em minha opinião. — disse a parteira.

— Talvez o fato de ninguém ter dito o contrário para Paramessu seja uma prova disso, embora ouvi dizer que seu avô ouviu o contrário algumas vezes. — explicou Sitre — Que o pequeno Seti seja então a concretização de que o deus Seth ajudou essa família quando ela era de fora, e agora, faz inteiramente parte do grande Império Egípcio.

— Quer mandar uma mensagem para a linha de frente para comunicar Paramessu do nascimento do filho? — perguntou a parteira.

— Seria muito bom! — disse Sitre — Ele vai ficar feliz. É bom ter alguma felicidade na guerra.

Na guerra, certamente boas notícias eram bem vindas. A alegria de uma criança nascida com saúde encheu o peito de Paramessu de energia para fazer de tudo para o Egito sair vitorioso daquela guerra. Afinal, o futuro do seu filho estava em jogo. Nos dias mais calmos, ele pensava em Sitre e no filho. Com o passar dos dias, quando as coisas com os hititas pareciam ter momentaneamente se acalmado enquanto eles terminaram de aniquilar os mitanni, Paramessu voltou para Tebas.

A volta de Paramessu, contudo, foi apenas momentânea, ele logo voltou para a frente de batalha levando para todos a mensagem de que Anquesenamon estava novamente grávida. Contudo, pouco mais de um ano depois, uma nova mensagem chegou para Paramessu e Horemheb.

Era um dia sem muitos acontecimentos, mas nunca calmo. Mesmo sem nenhuma luta, existia a tensão de um medo de ataque dos hititas. Então os egípcios aproveitavam essa chance para se recuperarem e treinarem. Paramessu estava supervisionando o treinamento dos soldados tranquilamente. O tanto de dias passados na linha de frente com a total falta de luxo da guerra fez com que seus cabelos da cor do cobre se revelassem.

A cor dos cabelos do soldado de maior confiança do comandante Horemheb certamente causou alguns murmúrios. Ruivo estava longe de ser uma cor comum no Egito, assim como vermelho estava longe de ser uma cor com bom significado. Contudo, eles tinham coisas mais importantes com as quais se preocupar.

O treinamento dos soldados seguia bem, eles a cada dia tinham menos dificuldade com os ataques dos hititas e mais confiança e segurança. Então, repentinamente, Horemheb surgiu da entrada de sua tenda, chamando Paramessu apressadamente com uma expressão de extrema preocupação no rosto.

— Sanakht… — disse Paramessu chamando um dos soldados mais bem treinados que estavam ali perto — Fique de olho no treinamento por favor. Vou ver o que o comandante quer.

— Pela cara não parece coisa boa. — disse Sanakht — Boa sorte.

— Obrigado. — disse Paramessu.

Paramessu foi apressadamente até a tenda quadrada e colorida, onde as mais importantes decisões do conflito com os hititas eram tomadas. Ao entrar na tenda, ele viu Horemheb extremamente preocupado, andando de um lado para outro, enquanto um mensageiro recém chegado se encolhia cabisbaixo no canto.

— O que aconteceu? — perguntou Paramessu.

— O faraó morreu. — declarou Horemheb.

— O que? Como? Ele é tão novo! — exclamou Paramessu, completamente chocado, não conseguindo processar aquela informação — 19 anos, não é?

— E piora… — disse Horemheb rindo de nervoso.

— Como pode piorar? — perguntou Paramessu.

— Lembra que mais de um ano atrás falaram que Anquesenamon estava grávida novamente? — perguntou Horemheb — Bem, parece que esqueceram de contar para nós que o bebê morreu! Tutancâmon não tem herdeiros!

— Ele também não tem irmãos nem chegou a nomear alguém para ser seu herdeiro, ao menos até onde eu sei… — disse Paramessu pensando em voz alta — Então… quem pega o trono?

— O filho da puta do Ay está com certeza fazendo tudo que seja para que ele se torne o faraó! — esbravejou Horemheb dando um forte soco na mesa posta no centro da tenda — E a notícia da morte do faraó ainda levou dias demais para chegar até nós. Para completar a situação.

— Temos que voltar para Tebas o mais rápido possível. — disse Paramessu.

— Vai levar muitos dias! Estamos muito ao norte e a notícia já chegou atrasada para nós, graças à essa mesma distância. — lembrou Horemheb — Tudo que Ay precisa fazer é ser o principal responsável por sepultar Tutancâmon e pronto. Ele pode ser o faraó. Ainda mais que com certeza terá o apoio dos sacerdotes. E tem mais!

— Não para de piorar? — perguntou Paramessu.

— O mensageiro diz que tem outro mensageiro, carregando uma mensagem da qual o conteúdo ele desconhece, mas que veio do palácio. — disse Horemheb — E essa carta está indo para o coração do Império Hitita.

— Quem enviaria uma carta para os nossos inimigos numa situação como essa? — perguntou Paramessu.

