Notas iniciais
eu comecei a escrever esse cap com o humor meio meh... eu tava ruim, fui ficando melhor enquanto escrevia, aí coisas aconteceram e eu fiquei irritada num nível que eu mal consegui achar um fragmento do livro dos mortos pra por nesse cap. enfim, aproveitem

Que as refeições das ofertas sepulcrais sejam dadas a

mim na presença de Osíris,

como para aqueles que estão no seguimento de Hórus.

Que haja um lugar preparado para mim no Barco do Sol no dia em que o deus navegar. Deixe-me ser recebido na presença de Osíris na Terra da Verdade,

o Ka de Osíris Ani.

~Fragmento Livro dos Mortos

As asas de Thoth faziam sombra na areia escaldante enquanto as buscas por Hórus começavam. Do lado de fora da janela da qual Hórus havia, horas atrás, voado para longe, Anúbis olhava para os céus e suspirava preocupado. Podia não se dar bem com o primo, mas isso não significava que não se preocupava com ele. O cheiro de Hórus acabava ali. E não estava acompanhado. Sinal que ele tinha saído irresponsavelmente sozinho voando pelo céu azul e sem nuvens.

Deixando um suspiro cansado escapar seus lábios, Anúbis invocou exatos doze chacais feitos apenas de névoa negra que enviou correndo para o deserto além em busca de Hórus. Isso é, com exceção de um chacal que tinha uma missão diferente, ir até a casa da família de Shadya e Ahmen e, assim que todos estivessem prontos para isso, levar o corpo de Shadya para o Duat para que Anúbis pudesse prepará-lo para a jornada final da amiga.

O sol lentamente se movia no céu, e tudo de novidade que eles conseguiram, foi a mensagem de que o corpo de Shadya já esperava por Anúbis no Duat. A falta de notícias fez Anúbis invocar mais meia dúzia de chacais e começar ele mesmo a procurar também. Não sabia o que o incomodava mais, a preocupação o olhar de desespero no rosto de Ísis.

A preocupação dos deuses só aumentava, até que um dos chacais de Anúbis avisou-o ter encontrado Hórus. Tendo todos os deuses ajudando como podiam na busca e todos os chacais andando por aí, foi fácil espalhar a notícia e rapidamente os deuses começaram a ir até onde o chacal de Anúbis havia encontrado Hórus.

Anúbis foi o primeiro a chegar simplesmente aparecendo sobre um pequeno morro de areia ao lado do chacal que havia encontrado o primo. Teria passado a mão carinhosamente no topo da cabeça do chacal feio de névoa parabenizando-o pelo achado, mas tal gesto sumiu de sua mente ao ver o estado do primo que, deitado de lado sobre a areia e encolhido como uma bola, chorava.

— Hórus? — disse Anúbis enquanto lentamente se aproximava do primo e o cheiro do sangue prateado que sujava as areias enchia suas narinas.

Conforme se aproximava lentamente do primo, que além de claramente abalado, também estava nu, Anúbis pode ouvir outros deuses chegando, como Anput, Nefertem, Qebui e Shu. Era claro que não havia nenhum dano físico mais no corpo de Hórus apesar do sangue prateado na areia. Contudo, pela cena, não era difícil perceber que os danos não eram tão visíveis a olho nu. Entretanto, antes de Anúbis fazer qualquer movimento muito próximo a Hórus ou sequer tocar nele, Hórus gritou raivosamente:

— NÃO TOQUE EM MIM!

A mão de Anúbis se encolheu imediatamente enquanto olhava para o primo preocupadamente. Não tinha muito contato com ele, verdade, mas não lembrava de ter visto Hórus chorando uma vez sequer desde que era um bebê. Enquanto isso, sem ver muito mais o que fazer ali, com a cabeça mostrando sua reprovação com o ocorrido, Shu foi para longe enquanto Thoth chegava e arregalava os olhos diante da cena.

Também foi praticamente naquele mesmo instante que Ísis chegou junto com Néftis. Enquanto Néftis ficou ao lado dos outros deuses com receio de se aproximar mais, Ísis imediatamente saiu correndo, quase escorregando no declive de uma duna de areia, enquanto ia até seu querido filho.

— Não toque em mim… não toque em mim… — dizia Hórus balbuciando e soluçando enquanto sua mãe delicadamente se aproximava.

