A Morte Das Areias do Saara

171 Sob o Som que Liga ao Presságio


Notas iniciais
gente, desculpa a demora. n tenho nem cara pra pedir desculpas mais. cheguei num ponto q to considerando tomar uns banho de sal grosso. alguns aqui já sabem mas eu quebrei o tornozelo. feio tá? bem feio. quebrei 3 ossos e tive q fazer cirurgia. a cirurgia colocou 11 parafusos e 3 placas de titanio. por causa de tudo isso, n só eu perdi uns dias aí de escrita pq eu tava ocupada demais chorando de dor e afins, como tbm tá um saco pq eu n consigo ficar confortável por mto tempo em lugar nenhum pra conseguir escrever. esse cap então foi o q mais demorou pra sair mesmo considerando o tempo de eu tentando digitar ele. meu pé ainda tá melhorando. mas to dando meu melhor. desculpa. a imagem de hoje NÃO é no Egito. bem vindos à Grécia :)

A água é a melhor, e o ouro, como um fogo ardente na noite, destaca-se supremo de toda a riqueza senhorial. Mas se, meu coração, você deseja cantar sobre disputas, não procure mais por nenhuma estrela mais quente que o sol, brilhando de dia através do céu solitário, e não proclamemos nenhuma disputa maior que Olímpia. ~ Fragmento do poema “Odes” de Píndaro

Dia após dia, quase parecendo como grãos de areia caindo vagarosamente em uma ampulheta, o tempo passou. Passou apesar dos próprios sacerdotes invadindo tumbas, e dos incontáveis faraós invocando para si o nome de Ramsés, e passou não cheio de glória. O fim do reinado de Ramsés XI trouxe a triste fragmentação do Egito, enquanto a Grécia florescia cada vez mais. Mais do que só a evolução grega, deixando 1050 a.C ano a ano para trás, o tempo trouxe muito, na atual Tunísia, começou a florescer a cidade de Cartago como um povoado criado por imigrantes Fenícios, vindos do atual Líbano. Os assírios não só se mantiveram firmes, mas também, apesar da fragilidade dos camaradas egípcios, cresceram, prontos para dominar o que pudessem, o que certamente tirava o sono de seus vizinhos.

No Egito, eventualmente outra reunificação foi feita mas, dessa vez, pelas mãos de um estrangeiro. Vindo da Núbia ao sul, Piye viu como sua missão divina reunificar o Egito em nome do deus que louvava, Amon-Rá. Tal era claro que Piye só queria ver o Egito em sua glória novamente, que depois que o reunificou, o novo faraó deixou o Egito para trás para ser governado pelos próprios egípcios, mesmo se o faraó não o fosse. E quando Piye morreu, mais uma vez o trono egípcio ficou com os núbios, dessa vez, com o filho de Piye, Shabataka.

Apesar de quaisquer tensões nacionais ou internacionais, com a chegada do ano de 708 a.C, uma reunião com motivos pacíficos começou a se formar em território grego. Dentre os mortais, todos gregos mas não necessariamente amigos, pois rivalidades já se espalhavam pelas cidades gregas, eles se reuniram em paz. Também reunidos estavam os deuses, mas em um grupo já bem mais internacional. Já era a 18ª edição daquele evento que ocorria em território grego mas, devido ao seu começo humilde, foi a primeira vez que Zeus decidiu convidar os mais diversos deuses dos mais diversos lugares para prestigiarem aquele evento que acontecia em sua homenagem.

Dentre os morros verdejantes e belos da pequena cidade de Olímpia os passarinhos cantavam e os mortais se aglomeravam fazendo tanto barulho que mal se podia ouvir os passarinhos. Eles treinavam para todos os lados, completamente ignorantes do fato que em um daqueles morros, invisível para todos eles, havia uma enorme arquibancada, em um leve semi-círculo, do mais puro mármore branco. Cada degrau parecia polido pela própria luz do sol, e o ar em torno dela vibrava com um brilho etéreo, como se o véu entre o divino e o terreno se desfizesse ali.

