Notas iniciais
bem vindos a um cap mto fofo e cheio de açucar. :3 iti malia. cuidado com a diabetes gente na imagem de hoje: um campo com várias flores vermelhas, atrás, plantações verdes maiores de alguma outra planta parecida com longas gramas, talvez seja papiro, no meio delas, tamareiras e, no horizonte, a ponta das pirâmides de Gizé.

Salve a você, filha de Anubis, ela que está nas janelas do céu,

você amigo de Thoth, ela que está nos dois trilhos laterais da escada!

Abra o caminho para Unas para que ele possa passar!

~ Fragmento de “Texto da Pirâmide do Faraó Unas”

Já mais confortável do que estava antes enquanto dava a luz, Anput estava sentada no mesmo sofá onde, meses antes, Hathor conseguiu ver que o bebê que Anput esperava era uma menina. Anput já estava limpa e recuperada, como se nada tivesse acontecido e segurava a pequena Kebechet, que tranquilamente amamentava. Kebechet ainda estava de olhos fechados e a simplicidade do rosto de um recém-nascido não ajudava muito a definir com quem ela se parecia mais, mas isso não impedia os deuses de admirarem a recém-nascida como se fosse uma obra de arte, principalmente seu papai babão.

Anúbis parecia hipnotizado enquanto admirava a filha, enrolada num pano, amamentando. Essa atenção carinhosa era compartilhada por Ísis e Hathor, que até tiveram seu tempo para segurar a criança, mas tiveram que devolver para a mãe quando julgaram que era hora de amamentar a bebê. Como deusa, Kebechet não estava de fato com fome, mas isso não significava que ela não precisava de um pouco de força e carinho vindo tão intimamente de sua querida mãe. Sem falar que comida era gostoso.

Também admirando Kebechet, mas de uma distância mais respeitosa e com o coração menos derretido apesar de inevitavelmente feliz, estavam Hórus, Hapi, Ihy, Duamutef, Imsety, Qebehsenuef, Thoth, Seshat, Bes e Tawaret. Rodeado por tantas pessoas mais altas do que ele, com exceção de Bes, Ihy puxou levemente duas vezes o dedo do pai, atraindo sua atenção.

— Eu posso segurá-la também? — perguntou Ihy quando Hórus olhou para ele.

Hórus se abaixou na altura do filho e, diante da pergunta, os irmãos mais velhos de Ihy ficaram olhando para a cena também.

— Kebechet ainda acabou de nascer, ficar trocando de colo assim toda hora pode ser cansativo e irritante para ela. — explicou Hórus — E também, tenho certeza que os pais dela também querem muito ficar com ela no colo.

— Espere um pouco, Ihy. — disse Duamutef se agachando, tal como o pai, ao falar com o irmão — Num piscar de olhos você já vai estar até brincando com ela.

— Seja um pouco mais paciente. — acrescentou Qebehsenuef dando dois leves tapinhas na cabeça do irmão mais novo.

— Esse nariz… acho que parece mais o de Anput… — disse Thoth tendo uma conversa totalmente diferente com Seshat.

— Você acha? — comentou Seshat, parando uns segundos para analisar a comparação — Não sei…

— Uma coisa é certa nisso tudo. Estão todos muito apressados. — disse Tawaret — Olha tanta gente aqui! Deixem os pais aproveitarem um pouco a bebê.

— Tudo bem, Ihy. — disse Anput notando que Kebechet parecia ter caído no sono no seu peito então, com muito cuidado e delicadeza, tirou a pequena boca dela dali — Vem aqui.

— Senta no sofá para ficar mais fácil. — disse Ísis dando o lugar dela no sofá para o menino.

Com cuidado, Anput passou a adormecida Kebechet para os braços de Ihy e prontamente Hathor já estava ajudando o menino, ensinando-o como segurar a recém-nascida de forma que ela ficasse confortável. Pelo sorriso no rosto de Ihy, era óbvio que ele estava feliz de ter finalmente alguém para brincar.

— Lorde Osíris também deve estar ansioso para vê-la. — disse Anúbis — Já deve estar se questionando por que demoramos tanto.

