A Morte Das Areias do Saara
173 O Corpo do Rei
Com a mente confusa, cansada e escondida embaixo de uma estranha névoa, Alexandre tentava se lembrar de como havia chegado ali, naquele lugar que tão pouco conseguia entender o que era. Sua mente parecia num sono profundo, preguiçosa demais para entender a situação em que o grande general estava.
A primeira coisa que sua mente confusa percebeu, era que estava no meio de uma procissão com várias outras pessoas. Quem eram elas, ele não sabia. Qual era o destino era uma pergunta ainda mais complicada. Sua mente letárgica e em transe então saiu do presente e foi para o passado. Aquela procissão o lembrava de algo. Ah, sim! Notou ele subitamente, ele havia deixado a Índia para trás e ia em direção à Babilônia. Havia chegado ao destino? Era a Babilônia que ela procissão ia? Com esforço notou que não. Aquela procissão não lembrava a sua própria em nada mais que a coincidência de um aglomerado de pessoas indo para um destino em comum. Sua procissão era um exército, orgulhoso e organizado, e ele, como seu líder, viajava com mais conforto e em seu cavalo. Não dava para comparar com aquela procissão que estava agora, um aglomerado de pessoas de olhar cansado e sem esperança, esbarrando uma nas outras como zumbis que mal pensavam. Ele guiara a procissão para Babilônia, ali ele era guiado por um homem mais a frente, o único que parecia normal e saudável.
Sua mente letárgica então notou outra diferença, o caminho entre a Índia e a Babilônia era cercado da natureza, do sol e das estrelas… mas ali onde estava agora era cinza, sem vida, frio e silencioso. Isso lhe trouxe outra memória, seu quarto na Babilônia por ele conquistada tempos atrás. Seu quarto que havia lhe parecido naquele momento, igualmente frio, cinza e silencioso. Então lembrou-se, havia ficado doente. Muito doente.
Foi súbito, mas também ainda mantendo a calma em sua mente, que se tocou de onde estava. Havia morrido e ali era o submundo. E pelo o que seu conhecimento indicava, considerando o rio de cor estranha que corria à direita, ali era o submundo grego. O que fazia do homem que guiava aquelas almas desgarradas até uma luz solitária mais à frente nas margens do rio, Hermes.
A percepção de onde estava o fez começar a abrir espaço entre as almas tentando chegar até Hermes, que logo parava ao lado da solitária luz, uma tocha que guiava o humilde porto onde Caronte os esperava junto com mais dezenas de almas que esperavam a sua vez e formavam uma fila longa e bagunçada.
— Bem, é aqui que eu os deixo. — disse Hermes para as almas que acompanhavam Alexandre e também para as ao redor do porto, que pareciam ter recobrado a consciência a pouco tempo, tal como Alexandre — Aqueles que ainda não foram sepultados e ainda não tem a moeda para pagar pelo passeio, podem esperar aqui por enquanto.
— EU NÃO VOU MAIS ESPERAR AQUI! — gritou uma alma que já estava ali antes de Alexandre chegar — JÁ ESPEREI BASTANTE!
— Não é problema meu. É livre para esperar o tanto que quiser. — respondeu Hermes enquanto Caronte só observava, em completo silêncio.
— NÃO! JÁ ESPEREI BASTANTE! — gritou a alma.
— EU TAMBÉM! — gritou mais uma.
Os dois, e mais algumas, foram para cima de Hermes, dispostos a tirar satisfação e arrumar sua situação, talvez até começar uma briga com o deus, mas ao tentarem tocar o deus, simplesmente passaram direto.
— Gritar e espernear não irá adiantar. Se estão aqui a tanto tempo esperando já deveriam ter percebido ou falado com os que esperam a ainda mais tempo. — continuou Hermes, ignorando os arruaceiros, um dos quais agora sentava no chão e começava a chorar, e se voltando para as almas que ainda o escutavam calmamente — Agora à algumas perguntas frequentes, sim, vocês estão mortos. Não, não posso mandar mensagens para seus familiares vivos. Nem para os mortos. Não, eu não sei quando seus familiares farão todos seus procedimentos de enterro e sepultamento. Também não recomendo atravessar o Estige à nado nem saírem daqui, mas são perfeitamente livres para se cansarem de esperar e virarem almas caminhando sem rumo e esperança. Caso suas mentes ainda estejam confusas, voltarei em breve com uma nova leva de mortos. Alguma pergunta?
