A Morte Das Areias do Saara
1 O oásis das terras vermelhas
Notas iniciais

"Quanto às coisas que os deuses odeiam, são atos de engano e mentirosos. Quem passa pelo lugar da purificação dentro da câmara Mesqet é Inpu (Anúbis), que é endurecido pelo cofre que contém as partes interiores de Osíris."
~ Fragmento do Livro dos Mortos
Muito se fala sobre as conquistas e mistérios da civilização egípcia, um Império milenar que floresceu nas margens do Rio Nilo e construiu monumentos que permaneceram a maravilhar e intrigar as pessoas por séculos e séculos, enquanto eram lentamente devorados pelas areias do deserto e do tempo. Ambas afetaram o grande império egípcio levando ao esquecimento muito mais do que somente as cores que adornavam seus monumentos e o idioma que falavam. O império egípcio e seu povo eram profundamente afetados e fascinados pelos seus deuses, centenas de deuses de diversas cores ou até mesmo com partes do corpo de diferentes animais que protegiam, regiam ou condenavam o Egito.
Há muito tempo, antes de o mundo ver duas guerras mundiais, antes de novos continentes serem descobertos, antes de o Império Romano existir, antes das pirâmides serem construídas, as areias do Saara, as águas do Nilo e suas margens pertenciam aos deuses. Os deuses ali viviam cumprindo suas funções na natureza, reinando, lutando ou simplesmente existindo. Dentre eles, existiam quatro irmãos, todos descendentes daquele que havia sido o primeiro governante, o primeiro faraó dos deuses. Tendo assim tanta importância mesmo dentre tais seres imortais, os irmãos viviam em dois palácios, um para cada casal, pois eles praticavam uma relação incestuosa entre si. Esses irmãos eram Osíris, que era casado com Isis, e Set, que era casado com Néftis.
No entanto, só por serem irmãos, não se podia dizer que os quatro se entendiam. Osíris e Ísis de fato se amavam. Osíris era afetuoso com Ísis e também com Néftis, mas tinha muitos atritos com Set. Alguns deuses justificavam que talvez seja porque Osíris era visivelmente o favorito de Geb, o atual faraó dos deuses. Sendo assim, era muito provável que Osíris fosse o sucessor do trono quando Geb o abandonasse. O que, sendo um deus, podia demorar mais centenas e centenas de anos. O motivo, no entanto, ia mais além disso, embora de fato o desejo de Set pelo trono fosse algo a ser incluído. Set era o oposto de tudo aquilo que Osíris representava. Osíris era um deus adorado por todos os outros enquanto Set não. Set era mal, era o caos, a seca, a guerra, o senhor das terras avermelhadas do deserto. Alguém pode usar em defesa de Set o fato de que ele conseguiu casar com a irmã, Néftis. Isso dificilmente seria um argumento. Apesar de as mulheres no Egito Antigo terem total liberdade de pedirem um divórcio, Néftis não o fazia. E não, Set não era um bom marido ou irmão para Néftis. Néftis temia o irmão-marido.
Certo dia, quando o sol queimava forte sobre as areias do Saara, Set havia partido para cumprir seus deveres e resolver eventuais problemas ao lado de Rá, o deus sol. Logo, Néftis se viu sozinha no palácio e ela usou essa oportunidade para correr até o palácio próximo onde a irmã morava. A roupa longa de linho branco da mulher esvoaçava pelo chão de pedra calcária branca enquanto deixava para trás o elegante palácio ricamente pintado com várias cores e cenas que contavam as histórias dos deuses e sustentado e adornado por várias colunas ao atravessar pelo seu enorme portal de entrada de mais de 3 metros, mas que não era nada grande ao se comparar com a grandiosidade total do conjunto.
Néftis encontrou Ísis sossegadamente sentada na beirada de uma das piscinas rasas que ficavam na entrada do palácio dela. A bela mulher de pele marrom, cabelos negros e corpo escultural, usava a piscina e a calmaria do momento para refrescar os pés.
— Néftis, minha irmã, o que a traz até aqui? – perguntou Ísis curiosa, mas logo notando no olhar de desamparo e preocupação de Néftis que as coisas não estavam nada bem. A deusa se levantou e foi até a irmã tocando-lhe os ombros desnudos e a fitando com preocupação – O que houve?
— Ísis, acabo de descobrir algo terrível! – exclamou Néftis com os olhos a beira das lágrimas. A chorosa mulher de pele ocre e cabelos negros havia crescido como uma mera sombra da grandiosidade que cercava Ísis. No entanto, apesar de Set invejar a grandiosidade de Osíris, Néftis amava a irmã. Se havia algo, no entanto, que Néftis tinha inveja de Ísis, era o fato de ela ter conseguido ganhar o coração de Osíris.
— E o que seria essa coisa? Conte-me para que possa lhe ajudar! – perguntou e insistiu Ísis totalmente preocupada.
— Descobri que estou grávida. – disse Néftis.
— Grávida? – perguntou Ísis parando um pouco para pensar nisso – Mas... Isso é ótimo não? Não vejo onde está o problema.
— Não vê Ísis? Esse bebê... Ele é filho de Set! – disse Néftis — E se ele for igual ao pai?
— Bem... Entendo que Set não é exatamente o deus mais simpático, mas...
— Não. “Mas” não. Você não entende. Não mora com ele! Ele é mal, cruel, me maltrata e a todos que não vê serventia.
— Porque permanece com ele então? – perguntou Ísis começando a se exaltar – Reclama e reclama dele, mas nada faz para mudar nem tenta se divorciar!
— Com quem eu ficaria se não com ele? – perguntou Néftis escondendo o fato de que realmente queria era se deitar com Osíris. E na verdade, que a irmã não soubesse, realmente fez isso uma vez se disfarçando da própria irmã.
— Ora, tem outros deuses solteiros por aí ou pode ser uma das outras esposas de outro. Alguns aceitam mais de uma. – sugeriu Ísis.
— Outros deuses...?
— Sim! Deixe de ouvir essa história que nosso avô Shu tem de querer deixar o sangue da família puro.
Néftis parou um pouco para pensar nisso, mas negou com a cabeça como se quisesse deixar as ideias escaparem de sua mente. Sabia que o homem que realmente queria era Osíris, mas também sabia que nunca poderia o tê-lo para si, e isso destruía o seu coração. Além disso, falar era fácil. Do que adiantaria se divorciar de Set se ele podia facilmente transformar sua vida num completo inferno. E uma vida de total desespero e cheia de horrores pode ser bem mais do que um pesadelo quando se é imortal
— E-Eu... Vou pensar no que fazer... – foi tudo que Néftis disse antes de virar as costas para a irmã.
Ísis ainda disse algo para Néftis, mas ela nada ouviu. Já não prestava atenção nas palavras da irmã, estava perdida em seus próprios problemas e devaneios. Néftis seguiu andando, deixando para trás o chão de pedra e logo pisando em grama e lama conforme andava rente a borda das margens do Nilo. A deusa não ligou de sujar os pés de lama, apenas ficou andando enquanto pensava no que fazer. Néftis parou de andar e olhou longe no horizonte. De um lado, o Nilo com toda a sua beleza enchia os olhos da mulher enquanto permitia que as terras em sua margem fossem capazes de fornecer a vida das flores, frutos, árvores e animais. Do outro lado, havia a secura do deserto onde nada crescia. Um mundo estéril. Mas às vezes, o deserto surpreendia com um oásis ou outro escondido. Ela tocou levemente sobre o seu ventre que não dava ainda nenhum sinal de gravidez. Set era o deserto, se era como um deserto e foi capaz de dar vida, seria aquela vida como um oásis? Um tesouro escondido no meio de tanta hostilidade? Ou seria apenas mais uma fonte de hostilidade criada pelo deserto como as cobras e os escorpiões?
Néftis se sentou sobre uma plataforma de pedra criada pela natureza, fitou o deserto a sua frente e tomou sua decisão. Ela inspirou profundamente e se preparou para o que viria a seguir. Sendo ela uma deusa, não precisava esperar pelos nove meses de gestação. Ela nunca foi como Ísis que sonhava em um dia ser mãe e aproveitar cada minuto daquilo. Talvez tivesse esse sonho também se o filho fosse de Osíris. Mas não era. Néftis estendeu diante de si as suas próprias mãos com as palmas levantadas para o céu. Entre as duas mãos e logo na frente do rosto da deusa, uma forte luz começou a brilhar. A deusa sentiu uma dor forte e profunda e seu ventre e, no segundo seguinte, a luz era substituída por um bebê. O mesmo bebê que até o segundo anterior estava no ventre da deusa, agora estava diante de si como se tivesse passado por todos os estágios de uma gestação.
O pequeno pousou em seus braços e ela o segurou com medo, receio e repugnância embora o pequeno nada mostrasse para justificar tal sentimento. Era um bebê com qualquer outro. Chorava derramando lágrimas pelos seus olhos castanhos como chocolate e tais lágrimas escorriam por bochechas branquinhas como porcelana, mas que logo iam se avermelhando conforme o pequeno chorava. Em sua cabeça, pouco cabelo existia. Tinha dois braços gordinhos, duas pernas e um rostinho inocente com qualquer pequenino. No entanto, era possível ver que o cabelo era extremamente preto. Néftis parecia cega para ver que o bebê nada tinha de cruel ou anormal. Ela via uma cria do deserto. Ainda assim, era um menino, isso ela pode ver.
Ela olhou para o pequeno por breves segundos. Não podia mata-lo. E não porque não tinha coragem, mas simplesmente porque o pequeno, embora só soubesse chorar, já havia nascido imortal. Matá-lo iria requisitar artefatos, rituais ou eventos muito mais complicados e raros, e ela não conhecia todos e, dentre os que conhecia, para nenhum ela tinha o que precisava. Néftis olhou de um lado para o outro, para frente e para trás, procurando saber se alguém tinha visto o que acabava de fazer e se veriam o que ela pretendia fazer. Ao notar que estava sozinha e que já nem podia ver os palácios no horizonte, ela deitou o pequeno recém-nascido ainda sem nome, amor ou proteção no bloco de pedra onde ela até então estava sentada, deu as costas para ele e voltou correndo para o palácio sem nem olhar para trás enquanto abandonada à mercê da sorte tal pequena criatura.
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