Ísis igualmente retraiu a mão. Seus olhos mareados indicavam que ela imaginava pelo o que o filho havia passado. Todavia, o estado de Hórus não abria brechas para perguntas em busca de detalhes. Delicadamente, com toda a leveza e carinho dignos de uma mãe, Ísis fez aparecer um longo pedaço de pano para cobrir o filho.

— Está tudo bem… vai ficar tudo bem… — dizia Ísis gentilmente com receio de tocar no filho enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto também — Estou aqui. Vamos para casa, sim?

Com uma fungada, Hórus afirmou com a cabeça fracamente enquanto os outros deuses se entreolharam silenciosamente enquanto vários sentimentos cresciam em seus peitos. Preocupação, raiva, revolta. No peito de Ísis a revolta era a mais forte de todas. Era pouco dizer que estava completamente irada com Seth. As lágrimas que rolavam em seu rosto eram da mais pura tristeza e desamparo. Queria poder ter evitado que aquilo acontecesse, queria ao menos abraçar seu não-mais-tão-pequeno filho em seus braços, mas nem isso podia fazer pois Hórus não parecia confortável com isso.

Lentamente, todos os deuses foram voltando para seus afazeres depois de deixar Hórus no palácio novamente. Estado um tanto incomunicável, Hórus permaneceu enrolado nos lençóis e peles de leão sobre uma cama ignorando as tentativas de Ísis de consolá-lo. Enquanto isso, nas profundezas do Duat, Anúbis entrava na sala que tinha separado para que pudesse continuar mumificando os mortais quando estava afim disso. Contudo, naquele momento, não havia muitos corpos ali. Havia um chacal cujo corpo e órgãos estavam secando no natrão, um homem de meia idade na mesma situação e, sobre a mesa bem no meio da sala, estava Shadya.

O processo de mumificação, no geral, é um tanto arrepiante, Anúbis sabia disso. Tinha bem noção de como isso deixava ele mais difícil quando era uma pessoa próxima e conhecida. Felizmente, o passo inicial era a limpeza que, facilitada pela magia, durava apenas alguns poucos segundos e, com um mero gesto de mão, Shadya estava limpinha como se tivesse acabado de tomar o melhor dos banhos.

— Eu imaginava que esse momento iria eventualmente chegar… — disse Anput que estava sentada em um elegante sofá que estava ao lado de uma das paredes da sala — Acho que por isso que Qebui também não queria tanto se aproximar deles.

— Isso me faz pensar em quanto tempo irá se passar até que Ahmen, Iset ou até seus filhos estejam nessa mesma mesa. — admitiu Anúbis.

— O tempo continua a andar sem ninguém para o parar. Mas, enquanto ele anda, estamos congelados nele. — disse Anput.

— Temos aqui então o lado ruim da imortalidade. — disse Nefertem entrando na sala um tanto cabisbaixa olhando para o corpo de Shadya — Talvez por isso, no final das contas, seja melhor as amizades e demais tipos de relacionamentos ficarem só entre os deuses. Relacionamentos românticos então, acho que ninguém chegou tão longe assim ainda. Não que eu tenha ouvido falar pelo menos.

— Não acho que tenha sido pensando nessas dificuldades entre mortalidade e imortalidade que muitos criaram esse tabu de que devemos manter distância dos humanos. — disse Anúbis.

— De toda forma, o que fariam? — perguntou Nefertem — Imaginem se não fossem casados… nem se conhecessem, o que fariam se realmente se apaixonassem por um mortal? Ou uma mortal?

— E-Eu… não sei… — disse Anput parando para pensar um pouco — Ainda somos novos mas… a vida dos mortais é muito breve. Curta demais. Acho que… acho que eu daria um jeito de ele virar imortal. Mesmo que todos os outros deuses ficassem loucos por causa disso.

— Mas transformar ele em imortal faria com que ele passasse pela dor de perder literalmente todas as pessoas que se importa. — disse Anúbis — Nós estamos aqui nos entristecendo pela morte de Shadya, assim como aconteceu com Chenzira e Neby, mas se não tivéssemos nos aproximado deles, isso não aconteceria. Além do mais, ainda assim, a maioria dos que conhecemos, além de toda nossa família, é imortal. Não seria um tanto egoísta de nossa parte fazer uma pessoa importante para nós passar por essa dor com a perda de todas as pessoas ao seu redor?

