A Morte Das Areias do Saara

44 O forte sol e a pena sincera


Notas iniciais
acho que n preciso dizer que esse capítulo está obviamente ENOOOOORME super me empolguei, tava doida pra fazer ele (e o seguinte à ele) até pra vcs finalmente descobrirem quem era o cara que apareceu no final e vcs estavam tentando chutar quem era XD aos que chutaram Osíris: tentem novamente :)

O que foi esse combate?

Foi o combate que ocorreu no dia em que Horus lutou com Set,

durante o qual Set jogou sujeira na cara de Hórus,

e Horus esmagou os genitais de Set.

~ Fragmento do Livro dos Mortos

Sobek estava torto, quase pendendo para trás enquanto a lâmina da espada de Anput tocava-lhe a garganta ameaçadoramente. A garota que, atrás de si, lançava-lhe um olhar sério de pura determinação, estava pronta para usar a lâmina de sua espada para degolar o deus. Contudo, Sobek não era bobo nem fraco. Não demorou muito para que ele achasse um ponto perfeito para agarrar Anput e, com auxílio do movimento do próprio corpo, lançar ela por cima dele até que ela caísse à sua frente na areia.

Apesar do baque, rapidamente Anput se levantava pronta para continuar o combate, assim como, depois de ter ajudado Néftis, Anúbis se aproximava para lutar ao lado da esposa. Contudo, a atenção de ambos os lados da batalha foi desviada quando um trovão rompeu o céu que tentava amanhecer. Uma tempestade se aproximava apesar da sua raridade.

— A-Aquele… ali com Hórus… — gaguejou Nefertem atrás de Qebui.

Lentamente, a percepção foi se espalhando pelo campo de batalha como um telefone sem fio fazendo com que os combatentes olhassem para o ponto onde, com o sol aparentemente congelado à suas costas, Hórus se erguia diante do corpo caído de Set, que chorava de dor, e de um homem de cabeça raspada que havia tão facilmente lhe tomado a espada.

Hórus engolia em seco abaixando sua mão que antes erguia a espada lentamente ao olhar para o homem alto de pele dourada, que parecia brilhar, e que o olhava com intensos olhos dourados. A aparência do homem se tornava ainda mais intimidadora devido ao seu corpo musculoso mas que acompanhava um rosto que, apesar de calmo, escondia ira em suas profundezas.

A visão de tal homem foi o suficiente para todos os combatentes, com exceção de Hórus e de Set que choramingava no chão sentindo a dor em suas partes, largassem as armas e se ajoelhassem diante daquele que, provavelmente, não importa quantos milênios passassem, seria sempre o maior de todos.

— R-Rá… — gaguejou Hórus.

— Olá, Hórus. — respondeu Rá com uma voz grave e então, finalmente, embora a certo custo, Hórus se ajoelhou diante de Rá.

A surpresa com a presença de Rá ali se espalhava também pelo campo de batalha, que logo se via tomado pela tempestade. A surpresa era esperada, afinal, importância de Rá era enorme e ia muito além de ele ser mais do que o deus do sol, ser também o próprio sol. Contudo, a chuva não fez uma presença tão grande quando comparada ao seu causador, já que era fácil para os deuses ali presentes fazer alguma magia simples que impedia a chuva de molhar eles.

— Se bem conheço meu pai… — dizia Thoth ao lado de Nekhbet enquanto ambos olhavam para o céu escurecido — Isso é um sinal de que ele está extremamente irritado.

— Bem… — disse Sobek olhando para Anput e Anúbis — trégua?

— É… é… trégua. — concordaram os dois enquanto olhavam, à distância, Hórus e Rá conversando mais além.

Rá abaixou a mão que segurava a espada de Hórus e deixou-a atrás de si, longe do toque do jovem faraó embora o olhar dele seguisse cada movimento que a espada fazia enquanto ignorava o olhar de reprovação que Rá lançava-lhe.

— Esperava tal comportamento de Set… — disse Rá com uma seriedade e silenciosa raiva que rimava com a chuva forte que caía e os trovões que atingiam a areia molhada — Mas de você, Hórus? Imagino que talvez tenha passado tempo demais sem ninguém para lhe colocar limites, mas não imaginava que eu teria que ficar de olho em vocês todos como se fossem um bando de crianças mimadas e mal comportadas.

