Notas iniciais
olá olá! bem vindos a mais um cap! divirtam-se na imagem de hoje: a esfinge (quando ainda era colorida) na frente, bastante areia ao redor, uma das pirâmides no fundo à direita e morros de pedra à esquerda

Seus corpos estão limpos e suas roupas estão vestidas; seus braços são levantados em louvor em sua ascensão. Toda a terra realiza seu trabalho: todo o gado se contenta com sua forragem, árvores e plantas crescem, pássaros voam para seus ninhos, suas asas se estendem em louvor ao seu Ka.

~ Fragmento de “Hino a Aten”

O lago de fogo no submundo ardia protegendo a ilha onde estava o Salão do Julgamento. Dentro do Salão do Julgamento, a antes interminável fila de pessoas que haviam morrido e esperavam julgamento estava bem menor. Com o tempo passando no submundo em ritmo diferente ao tempo na superfície, acabar com a fila dos mortos era um trabalho realmente possível mesmo com as pessoas constantemente morrendo.

O Salão do Julgamento não estava mais com paredes finas mágicas criadas por Osíris dividindo-o em setores, nem estava maior do que o normal, tudo havia voltado a ser como era antes já que a fila também estava dentro das normalidades. A única coisa não normal, era a empolgação e a pressa que Anúbis estava. Não que ele estivesse tão apressado a ponto de fazer os julgamentos ficarem mal-feitos, mas cada segundo que ele podia economizar, ele tentava.

Foi usando essa empolgação e pressa a cada alma, que eventualmente chegaram na, até então, última alma da fila. Rapidamente Anúbis indicou, para a alma de uma jovem mulher que havia falecido no parto, o portal para o Aaru, causando um discreto sorriso no rosto de Osíris, que achava graça da empolgação.

— Pode ser a última mas é uma questão de tempo até chegarem mais almas… — comentou Osíris.

— Mas ainda é a última por enquanto… — disse Anúbis olhando rapidamente para a entrada, como se estivesse com medo de outra alma surgir durante aquela conversa.

— O que está esperando então? — perguntou Osíris — Vá aproveitar suas férias finalmente!

Anúbis nem parou para pensar ou questionar qualquer coisa, simplesmente foi correndo até Anput, interrompendo a conversa em voz baixa que ela tinha com Seshat. Anput começou a rir quando Anúbis a envolveu num abraço baixo, tirando-a alguns poucos milímetros do chão e beijando seu pescoço.

— Calma! — pediu Anput aos risos.

Qualquer pedido de calma de Anput, no entanto, não foi devidamente escutado. No segundo seguinte eles deixavam o Salão do Julgamento e reapareciam sobre as águas azuladas do Mar Vermelho. Montes de areia e morros de terra os rodeavam de quase todos os lados, menos um. A direita, esses pedaços de terra firme, acompanhados de pequenas ilhas, eram as areias intermináveis do território egípcio, a esquerda, estava o deserto pertencente aos povos nômades semitas e que um dia viria a se chamar Arábia Saudita. Atrás deles, a ponta da, também egípcia, península do Sinai.

Anput ainda ria quando eles deixaram a física fazer seu trabalho, derrubando-os no Mar Vermelho, cujas águas os engoliram, frescas e receptivas. Debaixo d'água, eles se olharam, mas logo nadaram de volta para a superfície com corpos e roupas completamente encharcados, com Anput ainda achando graça de tudo.

— Porquê tanta pressa? — perguntou ela.

— Porque tenho 1 ano inteiro e mais alguns meses para compensar. — explicou ele.

Um sorriso com maçãs do rosto coradas estampou o rosto de Anput, que logo pegou delicadamente o rosto do marido em suas mãos e beijou-o. O beijo foi prontamente correspondido e, naquele momento, era como se não existisse mais problema nenhum. Poucos meses já haviam se passado desde que os deuses lançaram a maldição contra Akhenaton, meses suficientes para o ano de 1352 a.C ficar para trás e 1351 a.C começar, mas nada disso era relevante agora.