— Então… — disse Anput — Está dizendo que nessa situação, você tentaria encontrar um jeito de virar mortal? Ou não iria nem tentar fazer a situação dar certo?

— Certamente depende do quão profundo e verdadeiro seja. — disse Anúbis dando de ombros — Eu não sei. Abrir mão da imortalidade…. é muita coisa.

— Mas, de toda forma, independente do motivo de termos que ficar separados dos humanos segundo muitos falam, com certeza dói perder pessoas queridas… — disse Anput — Ao menos para os que se importam para isso. Sei bem que não são todos os deuses que se importam com tais sentimentos.

— Se tudo der certo, não perderemos Shadya de fato. — disse Anúbis — Acho extremamente difícil ela não ir para o Aaru.

— Ela poderia até fazer companhia para o Neby também. — disse Anput com um grande sorriso.

— Sim. Embora já tenham vários chacais já brincando com ele e outro mais indo logo logo. — disse Anúbis indicando o chacal que ainda estava sendo preparado na mesa logo ao lado — Ele com certeza não parece estar solitário.

— Mas você vai visitar ele frequentemente, imagino. — disse Nefertem e Anúbis afirmou com a cabeça.

— Sim. Mas tenho minhas dúvidas de se deveria. — respondeu Anúbis — Minhas visitas acabam indiscutivelmente criando uma conexão com o mundo fora do Aaru. Não sei se isso seria bom. As almas lá deveriam viver seu descanso eterno por toda a eternidade sem ter que se preocupar mais com os males intermináveis desse lado.

— Bem, acho que posso dizer que eles mereceram ao menos esse benefício. — disse Nefertem.

— Mas, me diga Nefertem. — disse Anput — É tão raro ver você por aqui. O que veio fazer?

— Apesar de o que aconteceu com Hórus ainda não sair de minha cabeça, estou tentando focar em outras coisas e, no meio disso, percebi que não tive chance de dizer adeus para Shadya. — justificou Nefertem — Não interagi com ela e sua família tanto quanto vocês, mas ela certamente fará falta.

— Era uma grande amiga. — disse Anput com os olhos mareados olhando para o rosto de Shadya que parecia dormir — E foi horrível o que aconteceu com Hórus.

— Sim…. — disse Nefertem concordando com a cabeça junto com Anúbis. O olhar de dor de ambos deixava claro que não queriam pensar no que acontecera com Hórus também.

Eles conversaram um pouco mais e, eventualmente, Nefertem deu seu adeus para Shadya em nome dele e em nome de Qebui também que havia ficado dividir entre ir até lá ou não. Qebui não queria admitir, mas tinha sentido a morte de Shadya, assim como também sentiu a de Chenzira e a de Neby. Uma vez mais, ele pensava em como seria bem mais fácil se simplesmente não se aproximassem dos mortais.

Depois que qualquer visita foi embora, Anúbis começou o meticuloso, e triste, processo de mumificação de Shadya sem quaisquer grandes interrupções enquanto, em seu trono no Salão do Julgamento, Osíris se preocupava com Hórus. Thoth havia informado para Osíris o que acontecera, e Osíris odiava não poder ir até lá tentar confortar o filho. Contudo, como Hórus não tinha falado muito ainda, ninguém sabia dos pedidos de Set pela perigosa espada. No decorrer dos dias que se passaram, às vezes Osíris pedia para Anput checar com Ísis como Hórus estava e, infelizmente, as coisas não haviam mudado muito. Hórus nem saía de seu quarto.

Apesar da óbvia tristeza nos olhos do filho, Ísis não desistia de tentar fazer Hórus voltar a ser ele mesmo. Não queria tocar em detalhes do que aconteceu, apenas queria ver o brilho o olhar dele novamente. Só depois de uma semana que ele começou a sentar em sua varanda e olhar para o jardim com o olhar meio vazio.

