A Morte Das Areias do Saara
125 Questões de Cor
Notas iniciais

Cada leão que sai de sua caverna e todas as serpentes mordem, pois a escuridão é um cobertor. A terra está silenciosa agora, porque quem os fez está em repouso em seu horizonte. Mas quando o dia amanhece, você se ergue no horizonte e brilha como o Aten durante o dia. Quando você dissipa a escuridão e emite seus raios, as duas terras estão em festa, alerta e de pé, agora que você os ressuscitou.
~ Fragmento de “Hino a Aten”
Cinco dias já haviam se passado e, por seis dias sem parar, Anúbis tinha julgado os mortos. Ao menos poderia focar apenas nisso e não se estressar com a parte dois do encontro com os micênicos. Osíris, Hórus e Ísis estavam combinando a data e a possibilidade de visitas aos submundos. Anúbis esperava ansiosamente quando seria essa data, afinal seria uma chance de descansar dos infinitos julgamentos, mesmo que parcialmente.
Assim, Anubis suspirou longamente e foi até um dos portais mágicos que faziam parte das divisões do Salão do Julgamento, criadas temporariamente por Osíris, visando separar as almas em grupos. O portal se abriu sozinho revelando o deus Shu logo ao lado dele e, mais além, as dezenas de almas de adultos das mais diversas idades sentadas, deitadas e cansadas de esperar.
— Mais uma alma? — perguntou Shu.
— Sim. — respondeu Anúbis para o bisavô.
Shu abriu o papiro que estava em suas mãos, olhou o nome do próximo a ser julgado e chamou em alto e bom som:
— Okpara de Behdet. — chamou Shu.
— Finalmente… — resmungou Okpara, um senhor barrigudo de nariz empinado.
O senhor se ergueu e começou a andar na direção do portal, onde Shu e Anúbis esperavam. Todavia, ao mesmo tempo, chegaram no Salão do Julgamento, ao redor da balança, Thoth e Hórus, que haviam momentâneamente deixado seus serviços nos julgamentos para outros deuses, como Seshat ou até mesmo Osíris.
Thoth e Hórus pareciam tensos e ansiosos, a maior prova disso foi que Hórus ergueu a mão na direção de Okpara enquanto andava para a direção de Shu e Anúbis.
— Vamos parar os julgamentos por um tempo. — pediu Hórus.
— C-Como? — gaguejou Okpara.
— Vamos, voltando. — disse Shu chamando Okpara gesticulando para o homem voltar para a mesma direção de onde veio — Não se preocupe, assim que voltarmos será o primeiro.
— M-Mas… E-Eu sou velho… — gaguejou Okpara, parado no lugar e colocando a mão teatralmente nas costas, como se sentisse dor — estou aqui esperando a tanto tempo, minhas costas e meu joelho dói.
— Você está morto. — lembrou Anúbis suspirando cansado — Não está com dor nenhuma mais.
Okpara olhou para os deuses e suspirou derrotado. Cabisbaixo, ele entrou na sua parte do Salão do Julgamento, encostou na parede logo ao lado da porta e deslizou até sentar-se no chão, acabado. Os deuses então se reuniram perto da balança, com todas as portas das divisões temporárias do Salão do Julgamento fechadas.
Quase todos os deuses pareciam perdidos, mas Osíris estava bem sério enquanto Anúbis se reunia com Anput e Seshat e, ao mesmo tempo, Hathor e Tefnut cochichavam alguma coisa, aparentemente séria, com Osíris. Contudo, Anúbis, Anput e Seshat não só não notaram as conversas baixas e aparentemente importantes que aconteciam ao redor de Osíris, como também, assim como todos os outros, começaram a conversar em vozes baixas sobre os motivos da súbita reunião promovida por Hórus e Thoth.
— É agora, pelo o que parece. — disse Anput.
— Deve ser. — respondeu Anúbis.
— Meu pai nem teve tempo para descansar um pouco. — falou Seshat suspirando lentamente.
— Me prometeram férias e aqui estou, trabalhando em dobro. — comentou Anúbis cruzando os braços.
Apesar da ansiedade de Thoth, e principalmente de Hórus, de resolver aquilo logo, eles claramente esperaram mais deuses chegarem. Dezenas de deuses se reuniram ao redor da balança e diante do portal de entrada Aaru até o espaço ficar um pouco apertado. As conversas espalharam as teorias de prováveis motivos para a reunião até a ansiedade preencher todo o espaço vazio.