A troca de carícias eventualmente levou o casal até a praia, de águas tranquilas, areia branca e protegida por montes de areia na península do Sinai. A combinação de água com o linho branco da roupa de Anput não deixava nada a esconder e ela estava bem consciente dos olhares que recebia enquanto ia na frente, puxando Anúbis para a praia.

— Sabe… — disse Anput se virando para Anúbis, consequentemente dando-lhe a outra metade das belas vistas — Muito injusto que você só vista preto.

— Da próxima vez eu penso em abrir uma exceção pra você. — prometeu Anúbis.

Bem longe dali, no palácio real em Tebas, Akhenaton estava de pé na porta de entrada do quarto que dividia com Nefertiti. Em seu colo, o faraó segurava a pequena Meritaten, de apenas 2 anos, que ainda era pequena demais para entender o motivo pelo qual sua mãe não saía debaixo das cobertas. Akhenaton até entendia, mas não sabia mais o que poderia dizer ou fazer pela esposa, já tendo tentado de tudo que conseguia pensar.

— Papai… — falava a pequena Meritaten — Mamãe bem?

— A mamãe está triste, mas a gente vai cuidar dela até ela ficar bem. — respondeu Akhenaton — Você me ajuda a cuidar dela?

Judo. — confirmou Meritaten — Imãozinho bem também?

Akhenaton até abriu a boca para responder, mas fechou-a novamente ao sentir os olhos queimarem e a força escapar de si. Não, o irmãozinho ou irmãzinha que fora prometido para Meritaten não estava bem, nada bem. Era exatamente esse o motivo que tirava toda a vontade de viver de Nefertiti.

O faraó respirou fundo, tinha que ser forte. Não só pela família, mas também não estava em uma posição e condição que pudesse demonstrar fraquezas. Sabia bem que sua popularidade não era das melhores.

— Beijinho na mamãe? — perguntou Meritaten.

— Vamos. — respondeu o faraó.

Ele levou a menina até a cama da mãe e gentilmente a colocou ao lado de Nefertiti. Com a inocência típica de uma criança, Meritaten se aproximou da mãe, que mais parecia uma casca vazia, já sem lágrimas para chorar, e depositou um doce e pequeno beijo em sua cabeça. Reconhecendo a própria filha, Nefertiti se virou, olhou a filha com doçura no olhar e acariciou-lhe as bochechas exibindo um sorriso triste acompanhado de olhos cheios de dor.

Akhenaton sentou-se na beirada da cama e ninguém nada mais disse. Nefertiti ficou apenas lá, em silêncio, acariciando a filha que a olhava com grandes olhos carinhosos, inocentes e preocupados. A consequência de tantas carícias não poderia ser outra, Meritaten eventualmente dormiu ao lado da mãe. Sem ouvidos inocentes para ouvir, Nefertiti olhou para o marido, com extrema dor nos olhos, e perguntou:

— Porque o Grande Aten não protegeu o nosso bebê?

— E-Eu não sei… — admitiu o faraó — Quem sabe, não era para ser.

— Ainda faltavam meses para o final da gestação… — disse Nefertiti lentamente se rendendo às lágrimas mais uma vez.

— Eu sei, meu amor. — disse Akhenaton, com dor na voz, mas sabendo que a dor da esposa era infinitamente maior.

Não havia mais nada que Akhenaton pudesse dizer para Nefertiti, então ele apenas suspirou, derrotado, fitando a amada, arrasada, enrolando o dedo delicadamente em um dos cachinhos na cabeça de Meritaten. Deixando a filha ali mesmo, já que parecia ter melhorado minimamente o humor de Nefertiti, Akhenaton se levantou e foi embora do cômodo.

— O que aconteceu? — pensou o faraó, andando a esmo pelo palácio, questionando Aten.

— Tem algo corroendo sua família por dentro. — disse a voz de Aten na mente de Akhenaton — Demorei para perceber, pois começou pequeno, imperceptível e julguei erroneamente que era só em você que essa maldição estava.

— Maldição? — questionou Akhenaton notando o uso da palavra e então parando de andar.