Com tudo acontecendo, Anúbis tentava focar ainda mais nos seus deveres. Sabia que não podia ajudar na situação com Hórus, até porquê ele havia se fechado de uma forma que só Ísis conseguia passar pelo corredor que levava ao quarto do faraó. Nas tentativas de Anúbis de focar em seus afazeres, ele acabou se focando nas vozes de preces que chegavam até si. Era exatamente por isso que tinha vários outros corpos para mumificar. Dentre eles, o corpo de Shadya ainda repousava. Afinal, demorava pelo menos um mês para uma múmia perfeita ser concluída. Contudo, foi com surpresa que Anúbis reconheceu a voz de User dentre as preces um dia.

“Erm…. Senhor Anúbis…” dizia a voz de User “Desculpa atrapalhar com todo o seu trabalho mas… uma pequena ajuda seria bem vinda. Pois não sabemos mais o que fazer.”

Vendo isso como uma oportunidade perfeita de desviar sua atenção para outra coisa, além do fato de que não se incomodava em ajudar User, Anúbis deixou a sala de embalsamento para trás ao se dissolver em névoa negra. Ele reapareceu atrás de User que se ajoelhava no chão de sua casa diante do que Anúbis reconheceu como sendo uma estátua dele.

— Esse sou eu? — perguntou Anúbis com leve surpresa.

— Por Rá! — exclamou User levando um susto e se virando repentinamente por causa dele — S-Senhor Anúbis…

— Desculpe pelo susto. — disse Anúbis se agachando para pegar a pequena estátua de si de um palmo e meio de comprimento que havia chamado sua atenção.

Bem, era claro que era ele, podia sentir, apesar de não parecer tanto assim. Até porquê ele estava com cabeça de chacal na estátua que, com uma habilidade ainda mediana, havia nascido ao ser esculpida no pedaço de madeira.

— Você quem fez? — perguntou Anúbis.

— Não. Foi Hehet. — disse User se levantando e limpando a leve camada de poeira que grudou em si quando se ajoelhou e se sentou no chão — Ela está na casa de minha tia cuidando da pequena Shadya. Você… gostou?

— Shadya? — perguntou Anúbis notando o nome.

— É… nós… achamos que era um nome bom considerando… tudo… uma homenagem. Shadya Sat. Esse é o nome de minha pequena irmã. — disse User mexendo as mãos uma na outra ansioso e preocupado.

— Acho que ela iria gostar. — disse Anúbis com um pequeno sorriso ao tentar pensar em como Shadya iria se sentir em saber que sua filha levava o seu nome. Talvez pudesse contar para ela isso quando ela chegasse para ser julgada — E… quanto a estátua. Sim, eu gostei. Mas, não vim aqui para falar de nomes e estátuas. Em quê precisa tanto de ajuda?

— Bem… talvez tenha notado que meu pai não está e que é minha tia que cuida de Shadya Sat. Bem, é exatamente esse o problema. — disse User — Meu pai.

— Onde está Ahmen? — perguntou Anúbis estranhando aquilo.

Quando User explicou a situação de Ahmen e falou o lugar no qual Ahmen estaa e ensinou-lhe como chegar lá, Anúbis não acreditou embora entendesse o motivo. Assim, foi com um suspiro longo e pesado que Anúbis parou diante da singela taberna do vilarejo. Era evidente que o vilarejo tinha crescido com o passar dos anos, pois a taberna era uma novidade ainda, mas novidade mesmo era o fato de, Ahmen estar jogado de joelhos no chão dela apoiando a cabeça sobre um banquinho enquanto um copo de argila cheio de cerveja ia preguiçosamente em direção à sua boca.

— Ahmen… — disse Anúbis com um suspiro ao entrar no lugar ignorando o dono da taberna e outros homens que ali bebiam e indo até o amigo — … o que está fazendo aqui? Não deveria estar cuidando de Shadya Sat?

— Não vê? Estou bebendo. — disse ele soltando um soluço em seguida e bebendo todo o conteúdo do copo de uma vez só e então deitando a cara no banco novamente.

— Posso claramente ver isso. Isso, e que está bêbado também. — respondeu Anúbis.

— Pfff… eu? Bêbado? Mentiras! — disse Ahmen apontando para Anúbis com seu copo — E o bebê está bem… está com a Ishet.

— Iset.- corrigiu Anúbis.

— É. Essa aí. — disse Ahmen indo beber de seu copo mais uma vez e notando com curiosidade que ele estava vazio — Mais um pouco aqui, Djedkare!