No alto dessa arquibancada, uma ampla esplanada se abria, adornada por pilastras elegantes que sustentavam véus de seda translúcida, dançando ao vento suave que vinha do mar Egeu. Mesas longas e suntuosas estavam cobertas de ouro e bronze, repletas de quitutes preparados por espíritos servos de Héstia: frutas maduras cintilando como joias, vinhos de cor rubi que nunca se esgotavam, e carnes tão tenras que exalavam um aroma capaz de fazer um mortal delirar. No exato centro da arquibancada, uma área igual se abria, mas muito menor e guardando um trono nela. Era o lugar de honra e, exatamente por isso, na frente dela não havia nenhuma outra arquibancada embora o espaço permitisse.

A música enchia os ouvidos dos deuses, e apenas dos deuses. Liras douradas dedilhadas por musas, flautas que faziam o ar vibrar em harmonia e recepcionavam os deuses que ainda chegavam. Dentre os que chegavam, estava uma pequena comitiva egípcia, composta por Hórus, Hathor, Hapi, Ihy, Ísis, Thoth, Anúbis, Anput e Kebechet.

— Bem vindos! Bem vindos! — exclamava Zeus — Bem vindos à celebração em MINHA homenagem.

— Obrigada por virem. — disse Hera.

— Obrigado pelo convite. — respondeu Hórus.

— Teria convidado nas outras edições.. mas sabem como são os mortais… — disse Zeus, suspirando — Demoram pra conseguir fazer algo que seja muito digno de atenção.

— Ouvi falar que esse ano terão dois eventos novos? — perguntou Hathor.

— Sim! Uma luta e um que estamos chamando de Pentatlo. — respondeu Zeus — Se não for de interesse ao menos a luta, podemos aproveitar a atmosfera e a música de qualquer jeito.

— Tenho certeza que será interessante de toda forma. — respondeu Ísis.

— ZEUS! — exclamou Poseidon, se aproximando repentinamente do grupo vindo do meio da animação da festa — Dê um jeito em Afrodite e Dionísio! Eles estão fazendo uma competição entre si de quem seduz mais deuses!

— Quem está ganhando? — perguntou Zeus.

— A questão não é essa, querido… — respondeu Hera se segurando para não revirar os olhos — Temos convidados…

— Afrodite. — respondeu Poseidon, dando de ombros.

— Bem, fiquem a vontade… podem se servir dos comes e bebes. — disse Zeus para os egípcios antes de ir resolver a situação junto com Hera e Poseidon.

— Eles não mudam nunca né? — perguntou Hórus.

— Eles? Não. — respondeu Anúbis — Aqui? Sim. Já está ficando injusto comparar a região com como era com os Micênicos ou os Minóicos.

— Quanto antes a gente socializar e tudo mais, antes a gente pode voltar. — resmungou Hórus.

— Certo. Certo. Sei que a vontade de vir não estava tão grande assim… — disse Ísis — Mas temos que manter as boas relações diplomáticas intactas.

— Sim. — disse Thoth soltando um pesado suspiro — Apesar de ter minhas curiosidades quanto à essa tal “Olimpíada”, preferiria talvez uma competição de poemas ou algo do tipo. Mas entendo que não é do agrado de todos.

— Vão. Socializem, infelizmente estamos numa situação em que isso é necessário. — insistiu Ísis — Ihy e Kebechet, sejam cuidadosos ao brincar por aí. E fiquem de ouvidos abertos.

— Já sabemos. — disse Kebechet sorrindo docemente — Pode deixar com a gente.

— Vamos ver se Shapshu já chegou. — sugeriu Ihy.

— Ela deve ter chegado, olha ali o El. — disse Kebechet apontando para El, o deus fenício com o qual Shapshu sempre andava.

Os dois então logo saíram correndo atrás da amiga em potencial. Os demais deuses então, foram cada um para um canto da grande arquibancada, onde os mais diversos deuses, totalmente espalhados e degustando de música, comida e bebida, viam os mortais se prepararem humildemente para seu próprio festival dentre barracas sujas de lama, música de qualidade duvidosa, álcool e risadas.

Anúbis e Anput foram para um canto excluído da arquibancada onde, longe dos demais, Hades, Perséfone e Ereshkigal se reuniam cercados de vinhos, frutas e pães num próprio piquenique. Era um cantinho tão excluído pelos demais deuses que quase dava para ver uma nuvem negra os rodeando. Eles ocupavam degraus diferentes da arquibancada com os comes e bebes concentrados especialmente no meio deles. O resto dos deuses, a maioria em seus próprios grupos, pareciam estar divididos entre ter receio de chegar perto daquele pequeno grupo, ou simplesmente nenhum interesse no momento.