Quando a quantidade de deuses reunidos estava boa o suficiente, confiando que a magia estava escondendo de ouvidos curiosos qualquer coisa que aconteceria ali, Hórus falou:
— Imagino que já tenham uma boa ideia de porque estamos aqui. — disse Hórus.
— Por favor, diz que já decidiu como vamos lidar com Akhenaton. — reclamou Khnum.
— Sim. — disse Hórus — Todos já estão bem cientes de que o faraó Akhenaton ousa fechar nossos templos, construir novos templos para esse novo deus, que ele diz ser único, e ainda forçar crianças a trabalharem até a morte na construção de sua capital.
— É muita coragem ou muita estupidez. — opinou Nekhbet rangendo os dentes.
— Ele está ignorando a proteção das fronteiras, e o treinamento e importância do exército, que foca apenas em manter e preservar, a contra gosto, sua nova religião. — continuou Hórus — O poder do Egito começou a diminuir e os hititas e assírios só ficam mais fortes.
— Um problema em potencial. — deduziu Hathor e Hórus confirmou com a cabeça.
— Mas ouvi falar que Akhenaton está preocupado com o avanço hitita. — disse Min.
— Pode até ser que ele esteja se preocupando com o crescimento do poder dos hititas. — disse Hórus — Mas é limitado demais para se preocupar com toda a situação. Na melhor das hipóteses vai se casar com princesas estrangeiras também mantendo Nefertiti como Grande Esposa Real. Nesse ritmo, vamos perder as terras depois da Península de Sinai.
— O que as fofocas dizem é verdade? — perguntou Khonsu — Vamos amaldiçoar a linhagem de Akhenaton?
— Queria ver se alguém tem algo contra a ideia. — explicou Hórus — Afinal, para a maldição durar para sempre de fato, para conseguirmos passar a mensagem e ninguém imitar Akhenaton, o poder de mera meia dúzia de nós não será o suficiente dependendo do tanto que a linhagem de Akhenaton conseguir durar.
— Estamos irritados assim? — perguntou Néftis.
— Estamos. — responderam Sobek, Hórus, Khnum, Set, Naunet, Ptah e Nekhbet ao mesmo tempo, apesar de que o olhar sério de vários outros deuses, indicava que eles não eram os únicos.
— O que amaldiçoar a linhagem dele vai ajudar com a situação especificamente com Aten? — perguntou Hapi.
— Mostrará aos mortais que seguir o caminho de Aten é perigoso. — disse Thoth — Ele não conseguirá atrair mais fiéis. Pode ser que tenhamos que sacrificar um pouco do poder do Egito, verdade, mas sem fiéis e pessoas que o conheçam, poderemos facilmente matar Aten de vez. Caso isso não funcione, iremos para outros métodos de matar um deus.
— Eles não fizeram nada de novo contra nós também. — lembrou Hathor — Agora é hora de aproveitar isso e contra-atacar. Debilitar Aten e Akhenaton para acabar com o problema permanentemente.
— Como é exatamente essa maldição que está pensando? — perguntou Anúbis.
— Qualquer e toda coisa que dificulte ele continuar a linhagem dele. — respondeu Hórus — Baixa expectativa de vida, infertilidade, o que for. Isso vai deixar óbvio para todos que ele desagradou aos deuses a ponto de que sua família não deve continuar… por mais pesado que possa ser. Também pensei em que, quando Akhenaton morrer, pode ser criativo com o julgamento dele tal como Minkhaf.
— Minkhaf acreditava em nós. — lembrou Anúbis — Akhenaton não. Teoricamente, não é nosso trabalho condená-lo em morte.
— Eu sei. — confirmou Hórus — Mas se derrotamos Aten, não terá ninguém que possa reclamar.
Havia lógica nas palavras de Hórus, então logo os outros deuses começaram a fazer outros questionamentos até terem o máximo de certeza possível que aquele era o melhor caminho. Alguns, no entanto, não estavam tão preocupados assim. Ver Akhenaton sofrer já era suficiente para eles. Enquanto isso, aproveitando que o foco não estava mais com Anúbis, delicadamente, Anput se aproximou de Anúbis e sussurrou em seu ouvido:
— Se não julgarmos Akhenaton e também derrotamos Aten, a alma dele só ficará vagando por aí até talvez sumir, certo?