— M-Mas ele… S-Set… — gaguejava Hórus apontando para Set que agora respirava fundo tentando controlar a dor do ferimento que sangrava sem parar.

— Entendo bem toda a lista de coisas que Set já fez. — disse Rá suspirando pesadamente e olhando com seriedade para Set — Mas não deve cair ao mesmo nível dele. Nem matá-lo. Bem e mal devem estar equilibrados.

— Não me diga que acha que ele deve sair impune?! — exclamou Hórus se levantando com raiva querendo encarar Rá com mais altura, mas o deus do sol continuava bem mais alto e com a expressão imutável.

— Não, Set pagará pelo o que fez. Mas não com sua vida. — disse Rá — Você provavelmente acabou de deixá-lo eunuco. Não é um bom começo já?

— Não. — rebateu Hórus com a expressão fechada enquanto uma risada fraca entrecortada por gemidos de dor escapava dos lábios de Set.

— V-Veio m-me humilhar ainda mais, Rá? — perguntou Set ainda jogado no chão — Não deveria estar eternamente lutando contra Apófis?

— Apófis está fraco demais agora que você usou tanto caos para fazer essa espada maldita. — respondeu Rá — Estava lutando por um bom tempo por pura teimosia e determinação, mas finalmente caiu de exaustão.

— O-Ora… parece-me então que deveria agradecer-me por ter-lhe dado alguns dias de férias. — disse Set rindo.

Cabisbaixo diante da percepção de que não poderia fazer com Set tudo o que tinha planejado, Hórus deixava a água da chuva cair por seu rosto lavando o sangue que saía de seu olho. Até então, estava ignorando completamente o estrago feito ali, contudo, com um leve toque na bochecha logo abaixo do olho, ele sentia que abrir o olho não parecia uma boa ideia. Estava doendo, cada vez mais agora que a adrenalina abaixava. Com os dedos trêmulos, ele notou preocupado que talvez perderia a visão daquele olho.

— Se não posso matá-lo, — disse Hórus — apenas deixe-me fazer com que pague. Sem armas malditas nem nada. Só eu ele. Sem outros deuses, sem ninguém. Só nós, lutando.

— Até quando? — perguntou Rá — Esse conflito já não durou tempo demais?

— Não para mim. — disse Hórus.

— Finalmente algo no qual concordamos. — resmungou Set.

— É livre para fazer o que quiser com Set depois que eu lidar com ele. — disse Rá — Contanto que não usem mais métodos errôneos e malditos, como tal espada, nem afetem outros em sua luta sem sentido. Contudo, lembrem-se de uma coisa. É perigoso demais manter ressentimentos e sentimentos de vingança pelo resto da vida. Especialmente quando “resto da vida” costuma significar toda a eternidade.

Com tal aviso, Rá desapareceu levando o derrotado Set junto consigo. Entretanto, a chuva continuou embora desse sinais de leve diminuição. Foi apenas a curiosidade para saber os detalhes da conversa que impediu as demais brigas de recomeçarem. Afinal, por causa da chuva, ninguém tinha a versão completa de o que havia acontecido ali.

Enquanto o sangue prateado e água da chuva escorriam pelo rosto de Hórus, ele se aproximava do centro de onde os outros deuses o olhavam. O jovem faraó bem sentia que alguns ali só estavam contando os segundos para voltar à briga. Assim, ele respirou fundo enquanto a chuva ia diminuindo suficientemente para que sua voz fosse ouvida.

— Declaro aqui o fim do conflito de todos contra mim ou meu pai Osíris e de todos mais contra Set que, derrotado, foi levado por Rá, como bem podem ver. — disse Hórus com coluna ereta e pose altiva — Sou, a partir de hoje, o único faraó vigente. Demais assuntos pendentes entre mim e Set serão resolvidos diretamente entre nós dois no futuro. Não podemos mais envolver vocês, interrompendo seus deveres, e afetando o mundo dos humanos em conflitos como esse que não parecem ter solução.

Hórus parou por alguns segundos e seu olho saudável percorreu o rosto dos ouvintes. Alguns se entreolharam, outros não pareciam gostar do que ouviam, alguns ainda pareciam prontos para lutar. Entretanto, Hórus queria acreditar que os problemas se resolveriam depois que terminasse de discursar.