— Com certeza. — disse Ísis — Ir para o submundo também é uma boa chance de diminuir um pouco as visitas e conseguirem aproveitar um pouco mais, entre vocês, a Kebechet.

— Então depois eu brinco com ela. — dise Ihy olhando para Anput e então para Kebechet num pedido silencioso para que a mãe pegasse a bebê visto que Ihy nem ousava se mexer.

— Pega você para você poder apresentar ela para Lorde Osíris. — disse Anput olhando para Anúbis.

Anúbis, que estava doido para segurar Kebechet por mais tempo, nem tentou argumentar contra a ideia. Com muito cuidado, ele pegou a pequena Kebechet novamente nos braços dando a si mesmo um segundo para agradecer o mini-treino que foi ter carregado Neferure tantos anos atrás. De fato irritada de estar trocando de colo tantas vezes, Kebechet resmungou e se remexeu, provando estar acordada.

— Desculpe, acordamos você… — disse Anúbis carinhosamente

Provando duplamente que estava de fato acordada Kebechet abriu um pouco os olhos, para a surpresa dos novos pais e de quem mais conseguiu ver, que no caso, foram apenas Ihy, Hathor e Ísis já que as costas de Anúbis acabava escondendo a recém-nascida dos outros.

— Oi, Keb… Tudo bem? — perguntou Anúbis ao ver a menina olhando para ele.

— Oi meu amor… — disse Anput se aproximando do campo de visão de Kebechet.

— Eu conheço esses olhos castanhos em qualquer lugar. — comentou Ísis.

— Ela abriu os olhos? — perguntou Bes curioso tentando se aproximar, mas sem ficar muito perto, com medo de ter muita aglomeração ao redor da recém-nascida.

— Conhece mesmo? — perguntou Thoth também curioso, mas preferindo dar espaço para a família mais próxima — Não é como se os olhos de Anúbis e Anput fossem tão diferentes assim.

— Os da Anput são levemente mais escuros. — disse Hathor.

— Vamos conhecer o vovô Osíris? — perguntou Anput acariciando levemente a bochecha de Kebechet.

Kebechet era tão pequena e delicada, que Anúbis até ficava receoso de simplesmente sumir na névoa negra tão familiar e surgir novamente no Salão do Julgamento. Ele deu-se alguns segundos para convencer a si mesmo que seu receio não tinha nenhum fundamento lógico, segurou Kebechet mais firmemente no colo e, no segundo seguinte, deixou a mansão de Hórus para trás.

Quando Anúbis apareceu no Salão do Julgamento, Osíris estava esperando ansiosamente tal como no dia da luta dos deuses contra Aten. Os olhos do deus brilharam quando viu Anúbis chegando com Kebechet e com Anput, Ísis, Hathor e Hórus chegando logo depois. Um caminhou na direção do outro e se encontraram no meio do caminho com Osíris só tendo olhos para a pequena, e ainda acordada, Kebechet.

— Essa é Kebechet. — disse Anúbis.

— Olá, Kebechet… — disse Osíris pegando a menina no colo, que o respondia simplesmente bocejando e, curiosa, Ammit ia a passos apressados e rabo abanando, conhecer a recém-nascida.

— Não é linda? — perguntou Ísis que, mesmo tendo tido sua chance de segurar Kebechet após o nascimento logo depois de Anúbis, se viu com lágrimas nos olhos mais uma vez naquele dia.

— Muito linda. — concordou Osíris, com os olhos mareados.

Eles ficaram lá, simplesmente admirando a menina, até abaixaram ela um pouco para que Ammit pudesse a conhecer também. Ammit cheirou Kebechet, acariciou-a com o focinho e a fitava carinhosamente.

—Vai nos ajudar a cuidar dela, Ammit? — perguntou Osiris.

— Ela é bem pequena ainda, então tem que ser delicada. — disse Anput.

