A Morte Das Areias do Saara

172 Sob o Olhar do Tempo


De lá, o canto glorioso envolve a sabedoria dos poetas, de modo que eles cantam em voz alta o filho de Cronos, quando chegam à rica e abençoada lareira de Hieron, que empunha o cetro da lei na Sicília de muitos rebanhos, colhendo toda a excelência em seu auge, e é glorificado pela música mais refinada, que nós, homens, frequentemente tocamos ao redor de sua hospitaleira mesa.

~ Fragmento do poema "Odes" de Píndaro

O sol se pôs com o término dos eventos Olímpicos e os deuses egípcios, ao invés de irem para o Salão do Julgamento discutirem os acontecimentos preocupantes e curiosos do dia, foram direto para o palácio, separado da realidade mortal, o qual Hórus chamava tanto de casa como de escritório. A mudança de local foi impulsionada pelo próprio Hórus, que depois de ouvir uma versão bem genérica de Thoth sobre a fala da oráculo, se viu completamente sem paciência e desejoso de simplesmente se jogar um sofá qualquer, e foi justamente isso que ele fez no primeiro sofá que apareceu.

Soltando o mais puro suspiro de cansaço, Hórus se jogou e se enterrou no sofá sob o olhar preocupado de Hathor, Ísis, Ihy, Thoth, Anúbis, Anput e Kebechet. Ele fechou os olhos por alguns segundos e, com eles ainda fechados, resmungou:

- Sei que a situação não está tão boa... mas precisava piorar logo agora?

- Ainda não sabemos o que a profecia significa. — disse Thoth.

- E ela parece ser algo bom pra você? — perguntou Hórus — "Quando o rio for coroado por ferro estrangeiro, o Sol ainda se erguerá, altaneiro."

- Supondo que "sol" tenha a ver com Rá ou Egito ou algo do tipo, pelo menos "ainda se erguerá". — disse Hathor — Não entre em desespero assim tão cedo. Já tivemos várias crises e voltamos de todas elas ainda mais fortes. Se não fossem os hyksos, por exemplo, tantos séculos atrás, nunca que o exército egípcio adotaria as carruagens e cavalos nos combates e sem os dois, nunca que teríamos todas as conquistas que Tutmósis III e Ramsés II tiveram.

- E a segunda parte é enigmática demais pra tirar muitas conclusões. — lembrou Anput, sem muita convicção — Tá, realmente soa preocupante. Mas o que significa "teu sopro seguirá o do Sol, sem dono" ou "o segundo cairá". Quem é o segundo? Como assim o sol ficará sem dono?

- Parece até que está tentando convencer a si mesma. — rebateu Hórus, finalmente abrindo os olhos e soltando mais um suspiro pesado — Sei que ainda tem muitas perguntas e interpretações diferentes, mas com tudo que está acontecendo... o governo mais corrupto do que jamais foi, a coroa sem recursos para pagar o povo, o povo com fome, os roubos às tumbas sendo feitos até pelos próprios oficiais e sacerdotes, as fronteiras frágeis, o faraó estrangeiro e com sua importância diminuída em detrimento dos sacerdotes de Amon-Rá...

- Nunca ficamos numa situação tão ruim antes. — disse Anúbis — Fomes piores, sim. Guerras piores também. Mas não tantas coisas juntas ao mesmo tempo.

- Exato! — exclamou Hórus — Com tudo isso acontecendo, querem realmente tentar se convencer de que a profecia não tem a ver com a queda do Egito? Sei que a esperança é importante, mas parecem mais desesperados em não aceitar a realidade.

- O que vamos fazer então, pai? — perguntou Ihy inocentemente.

- E tem algo que possamos fazer? — questionou Hórus — A não ser que algo mágico ou divino esteja envolvido, não podemos interferir. Temos que deixar a história correr seu fluxo.

- Tempos de instabilidade assim o povo começa a contar mais conosco... — respondeu Anúbis — Fazem mais pedidos, oferendas e tudo mais... Não vamos ouvir o tanto de preces?