— Ahm… eu… — disse uma criança timidamente — Que moeda?
— Sua mãe não te explicou em vida? Os mortos são sepultados com uma moeda na boca para pagar a travessia. — respondeu Hermes.
— Tudo bem, vamos explicar tudo para ele, senhor Hermes… — disse uma mulher.
— Eu tenho uma pergunta. — disse Alexandre erguendo a mão.
— Oh! Alexandre, o grande! — exclamou Hermes e logo as almas que estavam acordadas o suficiente se viraram com grande curiosidade para o rapaz — Não é sempre que se traz uma celebridade. Qual sua pergunta?
— É mais um problema, para falar a verdade… — admitiu Alexandre enquanto Caronte só observava a cena quase tediosamente.
— Espero que não esteja falando que o fato de você ter morrido é um problema… — disse Hermes, logo se voltando para a multidão — Esqueci de falar mas não! Vocês não vão voltar para o mundo dos vivos, não importa quantos objetivos importantes ou idiotas deixaram para trás. Então não, você não voltará para suas conquistas. Lamento. Sei que iam muito bem.
— Não é isso. — respondeu Alexandre — Por mais triste que seja, aceito que tenha morrido. A hora chega para todos, afinal. E imagino também que não possa dizer o destino de meu amado Heféstio.
— De fato não posso. — respondeu Hermes — O que seria então?
Longe dali, no Teatro de Dionísio em Atenas, enquanto o sol prometia se pôr nas próximas horas, um aglomerado de pessoas se sentava assistindo uma peça. Círculos de pedra branca rodeavam o palco e impulsionavam a voz dos atores para a audiência. A peça ainda estava no começo, mas ainda assim, ninguém falava nada, nem o povo ateniense, nem a pequena família que sentava escondida na arquibancada mais alta. Sentindo o Egito numa segurança instável mas confortável o suficiente com a conquista grega e a recém criada cidade de Alexandria se tornando um ponto de extrema importância em toda a região, Anúbis, Anput e Kebechet decidiram sair naquele dia para aproveitar um bom teatro grego.
No colo de Kebechet, sua velha boneca de história mais longa do que ela própria também os acompanhava. A boneca que a menina sozinha no deserto havia dado para Anúbis ainda resistia, tão valente quanto o próprio Egito. A pequena boneca, Kebechet e Anput eram parte do grupo diminuto de mulheres que assistia a peça em meio a machista cultura grega. Tão machista que no palco, interpretando mulheres com máscaras de madeira que mostravam tanto sua feminilidade e a tristeza que assolava o coração das duas personagens em questão, estavam dois atores homens.
— Ai de nós! Pensa, minha irmã, — dizia o ator vestido de mulher usando uma máscara com expressão de choro, representando a personagem Ismênia — em nosso pai, como morreu esmagado pelo ódio e pelo opróbrio, quando inteirado dos crimes que praticara, arrancou os olhos com as próprias mãos! E também sua mãe e esposa, visto que foi ambas as coisas, que pôs termo a seus dias com um forte laço! Em terceiro lugar, em nossos irmãos, no mesmo dia perecendo ambos, desgraçados, dando-se a morte reciprocamente! E agora, que estamos a sós, pensa na morte ainda mais terrível que teremos se contrariamos o decreto e o poder de nossos governantes! Convém não esquecer ainda que somos mulheres e, como tais, não podemos lutar contra homens; e, também, que estamos submetidas a outros, mais poderosos, e que nos é forçoso obedecer a suas ordens, por muito dolorosas que nos sejam. De minha parte, pedindo a nossos mortos que me perdoem, visto que sou obrigada, obedecerei aos que estão no poder. É loucura tentar aquilo que ultrapassa nossas forças!
— Não insistirei mais. — disse o segundo ator, interpretando igualmente uma mulher, essa, Antígona — e, ainda que mais tarde queiras ajudar-me, já não me darás prazer algum. Faze-tu o que quiseres; quanto ao meu irmão, eu o sepultarei! Será um belo fim, se eu morrer, tendo cumprido esse dever.