— Certo… — respondeu Anúbis no mesmo tom de voz baixo.
— Não me parece muito justo e nem compatível com a punição que Minkhaf recebeu. — disse ela suspirando profundamente — Ele praticamente poderá continuar aproveitando o mundo… Na medida do possível… até provavelmente desaparecer.
— É… — concordou Anúbis suspirando também e parando alguns segundos para pensar antes de continuar a falar — Vou pensar em algo.
— E o faraó da profecia, filho de outro com sucesso no estrangeiro, que será o maior faraó de todos? — questionou Nekhbet.
— Claramente não vai ser nenhum filho de Akhenaton. — disse Hórus — Ele está longe de ter algum sucesso no estrangeiro. Então vamos trocar a família real na esperança de vir esse tal faraó com sucesso no estrangeiro.
— Ficaremos de olho. — garantiu Sobek.
— Alguém tem algo contra a ideia de amaldiçoar a linhagem de Akhenaton? — questionou Hórus.
Hórus percorreu os olhos pelos vários deuses presentes em busca de reclamações, argumentos ou o que for. Passou por deuses importantes, deuses não tão famosos, deuses pacíficos ou bélicos, homens, sekhet ou mulheres, originalmente egípcios ou recebidos no panteão após a conquista de seus povos. Ninguém parecia querer dizer nada contra a ideia, apesar de alguns parecerem preocupados com o plano.
O deus esperou alguns segundos como uma última chance de alguém se pronunciar. Ninguém o fez. Assim, Hórus respirou fundo, afinal ele mesmo também estava nervoso com a ideia dada às consequências desastrosas que ela poderia ter. Hórus ficou se lembrando constantemente que Thoth havia analisado a ideia por seis dias e um leve aceno de cabeça de Thoth o lembrou disso.
— Pois bem… — disse Hórus.
Thoth estendeu as mãos no ar até uma frase em dourado aparecer diante dos olhos dos deuses flutuando no ar. Eles percorreram os olhos pelo texto e logo entenderam que ali estava a maldição para lerem em conjunto.
— Todos juntos… — pediu Hórus.
— Ele nasceu em heresia. Akhenaton. Silêncio abandono. — proferiram a maioria, mas não todos, dos deuses em unisom — Que ele nunca exista, que seu corpo nunca exista, que seu corpo não persista.
A cada frase dita, as frases douradas criadas por Thoth eram substituídas magicamente pela próxima, mas, ao mesmo tempo, a cada frase dita pelos deuses, as palavras que as formavam surgiam, vermelhas como sangue, flutuando no ar levemente disformes. As palavras malditas flutuavam pelo Salão do Julgamento como perdidas, como corpos numa piscina, e traziam junto consigo uma frieza e uma escuridão. A temperatura do salão do julgamento mudava, a escuridão o envolvia, ele parecia cada vez mais uma arrepiante sala vermelha e negra, mas os deuses não paravam.
— Proferimos para a eternidade, que sua terrível história não continue. — continuaram os deuses — Das crianças cujas sementes ele fornece, descuido com o destino que acontecerá. Que ele nunca exista, que seu sangue nunca exista, que seu sangue não persista. Tu estás ferido, ó inimigo. Tu morrerás, tu morrerás. Tú perecerás, tú perecerás, tú perecerás. Que tua prosperidade nunca exista. Que teu aumento nunca exista. Que teus caminhos nunca existam. Que teu lugar nunca exista. Que teus atributos nunca existam. Que o que brota de ti nunca exista. Maldito és tu! Destruído és tu! Repelido és tu! O último és tu!
As palavras vermelhas rodopiavam no ar cada vez mais caóticas e rápidas. Um leve receio de estarem exagerando passou pelos corações de alguns deuses, mas era tarde demais. O texto estava lido até o final, as palavras pareciam gritar ao redor dos deuses tão rápido que já se tornavam completamente ilegíveis. Repentinamente, como numa explosão elas então escaparam, apressadas, deixando o Salão do Julgamento tal como estava antes, e os deuses, silenciosos, com sentimentos mistos em seus corações.
— Está feito… — declarou Hórus, tenso.