- Sabe que é perigoso se interferimos demais. — respondeu Hórus.

- Ele tem razão. — concordou Ísis — É bom ser lembrado com mais frequência, mas quando interferimos demais, rapidamente guerras desastrosas começam e que afetam não só à nós, mas os mortais também. Imagine uma guerra mundial com todos os deuses da região? Seria um caos. É por isso que evitamos interferir muito. Uma interferência dá motivo para outras pelos demais.

- Então é isso... se a profecia for sobre nosso fim, vocês vão só aceitar? — perguntou Anúbis.

- Quantos podem dizer que viveram mais de 2 mil anos? — perguntou Hórus — Muito poucos e certamente não os hititas, que já se foram com bem menos que isso. Os mortais vivem muito, mas muito, menos.

- E ainda assim vivem atrás de mitos de imortalidade. — rebateu Hathor.

- Até você está contra mim? — perguntou Hórus, parecendo magoado.

- Não sei. — respondeu Hathor, suspirando e dando de ombros — Só sei que não é tão simples quanto está falando.

- Seja lá o que os próximos séculos nos reservam, vamos torcer para o Egito sair do outro lado bem tal como todas as outras vezes que nos vimos em situações parecidas. — disse Thoth.

- Se algo necessitar de nossa atenção, discutiremos novamente. — prometeu Hórus — Falarei com meu pai e os demais sobre o assunto. Mas, por hora... só quero respirar o resto do dia ao invés de pensar em mais uma ameaça de que iremos cair nos próximos anos ou décadas. Não sei vocês, mas estou cansado dessa constante ameaça que vem até nós a séculos e constantemente tentar fazer algo. Ou esqueceram que foi assim que Hatshepsut e Ramsés II surgiram?

- Faz mais de 700 anos que a Hatshepsut morreu. — lembrou Anúbis.

- E ainda estamos aqui. — lembrou Hórus.

Os deuses se olharam entre si diante de um Hórus claramente cansado de constantes ameaças à existência do Egito. Talvez um novo dia traria mais paciência, Hathor pensou. Anúbis e Anput se entreolharam e ela deu de ombros enquanto Kebechet olhava preocupada para os dois.

Vendo que o papo ali terminaria, os deuses um a um foram indo embora com um cansaço não tão diferente. Foram cada um para seu destino, pensando nas palavras da oráculo e se perguntando quantas vezes mais o Egito iria quase cair de vez para depois se reerguer. Já tinham passado por muito, quão difícil era acreditar que aguentariam mais um pouco? Com tais questionamentos na cabeça, o destino de Anúbis e sua família foi a escura e esquecida sala onde Anubis cuidava das múmias.

Cabisbaixa, Anput andava à passos lentos para longe com uma das mãos deslizando sobre uma mesa de pedra vazia. Imediatamente vendo o humor que assolava o coração da amada, Anúbis prontamente lhe segurou a mão e puxou gentilmente para si pra um abraço que ela não negou.

- Vai dar tudo certo. — prometeu ele.

- Não faça promessas que não pode cumprir. — disse Anput enquanto Kebechet, se sentindo excluída,abraçou os dois por fora, mas logo eles abriram espaço para deixar ela bem no meio do abraço.

- Os outros tem certa razão. O Egito já passou por muito e sempre se reergueu. — disse Anúbis enquanto apoiava sua testa na de Anput enquanto Kebechet apoiava sua cabeça no peito da mãe, já que era a que mais parecia precisar de consolo no momento.

- Mas dessa vez está diferente. — respondeu Anput — Estamos não só mais fracos do que nunca, como também muito velhos. Civilizações não duram para sempre.

- Ereshkigal está aí, ainda muito bem, e é mais velha que nós dois. — lembrou Anúbis.

- Mas quantos deuses sumérios não morreram até ela chegar até aqui? — perguntou Anput com uma lágrima correndo pelo seu rosto — Quantos nomes aquela região já teve? Algum tipo de Egito pode se erguer, mas eu estarei lá com vocês? Não sou tão popular e conhecida entre os mortais quanto você.