Os três continuaram focados na peça quando, disfarçadamente, sentou-se ao lado deles ninguém menos do que Hermes. A chegada do deus não passou despercebida. Os três logo olharam para o deus, que fingia estar prestando atenção na peça.
— Aconteceu algo? — perguntou Anúbis e imediatamente Hermes soltou um suspiro pesado e cansado.
— Alexandre chegou ao submundo. — respondeu Hermes.
— Sim… ele morreu afinal de contas… — respondeu Anúbis, sem saber onde Hermes queria chegar.
— Ainda bem que morreu de doença… se fosse outra coisa já ia achar que era Setne de novo. — disse Anput, bufando — Sortudo idiota… conseguiu fugir pra bem longe e como a gente ficou ocupado com todo o caos e conquistas que veio depois…
— Parte de mim queria que Alexandre conquistasse o máximo possível só pra gente conseguir alcançar onde Setne foi… — resmungou Anúbis.
— Sim, sim. — resmungou Hermes finalmente tirando o olhar da peça que prosseguia — Estamos precisando de você por lá no submundo. Alexandre fez um pedido… complicado e que Hades não gostou muito.
— Porque seria pedir demais ter tempo pra ver uma peça até o final… — suspirou Anúbis.
— Mas você já viu Antígona quando Sófocles era até vivo… — lembrou Anput.
— Mas teve uma parte mais pra metade que não pude ver da outra vez, porquê também tive que sair para resolver algo… estava torcendo pra ver ela até o final dessa vez. — justificou Anúbis — Quem sabe a gente resolve isso até antes de chegar nessa parte… Vãp querer ficar aqui?
— Não. Quero ir também. — respondeu Kebechet.
— Também. — concordou Anput — Vamos ver o que Alexandre está aprontando para Hades querer chamar a gente assim.
Com o resto da platéia tão entretida na peça, ninguém notou quando quatro espectadores simplesmente sumiram da última fileira. Não foi para diante de Caronte que Hermes levou os três egípcios, a questão entregue por Alexandre já havia mudado de endereço. O falecido general, já um imperador, se reunia com Hades ainda do lado do Estige antes de passar pelo barco de Caronte, mas num espaço muito mais privado e longe das almas que chegavam sem parar.
Alexandre esperava, visivelmente curioso do que viria a seguir. Já Hades parecia tenso, embora também cansado. Quando o grupo apareceu, Hades suspirou aliviado como se pudesse finalmente distribuir o peso do que Alexandre queria.
— Ai está ele! — exclamou Hades — Anúbis, fale para Alexandre como a ideia dele é idiota!
— Precisaria saber qual ideia seria essa primeiro. — respondeu Anúbis.
— Senhor Anúbis, eu gostaria de ir para o submundo egípcio e ser sepultado como um egípcio.. com alguns detalhes não importantes para toda a lógica do sepultamento inspirados em minha cultura. — explicou Alexandre rapidamente como se tivesse medo de ser interrompido.
— Mas… — disse Anúbis olhando para Alexandre confuso, tal como os demais ali também estavam — Você é macedônio.
— FOI O QUE EU FALEI PRA ELE! — esbravejou Hades.
— Se ao menos fosse de Naukratis… — comentou Anput.
— Ah aquela cidade egípcia que tem se misturado os dois costumes e povos… — disse Hermes — Realmente…
— Mas… porquê quer ser sepultado como egípcio? — perguntou Anúbis.
— Me identifiquei, me senti em casa… — justificou Alexandre — Queria ser sepultado em Siwa, onde Amon-Rá me reconheceu como filho.
— Não passou nem um ano no Egito! — exclamou Hades — Tirou-os dos persas e seguiu nas suas conquistas! Que ligação é essa?
— Tempo não quer dizer nada. — explicou Alexandre, fazendo Hades bufar — Meu coração se sentiu em casa. Não deveria eu ir para o submundo que me identifico mais?
— É que se identificar com um que não é do seu povo é algo um tanto… raro… — explicou Hermes.
— Ele não foi sepultado ainda… Pode dar tempo de fazer um sepultamento egípcio mesmo que sem uma tumba gloriosa… — disse Anúbis.
— E quem disse que eu concordo? — perguntou Hades.
