A Morte Das Areias do Saara
109 Ponto de Virada
Notas iniciais

O resultado é favorável, o medo dele sobreveio ao príncipe. Ele o abraçou e beijou-o em todos os seus membros. Ele disse-lhe: "Eis que tu és para mim como um filho." Ele respondeu-lhe: "Sou filho de um cavaleiro da terra do Egito. Minha mãe morreu, meu pai tomou para si outra esposa que ela me odiava. Eu fugi dela." Ele deu a ele sua filha como esposa. Ele deu a ele um belo estabelecimento.
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Pouco mais de dois meses se passaram desde a morte de Tutmósis II, o tempo necessário para fazer uma meticulosa mumificação, digna de um faraó. A mumificação, assim como o cortejo fúnebre e as obras finais da tumba de Tutmósis II no Vale dos Reis, foram preparadas por sua irmã, Hatshepsut. Também era Hatshepsut que estava à frente das demais pessoas influentes e sacerdotes e logo atrás do sarcófago na procissão fúnebre de Tutmósis II pelas ruas centrais de Tebas. O problema, era que ao lado dela estava Iset segurando a mão do pequeno Tutmósis III, o herdeiro ao trono de míseros 2 anos de idade e prestes a ser faraó, apesar de ter sido a tia quem fez todas as preparações necessárias para sepultar o falecido faraó. Tradicionalmente, era essa pessoa que teria o trono. Mas também tradicionalmente, o trono era para herdeiros homens.
Hatshepsut sabia que tinha problemas para enfrentar pela frente por Tutmósis III ser o herdeiro do irmão. Aquilo incomodava Hatshepsut enormemente, pois também significava que não bastasse ter passado 13 anos fazendo muito em nome do irmão, agora teria que fazer o mesmo pelo sobrinho até que ele atingisse uma idade que fizesse mais sentido governar por conta própria. Era inevitável ela sentir-se extremamente injustiçada. Mas, por enquanto, ela estava em luto.
Com lágrimas, música e preces, a procissão seguia até a margem do Nilo. No final da procissão, os servos carregavam as coisas que deveriam ser sepultadas com o faraó morto. No Nilo, várias embarcações ajudaram a levar toda a procissão para a margem oeste, deixando Tebas e o crescente templo de Karnak para trás. Cruzando a grande área mais lamacenta e cheia de plantas, árvores e plantações, a procissão fúnebre foi gradualmente recebida pela areia do deserto.
No horizonte que se abria conforme menos árvores conseguiam crescer no solo com cada vez menos nutrientes, um paredão natural de pedra aparecia. Era esse paredão que escondia o Vale dos Reis dos olhos de saqueadores. Mas, conhecendo bem o caminho, a procissão seguiu pelo único caminho entre os muros de pedra que levavam até aquele magnífico cemitério de grandes governantes com tumbas magníficas escondidas na pedra.
Diante da entrada escavada na pedra que escondia a tumba de Tutmósis II, Hatshepsut deixou suas lágrimas rolarem enquanto um dos braços protegia e abraçava a jovem Neferure que chorosamente abraçava a mãe. Diante do túmulo, o caixão foi colocado de pé e um sacerdote vestido de Anúbis não só lembrou a rainha do amigo, como também fez a cerimônia de abertura da boca. Depois de vários rituais e músicas, o sarcófago de Tutmosis II e todos seus objetos foram colocados dentro da tumba e então esta foi selada.
— O papai… vai… ficar bem? — perguntou Neferure entre soluços com o rostinho manchado de lágrimas.
— Vai sim… — respondeu Hatshepsut apesar de não ter certeza disso.
Lembrando-se da vez que esteve ali com o jovem Tutmósis II para enterrar o pai, Hatshepsut soltou um suspiro e enquanto Neferure se agarrava a ela deixando manchas de lágrimas no vestido da mãe. Lágrimas também escorriam pelo rosto de Hatshepsut quando ela direcionou o olhar para Iset, logo ao seu lado, também chorosa e carregando Tutmósis III no colo e abraçando a pequena criança bem apertado.