— Você, aqui? — perguntou Anúbis, surpreso, ao ver Ereshkigal.

— Eu, aqui. — respondeu ela, rodando delicadamente o vinho que bebia em sua taça de alabastro — Estava entediada e os humanos falam já a tantos anos desse evento… mas…

— Eu disse que as fofocas exageram. — disse Hades enquanto Anúbis e Anput se sentam com eles — Não é lá grande coisa.

— Ah, não fale assim. Acho que tem potencial. — disse Perséfone — Isso de eles não lutarem entre si durante o evento é bonito.

— Não tem luta no evento? — perguntou Anput — Meio que não é sem luta.

— Verdade. — respondeu Perséfone — Mas é a primeira vez que vai ter luta. Outros anos foram só corridas diferentes mas… verdade seja dita, eles ainda derrubam sangue assim. Ao menos não é nenhuma guerra ou batalha.

— Mais algumas edições e talvez eles resolvam construir um espaço melhor para as competições. — sugeriu Anúbis, percorrendo o olhar pelo terreno, a maioria simplesmente alguns descampados e construções humildes de madeira.

— Ah pois eu preferiria que não. — bufou Perséfone — Arrancar as flores pra isso? Tá que já arrancaram para fazer essas construções de madeira mas… se fizeram algo maior, vão arrancar ainda mais coisa. E as árvores aqui são tão belas. O cenário como um todo é tão pacífico.

— Hmm… — resmungou Anúbis fitando a região, era mesmo muito bonita.

Árvores verdes, e algumas salpicadas de um delicado rosa, podiam ser vista até a base das montanhas que rodeavam a pequena cidade e criando um contraste lindo com o céu azul. Mas onde o foco das Olimpíadas estava, era mais um lamaçal do que um belo bosque.

Homens de toda a Grécia andavam pela mistura de grama pisada, terra batida e lama depois de uma longa viagem até Olímpia. Viagem essa que havia sido percorrida como numa pregação religiosa. Não havia mulheres mortais, tal como muitas das deusas estrangeiras ali presentes, se incomodaram em notar. As únicas mulheres presentes eram meras prostitutas e escravas, presentes para satisfazer os homens de qualquer maneira necessária.

— Falando em coisas maiores… Zeus está falando de mandar os mortais construir templos maiores… — disse Hades — E quando eles tiverem a habilidade necessária, construir uma estátua gigante dele mesmo.

— Ah, nem me lembre… — reclamou Perséfone.

— Mas eles já sabem construir estátuas grandes… — disse Anput — Bem, ao menos no Egito. Já viu o tamanho das estátuas de Ramsés II? Os mortais nem sequer conseguem alcançar o joelho da estátua. Nem mesmo pulando e se esticando.

— Mas ele quer em posições mais complicadas. — explicou Perséfone — As suas estátuas, embora eu não retire todo o valor, idade e complexidade delas, são bem estáticas e em poses bem seguras. Eu sei que estátuas são para serem estáticas e não móveis, mas acho que entenderam o que quero dizer. São sempre sentadas, retas. Ou em pé, retas.

— Rígidas. — complementou Ereshkigal.

— Isso. Rígidas. — concordou Perséfone.

— Se ele quiser que os mortais façam estátuas mais complicadas que isso, imagino que terá que esperar mais uns bons anos. — opinou Anúbis.

— Pedra é pesada. — comentou Ereshkigal — Sem a habilidade certa a estátua quebrará sob o próprio peso.

— Verdade. — concordou Hades com um suspiro pesado — Espero que demore uns bons séculos também. Não vou aguentar todo o falatório consequente de uma estátua que se equipare ao ego de Zeus. Era bem melhor quando essa competição ainda era bem menor ainda, e bem mais sem importância, que Zeus não era nem envolvido na homenagem.

Verdade seja dita também, o interesse dos deuses estava mais naquela festa organizada por Zeus do que nas competições olímpicas dos mortais. Os deuses riam alto, discutiam, bebiam, e Anúbis até notou com o canto do olho Hórus e Hércules discutindo, sem dúvida por Hércules, mais uma vez, ficar se vangloriando de ter matado um faraó tirano que na verdade nunca existiu. Nem mesmo a aparente inexistência de trapaças parecia interessar os deuses tanto assim em competições de mortais que nada tinham de surpreendente para mostrar.