— Maldição. — confirmou Aten — Tentei proteger apenas a si, mas tarde demais percebi que todos os seus estão sofrendo do mesmo mal.

— Que raios de maldição é essa?! — questionou Akhenaton, socando a parede do corredor onde estava e assustando um pobre serviçal que mudou o caminho imediatamente para longe do faraó — Proteja a todos!

— Não posso. — disse Aten — Não totalmente, pelo menos. A maldição cresce a cada dia.

— Quem foi o maldito que ousa jogar uma maldição no faraó? — perguntou Akhenaton espumando de raiva.

— Os deuses que esse faraó negou. — respondeu Aten.

O ódio queimava no coração de Akhenaton e não havia em si nenhuma vontade de se acalmar. O faraó entrou, bruscamente, num cômodo que surgiu ao seu lado, um quarto desocupado para segundas esposas, praticamente se jogou numa das cadeiras de madeira que ali estavam e passou, preocupado e irado, as mãos pelo rosto e cabeça.

— Temos que nos vingar. — disse Akhenaton.

— Se controle… — avisou Aten — Eles estão em muitos, nós apenas em dois.

— Não era você quem disse que eles estarem em muitos diluía os poderes deles? — questionou o faraó.

— Pode ter fechado os templos, mas o povo ainda segue os deuses falsos. — explicou Aten — Tenho poucos fiéis, pouco poder. Aquele poder todo de quando nos juntamos já foi embora a muito tempo. Temos que ser cautelosos.

— Eles estão impedindo que eu gere um herdeiro! — exclamou Akhenaton não apenas em pensamento dessa vez.

— Deixe que sua esposa se recupere. — sugeriu Aten — Quando ela ficar grávida novamente, tentarei proteger ela e o bebê, mas deixarei você sem proteção, ou será demais para mim. Tentaremos uma segunda vez e então, dependendo do que acontecer, tentaremos fazer algo contra os deuses. Um nascimento seguro será uma boa prova que está tudo bem. Especialmente mais nascimentos se seguirem.

— E se essa maldição ficar tão forte a ponto de você não conseguir proteger a ninguém? — perguntou Akhenaton.

— Ficarei monitorando-a no decorrer dos dias para que isso não aconteça. — prometeu Aten — Enquanto isso, tente converter mais pessoas. Tenho certeza que vários nesse palácio aceitariam trocar de fé para cair nas graças do faraó.

Em silêncio e rugas entre os olhos, Akhenaton se pôs a pensar sobre o presente e o futuro. Escolhas difíceis claramente se mostravam em seu horizonte, a cidade de Amarna ainda não estava completa e ainda lhe faltava um herdeiro. A situação não parecia boa para ele. Mas enquanto o faraó pensava, o tempo passava não só em Tebas, mas também numa praia na extremidade sul da península do Sinai, onde Anúbis e Anput se amavam sobre um pedaço de pano que tentava separar a incomoda areia do ato.

Uma ânfora de vinho totalmente vazia e três frutas esquecidas e migalhas de pão sobre um grande prato de bronze, mostravam que eles haviam gastado suas horas com outras coisas também.

Anúbis e Anput se beijavam, abraçavam e se tocavam ardentemente sentindo cada curva e músculo de seus corpos, já nos fôlegos finais, até ouvirem vozes vindas de mais além. Suados e ofegantes, eles sabiam que uma boa dose de magia já estava impedindo qualquer um de ver ou ouvir o que faziam naquela solitária praia, mas isso não significava que a presença de outra pessoa não quebrava o clima. Além disso, ainda havia a chance de ser algum deus poderoso que podia ver pela magia deles.

Definitivamente um pouco incomodados pela intromissão, apesar de já terem passado a pouco do ponto principal, os dois pararam silenciosamente, primeiro dando a si mesmos alguns segundos para conferirem que o que tinham escutado eram de fato vozes. Anput bufou e revirou os olhos, o que fez Anúbis rir. Eventualmente se separaram e se sentaram, suados e desnudos, sobre o singelo pano sobre o qual estavam deitados antes, sentindo o clima quebrado.