Em resposta, Ammit emitiu um pequeno rosnado amigável balançando o rabo rapidamente de um lado para outro como um cachorro muito feliz. Contudo, eventualmente Kebechet se mostrou novamente irritada de tanto perturbarem o sossego dela falando sem parar por perto e trocando-a de colo toda hora. Assim, Anúbis e Anput concordaram que Kebechet merecia um sossego, ao invés de ser a estrela do dia.

Os três, e apenas os três, foram então até o quarto amorosamente montado para Kebechet. Ela ainda era pequena demais para a cama, mesmo a cama sendo já um pouco menor do que o normal, mas isso não era problema, enquanto Anput segurava Kebechet nos braços, tranquilizando ela mais uma vez, Anúbis montava um confortável aglomerado de lençois, dobrando-os firmemente como um colchão, dentro um grande cesto. Anput então deitou Kebechet no cesto que, apesar de grande, ainda era um mero cesto, mesmo que meticulosamente trançado. A recém-nascida era tão pequena que até o cesto parecia enorme.

Como o lençol de linho que envolvia Kebechet havia se soltado um pouco, deixando o pé dela para fora, Anúbis não resistiu gentilmente apertar de leve aquele pequeno pé antes de cobri-lo novamente. Por um mero segundo, Kebechet parecia pacificamente se aconchegar em seu cesto, até acabar golfando sujando tudo que estivesse perto de sua boca de leite regurgitado. Os novos pais olharam congelados por um segundo, até que Anput começou a rir e pegou Kebechet mais uma vez.

— Vamos tentar de novo né, Kebechet? — perguntou Anput — Mamãe vai te limpar.

— Vou trocar os panos… — disse Anúbis suspirando mas com um sorriso no rosto — Que estavam impecavelmente limpos até agora a pouco.

Os dias seguintes foram uma bagunça de mortos para julgar enquanto havia ainda um bebê para cuidar. Anput até conseguiu pedir para Seshat e Sopdet cuidarem dos deveres dela por um tempo, mas para Anúbis era mais complicado. Mesmo com pessoas morrendo sem parar, como sempre, Anúbis queria ainda passar o máximo de tempo possível com Kebechet. Justamente por isso, Anput costumava passar um tempo no Salão do Julgamento, sentada dentre tapetes e almofadas, com Kebechet no colo e escondidas das almas que entravam por paredes criadas por Osíris tal como o Salão do Julgamento ficou abarrotado, anos atrás, com a morte de Anúbis.

Sempre que tinha um tempo, cada segundo de tempo livre que tinha, Anúbis ia para lá, ficar um tempo com a menina, e era isso que ele fazia agora. Ele estava encostado contra a parede, com as pernas cruzadas, e os dois braços parcialmente esticados juntos no centro e apoiado nas pernas, com Kebechet, com ainda poucos dias de vida, deitada neles como se fosse uma cama e as mãos do pai um travesseiro. Ao lado dos dois, Anput estava simplesmente deitada, aproveitando um momento de relaxamento.

Os olhos de Kebechet exploravam o mundo ao seu redor, suas mãos se mexiam levemente e constantemente iam em direção a sua boca sem de fato colocar um dedo sequer na boca embora parecesse tentar. Ela logo teve algo para atrair totalmente sua atenção, quando Anúbis colocou a língua um pouco pra fora e entre os dentes e os lábios e fez um falso leve barulho de pum. O som imediatamente atraiu os olhos de Kebechet para ele e, de bônus, ainda trouxeram um sorriso ao rosto da criança e um começo de uma risada tão breve quanto um soluço. Era o máximo que ela sabia rir ainda.

Em resposta ao doce sorriso da filha, Anúbis acabou por sorrir também, mas logo repetiu o barulho e a reação da filha se repetiu, fazendo ele se juntar ao leve pedaço de risada. Ele repetiu uma terceira vez o barulho e mais uma vez Kebechet soltou sua pequena e breve risada enquanto o pai admirava a graciosidade da menina.

Os dias que haviam passado até então tinham sido suficientes para a aparência da bebê se desenvolver um pouco. Era óbvio agora que ela havia puxado os olhos de Anúbis enquanto o nariz e os lábios eram claramente da mãe. Ao mesmo tempo, o tom da pele era o meio termo entre os dois e o cabelo estava ainda muito ralo para se deduzir qualquer coisa além da cor, considerando que tanto Anúbis quanto Anput tinham cabelo preto como a noite, a diferença era apenas a textura.