- Eu também não... — acrescentou Kebechet, subitamente ficando tão cabisbaixa quanto a mãe.

O abraço se apertou tanto quanto o coração dos três doeu. Anúbis tremia enquanto uma lágrima percorria seu rosto, combinando com as que caíam pelo rosto delas também. Eram realmente velhos, dava para dizer com muita sobra que tiveram uma vida longa se comparado aos mortais. Mas isso não significava que iriam simplesmente aceitar o fim.

- Vai dar tudo certo... — repetiu Anúbis, querendo convencer até a ele mesmo — Nem que eu tenha que desobedecer Hórus.

- Isso só vai causar problemas para você! — respondeu Anput, olhando preocupada para ele.

- Não me importo. — garantiu ele.

- Não comece uma guerra divina por causa de mim! — enfatizou Anput seriamente.

- ....

- Eu tô falando sério!! — reclamou Anput dando um pequeno soquinho no ombro dele.

- Prometo talvez pensar em parar antes que comece a ficar com cheiro de ocasionar algo desse tamanho. — respondeu Anúbis.

- "Talvez pensar"? — repetiu Anput — Eu tô falando sério.

- Eu também tô. — confirmou Anúbis fazendo Anput suspirar e revirar o olhar.

Ela logo voltou a olhar para ele. Não mais com o olhar de leve raiva e vontade de rir daquele momento de leves discussões, mas sim o olhar original de dor e medo. As palavras morreram ali, mas o abraço não. E nem a dor. Ficaram ali se abraçando como se aquilo fosse o suficiente para salvar o Egito. A dor e o questionamento não vivia apenas no coração deles, mas de todos os deuses que foram, com o passar dos anos, sentindo a ameaça constante de que o final da história do Egito estava chegando. O questionamento era só quantos anos, décadas ou séculos iria demorar. E assim, os anos se passaram com aquele perigoso assunto vindo a tona aqui e ali entre os deuses egípcios.

Alguns poucos anos se passaram e então o Egito foi atacado pelo exército mais organizado que já tinha enfrentado em toda sua história e que estava determinado a acabar com o Egito. E eles conseguiram bastante do plano deles. O Egito perdeu completamente seu território para os antigos vizinhos, os Assírios. Os Assírios fizeram mais do que só conquistar o Egito, eles começaram a vandalizar templos e abrir túmulos, e foi devido à isso que, num dia quente de verão do ano de 664 a.C., Anúbis batia com seu cetro no rosto de um Assírio que tentava passar pela pequena fresta de uma caverna no vale dos reis que havia virado túmulo.

Com a mandíbula torta e o pescoço também, o saqueador de tumbas assírio caiu no chão morto enquanto o pouco de luz iluminava o deus, claramente cansado da situação toda.

- Ai... — resmungou Kebechet, baixinho, olhando para o homem morto ao chão — Você disfarçava melhor antes, papai...

- Não tenho mais paciência pra disfarçar... — resmungou Anúbis se virando para olhar com um sorriso cansado para ela enquanto escondia um fogo de raiva e tensão sob o sorriso — Que inventem histórias exageradas e tenham medo de monstros e maldições ao tentar entrar em tumbas. Eu não ligo.

- Hórus não vai reclamar? — perguntou ela.

- Ele já está ocupado demais com outras coisas. — respondeu Anúbis olhando agora para os sarcófagos e múmias que os rodeavam.

Os sarcófagos e múmias de mais de cinquenta faraós, rainhas, familiares e nobres rodeavam a menina, largados ali de qualquer jeito anos antes pelo próprio povo. Era difícil não desviar o olhar. Via o de Ramsés II, um dia o maior faraó que o Egito já viu, agora largado naquela caverna com a única identificação do grande faraó sendo o seu próprio nome quase apagado do sarcófago. Vários outros Ramsés também estavam ali, mas também Tutmósis II. Que triste era ver aquele que expandiu o Egito largado daquele jeito sem saber que a filha, Hatshepsut, estava largada em outro lugar de forma não muito diferente.