— Impressão minha ou parece um grupo grande? — perguntou Anput desfazendo as trancinhas sujas de areia deixando seu cabelo cacheado voar com o vento.

— Parece… — concordou Anúbis — Atrás daquele morro de areia ali, né? O sotaque… são beduínos.

Em silêncio, eles tentaram ouvir o que os beduínos faziam para ter noção se estavam só de passagem ou não. Separar as falas dos sons de cavalos e outros barulhos que faziam era complicado, mas entenderam o suficiente para perceber que eles estavam montando ali o acampamento deles, o que fez Anput suspirar desanimada.

— Droga… — reclamou ela — Está ficando cada vez mais complicado encontrar um lugar sem pessoas por perto.

— No deserto ainda é fácil. — disse Anúbis.

— Não se tiver água por perto… — completou Anput.

— Você ouviu… — diziam os beduínos do outro lado do morro de areia, ou melhor, eram as poucas palavras que Anúbis e Anput conseguiram distinguir no meio de tantas pessoas falando ao mesmo tempo e fazendo outras coisas também — … desertou… hititas..

— Alguém desertou para os hititas? — questionou Anput e Anúbis deu de ombros.

— Não deu para ouvir direito. — disse ele.

— Vamos chegar mais perto. — disse Anput prontamente pegando o vestido largado na areia.

Ela sacudiu o vestido, deixando toda a areia se misturar com o vento, e colocou-o de qualquer jeito para que pudesse rapidamente cobrir apenas o que importava, que no caso não incluía os seios, o que era normal para os egípcios. Anúbis logo imitou-a com a própria roupa, mas a curiosidade de Anput fez com que ela fosse até o morro que os separava dos beduínos sem esperar por ele.

Ele acelerou o passo para alcançá-la e os dois se esconderam atrás do monte de areia que os separava do acampamento beduíno sendo montado. Ali era um lugar muito melhor para entender do que eles estavam falando. Os dois subiram no monte o suficiente para conseguirem ver o pequeno grupo, montando suas tendas. Contudo, mesmo se os beduínos olhassem na direção dos dois deuses, nada veriam.

— Considerando isso… — dizia um homem beduíno — acha que é mesmo melhor seguirmos para o Egito? Sabe que o faraó deles está bem relapso com as fronteiras. Ouvi dizer que nem presta tanta assistência ao próprio exército quando pedem por auxílio.

— Não disse que ia mandar até um grupo de Medjay para ajudar? — perguntou um beduíno idoso.

— E mandou mesmo? — questionou uma mulher — Se tivesse mandando, Aziru não teria desertado para os hititas.

— Aziru desertou para os hititas? — sussurrou Anput olhando para Anúbis um tanto surpresa — Não era ele que administrava as terras egípcias no Levante?

— Sim… — confirmou Anúbis — Será que já estão sabendo disso? Quão recente foi isso?

— Se Aziru foi para os hititas… — refletiu Anput — Perdemos bastante território e não fazemos mais fronteira com os Mitanni.

— A situação no Egito pode não ser tão boa quanto já foi. — continuou a dizer o homem beduíno — Mas ainda é um império antigo e poderoso e, se minha intuição estiver certa, essa área está prestes a ser tomada de guerra novamente. Afinal, a cada dia os hititas ficam mais fortes.

— Não foi exatamente assim que me imaginei começando minhas férias. — comentou Anúbis deixando escapar um pesado suspiro.

— Podemos simplesmente falar com Hórus e continuar nossas férias. — sugeriu Anput — Não é como se pudéssemos fazer algo quanto a isso.

Anúbis confirmou com a cabeça e então, depois de se arrumarem o suficiente para não ficar tão óbvio o que estavam fazendo até poucos minutos antes, eles foram falar com Hórus. Encontraram-no em Mênfis, diante da esfinge, parcialmente coberta de areia. O faraó dos deuses fitava a escultura gigante com um olhar triste nos olhos e assim ficou durante todo o tempo que Anúbis e Anput levaram para contar o que escutaram dos beduínos.

— Já estava esperando que Aziru fosse trocar de lado. — admitiu Hórus com um pesado suspiro, ao final do relato — Não foi o primeiro no Levante que o fez, embora até então haviam sido apenas pequenos soldados e mercenários.