— Não sei. Duvido que seja Ay tentando alguma diplomacia. Mas é uma preocupação também. — admitiu Horemheb — O ideal seria deixarmos tudo aqui preparado para qualquer ataque e irmos o mais rápido possível para Tebas, por mais que eu não goste de abandonar a linha de frente assim.

— Mas uma mumificação também demora vários dias. — lembrou Paramessu — Tutancâmon praticamente nem tem uma tumba ainda. Os soldados estão também mais treinados do que quando cheguei aqui.

— Pegue suas coisas. — disse Horemheb depois de alguns minutos de silêncio nos quais pensava no que fazer — Vamos deixar todos preparados para a possibilidade de os hititas atacarem e partiremos imediatamente para Tebas. Não gosto de Ay como faraó, mas não podemos deixar o Egito desprotegido também.

— Sim senhor. — disse Paramessu.

Poucos dias antes, em Tebas, um desespero muito parecido acontecia. Anquesenamon, mesmo com a dor do luto, ansiosamente se debruçava sobre sua mesa com um papiro ali estendido. Apressadamente ela escrevia uma carta repleta de desespero. Suas lágrimas enchiam seus olhos tanto pela morte do irmão, como pela ameaça que surgia em seu horizonte. Ay, o velho, asqueroso, egocêntrico e ambicioso Ay, iria forçá-la em casamento para legitimar sua posse do trono.

Desesperada, mesmo recém enlutada, Anquesenamon desesperadamente escreveu para Suppiluliuma I, o rei dos hititas, pedindo desesperadamente por um de seus filhos para casar-se com ela com a tentadora oferta de ser o faraó.

Com a carta pronta, Anquesenamon saiu de seu quarto na surdina da noite, tentando não atrair atenção indesejada para si, e foi até um soldado em quem muito confiava. Ela passou a carta para ele com a mão tremendo e o rosto pálido, e pediu:

— Por favor, em nome de todos os deuses do Egito, faça essa carta chegar o mais rápido possível em Suppiluliuma. — sussurrou Anquesenamon.

— Minha rainha… para Suppiluliuma? — questionou o guarda — Tem certeza disso?

— Sim! Tenho! — insistiu Anquesenamon — Eu ainda sou a rainha. Porque tenho que me justificar? É uma carta de extrema importância e altamente sigilosa. Estou confiando-a a ti como se confiasse a ti minha própria vida.

O soldado olhou para o papiro em sua mão, ele parecia até mais pesado depois das palavras da rainha. Contudo, depois de uns segundos de silêncio, o soldado afirmou com a cabeça.

— Estou honrado com a confiança de vossa alteza. — disse o soldado — Farei com que a carta chegue em Suppiluliuma.

Notas finais
eu vou dar uma salva de palmas pra quem identificar TODOS os faraós escondidos nesse cap kkk ** UM POUCO DE VIDA REAL ** Levante - De uma forma geral, a região se resume à Síria, Jordânia, Israel, Palestina, Líbano e a Chipre. Outras fontes definem o Levante de uma maneira mais ampla, incluindo porções da Turquia, do Iraque, da Arábia Saudita e do Egito. Tutancâmon não deixou herdeiros (mas vamos ter que inventar um para conectar essa história com Crônica dos Kane). Na época, acreditavam que era por maldição… mas a real é que foi incesto demais. Nenhum bebê sobreviveu, mas as múmias de duas das filhas dele, ambas natimortas, foram encontradas na tumba dele. Quando Tutancâmon morreu (de causas que hoje em dia ainda estão sendo debatidas mas muitas fontes indicam que de malária), começou uma briga pelo trono entre Ay e Horemheb já que ele não deixou herdeiros. Também há teorias de que ele morreu num acidente de biga, no meio de uma luta. Contudo, essa teoria é difícil de provar pq a múmia do Tut foi muito danificada numa tentativa moderna de roubo da mesma. Mas aparentemente é fato que, depois que ele morreu, Anquesenamon mandou uma mensagem desesperada para Suppiluliuma, o então rei dos hititas, pedindo por um dos filhos dele em casamento. **** REFERÊNCIAS **** Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810 As filhas de Tutancâmon - https://en.wikipedia.org/wiki/317a_and_317b_mummies#:~:text=Mummies%20317a%20and%20317b%20were,by%20Howard%20Carter%20in%201922. As filhas de Tut 2 - https://www.promegaconnections.com/the-daughters-of-king-tutankhamun/ Hyksos - https://en.wikipedia.org/wiki/Hyksos Paramesu- https://en.wikipedia.org/wiki/Ramesses_I Sitre - https://en.wikipedia.org/wiki/Sitre Carta de Anquesenamon para os hititas - https://ancientegyptonline.co.uk/suppiluliuma-letter/#:~:text=The%20Egyptian%20queen%20answered%20my,and%20I%20have%20no%20son.