Também no Salão do Julgamento, estavam Osíris e Ìsis. Assim como Anúbis, Anput e Kebechet estavam juntos aproveitando um momento entre eles, Osíris e Ísis estavam do lado oposto do Salão do Julgamento, também aproveitando a presença um do outro.

— Você sabe que ela vai acabar te imitando certo? — perguntou Anput se referindo aos barulhos de pum produzidos com a boca — Quando crescer mais um pouco.

— Tudo bem. — respondeu Anúbis e Anput só começou a rir.

— Ahm… — disse, bem baixo, Nefertem, chegando timidamente com duas ânforas na nos braços.

— Oi, Nefertem! — disse Anput sentando-se.

— Oi… — disse Nefertem inseguro.

— Finalmente veio ver a Keb! — disse Anput sabendo que provavelmente era pra mais do que ver a recém-nascida que Nefertem veio e, por isso, tentava incentivar e normalizar a situação.

— Sim… — respondeu Nefertem meio inseguro sentando-se logo ao lado de Anúbis e Kebechet, olhando para os dois com um pequeno sorriso — Ela é muito linda.

Por alguns segundos, Nefertem ficou em silêncio, nervoso, enquanto Anúbis só o fitava se perguntando o que ele queria além de conhecer Kebechet, pois era óbvio que havia segundas intenções ali. Para ganhar tempo, Nefertem colocou delicadamente as duas ânforas no chão enquanto Kebechet, atraída por uma voz que ela ainda não conhecia, olhava curiosa para ele.

— Eu trouxe um perfume para Kebechet… — disse Nefertem colocando a mão sobre uma das ânforas — É bem suave e leve. Tentei fazer um o mais delicado possível, já que ela ainda é bem nova.

Anput queria que Anúbis que agradecesse, mas ele ficou apenas olhando para Nefertem. Por isso, a deusa deu uma leve cotovelada em Anúbis, que entendeu o que ela queria mesmo sem ter que olhar para ela.

— Obrigado. — disse ele levemente a contra-gosto.

— Também trouxe esse outro perfume… — disse Nefertem olhando para Anúbis cheio de expectativa — É para as múmias. Sei que você gosta. Faz parte do meu pedido de desculpas por… aquele dia… Me desculpe. Eu… deveria ter discordado mais veementemente de Qebui e tentado no mínimo te defende rmas… minha inveja acabou falando mais alto e acabou trazendo várias consequências ruins. Eu também deveria ter vindo falar com você antes e…

— Tudo bem… — resmungou Anúbis.

— Não, não tá tudo bem. — respondeu Nefertem — Eu fui um péssimo amigo e ainda nem me empenhei o suficiente para tentar resolver a situação. Não posso voltar no tempo e mudar aquele dia, mas… eu posso me desculpar e tentar mudar o que acontece daqui pra frente.

— Nefertem… eu não estou nem estava com raiva de você. — disse Anúbis — Chateado com certeza. Então… está tudo bem. Especialmente agora que veio falar comigo.

— Estamos bem então? — perguntou Nefertem — Quer dizer… melhor do que antes? Mereço uma segunda chance? Posso segurar Kebechet?

— Sim, sim, sim e sim. — respondeu Anúbis logo entregando a bebê para Nefertem, que mal teve tempo de respirar aliviado.

Nefertem pegou Kebechet com os olhos brilhando e a segurou com muito cuidado. O deus olhava para a pequena maravilhado, e ela o olhava com uma leve curiosidade. Nefertem ousou colocar o dedo na pequena mão, na esperança de que esta se fechasse, agarrando o seu dedo, e assim o fez.

— Quem é a coisinha mais linda de todo o mundo? — perguntou Nefertem.

— Não sabia que gostava tanto de criança. — disse Anput e, ao ouvir a voz da mãe, Kebechet passou a ignorar Nefertem e olhou para Anput.