O início da primeira corrida até teve a capacidade de atrair o olhar de alguns deuses, mesmo que alguns estivessem mais interessados na nudez dos competidores do que na corrida em si. A gritaria generalizada de mortais torcendo por seu competidor favorito até acabou por fazer alguns deuses, divertidamente, se juntarem nessa energia de torcida que achavam até graça diante de corredores, ao olhar deles, tão lerdos. Mas podiam ver o trabalho que aqueles mortais tiveram em se preparar por meses para aquele dia.

— Vamos ver se tem alguma coisa interessante nas barracas? — perguntou Anput poucos minutos após o término da primeira, e mais curta, das corridas.

— Algumas comidas, muita lama, malabaristas, oráculos charlatões, músicos de rua, quinquilharias para comprar, traficantes de drogas… Basicamente de tudo um pouco. — respondeu Hades.

— Parece interessante. Vamos! — disse Anput puxando Anúbis forte o suficiente para a taça de alabastro da qual ele bebia no momento balançar o suficiente para um pouco de vinho cair na arquibancada segundos antes dos dois sumirem dali.

Com o mundo ficando lentamente mais conectado, sair andando tão livremente em território estrangeiro não era mais garantia de que nenhuma cena iria acontecer por algum mortal os reconhecer. Ficar invisível não era uma opção pois Anput queria interagir com tudo por lá. Então não lhes restou outra alternativa a não ser cobrir-se com uma longa capa de tecido fino com um capuz bom o suficiente para disfarçar melhor seu rosto. No meio de tanta gente com vários tipos de roupa, ou roupa nenhuma, não era como se eles chamasse tanta atenção vestidos daquele jeito. O máximo que acontecia era o fato de uma mulher estar ali, no meio de tantos homens, atrair olhares curiosos. Mas nada que um olhar irritado não resolvesse.

A lama que sujava seus pés enquanto eles passavam pelas barracas era uma novidade desconfortável e que com certeza muitos chamariam de indigno. Acostumados aos terrenos secos e arenosos, aquela combinação de terra marrom-avermelhada e úmida lhes era estranha. Mas os colares e brincos que atraiam o olhar de Anput não eram novidade alguma, apesar do estilo deles ser mais grego do que egípcio.

As compras de jóias não duraram muito, pois logo Anput foi envolvida por o ritmo de uma flauta, chamada também de siringe. O ritmo das notas, simples, foram suficiente para fazer Anput se mexer lentamente no ritmo da música. Não só ela, mas como outros mortais ali, que já dançavam alegremente. Ela começou a balançar os quadris de leve, com a música tomando conta de si sem que ela notasse enquanto ela andava pela feira grega. Anúbis notou antes dela mesma, e logo soltou um sorriso.

Com o canto do olho, ela notou o sorriso do marido, e deixou uma risada doce escapar pelos seus lábios quando se tocou do que tratava-se. Logo, se soltou lentamente, com os braços movendo-se lentamente de forma graciosa, fazendo as pulseiras tilintarem e brilharem sob o sol. Não sabia como dançar uma música grega, mas tentava lentamente misturar o pouco que sabia de uma dança grega, com o muito que sabia das danças egípcias.

Decidindo imitar os mortais, ela pegou em ambas mãos dele, fechando um círculo de dois, e começou a girar e saltitar alegremente, forçando-o a entrar na dança e se divertir. Ele não teve escolha a não ser imitar. Seu coração pedia isso e ela ria em resposta. Seus pés ficavam sujos de lama, os mortais riam e gritavam, alegres, em meio à dança. Não havia movimentos complexos, apenas diversão. Era fácil.

Já nem notavam mais que logo se soltavam, faziam coisas diferentes com direção dos mortais. Subiam um joelho aqui, uma batida de palmas aqui, Anput girava mais rápido ali, um abraço ao redor do pescoço de Anúbis… uma troca de olhar… um beijo… e o fim da música sob aplauso dos mortais, que nem davam bola para o casal imortal que havia se divertido entre eles.

Ao redor deles, os mortais não estavam muito diferentes. Amigos riam, bêbados ou quase lá, e casais, todos homens, trocavam sorrisos, carícias e beijos. Quanto a Anput e Anúbis, eles trocaram um sorriso como se fosse um segredo que compartilhavam entre si e, com a multidão se dispersando e o flautista se preocupando em agora molhar seus lábios de uma boa cerveja, eles voltaram à andar pela feirinha.