— E imagino que não podemos fazer nada… — imaginou Anúbis.

— Não. — confirmou Hórus — A linha do que podemos ou não interferir é tênue. Isso não envolve Aten, apenas a péssima administração de Akhenaton. Perdemos terras hoje, mas torcemos para não ser nada pior do que isso.

— E para o próximo que vier conseguir recuperá-las… — comentou Anput embora não sentisse muita confiança nas próprias palavras.

— E isso… — disse Hórus, parecendo querer se convencer disso também — Obrigado por avisar mas não se preocupem com isso. Vão aproveitar suas férias.

Anput e Anúbis olharam para a esfinge e se perguntaram quanto tempo demoraria para ela ficar coberta de areia mais uma vez. Era como se ela fosse um reflexo das condições do Egito. Vendo a preocupação cruzar o olhar de Anput, Anúbis acariciou-lhe a bochecha, delicadamente levando um cacho para atrás de sua orelha.

— Não se preocupe com isso. — disse Anúbis.

— Tenho medo de essa maldição não funcionar. — admitiu Anput.

— Relaxe. — disse Hórus — Vamos esperar ela fazer efeito. As coisas não estão tão ruins quanto parecem. Akhenaton e sua família podem nos ignorar, mas convencer o povo a fazer o mesmo é mais complicado.

— Podem fechar os templos ou o que for, dentro das casas o povo segue quem acredita. — completou Anúbis e Hórus confirmou com a cabeça.

— Vou tentar ficar calma. — disse Anput suspirando longamente.

— Vem, vamos achar um jeito de pensar em outra coisa. — disse Anúbis, dando as mãos para Anput e então, juntos, sumiram dali, rumo a um segundo destino de férias.

Com o passar dos meses, Akhenaton ia conseguindo mais fiéis de todas as formas possíveis, mas chegar até o povo era algo mais complicado, especialmente considerando que Akhenaton não tinha os, agora desempregados, sacerdotes e sumo-sacerdotes ao seu lado. Os sacerdotes tinham relações antigas com o povo humilde e conseguiram espalhar lentamente a notícia de que os deuses estavam com raiva do faraó.

Nem todos acreditavam muito, devido a falta de provas. A perda de um bebê era pouco, afinal era algo relativamente normal e certamente ficou mais difícil acreditar na teoria de que os deuses tinham amaldiçoado Akhenaton quando, no quarto ano de seu reinado, Nefertiti deu a luz para uma menina.

A pequena Meketaten chegou ao mundo para fazer companhia a irmã e encheu Akhenaton de coragem. Seu plano com Aten tinha funcionado, então ele decidiu ir mais longe. Fechar os templos não era suficiente mais. No ano seguinte, Akhenaton ordenou a destruição de qualquer menção dos nomes dos deuses ou até a palavra “deuses”. Deveria existir apenas um único deus, e este era Aten. No mesmo ano, a terceira filha de Akhenaton nasceu.

Apesar do nascimento ter sido bem recebido, era mais uma menina. Assim, na expectativa de um menino, Akhenaton casou-se com sua irmã e com uma princesa Mitanni chamada Kiya, numa tentativa de apaziguar as relações entre as nações, já que o faraó pouco ligava para o exército. Contudo, a destruição dos templos estava causando uma grande preocupação nos deuses.

— O QUE ACONTECEU COM A MALDIÇÃO QUE LANÇAMOS? — gritava Sobek, irado, para Hórus.

— Está parecendo que não fizemos absolutamente nada. — reclamou Khonsu.

— Tenham calma… — pediu Ísis tranquilamente.

— Com todo o respeito, não é exatamente fácil ficar calmo… — resmungou Anúbis suspirando lentamente — O povo pode ser em maioria analfabeto, mas ele não é cego. Verá que Akhenaton está destruindo os templos e nós não parecemos estar fazendo nada.

— A maldição que lançamos ainda está ativa. — respondeu Ísis — Analisei-a junto com Thoth e Heka. Ela está lá. Crescendo escondida. Aten deve ter notado e por isso conseguiu garantir que Nefertiti desse a luz a duas meninas.