- Você vai mesmo ter que voltar para o submundo depois disso? — perguntou ela.

- Sabe que sim... — disse ele suspirando pesadamente — Guerras sempre geram muitos mortos.

- E me sinto na responsabilidade de pedir desculpas por essa guerra... — disse uma voz vinda da entrada da pequena caverna.

Ao se virar para a origem da voz, Anúbis e Kebechet viram Ereshkigal. Seu olhar frio de sempre estava de fato com uma sombra de culpa diante do próprio povo atacar o povo do amigo e, quem sabe, na pior das hipóteses, acabar por exterminá-lo.

- Posso entrar? — perguntou ela — Entendo se preferir não sujar o local de descanso final de faraós tão grandes com uma presença assíria.

- Você não tem nada a ver com tudo isso. Claro que pode entrar. — respondeu Anúbis.

- "Nada a ver" tirando ser aquela que escuta as orações daqueles que o zombam e atacam. — respondeu Ereshkigal entrando finalmente na pequena caverna.

- Não fale como se os nossos povos estivessem brigando entre si pela primeira vez. — respondeu Anúbis.

- Mas nunca foi tão ruim. — respondeu Ereshkigal.

- A gente vai se recuperar. — disse Kebechet, claramente se agarrando naquela esperança.

- Conseguiram alguém para ver o futuro ou é só uma esperança? — perguntou Ereshkigal.

- Ahm.. um pouco dos dois... — respondeu Anúbis — Sabe como essas profecias são confusas.

- Hatshepsut está bem? — perguntou Ereshkigal.

- A tumba dela é bem menos interessante do que essa... acho que vai ficar bem por um bom tempo. — respondeu ele — Já saquearam praticamente tudo o que tinha de valioso de ambas. Muito já foi saqueado no Vale dos Reis depois de tantos séculos. Esses seus saqueadores estão fazendo mais esforço do que vão ter de retorno... Imagino que ficariam felizes se achassem a tumba de Tutancâmon... mas ela está enterrada na areia, escondida, e ele completamente esquecido.

- Ao menos em alguma coisa esse menino deu sorte então. — comentou Ereshkigal.

- Falando em sorte... bem que podia vazar os planos do seu exército já que está se sentindo meio culpada. — sugeriu Anúbis com meio tom de brincadeira e meio tom de seriedade.

- Hunf... — resmungou Ereshkigal com um sorriso frio no rosto — Sabe que não é assim que as coisas funcionam. E nem tenho ciência deles.

- Não custava nada tentar. — respondeu Kebechet soltando uma risada que não chegava tanto aos olhos, pois a verdade era, com a queda tanto de Tebas como de Mênfis, o Egito se sentia completamente humilhado.

- Bem, disse o que queria, e agora já me vou. — disse Ereshkigal, virando as costas para os dois, indo em direção à saída — Suas palavras podem não guardar rancor por mim, mas imagino que, lá no fundo, não estejam muito a fim de ver um assírio por muito tempo.

Assim, Ereshkigal se foi e, ao se verem sozinhos entre os mortos novamente, Anúbis e Ereshkigal olharam por uns momentos para os sarcófagos despejados ali. O saqueador morto logo foi mandado para longe por uma simples mágica de Anúbis, e então os dois se sentaram ao chão, com as costas encostadas na parede de rocha arenosa da caverna. Kebechet apoiou a cabeça no ombro de Anúbis, e ali os dois ficaram em silêncio. Não havia palavras para dizer, apenas o que sentir, e aquela cena diante deles ilustrava muito bem o que passava na cabeça deles. A glória do Egito estava num passado tão distante quanto aqueles corpos, que um dia ajudaram a escrever sobre aquele grande império, em tinta de ouro na memória da História.