Pelo som dos gritos, eles conseguiam ouvir que as corridas seguintes continuavam enquanto eles se deliciaram com comidas de ruas e atualizavam as caixas de jóias de Anput. Enquanto se deliciavam em um punhado de carne de carneiro bem temperado entre duas fatias de pão, eles pararam diante de uma tenda que chamava mais atenção que as demais devido ao pano roxo velho, remendado e acabado, usado para montar sua tenda.

— Que curioso… — disse Anput — Uma tenda com um pano dessa cor, tão cara… mas ao mesmo tempo parecendo tão acabada.

— Talvez já tenha visto dias melhores. — disse Anúbis olhando para a plaquinha de madeira presa na grama diante da tenda onde, no perfeito grego antigo, dizia “oráculo’.

— Quão verdadeiro será esse oráculo? — perguntou Anput com uma risada que já indicava bem o que achava da veracidade desse oráculo.

Enquanto eles julgavam a barraca acabada e ao mesmo tempo chamativa, dois rapazes saíram da tensa com sorrisos que iam de um canto ao outro. Seja lá o que o oráculo havia dito à eles, claramente havia sido bem satisfatório, pois eles olharam um para o outro com os olhos brilhando, e entrelaçaram as mãos antes de sair andando para longe.

— Vamos entrar? — perguntou Anput, segurando uma segunda risada — Pode ser divertido.

— O que você irá perguntar? — perguntou ele.

— Podemos perguntar o que tem em nosso futuro… — sugeriu Anput — Vai ser divertido imaginar um futuro mortal normal.

— Está tão entediada assim? — perguntou ele, terminando de comer sua carne.

— Não… assim… não aqui. A feirinha é legal. — justificou Anput, também terminando sua carne — Ficar conversando com Perséfone, Hades e Ereshkigal também é legal. A competição em si? É ok. Talvez os próximos eventos sejam mais legais, mas os primeiros são só umas corridas.

Ao entrar na tenda, ficou claro que a única coisa valiosa era o tecido roxo cheio de buracos que a formava. Dentro dela só havia uma mesa de madeira, três bancos e um pequeno braseiro soltando uma fumaça cheirosa de uma mistura de ervas no meio da mesa. Em um dos bancos, surpreendentemente, estava uma mulher de cerca de 30 anos. Tal como o resto de sua barraca, ela também não estava banhada em luxos. Seu cabelo castanho ondulado estava solto e caindo delicadamente sobre seus ombros brancos.

— Venham… Venham.. — disse a mulher de forma lenta e misteriosa — Querem saber se terão filhos? Se terão uma vida longa pela frente? O dia de sua morte? O destino de um familiar? Faça sua pergunta e lhe darei a resposta... por um preço para agradar os deuses.

— Isso aqui seria o suficiente? — perguntou Anúbis fingindo tirar do bolso, mas na verdade tirando do Duat, uma pequenina estátua, quase do tamanho de sua mão, dele próprio em forma de chacal feita de madeira e com um colar banhado à ouro.

— Depende… — disse a mulher pegando a pequena estátua e analisando tanto ela, quanto os convidados com cuidado e, consequentemente, notando que eles não eram maltrapilhos — Os deuses estão exigentes hoje em meio à esse festival em honra à Zeus.

— Claro que estão… — disse Anput tendo dificuldades em segurar o sarcasmo na voz por saber onde esses mesmos deuses estavam mas, ainda assim, tão discretamente quanto o marido, tirou do duat uma pulseira velha, mas simples, feita inteiramente de ouro — Creio que agora seja ouro o bastante para eles?

— Ah sim… sim... com certeza. — disse a mulher pegando a pulseira antes que eles mudassem de ideia. — Sentem-se.

— Quantas perguntas temos direito? — perguntou Anput enquanto os dois se sentavam.

— Só uma. — explicou a mulher — Para mais perguntas, só agradar mais os deuses com mais oferendas.

— Claro. — resmungou Anúbis segurando a vontade de revirar os olhos.

— Qual a pergunta? — perguntou a oráculo.

— O que vê em nosso futuro? — perguntou Anput.