— O fato de só ter nascido meninas é algo da maldição? — perguntou Khnum — Ainda não é exatamente fácil aceitarem uma mulher como faraó mesmo com Hatshepsut no histórico.

— Acho que tem essa possibilidade de aceitarem outra mulher no poder. — disse Hathor — Afinal Akhenaton não é nada bem quisto pela maioria dos sacerdotes e do exército. É só uma questão de tempo até ele cair. Nenhum faraó fica muito tempo sem o apoio dos sacerdotes ou do exército.

— Ele ainda tem parte do apoio de alguns destes, alguns dos maiores generais, que aceitam seus subornos. — lembrou Thoth.

— De toda forma, não acho que o fato de ele só ter tido filhas mulheres seja algo da maldição. — disse Heka, deus da magia e da medicina — A momento, Aten está conseguindo conter a parte que percebeu da maldição. Mas ela parece estar crescendo para todos os lados, pronta para dar seu golpe inicial.

— E quanto tempo vai demorar para esse golpe? — perguntou Nekhbet — Não podemos ficar eternamente esperando.

— Amarna está quase pronta. — disse Hórus — Não importa o que Akhenaton faça, suas ações em Amarna e nas fronteiras diminuem muito tanto a sua popularidade, como a da religião que inventou. Que ache que está ganhando. Quando a maldição explodir de vez, acabaremos com Akhenaton e Aten de uma forma tão óbvia que todos notarão.

— E se tivermos que esperar demais? — perguntou Anúbis.

— Não vamos. — respondeu Hórus — O povo ainda reza por nós, as almas ainda chegando no Salão do Julgamento são prova disso. Assim que o primeiro de nós se sentir fraco ou sem fiéis, deixaremos de esperar a maldição e atacaremos Aten. Tem a minha palavra! Mas lembre que Aten, tendo ainda fiéis, ele renascerá, e mataremos uma vez e quantas forem necessárias. Um caminho bem mais cansativo.

— Mas devo lembrar de algo importante, uma derrota é totalmente inaceitável, não importa qual opção sigamos. — disse Osíris repentinamente — Uma derrota fará com que percamos fiéis. Afinal, uma derrota é um jeito bem claro de dizer quem é mais poderoso.

— Então quanto menos arriscamos, melhor? — perguntou Tawaret.

— Quanto menos arriscamos, melhor. — confirmou Ísis.

— Peço, por favor, para que ninguém haja individualmente. — disse Osíris encarando a todos com um olhar sério, mas de forma mais demorada em alguns como Sobek, Set e Khonsu — Traga as preocupações e ideias que tiverem e iremos discutir. O futuro do Egito será definido por como lidamos com essa situação.

Assim, timidamente, a maldição crescia com Aten não notando nem metade do real poder da maldição lançada pelos deuses. Com os anos que se passaram, Akhenaton se mudou para Amarna com sua família e sua corte. A cidade construída pelas vidas e suor das crianças estava pronta.

Quando completou 31 anos de vida, Akhenaton já tinha cinco filhas. Para total desespero dele, todas meninas. Sua irmã grávida do sexto bebê era a sua esperança. Logo, o faraó estava extremamente ansioso e inquieto quando sua irmã entrou em trabalho de parto. Foi um parto longo e difícil, o que não ajudava em nada a ansiedade do faraó, que apenas ficava presente no cômodo, andando de um lado para o outro, enquanto a irmã fazia todo o serviço com ajuda de duas mulheres.

No submundo, Heka repentinamente surgiu interrompendo os julgamentos. A alma confusa, estranhou a súbita aparição do deus e seguiu-o com o olhar enquanto ele sussurrava algo para Osíris e Hórus corria na direção do pai para saber quais eram as súbitas novidades. Anúbis, que também acompanhava a cena com o olhar, se esforçou para distrair a alma e forçá-la, sempre educadamente, a seguir para o Aaru. Quando ela partiu, Hórus exclamou para todos ouvirem.