Isis se aproximou de Hórus e pousou a mão delicadamente em seu ombro. Seu olhar mostrava que sabia bem a pressão que ele deveria ter sentido para decidir se faria aquela maldição. Assim, a mãe estava ali para o consolar e oferecer seja um ombro amigo ou um ouvido disposto a escutar. Ao mesmo tempo, Osíris se aproximou de Anput e Anúbis enquanto Seshat se separava dos dois para falar com Thoth.
O poderoso Osíris suspirou pesadamente, atraindo o olhar de Anput e Anúbis para si, mesmo que ele mesmo estivesse olhando para onde antes flutuavam as palavras malditas.
— Acha que essa foi a decisão certa? — perguntou Anput.
— Não sei dizer. — respondeu Osíris francamente — Mas acho que vamos ficar bem. Ou talvez eu esteja tentando me convencer disso.
— Vamos ver quanto tempo Akhenaton demora para perceber… — comentou Anúbis.
— Falando em tempo… — disse Osíris — Estava pensando em combinar de vocês dois visitarem o submundo micênico em três meses.
— Nós dois? — perguntou Anput mal conseguindo esconder o brilho no olhar.
— Sim. — confirmou Osíris com um leve sorriso — É melhor não ir desacompanhado numa primeira visita assim. Poderá também aprender micênico, seria bem útil.
— Vou tentar julgar o máximo de almas para ter tempo de aprender mais micênico também. — prometeu Anúbis.
— Só não vá exagerar. — disse Osíris — Mas de fato seria útil. Zeus não ter participado da última reunião não foi um bom sinal e Tefnut me confirmou que isso. Falta apenas falar com Hórus o motivo.
— E qual era? — perguntou Anúbis curioso.
— Como falar sem parecer grosso… ? — questionou Osíris passando a mão em sua barba — Zeus não se importa com nós e se acha superior o suficiente para não precisar estabelecer nenhuma relação diplomática. Atena aparentemente discorda.
— Como? Porquê? — perguntou Anúbis estranhando existir alguém que pensava como Osíris dizia que Zeus pensava.
— Eles mal estão começando a se organizar, aprendendo a escrever e tudo mais! — acrescentou Anput — Como podem se achar superior o suficiente para se acharem superior a ponto de não virem para uma reunião diplomática?
— Também fiquei surpreso. — admitiu Osíris — Mas, pelo o que as fontes de Tefnut dizem, esse é o real motivo de Zeus não ter ido à reunião. Ele não achou que valesse o tempo dele.
— Sabe o que o faz pensar assim? — perguntou Anúbis.
— Infelizmente Tefnut também descobriu isso. — admitiu Osíris soltando um grande suspiro — Zeus, e muitos dos micênicos, deuses e mortais, na verdade, acham os egípcios culturalmente inferiores aos micênicos. As palavras que Tefnut usou foram “hipersexuais”, “selvagens” e “covardes”.
Anúbis e Anput olharam para Osíris chocados, como se ainda estivessem tentando entender as palavras que ouviram. Osíris, por outro lado, olhava com olhos decepcionados e tristes, enquanto fitava os deuses egípcios que conversavam sobre a maldição recém lançada. Mas a mente de Osíris estava em outro lugar, não na maldição, assim como a decepção não era com os deuses egípcios, mas sim com os vizinhos.
— O que leva Zeus e os micênicos a pensarem essas coisas ridículas de nós? — perguntou Anúbis.
— Ah, o motivo aparente é ainda mais ridículo. — admitiu Osíris — Eles se acham tudo isso pois, no geral, nós, egípcios, não só deuses, não somos tão brancos quanto eles, micênicos.
Anúbis e Anput encararam Osíris novamente, dessa vez mais intensamente, como se esperassem o deus falar que era uma brincadeira, mas ele nada disse. Apenas suspirou e deixou escapar uma pequena risada de nervoso, ele provavelmente achava a explicação tão inacreditável quanto os outros dois também achavam, mas também não tinha motivos para duvidar das palavras e pesquisas de Tefnut. Ela nunca teria segundas intenções, era uma boa deusa e também certamente teria dado seu melhor na descoberta das informações e confirmado tudo. Mas tentar conceber a ideia de que a cor da pele podia afetar as opiniões de uma pessoa sobre outra era muito difícil de engolir. Era algo completamente novo, nunca tinham ouvido falar de algo tão ridículo e sem sentido.
— Boa sorte com Hades. — disse Osíris eventualmente para os ainda atônitos, Anúbis e Anput — Talvez ele não seja tão ruim. Ao menos ele se dignou o suficiente para vir falar conosco.