— Ó, deuses! Me mostrem o que o futuro reserva para estes dois diante de mim. — exclamou a oráculo passando a mão pela fumaça cheirosa do braseiro de forma cerimoniosa como se a moldasse e lesse o futuro pela fumaça — Ó! Sim! Sim! Eu vejo… eu vejo uma vida feliz! Sim! Terão uma vida longa… sim… longa… 30… Não! 40 anos! Ambos chegarão aos 40 anos!

— 40 anos? Incrível… — comentou Anúbis, e logo ele ganhou uma cotovelada de Anput, que segurava a risada.

Contudo, nesse momento a oráculo subitamente olhou para o topo da tenta. De uma forma tão brusca que teria com certeza machucado o pescoço. Sua boca estava semi aberta e seus olhos, arregalados. Suas mãos ficavam imóveis, segurando a borda da mesa com tanta força que a ponta de seus dedos ficavam brancas.

— Quando o rio for coroado por ferro estrangeiro, o Sol ainda se erguerá, altaneiro. — proclamou a oráculo com uma voz quase sussurrante — Mas quando o ouro dos reis se trocar por veneno e o silêncio das águas, teu sopro seguirá o do Sol, sem dono. Então o segundo cairá. Não em fim, mas em véu, mantendo-se oculto entre as sombras do tempo.

Tão bruscamente quanto antes, a oráculo se mexeu mais uma vez, abaixando a cabeça de repente, quase se queimando no braseiro. Mas tão subitamente quanto antes, ela voltou ao seu normal inicial, mas de cabeça abaixada a ponto de seu queixo apoiar em seu tórax. Anput e Anúbis só conseguiam encarar ela, em silêncio e com olhos arregalados.

— 40 anos… e três filhos… — resmungou ela, lentamente erguendo a cabeça fitando a fumaça — Dos quais, um perderá. Isso é o que os deuses guardam ao casal.

Ela então voltou a olhar para eles com a tranquilidade de um trabalho cumprido, mas logo sua expressão se mudou para dúvida e estranhamento ao notar o olhar de surpresa e preocupação com o qual eles olhavam para ela.

— Bem.. é isso… Não é uma previsão muito ruim. — disse ela, como se estivesse tentando fazer eles gostarem de sua previsão — 40 anos é uma boa vida. E ter filhos hoje em dia.. sabe como é… difícil passarem dos 5 anos de idade.

— S-Sim… tem razão. Muito obrigada. — disse Anput agarrando o braço de Anúbis e o puxando para fora da tenda apressadamente.

Deixando a oráculo confusa para trás, eles saíram apressadamente da tenda. De fora da tenda, enquanto um homem parrudo debatia de longe se entrava na tenda ou não, os dois olharam um para o outro.

— I-Isso… — gaguejou Anput.

— Pareceu bem real, não pareceu? — perguntou Anúbis — A parte do meio.

— Sim… — respondeu Anput, pensativa — Mas o que quer dizer? E é real mesmo ou ela só engana muito bem? Sentiu algo de mágicamente anormal.

— Não. — respondeu Anúbis.

— Nem eu. — disse Anput, bufando em descontentamento — Não estamos nos estressando por causa de um oráculo de mentira de um festival grego qualquer, né?

— Vamos falar com Apolo. — sugeriu Anúbis — Que outra pessoa é melhor pra falar se um oráculo de um festival grego qualquer é de mentira ou não?

E assim, deixando as barraquinhas para trás, foi justamente o que eles fizeram ao voltar para as arquibancadas onde os deuses se reuniam. O lugar estava muito mais cheio, e os deuses muito mais bêbados. Apolo estava na lista dos deuses que faziam de tudo para conseguir se embebedar, algo que não era necessariamente muito fácil devido aos bônus da imortalidade. Além do vinho na mão, Apolo estava secando com o olhar os atletas seminus junto com Afrodite.

— Apolo… — disse Anúbis calmamente, fingindo não notar o brevíssimo olhar de surpresa que apareceu no rosto de Apolo por um segundo antes de ele ficar mais pálido.

— S-Sim? Gostando da festa? — perguntou Apolo enquanto Afrodite só prestava atenção na conversa.

— Nas tendas ali que os mortais estão visitando… — disse Anput, apontando para as tendas em questão — Tem alguns oráculos.

— Ah sim sim. — respondeu Apolo, respirando aliviado ao notar que o assunto era algo do entendimento dele — Sabe como os mortais gostam dessas coisas.