— A maldição começou a agir! — declarou Hórus.

— O que aconteceu? — perguntou Anúbis.

— O que acontecerá… — corrigiu Hórus, deixando Anúbis confuso — A maldição está fazendo um teste com o filho de Akhenaton.

— Teste? — perguntou Thoth — Como assim ela está fazendo um teste? Essa coisa é viva? Pois não deveria ser.

— Qual foi a última vez que soltamos uma maldição com tantos deuses juntos? — perguntou Osíris.

— Nunca fizemos isso. — lembrou Anúbis.

— Então é normal acreditar que comportamentos inesperados podem vir. — disse Osíris.

— O que ela fez… ou vai fazer… com o filho de Akhenaton? — quis saber Thoth.

No palácio real, um grito e um ofego cortaram o ar saindo dos lábios da irmã de Akhenaton e logo o faraó gritou de felicidade quando o bebê nasceu e identificou imediatamente que era um menino. O bebê chorava e sua mãe tentava olhá-lo enquanto as parteiras, preocupadas e com olhares estranhos, olhavam para o pequeno bebê choroso. As parteiras olharam a mãe com preocupação, um olhar que a mulher não entendeu, mas logo colocaram o recém nascido no peito da mãe.

— DIGA A TODOS! — exclamava Akhenaton para quem quisesse ouvir, batendo no peito de orgulho pelo nascimento do filho, a quem nem tinha visto direito ainda — DIGA A TODOS QUE MEU HERDEIRO NASCEU! UM MENINO FINALMENTE! EM NOME DE ATEN O BATIZAREI, ASSIM COMO TODOS MEUS FILHOS! A IMAGEM VIVA DE ATEN! TUTANKHATEN!

— Akhenaton… — sussurrou Aten na mente do faraó — Vá ver seu filho… Estou preocupado. Algo está errado. Acho que a maldição conseguiu levemente escapar de mim.

A fala foi tudo que Akhenaton precisava para ficar extremamente preocupado. Ele parou todas as comemorações e foi até as mulheres que sussurravam preocupadas entre si, com a mãe com lágrimas nos olhos abraçando o pequeno bebê. A chegada do faraó acabou com todas as conversas e imediatamente a mãe tentava esconder o pequeno do pai com os próprios braços.

— Irmão… espera… escute… — pedia suplicante a irmã de Akhenaton.

— Eu quero ver meu filho. — declarou firmemente o faraó, que ao menos sabia que o bebê estava vivo, visto que não parava de chorar.

— Irmão… é o menino que queria… isso é suficiente, não é? — perguntou a irmã se desatando a chorar.

— Deixe-me ver a criança! — insistiu o faraó mais firmemente.

Timidamente, a mãe mostrou a criança ao faraó. Ainda ligados pelo cordão umbilical, não havia como ela separar o pequeno dela, mas aquela visão foi suficiente para Akhenaton ficar pálido. O bebê era pequeno demais, magro demais. Só isso já era preocupante o suficiente, mas ainda havia mais. Sua cintura e quadris eram estranhos, mais desproporcionais do que os de Akhenaton já eram, e até levemente tortos.

No submundo, timidamente Tawaret se aproximou, cabisbaixa e com lágrimas nos olhos. Fofocas corriam rápido entre os deuses, vários outros haviam chegado para descobrir exatamente como a maldição tinha começado a agir. Se aproximar demais de Akhenaton para ver com os próprios olhos era arriscado demais, então Tawaret relatou para todos o nascimento do menino.

— Tem vários problemas… — disse a deusa cabisbaixa, ao final de seu relato — Muitos desses, inclusive, não são possíveis de se ver ainda ou irmão piorar com o tempo.

Parte dos deuses comemoravam, outra parte ficava em silêncio sentindo a culpa nos ombros. Era uma jovem alma, inocente, que estava pagando pelos erros do pai.

— Cinco meninas e um menino fraco e doente! — comemorava Set rindo a plenos pulmões — Mesmo se os mortais não verem que Akhenaton nos desagradou, dificilmente esse menino será plenamente aceito como próximo faraó.