— Entendo que existem frustrações e revoltas, mas convido todos a ouvirem o que tenho a dizer e, posteriormente, podem trazer suas reclamações até mim a partir do momento que o sol atingir seu mais alto ponto. — continuou Hórus.

— Pode apostar que vou mesmo. — reclamou Nekhbet cruzando os braços.

— Não sou Set. — continuou Hórus — Mas também não sou meu pai. Não estou de acordo com a totalidade de nenhum dos dois ideais. Não devemos dar tudo na mão dos humanos, mas também não podemos deixá-los desamparados. Não, não estaremos os servindo, como Set acredita, afinal, ainda temos poder de influenciar e ditar seus destinos e vidas. Os humanos nos temem e nos idolatram, sabem que não devem contrair a nossa ira. Além disso, sei bem que muitos de vocês realmente se preocupam com ao menos algumas das criaturas mortais, sejam elas os humanos, os crocodilos, os chacais, os gatos ou os leões. Os métodos de Set, principalmente devido aos planos que ouvi de secar o Nilo, não pouparia nenhum ser vivo em sua onda de destruição.

— Bom saber que alguém notou esse detalhe final no plano de Set. — desdenhou Sekhmet.

— Shhiu. Deixe ele falar. — reclamou Ptah.

— Assim, eu como faraó limitarei o tanto de influência direta que devemos ter com os mortais. Além disso, ditarei uma sequência de regras que, embora algumas afetem mais os mortais, devem considerá-las como para vocês também. Algumas regras serão mantidas, outras são exclusividades. Traição e conspiração contra o Faraó continuam sendo os maiores crimes que serão puníveis com morte lenta e dolorosa. Saquear tumbas é punível com morte, de preferência decapitação ou afogamento. — continuou Hórus enquanto poucos notavam que a chuva havia parado e que ele olhava rapidamente para Anúbis pois, ambos sabiam que tal regra das tumbas era uma forma de Hórus ganhar um pouco de trégua com o primo e agradecê-lo por ter invocado os mortos tal como havia pedido — Decapitação também será a punição para estupro, decapitação de qualquer uma das cabeças ou qualquer punição física que, por algum motivo, mostre-se apropriada.

Não precisava de maiores explicações para que os deuses entendessem a provável inicial motivação de Hórus para a última regra citada. Todavia, alguns dos deuses se entreolharam naquele momento enquanto Ísis olhava cabisbaixa para o chão.

Por vários minutos mais Hórus discursou. Punições, objetivos, organizações do crescente Império. Não demorou muito para questionamentos surgirem e ele respondeu aos mais simples enquanto convidou os deuses portadores dos questionamentos mais complicados a se reunirem com ele mais tarde. Eventualmente, Ísis botou fim ao discurso pois estava preocupada com o olho de Hórus que não parava de sangrar.

Com o dia começando na cidade humana, os deuses foram embora de Mênfis tentando deixar a menor quantidade de traços de que estiveram ali, e isso incluía os mortos que Anúbis havia invocado mais cedo.

No Salão do Julgamento, Hórus se sentava em um longo sofá enquanto segurava um pedaço de pano sobre seu olho ferido diante dos olhares preocupados de Osíris e Ísis. Ísis sentava-se logo ao lado do filho enquanto Osíris, de braços cruzados, observava a cena num misto de preocupação com Hórus e com o futuro depois que contaram para ele tudo o que havia acontecido.

— De certa forma, concordo com Rá. — disse Hórus — Não podemos deixar nossos conflitos afetarem tantos outros deuses e afetar tanto os humanos. Não quando for algo que realmente não os envolva.

— Que tipo de situação acha que os envolveria então? — perguntou Thoth enquanto tirava o pano do rosto de Hórus e tentava curar seu olho com magia, mas notava que não estava dando muito certo.

— Não sou ingênuo em achar que não terão deuses ou monstros tentando atacar os humanos, controlar o mundo deles ou quaisquer outros problemas do tipo. — disse Hórus olhando então para Anúbis que estava alguns metros dali apoiado na parede — Acho que preciso agradecer formalmente por ter invocado os mortos como havia pedido antes de irmos para Mênfis.