— Algum dos oráculos lá realmente é verdadeiro? — perguntou Anúbis — Realmente tem o poder de fazer profecias?

— Porque? Interessado? — perguntou Apolo, mas logo continuou a explicação, sem realmente se importar com a resposta — Só uma. Sim. Uma mulher. Acho que abriram exceção para ela já que mulheres livres não são bem vindas aqui. Acho que o nome era… era… Melina? Isso. Melina. Achava que ia ser grande, mas… previu que o vilarejo dela ia ser destruído por Atenas… o que não caiu muito bem com os líderes, que são fãs de Atenas, e com a própria liderança de Atenas. Então ela acabou exilada.

— Isso explica o pano caro da tenda, acho… — murmurou Anput para evitar pensar em outra coisa, nas palavras da tal Melina.

— Ah, foram até lá então? — perguntou Apolo.

— Não. Só notamos daqui de longe a tenda roxa. — respondeu Anúbis apressadamente — Não é um tecido muito fácil de se adquirir… ou tintura.

— Tem razão… — disse Apolo, fitando a tenda ao longe.

— Está meio acabada né? — perguntou Afrodite, entrando na conversa — Deve ter sido linda um dia. Como imaginaram que era de uma oráculo então se não foram até lá?

— Ah não, só coincidência. — salvou Anput rapidamente — Hades mencionou que havia oráculos e ouvi alguém na festa falando de brincar de ir fazer alguma previsão em um… Então nos perguntamos se havia algum de verdade. Afinal, cada vila está tendo o seu agora né?

— Sim sim. Nenhum tão importante e poderoso quanto Dodona e Delfos… — explicou Apolo — Mas ainda assim, melhor do que nada. É normal que esses eventos grandes atraiam todo tipo de gente querendo se aproveitar da concentração de mais gente ainda. AH! VAI COMEÇAR! A LUTA! QUERO VER ELES LUTANDO!

Outros gritaram junto com Apolo quando os mortais entraram na área aberta cercada onde iriam acontecer os combates e não parecia que o interesse de Apolo, e alguns dos outros ali, era na luta em si. O interesse de alguns parecia mais nos músculos dos atletas.

Alguns dos atletas eram jovens demais até mesmo para ter qualquer fio de barba, mas claramente ninguém da audiência se incomodava com esse detalhe. Iriam competir vestidos, em suas próprias roupas simples, sem armaduras ou armas… vestimenta essa que não duraria até o final da vida dos Jogos Olímpicos da Antiguidade, que eventualmente iria colocar como regra a competição em pura nudez, para ter certeza de que todos eram de fato homens, já que uma vez, ainda em muitos séculos no futuro, uma treinadora mulher iria conseguir levar seu atleta, e próprio filho, à uma vitória gloriosa.

A mudança de atenção que aconteceu era o que Anput e Anúbis precisavam para voltar para perto de Hades, Perséfone e Ereshkigal. Queriam contar da profecia para Hórus, ou Ísis, ou qualquer um dos outros na verdade. Mas todos estavam com ouvidos de outros deuses perto demais.

A gritaria era tão generalizada quanto a porradaria que acontecia diante de todos. Mas no meio de tanta agitação e alegria, Anput e Anúbis tentavam discretamente chamar a atenção de algum dos outros deuses egípcios. Demorou algumas lutas, mas eventualmente atraíram o olhar de Thoth, o mais entediado com as lutas em questão.

Thoth, esperto como era, não precisou de muitos sinais para entender que eles precisam de uma conversa discreta. Fingindo que iam encher mais suas taças com vinho e beber distraidamente, Anput e Thoth se ergueram de seus lugares, com Anúbis ficando onde estava para manter um pouco as aparências.

— Que coisa essa tal “Olimpíada”, ne? — questionou Thoth, enchendo sua taça de vinho distraidamente — Não sei como demoraram tanto tempo para terem mais coisas além de corridas.

— Uma parte de mim no começo achou que devia ser pela maior probabilidade de ferimentos que outras coisas tinham… — respondeu Anput, olhando para a luta que já manchava a terra de sangue enquanto continuava aquela conversa falsa — Mas claramente eles não se importam tanto com essa parte.

— Para quem morre tão fácil, eles se importam muito pouco com ferimentos. — disse Poseidon, beliscando umas uvas e olhando para a luta, não para os dois.