— Bem… mas não é muito sobre a gente concordar ou não né? — perguntou Anúbis — Ele está certo, é o nosso acordo… os mortais vão para o submundo que eles preferem. Concordamos isso quando começaram a ter filhos entre duas culturas, lembra? Já fazem uns séculos mas sei que sua memória não é tão ruim assim.
— Mas ele não é egípcio! De nenhuma forma! — insistiu Hades.
— Só está reclamando assim porque ele foi grande e importante. — rebateu Anúbis — Se fosse um sapateiro aleatório de Esparta não estaria esperneando assim.
Hermes, Anput e Kebechet seguraram uma risada, Anput segurou melhor do que os outros dois, cuja falha em disfarçar fez com que Hades encarasse Anúbis com raiva.
— Não me trate feito criança! — disse Hades entre-dentes — Tenho mais de mil anos.
— E eu quase 3 mil. Esqueceu que briga de idade não é uma que você ganha aqui? — rebateu Anúbis — Não quer ser tratado como uma criança então para de espernear como uma. Se sepultarem Alexandre do jeito egípcio, que argumento você vai usar?
— Eu pedi para ser sepultado da forma egípcia em Siwa… — disse Alexandre.
— Pronto! — respondeu Anúbis — Devem estar levando o corpo dele pra Siwa, não pra Macedônia como achava.
— Ugh… tire ele da minha frente… — resmungou Hades antes de sumir dali.
— Bem… foi mais fácil do que achei que seria… — comentou Hermes.
— Seria mais fácil se a gente pudesse simplesmente decidir entre a gente pra onde levar a alma ao invés de ter que passar por ele… Já que os mortais estão juntando a gente num deus só mesmo agora… — disse Anúbis.
— Pra você é mais fácil. Osíris não é de discordar. — respondeu Hermes — Você é mais relevante no ouvido de Osíris do que eu sou no de Hades… Se a alma falar que quer ir pra outro submundo pro Caronte, aí é Caronte que resolve… nas raras vezes que isso acontece… e ainda tem as que vão até diante de Hades antes disso. Isso é o quão ignorado nesse processo eu sou.
— Você consegue. — disse Anput, com um sorriso, dando tapinhas gentis e encorajadores no ombro de Hermes — Seu trabalho é importante também.
— Se aparecer outro general, rei, imperador ou sei lá importante por aqui até o final dia querendo ir para o submundo egípcio, por favor enrole um pouco. Quero ver a peça inteira dessa vez. — disse Anúbis, soltando um suspiro, como se reis morressem todo dia e vários por dia, antes de olhar para Alexandre, que estava quieto até então só escutando a conversa — Vamos, vou te levar pra sua nova fila onde ficará até seu corpo ser devidamente mumificado.
— E se não for…? — perguntou Alexandre.
— Não me diga que está tendo arrependimentos? — perguntou Hermes, já preocupado.
— Não. Não. Não. — respondeu Alexandre apressadamente.
— Basicamente a mesma coisa. — respondeu Anúbis — Mas certamente a jornada até Siwa será mais difícil do que seria até a Macedônia.
— Não pode… dar uma ajuda nisso? — perguntou Alexandre, sentindo que estava abusando da sorte.
— Não… sem tratamentos especiais. — respondeu Anúbis — Vamos. Vai ter que ficar lá esperando alguns dias até seu corpo ficar pronto mas… ao menos já estará lá.
— Pode ao menos conferir para mim se eles estão conservando direito? — perguntou Alexandre — Por favor.
— Certo. Mas só isso. — prometeu Anúbis — E depois da peça.
Deixar Alexandre no aglomerado de almas que esperavam sua vez no submundo egípcio e voltar para a peça foi algo rápido, e assim finalmente Anúbis conseguiu completar a história de Antígona. Com a peça completa, ver como o corpo de Alexandre estava sendo carregado da Babilônia até o Egito também foi coisa rápida. De fato os soldados de Alexandre haviam feito o possível para preservar o corpo contra a própria putrefação. Uma mumificação feita como possível com uma mistura de técnicas egípcias e babilônicas, tão internacional quanto o próprio Alexandre e seu exército que adotava a cultura dos lugares por onde passava.