Ao ouvir o chamado, um homem alto, careca, barrigudo mas de braço forte se aproximou e botou mais cerveja no copo de Ahmen. O homem, Djedkare, era o dono da taberna e, apesar do olhar de preocupação para Ahmen, enchia o copo do homem com a forte bebida que sua esposa tinha o trabalho de fermentar. Afinal, a preparação das bebidas alcoólicas, especialmente da cerveja, costumava ser uma atividade feminina.

— Não acha que já bebeu demais? — perguntou Djedkare.

— Pff… vai receber por toda essa cerveja. Que diferença faz para você? — perguntou Ahmen bebendo mais alguns goles da cerveja.

— Faz diferença sim. — respondeu Djedkare revirando os olhos e então olhando para Anúbis — Faça seu pai parar, certo? Ele já passou tempo demais aqui.

— Ele não é… — disse Anúbis, um tanto constrangido, tentando corrigir o homem. Afinal, Ahmen não era seu pai. Mas com certeza aparentava ter idade o suficiente para o ser. — Vamos Ahmen…

— Só mais esse copinho… — disse Ahmen levando o copo que ainda tinha um pouco mais da metade até a boca.

Anúbis revirou os olhos, tirou o copo das mãos de Ahmen, bebeu tudo o que ainda havia dentro dele de uma vez só e botou o copo sobre o banquinho. Com olhos arregalados, Ahmen reclamava pela preciosa cerveja pedida enquanto, provavelmente tentando arrumar briga pela perda do precioso líquido, tentava se levantar. As pernas de Ahmen estavam bambas e, por isso, em sua tentativa de levantar ele quase caiu. Mas Anúbis o pegou facilmente e aproveitou a deixa para magicamente puxar do Duat um anel de ouro que havia ganhado alguns anos atrás e jogar para o dono da taberna como pagamento pela bebida.

Tendo Ahmen literalmente em seus braços, ele passou o braço de Ahmen por seu ombro e praticamente arrastou o amigo para fora da taberna.

— Uhum…. mas eu ainda quero beber mais… — reclamava Ahmen.

— Acho que já bebeu demais. — disse Anúbis seriamente.

— Hum… tá chateado porque ele achou que você era meu filho? — perguntou Ahmen com os olhos semiabertos e o rosto vermelho — Faz até sentido né? Você não parece ter…. hum…. quantos anos eu tenho mesmo? 35? 36? 37? Esqueci…. Mas é… você realmente parou no tempo né? Consegue ao menos crescer uma barba completa nesse rostinho?

— B-barba n-não é o assunto do momento, Ahmen! — ralhou Anúbis desviando o olhar.

— Olha, isso soou como um não. — disse Ahmen soltando uma gargalhada interrompida por soluços.

— Deixe de tentar desviar o assunto da conversa. — disse Anúbis.

— Você que tá desviando que não consegue crescer uma barba inteirinha. — disse Ahmen.

— Ahmen, você sequer percebe que, apesar de User ser já um adulto, você está deixando três filhos que acabaram de perder a mãe desamparados? — disse Anúbis.

— Eu…. Eu…. — gaguejou Ahmen soltando então um suspiro — Sim…. Eu sou ridículo.

— Entendo que está tentando lidar com tudo isso e que é difícil, mas tente ao menos não ficar em estado de constante embriaguez. User, Hehet e Shadya Sat precisam de você. — disse Anúbis.

— Isso tudo é só mais uma prova de como nunca fui digno de Shadya. — disse Ahmen — Não sei por qual motivo ela ficava comigo.

— Você percebe que, se ela não quisesse ficar com você , ela só precisava pedir um divórcio, certo? — perguntou Anúbis — Além disso, não sei como essas idéias idiotas passam pela sua cabeça. Parece que nunca parou para olhar o jeito com o qual ela te olhava.

Sem mais palavras para dizer, Ahmen ficou quieto por todo o caminho até sua casa. Lá, foi recebido pelo preocupado User que prontamente agradeceu a Anúbis dizendo que nunca tinha conseguido tirar ele da taberna direito pois Ahmen começava a gritar e chorar. Com as promessas de User de que daria um jeito no pai, e o som de Ahmen vomitando em algum lugar, Anúbis voltou para o Duat.