Se Poseidon tivesse olhado para Anput e Thoth, teria notado que os dois ficaram um pouco tensos com alguém se juntando em sua conversa falsa. Afinal o plano era deixar a mesa enorme de comes e bebes para trás, assim como os demais convidados, e conversar em um lugar mais privado.

— Talvez justamente pela facilidade em que estão morrendo, talvez certas coisas tenham ficado mais banais? — sugeriu Anput.

— A mente humana é complexa. Uma parte de mim adoraria estudá-la mais… — disse Thoth, com os olhos quase brilhando — Ou mais! Imagina o que pode sair se eles estudarem à eles próprios!

— Que coisa sem sentido de se dizer. — resmungou Poseidon — Ou nem tanto talvez….

— Eles são curiosos. Estão, em seu próprio ritmo, inventando, descobrindo, pesquisando… e esse ritmo tem ficado mais rápido lentamente. — continuou Thoth, ficando rapidamente empolgado — Podem não ter feito construções maiores que as pirâmides, mas elas estão sem dúvida ficando mais complexas. E com elas, a matemática. Calcular o raio do sol brilhando numa parte específica do templo numa data específica já é algo simples. Imagina onde chegarão! Inventaram um material bélico novo recentemente… essas armas de ferro… Claro que idealmente algo que não traga mais mortes seria interessante. Mas é justamente esse embate entre esses povos que não se entendem que trás os avanços mais impactantes. Imagina então quando tiverem um entendimento maior das coisas e deles próprios? Será que pararão de repetir as mesmas coisas? Nesse ponto da minha vida é bem óbvio que vários padrões se repetem. Armas diferentes, condições diferentes… mas muitas coisas em comum. O quanto eles notam de seus próprios comportamentos e impulsos para estes?

— A-Aham… — resmungou Poseidon, mais do que assustado pelo comportamento de Thoth, mas também entediado pela conversa — Vou ali então… erm… ver aquele mortal repetir as mesmas coisas ao socar o outro mortal na cara de novo.

Eles deixaram Poseidon ir embora e trocaram um sorriso de cúmplices entre si.

— Acho que sua conversa o entediou. — disse Anput.

— Não à você também, espero. — disse Thoth — Podemos conversar mais sobre onde não pertubaremos ninguém.

— Aceito o convite. — respondeu Anput, segurando o sorriso no rosto.

Eles foram distraidamente andando para um canto mais afastado dos deuses que torcia para as lutas que aconteciam enquanto Thoth continuava suas análises dos mais diversos temas. Foi só quando chegaram à uma extremidade da grande arquibancada branca, que um dia chamariam de anfiteatro, que ele parou de falar. Ninguém olharia naquela direção, era na direção oposta tanto das competições quanto da comida. Não havia nada de interessante ali e, por isso, Anput usou a chance para explicar para Thoth o que tinha acontecido na tenda da oráculo.

— Bem enigmático mesmo… — disse Thoth depois de um bom tempo de silêncio após o término do relato.

— O que você acha? — perguntou Anput.

— É difícil achar qualquer coisa de profecias de oráculos. — respondeu Thoth — Você tira uma conclusão e ela está totalmente errada.

— É… isso acontece muito… — concordou Anput.

— Logo vai começar o Pentatlo e então, pelo o que entendi, começa o encerramento — disse Thoth — Vá curtir o que resta do evento. Vou fazer uma consulta com essa oráculo e, quando os ouvidos de Thoth e Isis estiverem menos ocupados, vamos falar com eles também. Não acho que tenha motivo se desesperar nesse momento. Podemos deixar para analisar o desespero necessário para depois. Se é que tem algum.

— Tem razão. O ferro estrangeiro mencionado pode ser um ataque. — comentou Anput — Nenhum ataque repentinamente chegará no centro do Egito até o final do dia.

— Não, enquanto os mortais não inventarem um jeito de voar ao menos. — disse Thoth, deixando escapar uma risada — Vou indo atrás dessa oráculo antes que o fim dos eventos a afugentam.

Anput voltou para o seu lugar entre o marido e os amigos. Anúbis a olhou com um olhar discreto e indagador que era difícil responder em silêncio. O que a ajudou foi conseguir indicar quando viu, mais além, Thoth entrando na barraca da oráculo.