— Ah nem é isso. — disse Nefertem — É porque ela é muito fofa mesmo e faz tempo que não temos um bebê entre nós. Quando pensa em começar a usar Kajal nela?

A pergunta de Nefertem se referia ao, até então, chamado Kajal e atualmente mais conhecido como Kohl. Kajal era a maquiagem negra, meticulosamente preparada com ingredientes que, não só eram padrões para maquiagens na época, como também outros que possuiam propriedades curativas e mágicas. Era usada ao redor dos olhos por todos, independente de gênero e idade, como uma proteção física e mágica, seja contra os minúsculos grãos de areia que viajavam com o vento e podiam entrar no olho de alguém, seja contra maus-olhados.

—Ela ainda é muito pequena. — disse Anput — Talvez daqui umas semanas ou meses. Quando ao menos for mais fácil passar nela.

— Faz sentido. Faz sentido. — concordou Nefertem.

— Estou até com medo de perguntar mas… e Qebui? — perguntou Anput e, ao som mais uma vez da voz dela, Kebechet começou a chorar, cansada do colo nada familiar de Nefertem.

Prontamente, seguindo o recém-adquirido super-poder materno, Anput num piscar de olhos estava com Kebechet no colo a tranquilizando com o toque e com a voz. A garota parou de chorar quase que imediatamente ao reconhecer a voz que tanto ouviu quando ainda estava no útero da mesma pessoa que agora a segurava amorosamente.

— Poxa, Kebecheeeeeet… — resmungou Nefertem fazendo um biquinho mas, com um suspiro, logo se recuperando — Sabe como Qebui é teimoso. Tentei falar com ele mas… aqui estou eu, sozinho.

— Seria pedir demais se Qebui também viesse, com certeza. — resmungou Anúbis.

— Falando de pedir demais…. — disse Nefertem chegando até a morder o próprio lábio de leve ante ao receio de se deveria ou não perguntar o que queria saber — Néftis e Set já vieram conhecer Kebechet?

— Néftis até sim. — respondeu Anúbis — Mas Set não se interessou tanto. Ainda bem. Só viu ela de longe.

— Complicado... — disse Nefertem, sem saber mais o que falar — Mas… como está indo? Bebês são famosamente difíceis de cuidar.

— Sinceramente, não sei como as mortais fazem. — admitiu Anput — É cansativo mesmo.

Nesse momento, Hórus entrou com Khnum no Salão do Julgamento. Achando que não era nada demais, ninguém prestou atenção. Afinal, deuses entravam e saíam dali constantemente quando não estavam acontecendo julgamentos.

— Se eu puder não ter que aturar ele novamente, seria muito melhor! — dizia Horus para Khnum, acabando por atrair a atenção de todos sedentos por uma fofoca.

— Aturar quem? — perguntou Anúbis, curioso com o assunto da conversa.

— Zeus! — respondeu Hórus exasperado.- Estava resolvendo algumas coisas com ele e… o jeito que ele fica nos subestimando ao falar é insuportável. Pelo menos não acho que terei que falar com ele de novo por algum tempo.

— Conseguiu ser diplomático até o fim ou perdeu a paciência? — perguntou Anúbis.

— De fato perdi a paciência, mas consegui ser diplomático até o fim. — respondeu Hórus — Não quer ir no meu lugar da próxima vez?

— Com certeza não. — respondeu Anúbis — Divirta-se.

— Aliás, Khnum… — disse Hórus — Você tinha ido ver a situação de Aten, certo?

— Certo. — afirmou Khnum — O maldito ainda está lá. Nada de ter desaparecido.

— Está sem dúvida demorando bastante. — opinou Hórus parando para pensar um pouco na situação e, enquanto isso, acabando por percorrer os olhos pelos deuses ali presentes, acabando por demorar um pouco mais em Kebechet, que começava a cair no sono no colo da mãe — Ah! Isso me lembra. Zeus mencionou algo que talvez achem interessante.

— O quê? — perguntou Anúbis.

— Perséfone está grávida. — disse Hórus.