— Isso depende se Akhenaton vai conseguir ou não ter outro herdeiro. — lembrou Sobek.

— Não acho que ele vai conseguir. — concluiu Nekhbet dando pequenas risadas.

Anput estava sentada no chão, perto de uma parede, com o mesmo olhar triste de Tawaret, e Anúbis logo se aproximou e sentou-se no chão ao lado da esposa. Anput suspirou demoradamente, mas ambos ficaram sem se falar por alguns segundos antes de ela quebrar o silêncio.

— Acha que exageramos? — perguntou ela.

— Eu… não sei… — admitiu Anúbis.

— Mas só isso, um bebê fraco e doente? — questionava Khnum ainda no centro das discussões.

— Isso é só o começo. — lembrou Heka.

Akhenaton reconheceu que aquele era o primeiro sinal da maldição e por isso, ficou irado. Apesar da raiva, Akhenaton aceitou o pequeno Tutankhaten em sua família, apesar de tudo. Era seu único herdeiro homem, afinal de contas. Tudo o que ele podia fazer era torcer para o menino conseguir sobreviver, ou torcer para ter outro menino enquanto difundia mais ainda a sua religião. A segunda parte do plano não estava dando tão certo, no entanto. Suas esposas estavam, todas as três, com dificuldades para engravidar. Enquanto isso, os deuses se enchiam de ansiedade e tensão com a espera do que a maldição guardava para a família do faraó.

Eventualmente, Tutankhaten fez 1 ano e então 2 anos. As coisas pareciam ir bem, ao menos na medida do possível. Para os deuses, isso significava apenas esperar e administrar as demais coisas, que andavam tão bem que Anúbis e Anput já tinham ido visitar vários lugares em Micenas três vezes. Para Akhenaton, as coisas pareciam mais complicadas.

Tutankhaten tinha visíveis dificuldades para andar, sua coluna era visivelmente torta e seu pé estava começando a se entortar também. Não só isso, às vezes passava a impressão de ter um desenvolvimento mental mais lento que o das cinco irmãs. Todavia, ainda assim, ele era só o começo, pois no mesmo ano em que Tutankhaten fez 2 anos, a mãe dele foi morta de formas extremamente violentas, tomando a todos de surpresa.

No mesmo ano, a mãe de Akhenaton morreu, e também morreu a esposa princesa Mitanni com quem havia se casado, Kiya, e mais três das filhas de Akhenaton. Seis mortes na família real no mesmo ano. Dadas as circunstâncias, e com apenas Akhenaton, Nefertiti e três de seus filhos, sendo um deles um menino claramente deficiente, vivos, todo o povo entendeu de uma vez, os deuses tinham amaldiçoado a linhagem de Akhenaton, ele e sua religião eram perigosas.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Akhenaton teve um bando de menina e aí, finalmente, um menino que nasceu todo deformado e cheio de problema por causa da alta quantidade de incesto da família real. Akhenaton casou com 3 mulheres. Nefertiti (que era sua esposa principal), a princesa mitanni chamada Kiya, e a irmã (que a galera não tem certeza do nome e é a mãe do único filho homem que ele teve). A irmã morreu violentamente em algum ponto aí na infância do filho ainda. Kiya, a mãe do Akhenaton e as 3 filhas dele, morreram no mesmo ano, vítimas de uma praga. Por essas e outras coisas (que ainda vão acontecer), o povo começou a falar que a linhagem dele estava amaldiçoada. Mas… no meio disso tudo… Quero ver quem vai perceber um detalhe kk Caso alguém queira saber, sim, os egípcios já conheciam o conceito de “férias” kk **** REFERÊNCIAS **** Hino à Aten - https://uh.edu/honors/human-situation/survival-kit/study-aids/Hymn%20to%20the%20Aten.pdf Akhenaton - https://www.britannica.com/biography/Akhenaten Irmã do Akhenaton - https://en.wikipedia.org/wiki/The_Younger_Lady Nefertiti - https://www.britannica.com/biography/Nefertiti Tutankhaten - https://en.wikipedia.org/wiki/Tutankhamun#Health_and_death