Eventualmente, Hatshepsut abaixou o olhar para a própria filha e delicadamente pegou no queixo de Neferure erguendo o rostinho da menina para si. Ambas trocaram um olhar vazio de tristeza e pesar antes de Hatshepsut passar delicadamente a mão nas bochechas da filha limpando a trilha de lágrimas.
— Nós veremos ele depois. — disse Hatshepsut — Daqui a muitos anos. Quando for nossa vez.
— Eu vou sentir falta dele. — disse Neferure abraçando a mãe mais forte.
— Eu também. — concordou Hatshepsut olhando ao redor e notando que estavam só esperando elas terminarem para irem embora — Vamos voltar para casa? Tomar um banho gostoso… se entupir de bolo…
A garotinha afirmou com a cabeça triste e silenciosamente e assim, lentamente, com Hatshepsut segurando na mão de Neferure, todos foram voltaram para o palácio que, apesar de cheio de gente, parecia bem mais vazio do que jamais foi. Era normal ter uma festa logo em seguida para se despedir de vez do morto, mas poucos ali estavam com humor para isso, talvez por causa da baixa idade de Tutmósis II, ou o fato que ele deixava para trás um herdeiro de meros 2 anos e que com certeza seria motivo para complicações.
Apesar das promessas de bolos infinitos, a rainha e a princesa pouco conseguiram comer. Os bolos permaneceram esquecidos na mesa diante delas enquanto Hatshepsut sentava-se num sofá, com um copo de vinho na mão, e a filha deitada com a cabeça em seu colo. Atrás delas, encostado no portal que dividia aquele cômodo do resto da festa, estava Senenmut, que não queria deixar elas sozinhas naquela hora difícil, mas também não queria atrapalhar o luto entre mãe e filha.
— O Tut é faraó agora né? — perguntou Neferure referindo-se ao meio-irmão da mesma forma que Hatshepsut um dia se referiu ao próprio meio-irmão.
— Ainda tem algumas cerimônias para fazer mas… praticamente sim. — respondeu Hatshepsut acariciando os cabelos da filha — É tradição…
“Maldita tradição”, pensou Hatshepsut por um segundo, levando o copo de vinho mais uma vez aos lábios.
Em silêncio, as duas ficaram ali ignorando todo o resto da festa enquanto. Neferure recebia cafunés incansáveis e Hatshepsut afogava as mágoas num copo de vinho até que Neferure começou a roncar e babar no vestido da mãe. Com um pequeno sorriso triste tomando conta do rosto ao notar que a filha tinha dormido, Hatshepsut virou o rosto o suficiente para ver Senenmut de pé no portal do cômodo.
— Acha que consegue carregar ela pro quarto? — perguntou a rainha naturalmente num pedido que não era novidade para o arquiteto.
— Era mais fácil quando ela era menor. — comentou Senenmut com uma leve risada, mas indo mesmo assim até a garota.
Por causa do peso, pois Neferure não era mais um bebê, mas sim uma criança de quase 10 anos, Senenmut demorou um pouco para pegar a princesa, que instintivamente se agarrou ao arquiteto. Ignorando toda a festa, os três foram até o quarto de Neferure onde, exausto e deixando um suspiro de alívio cansado escapar pelos lábios, Senenmut deitou a princesa na cama. Com ambas as mãos na base da coluna inicialmente e depois esticadas alto no ar, o arquiteto se alongou um pouco dolorido pelo esforço.
— Ok, acho que essa vai ser a última vez que carrego ela no colo. Não está dando mais não. — declarou ele.
— Está ficando velho? — zombou Hatshepsut rindo, por mais que a risada tenha parecido sem vida e robótica.
— Não vejo você tentando carregar ela. — disse Senenmut sorrindo.
— Eu ia cair no primeiro degrau e derrubar ela junto. — declarou a rainha com o olhar que dedurou a tristeza que assolava seu coração.
— Quer que eu fique aqui essa noite? — perguntou Senenmut acariciando a bochecha dela.
— Não. Obrigada. — respondeu ela com um sorriso fraco que não chegava aos olhos — Quero ficar sozinha por hoje.
Depois de um abraço e sentindo que estava sendo expulso, Senenmut fez o que Hatshepsut pediu e deixou-a sozinha. A rainha, no entanto, primeiramente não deixou o quarto da filha. Ficou alguns minutos lá olhando a criança dormir notando quais traços faciais a criança havia puxado do, agora falecido, pai.
Ouvindo de longe o barulho da festa, Hatshepsut deixou o quarto da filha por uns instantes. O grande complexo do palácio tinha uma área mais reservada para preces e adorações com pequenas estátuas de deuses. Algumas, como a de Amon-Rá e Thoth, tinham mais destaque. Amon-Rá por ser extremamente popular e protetor de Tebas, Thoth por ser o deus favorito de Tutmósis I e Tutmósis II. Mas foi a de Anúbis que a rainha pegou.
Sem ter um pedestal próprio unicamente para pequena estátua, Hatshepsut carregou a estátua de madeira até um pedestal vazio com dois incensos usados ao lado. Ela trocou os incensos, ajoelhou-se, e os acendeu. Silenciosamente, em sua mente, ela pensou e pediu por proteção à alma do irmão, respostas quanto ao seu paradeiro e por uma visita do amigo.
Por alguns segundos, Hatshepsut não ouviu nem sentiu absolutamente nada, mas logo ela sentiu a chegada do amigo atrás de si milésimos de segundos antes de ouvir a voz dele.
— Você sabe que eu não deveria ficar falando o destino das almas. — disse Anúbis.
— Nem uma dica? — perguntou Hatshepsut sem se virar para ele.
— Bem, nem teria como eu dar nenhuma dica já que não julgamos ainda a alma de seu irmão. — respondeu Anúbis — Não faz tanto tempo assim que sepultaram ele. Mas talvez quando eu voltar ele seja o próximo e, depois que ele for julgado, não, não darei nenhuma dica. Desculpe.
— Aquele dia, já faz tempo, quando encontrei você jogando com Neferure treinando para “ganhar de mim”... — lembrou Hatshepsut — Você sabia que não faltava muito para meu irmão morrer e não teve coragem de me contar e por isso tem me evitado desde então, não é?
— …. não foi exatamente falta de coragem, mas sim. — disse Anúbis suspirando pesadamente — Eu só simplesmente não deveria contar.
— Uma parte de mim quer te bater, outra parte concorda com você. — admitiu Hatshepsut finalmente se virando para Anúbis.
Era óbvia a tristeza e desamparo de Hatshepsut e notar isso era desconfortável para Anúbis. Sim, havia evitado ela ultimamente pois, a cada dia que passava, lembrava-se que era um dia a menos de vida de Tutmósis II e que a amiga com certeza sentiria falta do irmão com quem havia convivido desde muito nova.
Analisando a tristeza dela, ele inclinou a cabeça levemente na diagonal por pura mania automática e, enquanto Anúbis notava a tristeza no olhar de Hatshepsut, ele também notava nos olhos dela um pedido silencioso por uma conversa para distrair a atenção.
— Aconselho essa sua primeira parte a não tentar. — disse Anúbis dando de ombros — Não vai dar certo pra ela.
— Não costumo seguir ideias burras, relaxe.
— Mas costuma seguir dicas sem muitas explicações? — perguntou ele sentindo-se incomodado por ela estar de joelhos e ele de pé, então ele sentou-se ao lado dela — Especificamente dicas que falam para ir até o templo de Amon-Rá?
— Sim. Irei amanhã provavelmente. Parece o momento perfeito, não? A grande tristeza de meu irmão ter morrido e a grande injustiça de meu sobrinho de 2 anos ser o novo faraó. Alguma dica para mim quanto a isso?
— Não… você vai ficar bem. — garantiu Anúbis — E depois disso também, tenho certeza.
— E os outros deuses, o que acham? — perguntou ela curiosa.
— Ouvi falar que tem uma nova aposta secreta acontecendo pelas costas de Hórus. — disse Anúbis dando de ombros e fazendo ela soltar uma pequena risada.
— Aposta sobre o que exatamente? Se eu vou me sair bem amanhã?
— Ahm… não. Mais complicado que isso.
— Porquê eu tenho a sensação de que você não vai me contar? — perguntou ela erguendo uma das sobrancelhas.
— Porque não vou mesmo. — respondeu ele fazendo ela revirar o olhar.
No entanto, logo Hatshepsut suspirou profundamente e a tristeza tomou conta de seu olhar novamente mostrando que ela não conseguia ficar muito tempo longe de seu luto.
— Acho que já vou dormir. Provável grande dia amanhã. Obrigada por vir. Desculpe, eu… só queria saber se você realmente sabia desde muito tempo. Não estou com muita vontade de conversar. — disse Hatshepsut notando que não sabia bem o que queria, uma hora queria companhia, e na outra queria ficar sozinha.
— Tudo bem. — respondeu Anúbis.
— Só… fiquei curiosa. Está participando da aposta também? — perguntou ela.
— Ahm… Sim… — respondeu Anúbis sem graça coçando a nuca.
— Me conta se ganhar?
— Conto.
— Boa noite para você então. — disse a rainha.
— Boa noite. — disse Anúbis torcendo para ela realmente ter uma boa noite.
Anúbis sumiu deixando Tebas para trás enquanto Hatshepsut se levantava para ir dormir abraçada à filha. O destino de Anúbis não foi o submundo, mas sim uma praia no que um dia seria a Faixa de Gaza. O mediterrâneo estava calmo e era iluminado por uma fogueira que também iluminava Anput, Seshat e Bes.
Sem música, Anput parecia ensinar Seshat a dançar tal como havia dançado no Ano Novo, a forma antiga da Dança do Ventre. Ao lado delas, aparentemente entediado, Bes estava sentado ao lado de um jogo de Senet apoiado sobre uma prancheta para papiros de madeira.
— É sua vez de jogar. — disse Bes quando viu Anúbis chegando.
— Elas não conseguiram te convencer a tocar para elas dançarem? — perguntou Anúbis.
— Não. — respondeu Anput suspirando decepcionada e revirando os olhos.
— Não aceito passar por uma humilhação dessas. Não sei tocar nada que preste. — respondeu Bes enquanto Anúbis se sentava na areia.
Bes encarou Anúbis esperando a jogada dele, mas esta demorou um pouco pois Anúbis se permitiu alguns segundos para se hipnotizar com Anput dançando, mexendo a cintura e o quadril de formas que pareciam anatomicamente impossível. Talvez ele tenha demorado mais que a paciência de Bes aguentava, pois Bes logo soltou uma pequena tosse falsa atraindo a atenção de Anúbis para o jogo. Anúbis lançou para Bes um olhar levemente irritado, mas jogou mesmo assim.
— Só essa partida porque Tutmósis II deve já estar chegando na fila do Salão do Julgamento. — disse Anúbis.
— Então… — disse Bes enquanto Anput e Seshat riam de alguma coisa — Hatshepsut disse se iria ver Amon-Rá?
— Amanhã, provavelmente. — respondeu Anúbis observando Bes jogar.
— Me conte se souber antes o que vai acontecer. — pediu Bes — Apostei nela também e quero esfregar na cara de Sobek se ganhar. Já é... o quê? A segunda aposta que criam por causa dela. Essa garota, eim?
— Já não bastava aquela primeira aposta de que Hórus ia deixar de ser tão irritante por Hatshepsut ser mulher antes de Tutmósis II morrer... — lembrou Anúbis.
— Também apostei nela. — disse Anput repentinamente sentando-se ao lado de Anúbis e beijando a bochecha dele rapidamente pegando o alaúde que estava esquecido logo ao lado.
— Eu também. — declarou Seshat ainda de pé.
— Vamos, Seshat! — disse Anput preparando-se para tocar o alaúde — Sei que é só um alaúde mas vamos tentar ver o que você consegue fazer com música.
— QUÊ?! Sozinha?! — perguntou Seshat.
— É. Você consegue. — garantiu Anput.
A noite passou de forma bem diferente para cada um, mas eventualmente o sol chegou. Hatshepsut acordou abraçada com a filha adormecida nos braços. Com muito cuidado, ela tentou sair da cama sem acordar a menina. Na primeira erguida do corpo, a rainha notou que tinha bebido demais no dia anterior. Sua cabeça estava doendo.
Descabelada e sonolenta, Hatshepsut gastou algumas poucas horas tentando se deixar mais apresentável, enchendo a barriga com um bom café da manhã e tentando se convencer de que tudo ia ficar bem. Notando que já havia passado do meio dia, ela decidiu que era hora de ir até o templo de Amon-Rá. No caminho, ela passou pelo trono, onde o pequeno Tutmósis III estava sentado balançando as pequenas pernas no ar sob o olhar orgulhoso da mãe.
— Eu falaó que nem papai, mamãe? — perguntou Tutmósis III, nenhum dos dois notando que Hatshepsut estava passando no cantinho do cômodo.
— Sim. — disse Iset com um pequeno sorriso — A sua tia vai te ajudar e te ensinar e aí, quando você crescer, vai governar todo o Egito sozinho.
Hatshepsut não conseguiu evitar bufar levemente antes de sair do palácio com passos pesados e nem um pingo de paciência. Iset nesse momento a notou e lhe enviou um olhar nem um pouco amigável, tal como todos os outros que Iset havia usado para Hatshepsut desde que se casou com Tutmósis II.
Foi somente quando a liteira parou diante do templo de Karnark que Hatshepsut parou para respirar profundamente. Havia percorrido a distância de pouco mais de 3 km que separavam o templo da cidade de Tebas. A liteira parou na, ainda em construção e ainda pequena, avenida de pedra que ligaria o templo à cidade com esfinges, três vezes mais altas que pessoas, nas laterais.
Tal como havia feito várias vezes antes com tentativas de falar com Amon-Rá, Hatshepsut desviou dos sacerdotes e foi para a parte mais profunda e protegida do complexo crescente de templos de Karnak que um dia, depois de sucessivas expansões de vários faraós, se tornaria a maior construção religiosa do mundo até o século 21 e quem sabe por mais.
Na solidão da parte mais profunda de Karnak, Hatshepsut se ajoelhou diante da estátua do deus Amon-Rá posta entre dois incensos de cheiro doce e suave. Estava tensa principalmente pois sentia que não estava sozinha, assim como das outras vezes também não estava. Ela respirou fundo mais uma vez e com as mãos sobre o coração que ainda doía pelo luto, ela disse:
— Grande Amon-Rá, aqui estou. Meu irmão foi para diante de Osíris me trazendo grande tristeza. Agora meu sobrinho tem o trono e terei que governar em seu nome assim como o fiz, cada vez menos disfarçadamente, quando era meu irmão no trono. Sei que é tradição, mas isso me enraivece e me preenche de uma sensação de injustiça. Então, aqui estou. Tal como pediu.
Um clarão forte, que com certeza teria cegado Hatshepsut se não fosse o fato de ter visto de suas costas, tomou conta do cômodo por um segundo. A rainha mal ousava mexer um músculo quando ouviu uma voz atrás de si:
— Algumas tradições de fato merecem ser revisadas, minha filha.
A voz grave veio por trás de Hatshepsut e, imaginando bem quem era, a rainha não teve coragem de virar tão prontamente. Estava congelada no lugar repassando aquelas palavras em sua mente. Ele chamá-la de filha era apenas uma forma de ser atencioso ou uma simbologia, ou era algo mais? Ela engoliu em seco nervosamente quando decidiu que a última opção era fortemente provável, apesar de uma parte grande dela se recusar a aceitar.
— Pode virar-se. Está tudo bem. — declarou Amon-Rá.
Insegura, Hatshepsut se virou encarando o chão mas, timidamente, seu olhar se ergueu para o poderoso, forte e belo Amon-Rá que estava altivamente diante de si.
— Ora, vamos. — disse o deus — Veio aqui tantas vezes em busca de respostas. A hora chegou. Pergunte.
— O que quer dizer com “minha filha”? — perguntou Hatshepsut sem rodeios fazendo Amon-Ra rir.
— Acho que já sabe bem o que significa. — respondeu ele — É tanto filha de Tutmósis I como é minha. Assim como era a primeira escolha dele de sucessão ao trono mas… tradições. Tradições não te deixaram ter o posto que sempre deveria ter sido seu.
— E-Eu sou filha de Amon-Rá… — repetiu ela processando aquelas informações abaixando o olhar para o chão enquanto processava tudo aquilo — E era a primeira escolha de sucessão de meu pai, Tutmósis I, ao invés do meu irmão.
— O que vamos concordar que é óbvio, já que ele se empenhou bem mais em ensinar-lhe o que sabia. — lembrou Amon-Rá — E mesmo que por trás de algum homem, temos que concordar que fez um trabalho maravilhoso também… até agora. É uma mulher esperta e essas informações não são mais segredo. Bem, a segunda já não era tanto.
— Como você e meu pai podem ser meus pais ao mesmo tempo? — perguntou ela.
— A rainha Ahmose ainda é sua mãe, não se preocupe. — garantiu Amon-Rá erguendo a mão e gesticulando de forma apaziguadora no ar — Nada muito anormal. Apenas eu me fundi ao seu pai na concepção. Na verdade, o visitei outras vezes também. Era interessante ver de perto as estratégias de guerra dele. Um verdadeiro comandante. Seus feitos e o grande exército que deixou para você e seu irmão estão de prova. Hórus sem dúvida o adorava também.
— Meu irmão, Tutmósis II, ele também é seu filho? — perguntou a rainha.
— Não. — respondeu o deus com um sorriso triste — Apesar de que era um bom e inteligente rapaz, era apenas mais um rapaz. Uma pena que sua vida não durou muito. Meus pêsames.
— Obrigada… — respondeu ela melancolicamente tal como havia feito milhares de vezes já até então quando diziam as mesmas duas palavras finais.
— Imagino que tenha entendido o que essas informações podem significar para você, não? — perguntou Amon-Rá e Hatshepsut confirmou com a cabeça depois de alguns segundos, mas ele continuou falando com cada vez mais pompa, volume e dramaticidade — Tutmósis II está morto. O único filho homem que ele deixou para trás é uma criança pequena demais. Além disso, já mostrou para todos, principalmente para todos os influentes e poderosos que podem te apoiar, sua incrível capacidade de governar. Pelos próprios deuses, por mim, sabe que é a escolhida do falecido grande Tutmósis I, sabe que é minha filha. Os deuses anunciaram e nenhum sacerdote irá negar. É uma filha dos deuses. Filha de Amon, filha de Rá.
Após alguns segundos, como se fosse um segredo, Amon-Rá acrescentou ainda outra frase dita de voz baixa:
—Também sabe muito bem qual título é acompanhado da denominação de “Filho de Rá”.
— Faraó. — respondeu Hatshepsut com um brilho determinado no olhar de quem estava planejando um golpe de estado.
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