— O quê? Sério!? — perguntou Anput.

— Foi o que ele disse. — respondeu Hórus — Aparentemente está ainda no começo. Não sabiam?

— Faz alguns meses que não vemos ela e Hades. — disse Anúbis e Anput confirmou com a cabeça.

— Sim… minha última vez vendo Perséfone foi aquele dia que me encontrei com ela e Lelwani em Micenas. — disse Anput — Eles têm estado bem ocupados terminando de arrumar o submundo.

— Claramente não estavam tão ocupados assim… — resmungou Hórus.

— E também estamos bem ocupados nos últimos dias. — disse Anúbis olhando para a quase adormecida Kebechet no colo de Anput.

— Mas que bom! — disse Anput — Kebechet vai ter mais alguém para brincar.

— Ihy também vai gostar disso… se ele puder se juntar também. — disse Hórus.

— Depois vou tentar encontrar Perséfone. — disse Anput já feliz pela amiga.

— Falando em bebês… — disse Nefertem — Acha que Tutancâmon está perto de ter um herdeiro? Ouvi falar que aquele conselho dele é… sei lá…

— Irritante? — perguntou Hórus suspirando pesadamente — Ay certamente adoraria ser faraó, pra mim, ele deixa isso bem claro. Uma pena que Tutancâmon tenha escolhido Amon-Rá e bem… não acho que ele esteja bem o suficiente para governar com Tutancâmon.

— Mas ele vai algumas vezes falar com o garoto, não? — perguntou Khnum.

— Ah sim. Vai. — afirmou Hórus — Eu ou Ísis acabamos indo junto também. Mas Tutancâmon ainda é um pouco novo e ingênuo. Ainda um pouco novo demais para ter um herdeiro também.

— Se fossem mais abertos para mulheres no poder, não teríamos esse problema. — disse Ísis, deixando sua conversa com Osíris de lado — Afinal, Tutancâmon é o caçula.

— Infelizmente, conseguiram apagar parte do que Hatshepsut fez. — disse Hórus — Aqueles que vieram depois dela fizeram de tudo para tirar essa ideia do povo. Sinceramente, achei que apesar das ligações com Akhenaton, Nefertiti fosse conseguir ficar mais tempo e mais veementemente no poder.

— Mas… Tutancâmon sequer vai conseguir ter um herdeiro? — perguntou Anúbis — A maldição ainda está ativa, afinal de contas.

— Ah sim, ainda tem isso. — respondeu Hórus — Na minha opinião, o ideal, no final das contas, seria uma nova família real. Essa linhagem acho que já deu. Akhenaton conseguiu estragá-la.

— Nesse ritmo, vai ser isso que vai acontecer. — disse Khnum — Não duvidaria se Ay desse seu jeito de virar faraó.

— Isso se ele durar tanto assim. — disse Ìsis — Já era conselheiro de Akhenaton. Não é mais tão novo assim.

— Ele irá durar tanto assim? — perguntou Hórus olhando para Anúbis que simplesmente afirmou com a cabeça.

— Tutancâmon está bem longe de ser saudável então… — disse Anúbis deixando a frase no ar.

— Acha que ele vai morrer antes do que Ay? — perguntou Nefertem.

— Tem essa chance. — admitiu Anúbis — Mas também pode ser que não. Ambos na melhor das hipóteses ainda tem alguns anos pela frente. Quase a mesma coisa. Depende ainda da vida que eles vão levar e da sorte.

Com o questionamento ainda em aberto quanto quem, dentre Ay e Tutancâmon, morreria primeiro, os meses se passaram. O suficiente para Kebechet estar a alguns poucos dias de completar 8 meses de vida. Longe de sua bebê no momento, Anúbis se viu dando um tempo para fazer algo diferente e relaxar, justamente intercalava com Anput os momentos para isso visto que era difícil e cansativo cuidar de um bebê.