Tal como esperado, e prometido, após ser coroado por ferro estrangeiro, o sol se ergueu, altaneiro. O povo se rebelou e expulsou os Assírios aproveitando um momento de fraqueza deles. O povo que resistiu, mantendo o jeito egípcio de viver, falar, escrever e orar, respirou aliviado, mas nas margens do golfo pérsico, um futuro problema se organizava, ao leste da Assíria, que logo passou à se chamar Babilônia. Séculos de fragmentação e conflito haviam deixado o Egito enfraquecido, não mais forte como em vezes anteriores. Ele não era mais uma nação de elite, como um dia foi, ele poderia resistir, mas não era mais capaz de moldar o destino do Oriente Médio como um dia foi. Uma civilização que não conseguia mais comandar o mundo e tinha que, agora, sobreviver nele.

Quando ao leste da Babilônia foi crescendo o forte, organizado e multicultural exército Persa, o Egito não aguentou. Os Persas ocuparam a Babilônia rapidamente e logo marcharam para o Egito e usaram os próprios deuses contra eles. Diz-se que animais sagrados, especialmente gatos, foram colocados entre as tropas persas e egípcias, até mesmo amarrados em escudos. Com medo de ferir e ofender os deuses, os egípcios hesitaram e isso foi sua derrota. Engolido pelo enorme Império Persa, só restou ao Egito sobreviver e se revoltar, por anos e anos sem fio. Gerações tentavam lembrar do gosto da independência, mas a verdade era que haviam muitas gerações desde que eles tinham a sentido pela última vez.

As poucas revoltas egípcias que deram certo foram breves, logo ele se via engolido pelos persas novamente. A salvação não veio e não iria vir de terras egípcias. O Egito aguentou Assírios, a ameaça Babilônica e o Império Persa, mas nunca perdeu sua alma. Sua cultura, seu modo de viver, sua essência e orgulho ainda estavam ali, tal como há 3 mil anos, quando quando, em 332 a.C, um jovem chamado Alexandre chegou da Macedônia prometendo ser o libertador do Egito. Desesperados, e cansados dos persas, os egípcios adotaram a propaganda. Especialmente quando, de fato, Alexandre expulsou os persas do Egito e anexou o Egito no seu Império Macedônico. Nascia o Egito grego.

Em seu pouco tempo pelo Egito, Alexandre foi para perto de uma pequena vila egípcia nas margens do mediterrâneo, perto de um lago e não tão longe do Delta do Nilo e ali, ordenou a construção de uma cidade em seu nome, Alexandria. Pouco depois, com a cidade ainda em construção, ele entrou no perigoso deserto, marchando para o sul, em direção à Siwa.

- Ele vai chegar logo... temos que decidir de uma vez... — disse Thoth, calculando a hora pela posição do sol enquanto os deuses se reuniram na entrada do Templo de Amon-Rá em Siwa.

- As cobras e pássaros guiando ele até aqui não foi a gente já tendo decidido? — perguntou Wadjet.

- Não se esqueça da chuva no meio do deserto. — adicionou Tefnut.

- Não! Elas foram para ganhar tempo! — rebateu Hórus, andando de um lado para o outro do templo — E para impedir que ele morra no deserto no meio do caminho!

- Então decida logo pois temos que falar para o oráculo o que falar para ele... — lembrou Anúbis — Se você quiser mesmo no final das contas legitimar Alexandre...

- Não é uma escolha fácil! — rebateu Hórus.

- Desculpa mas, não tem tantas opções assim... — resmungou Anput.

- Rá já teria a feito se estivesse ainda em plenas faculdades mentais. — lembrou Ísis.

- EU NÃO SOU RÁ! — rebateu Hórus, nervosismo, acabando por dar um leve soco no portal de entrada de pedra maciça do templo — Não é uma escolha fácil. Faz tanto tempo que não temos um faraó egípcio e agora temos que aceitar outro estrangeiro?

- As coisas mudaram muito, sei disso. — disse Ísis — Mas se quisermos voltar a ter alguma relevância, não vejo outro caminho.

- E o que as demais terras conquistadas reportam é que Alexandre costuma respeitar a cultura local. — comentou Thoth — Mergulhar nela. Adotar ela. Já fez algumas coisas boas no caminho até aqui... restaurou templos que os persas destruíram...