A viagem até o Egito seria demorada, ainda mais carregando um corpo, e ainda mais jogando a riqueza de Alexandre pelo caminho tal como o falecido rei pedira. Foi uma verdadeira procissão internacional. Mas com o corpo preservado e bem cuidado, Alexandre tinha todo o tempo do mundo para esperar. Dia após dia a viagem do corpo de Alexandre com seu exército continuava e, no dia que já entrava na fronteira egípcia, apesar da alegria dos soldados em conseguirem chegar tão longe, para as demais pessoas, era simplesmente só mais um dia.
Tanto era só mais um dia normal, com o sol começando a se por, que, num oásis no meio do deserto, Anúbis, Anput e Kebechet tinham um raro momento de descanso. Anput nadava tranquilamente na parte mais profunda do oásis, mergulhando, boiando, simplesmente aproveitando um momento de calmaria enquanto deixava todos os problemas e preocupações para o outro lado do deserto. Preocupações essas que incluíam o destino do Egito, uma vez que Alexandre havia morrido e já começavam as problemáticas quanto a quem iria herdar o grande império.
Nas margens do oásis, completamente molhado devido ao nado recente mas também ainda com o corpo submerso da cintura para baixo, estava Anúbis. Ele estava simplesmente admirando a esposa nadando relaxada e feliz enquanto Kebechet corria de um lado para o outro pela areia, a água ainda pingando de seu corpo e de seu cabelo no meio de sua missão de juntar as flores guerreiras que cresciam naquele cantinho isolado de fertilidade. Seus braços já estavam ficando cheios de flores que conseguia pegar já soltas e desgarradas de suas árvores, largadas no chão ou nas águas. Tinha lótus com um belo lilás, lindas flores vermelhas das árvores de romã e várias amarelas pequenas das acácias.
Com as flores em mãos, Kebechet foi até onde Anúbis estava sentado e, atrás dele, começou a colocar flor após flor na cabeça dele com cuidado e planejamento.
— O que você está fazendo aí? — perguntou ele quando uma lótus ia sendo colocada em sua orelha.
— Te enfeitando de flores. — respondeu ela, imediatamente atraindo a risada de Anput.
— Está ficando uma graça. — respondeu Anput, se aproximando da cena enquanto Anúbis nem se mexia, para deixar Kebechet continuar sua brincadeira.
Kebechet deu a volta para olhar Anúbis de frente. Ele permaneceu quieto, calmamente aceitando seu destino e esperando a avaliação da cabeleireira.
— Ainda não… — disse ela com um sorriso.
— Acho que precisa de mais amarelo pra esse lado… — sugeriu Anput, segurando a risada enquanto apontava para o ponto que falava e fazia Anúbis revirar o olhar.
— É… e também uma vermelha aqui…. — concordou Kebechet, ainda de frente para o pai, colocando uma florzinha amarela perto do lótus lilás e uma vermelha na outra orelha de Anúbis.
— Agora ficou bom? — perguntou ele enquanto Anput se sentava ao lado dos dois.
— Acho que agora sim. — declarou Kebechet sorrindo orgulhosamente com ainda algumas flores amarelas na mão ao se sentar onde estava.
— Não, ainda falta. — disse Anúbis pegando delicadamente as flores restantes da mão de Kebechet enquanto evitava mexer demais a cabeça, e então colocava uma flor sobre a orelha direita tanto de Kebechet, quanto de Anput.
— Combinando. — completou Anput, com um doce sorriso que atraía o olhar de Anúbis como um poderoso imã.
Mas então, enquanto Anput e Kebechet continuavam rindo e falando sobre as flores, ele ficou sério e sua mente se focou em outro lugar. Não demorou muito para Anput notar e a conversa delas morrerem mais rápido do que o sol estava se pondo.
— O que foi? — perguntou Anput.
— Estão roubando o corpo de Alexandre. — respondeu ele seriamente.
— Vá ver… — disse Anput tensa e séria, apertando os ombros dele repentinamente — Muito está em jogo na sucessão de Alexandre.
— Eu sei… — admitiu Anúbis olhando para ela e pousando a mão sobre a sua — Já volto.