Naquele dia, Anúbis havia ido até o submundo Micênico e estava com Hades jogando algum jogo de tabuleiro micênico cujo nome e regras o tempo iria apagar mas que um conjunto de conchas parecia fazer parte. Eles estavam jogando dentro da mansão de Hades, que agora estava no centro de um submundo praticamente completo. Cada um sentava numa cadeira dura de madeira, mas elegante, com o encosto para as costas bem alto e entre as duas cadeiras, havia uma mesa baixa, onde estava de fato o jogo.

— Poseidon de fato não parece ter interesse em manter o submundo. Ainda mais agora que eu organizei tudo. — dizia Hades enquanto fazia sua jogada — Só falta agora os mortais concordarem nessa organização também. Mas aos poucos está indo.

— Menos mal. — disse Anúbis enquanto desviava o olhar pela janela, onde conseguiam ver Cérbero, se esticando com as patas sobre a mansão para ver o dono jogando.

O tempo tinha feito muito bem para o cachorro. Estava enorme. Tão enorme que conseguia colocar as patas na parede da mansão para ver Hades jogando pela janela, o que não era um feito pequeno, considerando que o jogo acontecia no 1º andar e não no térreo.

— Por acaso o Cérbero finalmente parou de crescer? — perguntou Anúbis.

— Acho que não. — respondeu Hades olhando para o animal enquanto Anúbis fazia sua jogada — E como está Kebechet?

— Enorme. — respondeu Anúbis — Bem, não enorme como Cérbero, claro. Mas cresceu bastante, obviamente. Aprendeu a engatinhar também.

— Perséfone está enorme também. — comentou Hades — Não deve faltar muito e vou estar na mesma situação que você, tendo que cuidar de bebê e uma menina também logo. Ai esses bebês que as esposas inventam…

— “Que as esposas inventam”? — repetiu Anúbis quase deixando escapar uma risada — O primeiro a ter a ideia fui eu mesmo.

Hades olhou para Anúbis com uma leve sombra de surpresa passando pelo seu rosto quase inexpressivo e acabou por negar com a cabeça e voltar para o jogo. Contudo, isso não significava que o assunto havia acabado por aí. Hades abriu a boca para dizer algo mais, mas, no mesmo momento, alguém bateu apressadamente na porta. Não havia muitas pessoas que se interessavam ou sequer podiam ir para lá daquele jeito, sem avisar, então a lista de prováveis pessoas era limitada.

— Um momento. — disse Hades antes de sumir dali.

Movido pela curiosidade, Anúbis se levantou e foi tentar, discretamente, ver quem era. Ele foi até a janela onde antes Cérbero estava cumprimentado-lhes e colocou a cabeça facilmente para fora, dada a inexistência de vidro no lugar. O que viu foi Cérbero, balançando o rabo de um lado para o outro, alegre com a língua para fora, ao lado de Hades recebendo o que eram claramente Anput e Kebechet, com Kebechet agarrada a boneca que uma vez foi de Merti.

Imediatamente, Anúbis fez assim como Hades e sumiu dali, reaparecendo logo depois diante das duas. Ninguém ali, nem mesmo Cérbero, ficou surpreso com a súbita aparição.

— Está tudo bem? — perguntou Anúbis preocupado pela súbita vinda das duas.

— Tem algo acontecendo no meu Nomo que gostaria de ir checar e, como pode ser violento, melhor não levar a Keb. — justificou Anput para o marido — Ficaria com ela um pouco?

— Óbvio. — respondeu Anúbis esticando as mãos para pegar a criança, que prontamente aceitou ir para o colo do pai gritando um gracioso “Baba” no processo.

— Ela acabou de mamar. Leva ela pra tomar um pouco de sol também. — pediu Anput apressadamente — Não gosto disso dela ficar muito tempo no submundo.

— Certo. — respondeu Anúbis — O que está acont-

Anúbis nem teve a chance de terminar de perguntar o que acontecia no Nomo que Anput tomava conta, ela logo sumiu de lá deixando Anúbis sozinho com Kebechet e Hades.

— Mama… — resmungou Kebechet triste, fazendo um biquinho.

— Mamãe já volta. — respondeu Anúbis olhando para a filha com um sorriso carinhoso.