Osíris se afastou, rumo ao seu trono novamente e os deuses lentamente iam se dispersando também. Os julgamentos, provavelmente logo, deveriam voltar, mas Anúbis e Anput se entreolharam. Ambos estavam incrédulos e enojados,
— Neket Iadet — resmungou Anput, entredentes, xingando Zeus.
— Inacreditável… Sem dúvida um Neket Iadet. — confirmou Anúbis — Um arrogante repulsivo estúpido.
— Desgraçado… — continuou Anput — Já não quero ir conhecer Hades e o submundo dele! E se ele for igualzinho?
— Então iremos embora, não mostramos o nosso submundo e ele que se vire para tentar se manter e organizar o submundo. — disse Anúbis.
— Podemos também espalhar para Lelwani e Ereshkigal se ele for que nem Zeus. Elas também não vão querer falar com ele provavelmente se souberem. — disse Anput respirando profundamente de um jeito claramente irritado, praticamente bufando — Ou assim espero! Vou dar o benefício da dúvida para Hades só porque Lorde Osíris pediu para irmos lá!
Os dois pararam de conversar ao verem Thoth indicando, de longe, para Anúbis que era melhor voltarem para os julgamentos. Afinal, quanto mais diminuírem o tanto de almas ali, melhor. Anúbis suspirou, triste lentamente, e olhou para Anput, claramente irritada e ofendida, e logo entrelaçou os dedos com os dela.
— Você vai ficar bem? — perguntou ele.
— Sim… — garantiu ela abrindo um sorriso torto — Vou estudar micênico com Seshat e Bes, acho… e conversar. Na pior das hipóteses, vou lá começar uma briga com Zeus.
— Por favor não faça isso. — pediu Anúbis — Não sozinha, pelo menos. Seria muito triste perder uma briga dessas.
— Relaxa, vou fazer meu grupinho de deuses egípcios “não tão brancos” e marchar contra os micênicos. Pode vir também. — disse Anput rindo de nervoso e revirando os olhos — Neket Iadet desgraçado acéfalo nojento.
— Pau pequeno. — acrescentou, do nada, Shu atrás deles, o que fez Anúbis e Anput se virarem e olharem para ele sem entender.
— Como? — perguntou Anput.
— Pau pequeno. — disse Shu dando de ombros — Estão falando dos micênicos, certo?
— Estamos… — respondeu Anúbis, cauteloso.
— Tefnut me contou também do que eles acham de nós. Ouvi dizer que eles tem pau pequeno… talvez seja por isso que eles nos achem “hipersexuais”... — disse Shu soltando uma leve risada — Vou levar essa parte como elogio. Enfim… Okpara de Behdet. Realmente quero me livrar disso logo então vamos julgá-lo.
Precisando de uns segundos para se recuperar da conversa sobre tamanhos de pênis, Anúbis afirmou com a cabeça. Anput apressadamente lhe deu um beijo na bochecha e foi embora, provavelmente até Seshat e Bes, ou assim ele esperava do fundo do coração. Logo, os julgamentos recomeçaram e se seguiram, sem parar, por vários dias.
Anúbis só parou para descansar dos julgamentos no dia anterior a ida até o submundo micênico. O foco era fazer um estudo de última hora de micênico, mas o descanso foi bem vindo de toda forma. Tanto que o estudo foi feito com a cabeça deitada no colo de Anput, que estava muito mais atualizada da língua da civilização vizinha do que o marido e, consequentemente, o ajudava nos estudos.
A fila de almas para serem julgadas no submundo egípcio estava bem menor, praticamente comportada. Anúbis quase sentia as férias chegando até si. Contudo, antes ele teria que cumprir sua parte do acordo com Hades. Graças ao contato entre Osíris e Hades por meio de trocas de vários papiros, a visita ao submundo micênico foi planejada. Assim, Hades e Perséfone receberam Anput e Anúbis.
Anúbis e Anput bem tentaram esconder, mas Hades e Perséfone notaram que havia um certo receio nos dois deuses, cujo motivo eles não sabiam qual era. Apesar das preocupações dos egípcios quanto às fofocas que Tefnut ouviu sobre Zeus, Hades e Perséfone não deram qualquer sinal de compartilhar de parte alguma das opiniões de Zeus. Eles o receberam muito bem no submundo micênico, principalmente Perséfone, que estava visivelmente feliz de ter visitas, especialmente com uma mulher dentre elas.