Com o olhar repleto de preocupação, Anput tirou relutantemente as mãos do ombro dele e foi tudo que ele precisava para simplesmente evaporar dali. Ele reapareceu no delta do Nilo, onde o pôr do sol já estava levemente mais adiantado. O verde abundante contrastava com o deserto assim como o caos que se formou à sua frente contratava com a calmaria do oásis que estava antes. Um verdadeiro conflito entre um grupo muito bem armado e o que sobrou dos soldados determinados de Alexandre se desenrolava enquanto um cavalo, carregando um sárcofago simples amarrado por cordas, fugia para longe.
Algumas flores em sua cabeça foram caindo no chão enquanto ele analisava a cena toda. O grupo que roubava o corpo de Alexandre estava bem armado e bem vestido demais para ser um bando de mercenários aleatórios, mas ao olhar pro céu, fazendo quase todo o restante das flores caírem no chão, ele notou um pássaro que conhecia bem demais. Foi por isso que, com uma flor vermelha ainda presa em sua orelha, ele sumiu dali e reapareceu logo em cima do pássaro. O céu se abriu ao redor dele enquanto a gravidade o puxava com violência. O vento bateu forte contra seu corpo, rasgando o ar, tentando arrancar a pobre e determinada flor que ainda resistia, mas tremia, com medo de cair.
O ângulo foi perfeito O míssil estava a milênios de ser inventado, mas ele seria um se necessário. A queda livre o fez acertar as costas do pássaro com os pés com força suficiente para quebrar o voo e até algum osso… se aquele fosse um pássaro comum. O pássaro grasnou e, no segundo seguinte, se transformou em Seth. E a queda continuava, dessa vez para ambos.
— O QUE ESTÁ FAZENDO? — gritou Seth, se virando em meio a queda para Anúbis, o chão cada vez mais perto.
— EU QUE PERGUNTO! — gritou de volta Anúbis, brigando com o vento para que deixasse sua voz passar.
O chão chegava cada vez mais perto numa velocidade absurda mas, ainda assim, com extrema agilidade Anúbis rapidamente esticou as mãos em direção à Seth e o enrolou com faixas de linho que, se não fosse o controle de Anúbis sobre elas, teriam simplesmente voado para trás dele com a força do vento e da queda. Com Seth envolto como em um casulo de lagarta, estranhamente sem se debater muito, Anúbis transportou os dois para longe dali.
Em busca de um local de morte para ter alguma vantagem sobre Seth em caso de um conflito mais intenso, Anúbis os levou para a Necrópole de Gizé. Flutuando a três centímetros acima da ponta afiada da pirâmide do falecido Khufu, Anúbis segurou as faixas e deixou Seth pendurado de cabeça pra baixo, encostado pelos muros das pirâmides, balançando levemente de um lado para o outro como um pêndulo que ameaçava sair rolando os mais de 145 metros de altura da pirâmide.
— Precisava de tudo isso? — perguntou Seth soltando um suspiro pesado — Eu nem fiz nada, só estava sobrevoando a área e já vai me atacando e me colocando de refém.
— Coincidentemente sobrevoando o corpo de Alexandre no momento que ele está sendo convenientemente roubado? — perguntou Anúbis.
— Com todo o caminho da Babilônia até aqui, ia acabar acontecendo uma hora ou outra. — respondeu Seth.
— Não ache que sou idiota. — respondeu Anúbis — Eu te conheço. Tudo está cheirando como você tendo dedo nisso.
— E se eu tiver e disse que foi com boas intenções para o Egito, você acreditaria em mim? — perguntou Seth — Claro que não. Também te conheço. É tão cruel e mal com seu pai apesar dessa florzinha na orelha.
— Cala a boca! Não é meu pai! — reclamou Anúbis, não ousando soltar as faixas de linho para tirar a flor com a mão, mas tentando balançar a cabeça para tirá-la. Se o vento de antes não tirou, não era a balancinha de cabeça que tiraria.
— Precisa que eu te explique como bebês são feitos? — perguntou Seth, fingindo um tom de surpresa — Achei que a essa altura já sabia.
— Pare de mudar de assunto. — cortou Anúbis — O que está planejando com o corpo de Alexandre?
— Tá… É de seu interesse também então acredite. — disse Seth — É meu plano para que o Egito dure mais ainda.
— Como assim? — perguntou Anúbis com a cabeça a mil sabendo bem de um detalhe, quem enterra o faraó é culturalmente o sucessor do trono — Quem exatamente roubou o corpo de Alexandre?