- Ainda é um estrangeiro como faraó. — continuou Hórus.

- Já passamos por tantos.... — comentou Tefnut — Faz mesmo alguma diferença à essa altura?

- Qual é a alternativa brilhante na sua cabeça então? — perguntou Anúbis, já estressado e sem paciência ao encarar Hórus — Ser anexado por sei lá qual o próximo império que surgir e tentar apagar a gente do mapa tal como os assírios e os persas tentaram!?

- Quando o ouro dos reis se trocar por veneno e o silêncio das águas, teu sopro seguirá o do Sol, sem dono... — resmungou Hórus, pensando na profecia — Que reis? Essa parte do sopro sem dono me preocupa.

- Pode ser que não teremos que obedecer mais à ninguém. Sem donos. — sugeriu Sobek — Finalmente livres de volta à nossa glória.

- Não sabia que era assim tão otimista. — respondeu Thoth.

- Pode ser burrice também. — rebateu Anúbis, e Sobek rosnou para ele.

- Tá. Tá. Sem brigas. — interrompeu Ísis, parando por um segundo, tal como os demais, ao ouvir passos apressados correndo para dentro do templo — Não temos tempo para isso.

Os passos apressados eram de Kebechet, que ao chegar diante do resto de sua família, imediatamente disse o que todos estavam tensos para ouvir:

- Alexandre chegou na cidade.

- E então? — perguntou Ísis, tal como os demais, olhando fixamente para Hórus — O que vai ser?

- Argh! Tá! — reclamou Hórus antes de entrar no templo, seguido de Ísis, para falar com o oráculo dali.

Os demais deuses deixaram eles resolverem essa parte e continuaram do lado de fora, à espera de Alexandre. Ao longe, eles viam o grupo liderado pelo mesmo se aproximando. Silenciosamente, Anúbis pensava como era bom que nem Ereshkigal nem Hades tenham esfregado na cara dele aquela derrota. O antes poderoso Egito, sucumbindo para seguidos conquistadores estrangeiros de diferentes níveis de carisma e respeito, mas nunca egípcios.

Mais alguns minutos foram necessários para Alexandre estar ao redor dos deuses, diante do portal de entrada do cômodo do oráculo no Templo de Amon-Rá em Siwa. O jovem de 24 anos, de cabelos negros ondulados e pele branca, contudo, não via os deuses que os rodeavam e julgavam cada movimento e olhar. O resto da comitiva de Alexandre havia se espalhado pelo caminho que o conquistador tomou até o templo. Assim, quando ele chegou diante do portal que levava ao oráculo, ao lado de Alexandre, estava apenas Heféstio, um de seus comandantes e, julgando pelo olhar que os dois trocaram naquele momento rapidamente, também bem mais que um comandante.

- Vou ficar esperando aqui. — prometeu Heféstio, deixando escapar um pequeno sorriso para Alexandre.

- Depois vamos descansar da longa viagem... Dormir o resto do dia... — prometeu Alexandre olhando Heféstio com um olhar doce, que comprovava que Heféstio era bem mais que mais um comandante.

- Fofos... — sussurrou Tefnut embora eles não pudessem ouvi-los.

- Pode ser depois que eu resolver meus assuntos com você? Tanto tempo sem uma cama decente e... privacidade... ou fazer aquilo que gosta pra te... relaxar... — falou Heféstio, mordendo o lábio inferior e entrelaçando o dedo delicadamente na mão de Alexandre, e rapidamente Anúbis cobriu as orelhas de Kebechet.

- Pelos deuses, a menina é mais velha que todos os avós dos dois juntos! — reclamou Sobek.

Alexandre se virou para o amado Heféstio, tocou-lhe o rosto com os dedos, e lhe deu um breve beijo nos lábios como uma promessa silenciosa e doce de que logo viria um mais ardente. O beijo foi rápido, quase ritual, um voto silencioso de retorno. Os dois então se olharam, selando a promessa, e alheio às conversas que aconteciam entre os deuses, Alexandre entrou no templo.

Ansiosos para saber quais seriam as palavras que o oráculo diria, os deuses rapidamente seguiram o grande comandante militar para dentro da sala do oráculo. O interior do templo de Amon em Siwa parecia existir fora do tempo. O ar era pesado de incenso, resinas e óleos antigos, tão densos que cada respiração parecia um ato consciente. O império que Alexandre formava podia ser novo, mas o Egito já era velho, muito velho e essa idade estava bem representada nas paredes do templo. As paredes, gastas pelo sal do deserto e pelos séculos, guardavam inscrições quase apagadas que em tempos de mais glória, teriam sido reparadas. Mas glória era algo que o Egito já estava até esquecendo qual gosto que tinha.

No centro do recinto, envolto pela fumaça ondulante, estava o sacerdote-oráculo. Um homem muito velho, de pele marcada pelo sol e pelos anos, sustentava-se imóvel como uma estátua viva. Seus olhos permaneciam fechados, e sua respiração seguia um ritmo estranho, lento demais para parecer natural. Tanto uma encenação quanto um momento religioso. Se é que os dois alguma vez andaram separados em toda a história da humanidade até ali e a partir dali.

Quando Alexandre se aproximou, o velho falou sem abrir os olhos, como se não precisasse vê-lo para reconhecê-lo:

- Bem-vindo ao Templo de Amon-Rá...

A voz era baixa, quase um sussurro, mas parecia ecoar nas pedras e no próprio peito de quem a ouvia.

- Filho do caminho longo... aquele que atravessou o deserto para ser ouvido. — proclamou o oráculo.

- Oh grande oráculo, venho em busca de sua sabedoria. — disse Alexandre, se botando de joelhos e cabeça baixa diante do velho de pé — Marchei por todo o Egito para liberá-lo da crueldade persa e assim o fiz. E ao fazer isso, senti em meu peito que meu coração clama por essa terra, como se a ela pertencesse. Isso é verdade? O que vê em minha história, sangue e alma?

- Realmente sentiu isso ou é só papo pra fazer o oráculo falar o que quer ouvir? — perguntou, aos sussurros, Sobek.

- Shiu! — reclamou Wadjet.

O sacerdote permaneceu imóvel por um longo instante. A fumaça doce do incenso se adensou, como se o ar tivesse decidido parar. Quando ele voltou a falar, sua voz já não parecia pertencer apenas a um homem.

- Vejo um coração que não nasceu onde bate... — disse lentamente o sacerdote — Vejo sangue que atravessou mares e poeira para lembrar quem é.

O velho parou por um momento e inclinou levemente a cabeça, ainda sem abrir os olhos. Como se esperasse alguma informação nova dos deuses.

- Eu já expliquei o que ele tinha que falar... — explicou Hórus apenas para ouvidos divinos — Mas não inclui tanta misticidade e drama...

- É exatamente por isso que ele é bom. — acrescentou Ísis — Agora, vamos ouvir.

- Onde passas, o mundo antigo se curva... não para morrer, mas para ceder espaço. — continuou o oráculo — Amon-Rá vê em ti um filho do Sol que não se deita onde nasceu. Todo filho reconhecido pelo Sol caminha sob sua luz... e projeta uma sombra longa demais para não ser cobrada. O Egito te acolherá como filho enquanto fores passagem. Agora levanta-te, Alexandre, filho de Amon-Rá. Pois tua pergunta já foi respondida.

*** UM POUCO DE VIDA REAL ***

Muito aconteceu nesse cap, eu sei. Ficou meio rápido, perdão. Mas ia ficar mto maçante se eu colocasse em detalhe toda vez que o Egito caiu nesse último período.

Primeiro, com as instabilidades que vieram após os reinados do meio mundo de Ramsés, o Egito caiu para Núbia que ele mesmo controlava. Depois caiu pros Assírios. A Babilônia engoliu a Assíria e ficou ameaçando invadir o Egito. Depois o Egito caiu pros Persas. E por fim, para os Macedônios/Gregos com Alexandre, O Grande.

Depois do meio mundo de Ramsés, o Egito ficou um bom tempo sem saber o que era ser independente direito. Cada um desses conquistadores trataram o Egito de formas diferentes, com uma menção honrosa à Alexandre e aos Núbios que deixaram mais o Egito ser o Egito. Os historiadores consideram que, apesar de tantas derrotas, isso ainda não acabou com o Egito pois, no dia a dia, nas crenças, no idioma, na organização e em tudo mais, ele ainda era o Egito de sempre.

Ah, inclusive, Alexandre fez várias coisas pelo Egito para legitimá-lo como governante do Egito e salvador também. Uma delas, foi ir até o oráculo do Templo de Amon em Siwa. Lá, o oráculo teria dito que ele era o filho de Amon (mesmo parentesco que era atribuído à Ramsés II e Hatshepsut), ou seja, isso o legitimava como faraó. As motivações de Alexandre, o Grande, para procurar o Oráculo de Siwa provavelmente eram duas. Ele queria legitimar seu governo aos olhos dos egípcios agindo como um faraó e esperava que o Oráculo de Siwa declarasse sua descendência faraônica. É provável também que, como o Oráculo de Siwa estava localizado na fronteira do Egito, ele esperasse que uma demonstração de suas forças garantisse a boa conduta dos líbios e gregos da Cirenaica, ao oeste do Egito. Segundo algumas fontes, no caminho, ele foi auxiliado em sua marcha por intervenção divina. Chuvas abundantes caíram, saciando sua sede, e eles foram guiados por duas serpentes ou corvos depois de se perderem.

Ah e sim, Heféstio, talvez já tenham ouvido falar dele mas o nome geralmente não é mencionado. Foi um dos comandantes de Alexandre. Inseparáveis. Aí já sabe né? Uns falam que era só um comandante que ele confiava muito e pronto.. mas nossa... como assim tem fontes mencionando que Heféstio era o homem que Alexandre mais amou em vida? Como assim tem fontes antigas comparando Alexandre e Heféstio com Aquiles e Pátroclo (que possivelmente eram amantes)? Nossa, como assim Alexandre ficou maluco quando Heféstio morreu? Como assim Alexandre ficou de luto por meses? Como assim Alexandre mandou construir um esplêndido monumento funerário para Heféstio? Realmente eram só melhores amigos XD



Notas finais
Muito aconteceu nesse cap, eu sei. Ficou meio rápido, perdão. Mas ia ficar mto maçante se eu colocasse em detalhe toda vez que o Egito caiu nesse último período. Primeiro, com as instabilidades que vieram após os reinados do meio mundo de Ramsés, o Egito caiu para Núbia que ele mesmo controlava. Depois caiu pros Assírios. A Babilônia engoliu a Assíria e ficou ameaçando invadir o Egito. Depois o Egito caiu pros Persas. E por fim, para os Macedônios/Gregos com Alexandre, O Grande. Depois do meio mundo de Ramsés, o Egito ficou um bom tempo sem saber o que era ser independente direito. Os historiadores consideram que, apesar de tantas derrotas, isso ainda não acabou com o Egito pois, no dia a dia, nas crenças, no idioma, na organização e em tudo mais, ele ainda era o Egito de sempre. Ah e sim, Heféstio, talvez já tenham ouvido falar dele mas o nome geralmente não é mencionado. Foi um dos comandantes de Alexandre. Inseparáveis. Aí já sabe né? Uns falam que era só um comandante que ele confiava muito e pronto.. mas nossa… como assim tem fontes mencionando que Heféstio era o homem que Alexandre mais amou em vida? Como assim tem fontes antigas comparando Alexandre e Heféstio com Aquiles e Pátroclo (que possivelmente eram amantes)? Nossa, como assim Alexandre ficou maluco quando Heféstio morreu? Como assim Alexandre ficou de luto por meses? Como assim Alexandre mandou construir um esplêndido monumento funerário para Heféstio? Realmente eram só melhores amigos XD