De volta a sala de embalsamamento, ele olhou para o corpo de Shadya que ainda secava no natrão. Mais alguns dias e poderia terminar a múmia dela. Com o passar desses dias, foi exatamente isso que fez. Enrolou cada faixa de linho com paciência e perfeição e, com um toque final, colocou um colar de proteção na múmia de Shadya. Sarcófagos ainda eram coisas para poucos, especialmente os ricos, mas achou que ela merecia esse serviço adicional também. Por isso, fez um sarcófago para ela no qual, dentre os feitiços de proteção escritos e desenhados, estava o nome dela gravado para toda a eternidade.

Já estava indo atrás de Anput para chamar ela para ir com ele até a casa de Ahmen entregar o sarcófago e fazer, junto a família de Shadya, o enterro dela quando ouviu vozes agitadas vindas da sala onde ficava o trono de Osíris e isso o atraiu até lá para ver o que acontecia.

— ONDE ESTÁ? — gritava Hórus.

— Hórus, meu filho, peço-te calma, por favor. — pedia Osíris.

— Calma?! CALMA? NÃO TENHO CALMA PAI! — exclamou Hórus — QUERO ESSA MALDITA ESPADA PARA ACABAR COM A RAÇA DE SETH! SEI QUE ESTÁ COM VOCÊ! THOTH ASSIM DISSE!

— Thoth… — disse Osíris suspirando olhando para o deus que, envergonhado, desviou o olhar.

— Perdão mas… ele foi bem enfático. — justificou Thoth.

— VOCÊ NÃO FAZ IDÉIA DO QUE EU PASSEI! — ralhou Hórus tentando lutar contra o olhos mareados — ME DÊ ESSA MALDITA ESPADA PARA QUE EU POSSA ACABAR COM A RAÇA DE SETH DE UMA VEZ POR TODAS! ACABAR COM TODA ESSA CONFUSÃO QUE VOCÊS FORAM INCOMPETENTES DEMAIS PARA TERMINAR. NÃO FUI, AFINAL, TREINADO POR TANTOS ANOS PARA ESSE MOMENTO? ME DÊ ESSA MERDA DE ESPADA!

Olhando para o filho com o olhar triste, Osíris estendeu sua mão azulada diante de si e, flutuando sobre ela, apareceu a espada de Seth carregada da energia maligna do mais puro caos. Na tristeza do olhar de Osíris, estava a preocupação pelo o que viria a seguir pois, bem sabia, Hórus não esperaria muito mais antes de partir para o derradeiro confronto contra Seth.

Com o olhar raivoso, Hórus se aproximou sem cerimônias do pai e pegou a espada em suas mãos. Sentiu o caos tremer e se agitar dentro da espada que parecia até gritar lembrando o quão errada era sua mera existência. Mas se era tal maldita arma que precisava para matar Seth no mínimo um milhão de vezes, então que assim seja.

Notas finais
prometo voltar pras outras fics depois do cap seguinte sim, o cap seguinte é o confronto final contra Seth não, ele n é o fim da fic. ## REFERÊNCIAS Hoje quero acrescentar nas notas os livros que eu leio/li para ajudar a construir essa fic (e outras também kk) no geral e não especificamente esse capítulo História Ilustrada do Mundo Antigo, por Dominic Rathbone Tudo o que precisamos saber mas nunca aprendemos sobre mitologia, por Kenneth C. Davis A História da Mitologia pra quem tem pressa, por Mark Daniels A História do Mundo pra quem tem pressa, por Emma Mariott Egito Antigo, por Sophie Desplancques Alexandre: O Grande, por Pierre Briant (Olha o spoiler kkk) O Grande Livro das Mitologias, por Mundo Estranho Guia de curiosidades históricas, por Editora Online Grandes Civilizações do Passado: Egito, por Alberto Siliotti E as referências internetais de sempre. Mumificação - https://www.historyonthenet.com/the-egyptians-mummies Estátuas e preces - http://www.historyembalmed.org/ancient-egypt/egyptian-statues.htm Dicionário - http://karathutmose.tripod.com/dictionary/tjeti.html Tabernas - http://fathom.lib.uchicago.edu/2/21701778/ Cerveja - https://www.ancient.eu/article/1033/beer-in-ancient-egypt/ Livro dos mortos - https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf