Notas iniciais
olá! olha um capítulo saindo bem no Natal eim? XD feliz aniversário pro Hórus amanhã e Feliz Natal pra vcs kkk bom cap ♥

Ora, aconteceu algum tempo depois disso, que o jovem disse a sua esposa: "Estou predestinado a uma dentre três mortes; ou por um crocodilo, uma serpente ou um cão."

Ela disse a ele: "Vamos fazer com que algumas precauções sejam tomadas."

Ele respondeu: "Eu não farei com que o cão do raio seja morto. Como ele poderia fazer isso?"

~ Fragmento de “Papiro Harris 500”

Morar no meio do deserto não significa que não exista inverno ou frio, mesmo que as estações sejam outras. Mas obviamente o frio não chegava aos níveis de frio do continente mais a norte, bem, ao menos não durante o dia, pois as noites podiam ser bem geladas no Egito apesar de não chegarem a 0ºC. Ainda assim, era um lugar acostumado com o calor e a própria arquitetura das casas, principalmente do palácio e dos templos, que tentava fazer de tudo para o vento entrar, era prova disso.

Contudo, quando o sol nasceu no solstício de inverno, estava de fato um pouco frio. Não o suficiente para se tremer de frio, mas o suficiente para se enrolar nos lençóis e preferir não sair da cama. Principalmente mais ao norte, nas praias banhadas pelo Mediterrâneo, que até mesmo teve que recepcionar a rara chuva.

Mais ao sul, Tebas podia contar com uma temperatura levemente maior e mais confortável enquanto o sol nascia perfeitamente alinhado com o corredor e portal principal do templo de Karnak. Parecia magia como, visto de longe, o sol preenchia o portal centrado e maravilhoso iluminando o templo belamente quanto mais para o alto o astro ia. De fato parecia mágica, mas era apenas matemática, e alinhar suas construções com astros celestes era uma das especialidades dos egípcios.

No palácio real, Hatshepsut estava sentada na cama olhando para um chocado Senenmut. Já fazia vários dias desde que a rainha tivera a importante conversa com Amon-Rá, mas só agora se sentia confortável o suficiente para dividir os detalhe e as ideias com o amante. Afinal, um golpe não se faz da noite pro dia.

— Se eu não te conhecesse, diria que estava louca. — disse Senenmut.

— Não diga isso. — reclamou Hatshepsut.

— Desculpe… — disse Senenmut — É só que… é muita coisa para processar. Ser filha de Amon-Rá, incrivelmente, faz todo sentido. Mas junta a isso tudo você estar aparentemente decidida a pegar o trono para si.

— Não diria totalmente decidida… — admitiu ela — Uma parte de mim se pergunta se não seria muito egoísmo de minha parte?

— Vai ficar mais sei lá quantos anos governando sob o nome de outro? — perguntou o arquiteto — Até que seja descartada quando Tutmosis III ficar velho o bastante e então mandada para sabe se lá onde junto com Neferure para não atrapalhar ele no trono? Ou até mesmo com Neferure sendo usada para casar com Tutmósis III tal como você foi casada com seu irmão?

— Impressão minha ou você parece apoiar bastante a ideia?

— Bem… Não vejo porquê não. Você com certeza seria uma ótima faraó. — admitiu ele — E se isso acontecer, provavelmente nós poderíamos...

— Não. — disse ela prontamente colocando a mão sobre a dele — Quer dizer… não quanto a parte de talvez eu virar faraó mas, sei o que quer dizer. Não. Não poderíamos nos casar. Ou melhor, claro que poderíamos, ninguém iria questionar, ainda mais com Tutmósis II estando morto. Mas… desculpe, isso vai parecer terrivelmente egoísta e mesquinho, mas, se eu quiser o trono para mim, não estar casada facilitaria muito as coisas. Ainda sou mulher afinal de contas e isso pode se tornar complicado se eu quiser liderar como faraó mas ser casada.

— Tudo bem, eu entendo. — disse Senenmut apesar de parecer um pouco decepcionado, algo que Hatshepsut notou — Ah, mas não quero que ache que eu queria ser faraó… não. É muita responsabilidade e também não sou digno nem nada do tipo. Você literalmente nasceu para isso.

Enquanto isso, no submundo, um novo dia também começava preguiçoso, como a maioria dos começos de dia eram. Talvez movidos por aquela preguiça de um começo de um dia frio, os julgamentos não tinham começado ainda.

No salão do julgamento, tal como quase sempre que estava ali, Anúbis se concentrava em mais uma mumificação. A que ele trabalhava agora era de um homem de aproximadamente 40 anos. Ele começava o processo de pacientemente a enfaixar o corpo do falecido mas, com um detalhe que nem sempre acontecia por ali. O morto havia, ainda em vida e bem antes de morrer, perdido uma das pernas. Como o estado do corpo na mumificação era extremamente importante e refletia como o corpo chegaria no pós-vida, era comum múmias como aquela receberem membros protéticos, e era exatamente isso que Anúbis fazia prendendo uma perna de madeira para completar o resto da perna perdida do falecido.

— Ei… — disse Anput do portal de entrada delicadamente distraindo ele da mumificação — Tá ocupado?

Ele olhou curioso. Não era do feitio de Anput fazer tanta cerimônia para entrar ali. Mas não precisou de muito para notar que ela não estava sozinha. Atrás dela, escondido pela parede ainda, havia outro deus. Em alguns segundos, não era necessário muita coisa para perceber quem era o alguém que estava atrás de Anput, pois ele logo notou que uma poça de água começa a se formar aos pés de Anput vindo de trás dela.

— Estou só terminando essa mumificação enquanto os julgamentos não começam, porquê? — perguntou ele olhando da poça, para Anput, tentando perguntar com o olhar o que estava acontecendo.

— Bem… — Anput murmurou olhando para trás.

Ela nem teve tempo de falar e, repentinamente um monte de água entrou na sala de mumificação como um repentino jato d’água acompanhado por Hapi, o deus do Nilo, no momento igualmente feito d’água, que chorava e parecia tão desesperado que não tinha o menor controle sobre a água que jorrava pelo caminho como uma cachoeira ou que usava para formar seu corpo, que agora já estava tão grande que teve que se espremer para passar na porta, que já era bem alta.

— TIO ANÚBIS!! — chorava Hapi.

A água que entrou junto com Hapi era tão volumosa que preencheu a sala da mumificação, molhando completamente as primeiras mesas, felizmente vazias. Mas mais água continuava a jorrar do próprio Hapi com tanta velocidade que fazia o nível da água dentro da sala aumentar lentamente pois a porta não escoava água tão rápido quando o deus jorrava.

Anúbis, desesperado vendo a água respingar e subir tão alto a ponto de ameaçar as mesas de pedra onde repousavam as múmias, voltou toda sua atenção para mágicamente fazer todos os corpos e órgãos secando, desaparecerem dali e irem para um lugar seguro. Se tinha algo que estragava todo o processo de mumificação, era água. Assim, Anúbis ficou um tanto desesperado só de imaginar a possibilidade de uma das múmias ficar tão encharcada quanto ele mesmo estava ficando.

— Eu não sou exatamente o seu tio, Hapi… — corrigiu Anúbis ignorando parcialmente o deus enquanto magicamente mandava para outro lugar os vários vasos canópicos com órgãos mumificados dentro fazendo-os desaparecer como uma fumaça negra, tal como as múmias que ele fez sumir antes.

— Sei que é primo do meu pai… — disse Hapi fungando o nariz sem parar de chorar — Mas meio que também são irmãos de certa forma né? Afinal a vó Ísis criou os dois.

— Argh… — reclamou Anúbis sentindo uma ânsia de vômito só de imaginar Hórus como irmão enquanto constatava, aliviado, que aparentemente tinha conseguido salvar tudo do poder destrutivo da água.

Com tudo seguro, Anúbis finalmente olhou para Hapi com calma. Hapi podia até mudar o tamanho de seu corpo com mais liberdade que os demais deuses, mas, por algum motivo, decidiu que no momento ter 3 metros de altura era aceitável. Hapi era azul, tinha um cabelo castanho que muitos diziam pelas suas costas que lembrava algas marinhas e o visual se completava com olhos e bocas bem grandes e exagerados. O próprio Hapi era bem exagerado e feliz, não passava nenhuma sensação de liderança, ou de força, basicamente ninguém acredita que ele podia um dia ser o sucessor de Hórus, afinal era seu primogênito, mas isso não era algo que ninguém diria em voz alta na frente de Hórus, embora ele mesmo já soubesse disso.

Apesar do Hapi que todos conheciam ser exageradamente feliz, aquele que estava diante de Anúbis parecia triste, aflito, ansioso e preocupado. Isso deixou Anúbis curioso e, quando ele foi olhar para Anput ao notar ela se aproximando, o olhar de preocupação no rosto dela aumentou ainda mais sua curiosidade.

— O que aconteceu? — perguntou Anúbis.

— Tenha calma, Hapi. — pediu Anput — Explique com calma.

Soluçante, Hapi respirou fundo tentando ficar mais calmo. O quão calmo ele estava era facilmente visível pelo fluxo de água que saía dele gradualmente diminuindo enquanto ele sentava-se sobre uma das mesas de pedra que Anúbis usava nas mumificações.

— Eu estou preocupado de perder a aposta de se a Hatshepsut vai pegar o trono… ou não. Já fazem dias que Amon-Rá contou para ela a verdade! … E ela ainda não fez nada! — choramingou Hapi soluçante — Eu gosto dela… e apostei nela.

— Não acho que vai ser uma decisão que ela vá tomar da noite para o dia. — disse Anúbis — E calma… não é como se estivéssemos apostando muita coisa. Não é nada como os humanos apostam que às vezes acabam devendo tanto que viram escravos.

— Tem mais… — avisou Anput tensa ao lado do marido.

— Ele me enganou. — choramingou Hapi com um biquinho.

— Quem? — perguntou Anúbis.

— Khonsu… — disse Hapi desatando a chorar mais uma vez e, como estava tão perto de Anúbis e Anput, acabou encharcando os dois completamente da cabeça aos pés.

Os dois tentaram se afastar de boa parte da área de alcance dos jatos d'água que Hapi involuntariamente jogava, o que não era exatamente tão fácil pois a água tinha sua própria força que empurrava e dificultava os movimentos. Eventualmente, não tinha mais um centímetro de Anúbis e Anput que não estivesse completamente molhado.

— Ainda bem que você não fica descontrolado assim com emoções e poderes. — sussurrou Anput só para Anúbis — Água é uma coisa… Já morte…

— É impressão minha, ou ele por acaso fez uma aposta com Khonsu? — perguntou Anúbis incrédulo e Anput apenas deu de ombros.

— É o que ele me disse antes. — disse Anput — E eu não duvido, apesar de tudo.

— Hapi… calma… — pediu Anúbis dando para o deus segundos para parar de fungar, e para respirar fundo e retomar algum controle — Como exatamente Khonsu te enganou?

Hapi respirou fundo tentando se controlar e isso fez o fluxo de água diminuir novamente. Ele passou as mãos nos olhos tentando secar as lágrimas, o que certamente não era muito efetivo já que o próprio rosto e as próprias mãos eram feitos de água no momento.

— Ele… ele estava zombando que.. a aposta normal que vocês todos fizeram são só com… peças de ouro, prata e jóias preciosas. — disse Hapi cabisbaixo e soluçante — Essas coisas não tem tanto peso para nós quanto tem para os mortais… Acho que todos temos… ao menos um pouco de cada. Mas eu entendo que é só para… acabar um pouco com o tédio que temos às vezes… Aí… Aí.. eu achei que ele tava brincando. Ele falou… rindo… que eu podia apostar… minha alma, meu ren… para fazer uma aposta mais digna.

— Isso é muito ruim… — disse Anúbis torcendo pelo desfecho da história ser que Hapi não apostou de fato o ren com Khonsu.

— Khonsu tem mesmo mania de fazer apostas assim… — disse Anput suspirando — O que ele disse que apostaria?

— Ele disse, ainda parecendo que tava brincando, que pararia de comer corações… — disse Hapi.

— É… infelizmente é uma mania dele também… — disse Anput suspirando pesadamente.

— Eu achava que ele estava brincando! — exclamou Hapi — Por isso falei rindo que aceitava a aposta! Mas ele estava falando sério!

Anput e Anúbis suspiraram e olharam um para o outro pensando no que fazer. Achavam que a chance de Hapi perder essa aposta era pequena, mas o fato de ela existir já era preocupante. As apostas absurdas de Khonsu funcionavam até com deuses e o ren era uma parte importante demais da alma para se perder tão facilmente. Infelizmente, também era o tipo de aposta favorita de Khonsu, o deus da lua.

— E porquê veio até aqui tão preocupado? — perguntou Anúbis — Não posso fazer nada. Hórus com certeza t-

— Não… — disse Hapi interrompendo Anúbis — Não queria que meu pai soubesse. E também… Khonsu selou a aposta com magia.

— Isso… complica tudo muito. — disse Anput suspirando derrotada, se ao menos fosse uma aposta da boca para fora, tudo poderia ser mais fácil.

— Você é amigo da Hatshepsut, tio Anúbis… — disse Hapi.

— De novo, eu não sou seu tio. — reclamou Anúbis suspirando pesadamente e cruzando os braços.

— Tá, mas ainda é amigo de Hatshepsut. — enfatizou Hapi — Não tem como conferir com ela se ela de fato vai dar o golpe pelo trono ou dar uma forcinha? Se ela morrer sem virar faraó, eu estou praticamente morto. Sabe como os mortais são frágeis. Morrem num piscar de olhos. E Tutmósis III já fez todos os rituais para ser faraó. Não quero que seja tarde demais.

— Certo, vou conversar com ela e descobrir no que ela anda pensando. — garantiu Anúbis — Tenho algum tempo antes de começar os julgamentos. Só, por favor, tente controlar sua água. Múmias e água são uma péssima combinação.

— Certo… desculpe… — disse Hapi fungando o nariz.

— Eu vou ficar aqui tentando acalmar ele. — disse Anput puxando Anúbis para um pouco mais longe e cochichando em seu ouvido — É um desespero totalmente justificável. Talvez seja uma boa ideia falar com Serqet.

— Ela vai com certeza brigar com Khonsu até um dos dois acabarem se matando. — sussurrou Anúbis de volta.

— Se ela ganhar, seria interessante. Ele voltaria depois de um tempo mesmo… — disse Anput.

— Infelizmente a lua é um tanto importante. — lembrou Anúbis.

— Tsc. Infelizmente… — resmungou Anput.

— Volto logo. — garantiu Anúbis pegando na mão de Anput e dando-lhe um beijo nas costas da mão da garota, deixando-a prontamente corada e com um sorriso doce e acanhado no rosto que durou mesmo após Anúbis sumir dali.

Anúbis reapareceu no corredor do quarto de Hatshepsut acidentalmente assustando um serviçal que, ao ver o deus aparecendo tão repentinamente, correu desesperadamente na direção oposta. Ele, contudo, não se preocupou com o serviçal que provavelmente passaria o resto do dia traumatizado, apenas secou-se magicamente e ficou escutando as coisas que aconteciam dentro do quarto de Hatshepsut para ter certeza de que poderia entrar.

— Você praticamente treinou a Neferure para isso… — dizia Senenmut — A educação que ela recebeu está mais para a de um herdeiro real do que para uma princesa comum.

— Sinal que a minha educação também não foi muito comum… — ponderou Hatshepsut — … Seja lá quem estiver aí fora, eu estou te sentindo. Pode entrar.

— Claro que está… — disse Anúbis deixando seu esconderijo fraco para trás e entrando no quarto que a rainha dividia com seu amante.

— Não sei porquê ainda me preocupo com a possibilidade de ser algum outro deus. — disse Hatshepsut.

— Acho melhor ainda se preocupar. Não é todo deus que aceita sem problemas o jeito mais… informal… que fala comigo. — avisou Anúbis sentando-se um pouco displicentemente em uma cadeira vazia no quarto.

— A que devo o prazer da visita? — perguntou a rainha enquanto Senenmut mal ousava falar.

— Eu não estou com muito tempo livre então desculpe se tiver que ser direto demais. — disse Anúbis — Alguns deuses estão.. curiosos… quanto a o que vai fazer sobre a revelação de Amon-Rá.

— Tenho uma hora certa para fazer qualquer coisa tal como tive para receber essa informação? — questionou ela mas Anúbis simplesmente deu de ombros — Estava falando com Senenmut justamente disso.

— E…? — perguntou o deus.

— Já tenho um plano para ter apoio e não se voltarem contra mim. — garantiu a rainha — Também tenho argumentos. Acho que só o que me faltava até então era o empurrão final para a decisão, e isso Senenmut acabou de me dar.

— E quanto a Tutmósis III? — questionou Anúbis.

— Não lhe farei mal… — garantiu Hatshepsut suspirando tristemente — É apenas uma criança. Sei que ele representará um risco cada vez maior com o passar dos anos, mas esse é um limite que eu não quero cruzar.

Ambos Anúbis e Senenmut confirmaram com a cabeça. Tutmosis III com certeza era uma ameaça aos objetivos de Hatshepsut. Mas matar uma criança era simplesmente cruel demais, ainda mais uma ligada por sangue. Mas, ainda assim, parecia que Hatshepsut estava pensativa.

— Acho que novamente terei que esperar a hora certa. — declarou Hatshepsut.

— E quando será isso? — perguntou Anúbis curioso.

— É a minha vez de te deixar curioso. — disse a rainha com um sorriso no rosto fazendo o deus revirar os olhos.

— Isso foi baixo… — disse ele sem conseguir evitar um sorriso, e ela simplesmente deu de ombros.

— Relaxe e confie em mim. — pediu Hatshepsut.

Provavelmente aquela resposta não iria acalmar Hapi, por isso Anúbis insistiu o máximo que o pouco tempo que ele tinha livre permitia, mas Hatshepsut não falava nada. Na verdade, parecia que ela ainda não tinha total certeza de qual seria o momento certo, talvez por isso a resposta vazia.

Os meses se passaram até que o sinal que Hatshepsut esperava chegou. Uma pequena confusão e rebelião numa cidade núbia. Não era nada muito surpreendente, mas ela com certeza iria tirar proveito disso.

— Eu chamei hoje vocês aqui pois não aguento mais… — disse Hatshepsut exasperada e preocupada diante dos generais mais importantes, conselheiros e sumo-sacerdotes que respondiam diretamente ao faraó e, no momento, assistiam sua encenação de ansiedade e preocupação — Tentei lidar com as revelações pelo meu sobrinho, mas a situação se complicando na Núbia é uma prova de que não posso mais ignorar as vontades e mensagens dos deuses.

— Q-Quais mensagens e vontades? — perguntou um conselheiro preocupadíssimo — Os deuses tem falado com Vossa Majestade?

— Oh, sim! — exclamou erguendo-se da cadeira e começando a andar de um lado para o outro — O sumo-sacerdote pode confirmar-lhes… ele sabe… tenho ido bastante ao templo de Amon-Rá.

— É sumo-sacerdotisa dele… — lembrou-lhe um general.

— Sim sim, mas… — disse Hatshepsut suspirando longamente — O deus Amon-Rá, em toda sua grandeza e sabedoria falou comigo e me confidenciou que eu era a sucessora escolhida de meu pai, o grande e sábio general Tutmósis I. E além disso, Amon-Rá contou-me que, assim como sou filha de Tutmósis I, também sou filha do grande Amon-Rá!

— O QUÊ?! — exclamou o general olhando assustado para o sumo-sacerdote que, silenciosamente, confirmou com a cabeça.

— Deve ser por isso que as coisas começaram a mudar! — disse Hatshepsut apoiando repentinamente ambas as mãos sobre a mesa e olhando intensamente para cada um dos homens ali — Tentei governar pelo meu sobrinho, afinal é filho de meu irmão. Mas não é ele que os deuses querem no trono!

— Vossa Majestade, és uma mulher… — lembrou o conselheiro.

— Ora, não preciso que me lembre disso. — disse Hatshepsut.

— Vossa Majestade, se me permite… — disse o sumo-sacerdote erguendo o olhar do tampo da mesa para os demais — Recebi também tal mensagem dos deuses, a de que a Rainha Hatshepsut é filha do grande Amon-Rá. Mulher ou não, isso é um grande indicativo de que ela é a escolhida pelos deuses para ser o faraó. Hoje é uma pequena revolta de Núbios, amanhã é o Nilo não inundando ou uma invasão grande. Poucas vezes recebemos sinais tão diretos de suas vontades. Não podemos desagradar os deuses. Será nossa perdição!

— Temos que demonstrar força para os núbios! — ralhou o general batendo na mesa — Uma mulher no poder não fará isso.

— Quem mesmo que fez esse acordo de paz com os núbios para começo de conversa? — perguntou Hatshepsut séria encarando o general — Ah, sim, eu. Sabem muito bem do que sou capaz e avisei do que poderia acontecer se um mero bebê fosse proclamado faraó. Posso não ter tanta força bruta, mas caso ache que consegue fazer um trabalho melhor e que tem coragem de desafiar os deuses, por favor, fale. Ou melhor, deixe o trono inteiramente com uma criança analfabeta e uma concubina. Não precisará da ira dos deuses para ver a desgraça caindo sobre o Egito. Os vizinhos e estrangeiros dentro do território serão suficientes para fazer isso ao ver um reino instável sem líderes preparados para manter tal vasta extensão territorial. E devo lembrar que foi exatamente assim que o Egito quase se extinguiu completamente não muitos anos atrás.

— Tutmósis III mal terminou os rituais de coroação. — lembrou outro conselheiro.

— Basta fazer tudo novamente. — disse ela.

Antes de qualquer um falar qualquer coisa mais, Hatshepsut apenas acenou a cabeça para um dos serviçais por perto. Um silêncio desconfortável e tenso se seguiu enquanto o serviçal saía apressadamente do cômodo e voltava carregando um baú ricamente adornado com detalhes em ouro puro e com a tampa pintada no azul mais celestial, e caro, possível. O ouro sobre o azul marcava o baú com escrituras sagradas, padrões belos e delicados, e com a imagem de vários deuses.

Delicadamente, a rainha abriu o baú num ato tão teatral que atraiu a atenção dos homens que, curiosos, se esticaram para ver o conteúdo do mesmo. Quando seus olhos pousaram sobre o conteúdo, foi como se uma corrente elétrica tivesse passado pelos corpos deles, pois, dentro do baú, estava a coroa do Alto e Baixo Egito, a Pschent. Um símbolo mais velho do que a soma da idade de todos ali.

Era uma coroa dupla, feita da combinação da coroa do Alto e Baixo Egito. A primeira parte, representava o Baixo Egito e era laranja-avermelhado tal como os desertos da região. Tinha o formato de uma cartola curta, sem abas, com o tampo aberto e a parte de trás bem mais alta que a da frente. Na frente da coroa havia ainda um pequeno revelo que se assemelhava levemente ao pescoço e cabeça de uma cobra.

Por dentro do tampo aberto da primeira coroa, saía a coroa branca do Alto Egito. Ela envolvia a cabeça do usuário como um gorro rígido cuja ponta se erguia para longe da cabeça, deixando-a parecida com uma gota.

A rainha olhou para os presentes deixando a imagem da coroa real ser passada silenciosamente. Só quando eles pareciam intimidados o suficiente e tendo entendido o recado, foi que Hatshepsut falou:

— Ou estão comigo, ou estão contra mim. — ameaçou ela com uma expressão séria — E garanto, se forem no segundo caminho, irão se arrepender.

Notas finais
**** REFERÊNCIAS **** Papiro Harris 500 - https://deriv.nls.uk/dcn23/8230/82302705.23.pdf Apostas - https://www.paisley.org.uk/2019/08/the-earliest-forms-of-gambling-in-ancient-egypt/ Khonsu - https://study.com/academy/lesson/egyptian-god-khonsu-mythology-hieroglyphs-facts.html Khonsu 2 -https://en.wikipedia.org/wiki/Khonsu Hapi - https://en.wikipedia.org/wiki/Hapi_(Nile_god) Hatshepsut - https://www.britannica.com/biography/Hatshepsut *************** UM POUCO DE VIDA REAL **************** Alguns já perguntaram o que tem de fidelidade na história quanto aos mitos egípcios, então, vou listar ALGUMAS coisas que lembro aqui agora: — tem de fato uma versão da história do Anúbis que ele é largado no deserto recém-nascido e então criado por Ísis e Osíris — Osíris e Set brigando pelo trono e polarizando os demais deuses nessa briga — Néftis também gostar de Osíris e ter se deitado com ele fingindo ser Ísis — A morte de Osíris depois de ser fatiado num sarcófago que Set deu de presente numa festa e que apenas Osíris cabia perfeitamente porque ele era bem grande — A busca pelos pedaços de Osíris contando, principalmente, com Ísis, Néftis e Anúbis — A busca pelos pedaços de Osíris faltando apenas o pirulito de Osíris mas mesmo assim Ísis conseguindo ficar grávida de Hórus — Anúbis fazendo a primeira múmia, que é Osíris — Os deuses terem sangue de ouro e carne de prata — Set est*pr4nd0 Hórus (horrível, eu sei) — Na luta de Hórus contra Set, Hórus castrando Set e Set deixando Hórus cego de um olho — Deuses dividindo o controle/proteção dos Nomos — Apófis querendo devorar os deuses e eternamente lutando contra Rá que impede que isso aconteça — Todo o rolê dos julgamentos, com vários juízes, a balança que pesa o coração contra a perna da verdade (criada por Ma’at mas guardada por Anúbis) com Osíris sendo o que dá a palavra final — O Livro de Thoth — Alguém ter alguma vez roubado O Livro de Thoth e, por isso, o ladrão, a esposa e o filho foram mortos pelos deuses — Hórus casado com Sekhmet e depois com Hathor. Anúbis com Anput. Thoth com Ma’at. Ísis com Osíris. Bastet e Sekhmet ambas ex de Ptah. — Ísis insinuando que tá na hora de Rá se aposentar — Bes adorado pelos beduínos — Imhotep ser filho de Ptah — Hathor e Sekhmet se juntarem em uma só — Amon-Rá e Tutmósis I serem ambos pai da Hatshepsut — Khonsu antigamente, nas primeiras dinastias, comia corações kkk