Ela tranquilamente olhou de volta para ele e logo ela abriu um sorriso, exibindo seus únicos dois pares de dentes, um par em cima, ainda timidamente nascendo, e outro embaixo. Agora com quase 8 meses, a aparência de Kebechet havia se desenvolvido bastante. Além de exibir agora seus dois pares de dentes, o cabelo dela havia crescido o suficiente para que fosse possível ver sua textura.

Provando que tinha puxado suficientemente sua mãe, seus cabelos se enrolavam em cachinhos que, na verdade, eram menos densos que os da mãe, que tinha cachinhos com circunferência bem menor que os da filha. A mistura com Anúbis claramente deixava o cabelo de Kebechet com cachos de tamanho maior. Tendo deixado os primeiros dias de vida para trás, também significava que agora Kebechet estava suavemente com Kajal adornando-lhe os olhos como proteção física e mágica.

— Devo supor que, se Anput é “Mama”... — disse Hades — Você é o “Baba” que ela disse antes?

— Se já está entendendo linguagem de bebê, já está indo bem na preparação para quando Perséfone der a luz. — respondeu Anúbis.

— Hum… — resmungou Hades olhando para Kebechet.

Estando numa fase de timidez repentina e apego recém-descoberto, Kebechet se escondeu, abraçando o pai pelo pescoço com um braço, enquanto o outro abraçava a boneca. E ali, no pescoço do pai, Kebechet acabou escondendo o rosto também.

— Vai querer terminar o jogo ou vai já em busca do sol? — perguntou Hades.

— Vamos terminar. — respondeu Anúbis — É o tempo que o sol fica ao menos um pouco mais fraco.

— E existe algo como “sol fraco” no Egito? — perguntou Hades voltando para dentro da mansão seguido por Anúbis.

— Realmente depende da época do ano e da parte do dia. — respondeu Anúbis.

Eles voltaram para onde jogavam e, com Kebechet confortavelmente no colo de Anúbis mordendo o braço da boneca, o jogo continuou. Kebechet por vezes tentava se esticar para agarrar alguma das peças com sua habilidade favorita de agarrar as coisas com suas pequenas mãos e colocá-las na boca, exatamente pelo destino final que as coisas costumavam ter nas mãos de Kebechet, Anúbis não deixava ela pegar as pequenas peças de conchas do mar.

Não poder brincar de colocar as peças do jogo goela abaixo, rapidamente deixou Kebechet com raiva. A menina começou a espernear e chorar irritada, o que eventualmente fez Anúbis desistir de terminar o jogo com ela no colo. Hades concordou em adaptar um pouco e eles trocaram o jogo para o lindo jardim de Perséfone, onde conseguiram jogar enquanto Kebechet brincava com Cérbero. A menina ria e engatinhava tentando acompanhar o enorme cachorro, que apesar do tamanho, era delicado com a bebê e estava feliz de ter uma companhia para brincar.

Ainda assim, Anúbis constantemente ficava de olho para ter certeza de que ela não colocaria nada na boca, por mais que brincar com Cérbero aparentemente a distraísse bem o bastante. Com o término do jogo e o assunto em dia, Anúbis pegou Kebechet para cumprir a promessa de ficar um tempo no sol com ela.

Notas finais
** UM POUCO DE VIDA REAL ** Gente, favor não julgar a versão antiga do lápis de olho na Kebechet tá? kkk é algo muito cultural que alguns povos fazem até hoje depois de ter se espalhado do Egito. O Egito às vezes ainda faz também. Espero que no texto fique claro que não é algo que era considerado estético, mas sim por proteção. Os egípcios levavam o mau-olhado muito a sério e acreditava-se que olhos sem maquiagem eram vulneráveis ao mau-olhado. Não é apenas por esse motivo, os antigos egípcios sofriam de muitos problemas de saúde, como infecções oculares por causa da poeira do deserto, bactérias do Nilo e insetos. Eles incluíram ingredientes naturais na fabricação de kohl para curar essas infecções oculares e melhorar sua visão. Dentre os ingredientes, ainda havia ainda uns que funcionavam como protetor solar.