— Já viu onde quero chegar né? — perguntou Seth, abrindo um sorriso irritante — O Império de Alexandre é muito grande, seus generais já estão brigando por pedaços dele sem nenhum escrúpulo. Nós temos muitas terras férteis, então estamos no meio da briga também. Precisamos de alguém que consiga manter o Egito intacto.
— E quem você acha que conseguiria isso é quem roubou o corpo de Alexandre… — deduziu Anúbis à espera de um nome.
— Exato. — respondeu Seth — Sei que os outros não são muito fãs de interferir nos processos mortais, mas eu não estou interessado em ver o Egito se perder tal como aconteceu com os Hititas. Então sim, mexi uns pauzinhos e coloquei na cabeça de Ptolomeu de que ele poderia roubar o corpo de Alexandre para ser faraó.
— Ptolomeu? — questionou Anúbis em entender o que Ptolomeu tinha de tão interessante.
— Eu sei, eu sei. Outro macedônio… — respondeu Seth com desgosto na voz — Também não gosto dessa parte. Não é o herdeiro oficial de Alexandre, não tem influência para pegar o império inteiro dele. Mas tenho certeza que, ganancioso como é, não vai querer se curvar para seja lá quem for ficar no lugar de Alexandre.
— Ainda vai sair muito sangue dessa sucessão do Alexandre. — comentou Anúbis.
— Sim…. — admitiu Seth — Pesquisei bem… Falam de Cassandro mas… ele é repugnante. Não duvido que mate qualquer um que tenha ligação sanguínea com Alexandre que sobrou. Como a mãe dele e o filho…
— Não quero saber de Cassandro. — cortou Anúbis — Porquê Ptolomeu?
— Além da ganância, sabe gerenciar bem e é descendente de Hércules! — explicou Seth.
— Não sei bem se esse último é uma prova de força ou de chatice. — respondeu Anúbis — O fato de isso significar que também é descendente de Zeus me faz apostar mais no segundo…
— De toda forma… Alexandre confiava nele. — continuou Seth — Mas faz tudo parte do plano. Primeiro temos que conseguir ficar fortes novamente e no controle do Egito. Não um mero lacaio de outro. E depois, tal como fizemos outras vezes, tomamos o poder de volta.
— Nunca caímos à essa ponto. — lembrou Anúbis.
— Eu sei. Mas que plano melhor você tem? — perguntou Seth — Além de me prender aqui? Espero que se importe tanto com sua família, como a flor na sua orelha parece indicar, a ponto de ter pensado o que vai acontecer com sua esposa e filha se o Egito cair. Bem, dependendo da queda você também vai junto com certeza. Mas bem mais difícil apagar alguém da história com ligação tão íntima com uma construção dessa tamanho absurdo sobre a qual me faz refém. Que povos e mais povos espalham por todos os lados a grandiosidade e tamanho absurdo que não cabe nem na imaginação.
As palavras pesaram no coração de Anúbis. Ele sabia que havia muita verdade nelas e isso lhe doeu. Não tinha um plano melhor. Política não era muito seu forte e mexer nessas peças desse complicado jogo de impérios lutando entre si com as mais diversas artimanhas era complicado e perigoso demais.
— Então solte seu querido pai. — pediu Seth — Vamos nos certificar de que Ptolomeu virará faraó e, acredite em mim… tudo vai ficar bem.
**** REFERÊNCIAS ****
Ilíada — https://www.gutenberg.org/files/2199/2199-h/2199-h.htm
Morte de Alexandre o grande — https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3034319/
Morte na Grécia Antiga — https://www.metmuseum.org/essays/death-burial-and-the-afterlife-in-ancient-greece
Submundo grego — https://www.getty.edu/art/exhibitions/ancient_underworld/inner.html
Morte e o submundo grego — https://greekerthanthegreeks.com/death-burial-underworld-and-afterlife-in-ancient-greece/
Antígona — https://www.ebooksbrasil.org/adobeebook/antigone.pdf
Ptolomeu — https://pt.wikipedia.org/wiki/Ptolemeu_I_S%C3%B3ter
Cassandro — https://pt.wikipedia.org/wiki/Cassandro
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