Quanto a Perséfone, era fácil notar que a deusa quase não podia ser mais diferente de Hades. Ela tinha cabelo escuro e comprido, tal como o marido, mas que era ondulado e facilmente se esvoaçava, como se não tivesse peso. Seus olhos eram quase tão coloridos quanto o vestido, feito com todos os tipos de flores de verdade, com as mais diversas cores. A deusa era um contraste enorme para o visual preto e roxo escuro, e quase depressivo, de Hades.
Os quatro deuses logo no começo do passeio, pararam logo ao lado de um rio, no meio de uma imensidão de terra cinzenta bem escura com nenhum barulho além da correnteza do rio. Pouco havia para ser visto, como um tímido muro de pedra com um pequeno portão de madeira, provavelmente temporário. Também havia, mais além, um grande campo de trigo e, bem depois, era possível ver um pouco de uma construção envolta nas sombras. Juntando tudo, era um lugar frio e triste.
— Eu escolhi essa parte para ficar. — explicava Hades em egípcio — Mais além, depois dos campos de trigo.
— Estamos constantemente aumentando nossa casa. — disse Perséfone — Um palácio seria muito interessante.
— Esse muro aqui, pensei em ser bem maior, afinal isso não é muito difícil de passar por cima. Mas mesmo com um muro maior, acho válido colocar algum monstro ou demônio para impedir a entrada de vivos e a saída de mortos. — continuava Hades — Ouvi dizer que vocês tem um demônio também?
— Ammit não faz a segurança das fronteiras do submundo. — disse Anúbis — Ela devora o coração dos impuros.
— Ah… — disse Hades claramente recebendo aquela informação como uma novidade — De toda forma, algo vivo para ajudar na proteção acho que seria interessante aqui. Como faz para manter as almas sem fugir?
— Os impuros não tem perigo disso acontecer. — disse Anúbis — Eles são devorados por Ammit. Os puros que vão para o Aaru simplesmente não conseguem passar para fora dele.
— Não faz punições dolorosas e eternas para impuros? — perguntou Hades surpreso.
— Só em casos especiais. — admitiu Anúbis.
Perdendo o interesse na conversa dos dois sobre detalhes do submundo, as duas deusas começaram a conversar entre si. Movida pela curiosidade pelo contato de uma civilização nova, Persephone foi a primeira a falar:
— Quando toda essa situação entre Micenas e Egito se resolver, adoraria conhecer o Egito. — disse Perséfone sorrindo elegantemente — Desculpa por me auto-convidar.
— Que isso. — respondeu Anput sorrindo — Também quero visitar Micenas… acho… não tenho mais certeza.
— Bem, se decidir ir quando o frio ir embora e flores abrem. — perguntou Perséfone, se enrolando um pouco no egípcio — Muito lindo.
— Na primavera? — perguntou Anput.
— Ahm… não sei… não aprendi essa palavra… talvez? — respondeu Perséfone.
— Não sei em micênico também como é… — admitiu Anput parando por uns segundos e trocando de idioma para micênico — Micenas é muito quente? Falei certo?
— Oh! Sim, está certo!— confirmou Perséfone abrindo um sorriso, aliviada por poder usar um idioma mais confortável — Micenas é quente, mas não tanto quanto ouvi falar que o Egito é.
Enquanto as duas se conheciam, Hades continuava a explicar para Anúbis o que havia ali no submundo micênico. Provavelmente, ou assim Anúbis imaginava, iriam andar para dentro da área após o pobre portão de madeira, por isso Anúbis quis matar a curiosidade que sentia daquele estranho, solitário, mas por algum motivo arrepiante, rio. Do qual sentia uma estranha e intensa energia saindo.
— Esse rio... — disse Anúbis — Não é um rio normal, imagino.
— Este rio é o Estige… — explicou Hades — Sente também a energia dele?
— Impossível não sentir… — admitiu Anúbis — O que tem nele?
— Ainda não sei. Fiz alguns testes, verdade. Mas ainda tenho que encontrar tempo para entendê-lo melhor. — disse Hades — Minha conclusão até agora é de que tem algo vivo nele e de que não é uma boa ideia tocar no rio.
— Pode usar o rio como uma espécie de divisa ou caminho… — sugeriu Anúbis — As almas podem chegar em barcos, por exemplo. É assim que fazemos. Os faraós às vezes constroem barcos, grandes ou pequenos, para levarem suas almas até o submundo e os sepultam junto com suas múmias.
— Oh, mesmo? — perguntou Hades claramente surpreso e interessado.
— Pessoas comuns usam apenas sarcófagos. Afinal, a madeira é cara. Faraós gostam de usar sarcófagos em adição ou em substituição à crença do barco, que é uma alusão à viagem que Rá faz com o sol, que também usa barcos. — explicou Anúbis.
— Hum… — disse Hades pensativo — Achei de fato interessante a ideia de usar barcos. Deve ser ainda melhor se os mortais provavelmente verem o rio apenas como um simples rio. Seria como um perigo escondido.
— O que é altamente provável. — opinou Anúbis.
— Existem outros rios por aqui, outros quatro. Uns inclusive de cor diferente e consequentemente com aparência mais perigosa. — explicou Hades — Mas é engraçado que é logo esse rio, o aparentemente sem graça vinho escuro, que seja o mais arrepiante.
Perdido, Anúbis olhou para o rio, claramente azul escuro, novamente, e então olhou para Hades completamente perdido.
— Vinho escuro? — perguntou Anúbis se questionando se seria um erro de tradução e se dando alguns segundos para lembrar a palavra em micênico para vinho — Vinho tipo… vinho? Melition…
— É… — confirmou Hades sem entender a confusão de Anúbis — Bem, Melition é vinho com mel, mas… sim. Cor de vinho
— Você está vendo algo que eu não estou vendo? — perguntou Anúbis perdido — O rio não é vinho.
— Claro que é. — disse Hades se perguntando se aquilo era uma provocação ou pegadinha de algum tipo — Tal como o mar.
Anúbis abriu a boca e a fechou, mais perdido do que da primeira vez. Tinha certeza de que tinha aprendido a palavra “vinho” em micênico suficientemente certo. Não havia possibilidades de ela significar “azul”. Afinal, nem tinha aprendido a palavra "azul" em micênico. Talvez o erro de tradução estava do lado de Hades.
— O rio… é azul. O mar é azul. O céu é azul. — explicou Anúbis olhando ao redor disfarçadamente em busca de algo azul, sem sucesso — Não vinho, azul. Irtyw. Azul.
Agora foi a vez de Hades olhar para Anúbis completamente perdido. A discussão já tinha ficado tão estranha que até Anput e Perséfone pararam a conversa delas e tentavam entender sobre o que os dois estavam discutindo.
— Você está tentando me fazer de burro? — perguntou Hades — Não sei o que é esse tal azul que está chamando, mas realmente espero que não seja uma cor, pois o mar e o rio são vinho e o céu é bronze.
— Bronze?! — perguntaram Anúbis e Anput, confusos, ao mesmo tempo.
— Sim… o céu é bronze… — confirmou Perséfone sem entender o choque de Anúbis e Anput.
— O céu é azul. — confirmou Anput vasculhando pelo vestido de flores de Perséfone até encontrar uma pequena e solitária, num leve tom de azul claro caminhando para lilás — Essa flor é azul.
— Isso é roxo… — respondeu Hades e Perséfone afirmou com a cabeça.
— Não. É azul. Pode ser um pouco puxado para o roxo, mas ainda é azul. Essa outra é roxa. — disse Anput apontando para outra flor, essa roxa.
— Nisso concordamos. — disse Perséfone.
Os quatro, totalmente perdidos, se entreolharam por uns segundos enquanto pensavam o que raios estava acontecendo ali. Qual a cor que algo tinha não era para ser algo tão terrivelmente complicado.
— Por acaso… — começou Anúbis receoso com uma possibilidade que passou pela cabeça dele — Vocês não conhecem o azul?
— Acho mais provável que você seja realmente doido por achar que o céu e o mar têm a mesma cor. — provocou Hades.
— O céu e o mar podem até mudar de cor bastante dependendo da hora ou do lugar, mas são essencialmente azuis. — disse Anput.
— Certo, talvez vocês ter uma percepção de cores diferente… — disse Perséfone — Mas realmente ainda não entender o que é esse azul.
Não ousaria dizer o que queria em voz alta. Então, em seus pensamentos, Anúbis, quase ironicamente, pensou, “Missão diplomática número 1 com os micênicos, tentar explicar o que é azul.”
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