— De nada. — respondeu Anúbis — Digo o mesmo sobre a lei contra saqueadores.

— Bem imaginei que Set iria tentar soltar algum tipo de perigo sobre os cidadãos de Mênfis. Não subestimar o poder dos números.- disse Hórus — Sobre a lei, sabe que não precisaria disso se os humanos não tivessem mania de serem enterrados juntos com pertecentes, certo?

— Sei. — disse Anúbis — Mas deixe eles. Uma hora eles percebem que todos esses objetos ficam para trás. Minha maior preocupação é que tumbas são lugares sagrados, não alternativas para ladrões desesperados.

— Tem uma coisa que eu fiquei me perguntando. — disse Anput — Se Rá veio para interromper qualquer tipo de golpe final, onde estava ele quando Lorde Osíris foi fatiado?

— Acho que ou Apófis ainda não estava fraco o suficiente, ou, lamento por dizer mas, talvez era algo que era necessário ocorrer. — disse Thoth — O Duat precisava de um governante. Mas, deixando isso de lado, Hórus, tenho uma má notícia.

— Qual? — perguntou ele.

— Tudo o que posso fazer com seu olho é parar o sangramento e arrumar qualquer cicatriz. — disse Thoth — Posso dar-lhe um outro olho, mas seu antigo… bem… não existe mais. Mesmo eu dando-lhe um novo, não tenho garantias de que enxergará algo com ele.

— De que adianta então? — reclamou Ísis.

— Pelo menos não fica um buraco no lugar do olho. — disse Thoth dando de ombros sem achar argumento melhor.

— Faça. — disse Hórus.

Thoth botou levemente sua mão sobre o olho extremamente ferido de Hórus e se concentrou em sua magia. Do ponto onde a mão de Thoth e o rosto de Hórus se encontravam, uma luz prateada irradiava até que, lentamente, a luz diminuiu até desaparecer.

Quando a luz sumiu, Thoth tirou a mão do rosto de Hórus que, com os olhos fechados, não parecia que tinha sofrido nenhum golpe no olho. Lentamente, ele foi abrindo os olhos novamente. Entre os dois olhos, não havia nenhuma diferença além da cor. Afinal, enquanto o olho direito, perfeitamente saudável, era de um forte dourado, o esquerdo era prateado. A aparência fazia a combinação dos olhos lembrar do sol, e da lua.

Os outros deuses ali presentes olhavam com expectativa para Hórus esperando qualquer reação dele que indicasse se o olho novo funcionava ou não. Como nenhum sorriso ou emoção surgia no rosto de Hórus, e como sua mão lentamente se ergueu até o seu olho prateado e ele fechou o olho dourado, os outros deuses já imaginavam que a resposta não era boa.

— E-Então? — arriscou Ísis.

— O olho é inútil. — reclamou Hórus — Um mero enfeite.

— Foi ferido por aquela espada maldita. — disse Thoth — Teoricamente, você ainda deveria estar sangrando infinitamente.

Hórus suspirou decepcionado enquanto Thoth apenas dava de ombros. Apesar de realmente estar frustrado com o olho, Hórus tinha mais coisa a resolver e logo teria que ter reuniões com outros deuses e teria que se preocupar com o que fazer com o faraó humano que certamente precisaria de ajuda depois que quase todos os seus soldados morreram por causa de Anúbis.

Dentre as frustrações de Hórus, havia uma pequena alegria pois, ao repassar a batalha contra Set em sua mente, ele notou algo que no momento ele não tinha dado muita atenção, ele havia usado magia contra Set. Tinha certeza que a estranha alteração no espaço que surgira entre ele e Set havia sido sua própria criação.

A passos lentos as coisas tentavam se resolver enquanto ainda não havia sequer um sinal de Set. Ocupado com as conversas intermináveis com deuses como Nekhbet e Sekhmet, Hórus tentava achar um ponto que agradasse a maioria dos deuses e não fosse danoso para os mortais. Contudo, sabia bem que alguns deuses estavam bem insatisfeitos quando terminavam as conversas e alguns nem queriam tentar dialogar.

Para a maioria dos deuses, aquilo que parecia ser o fim do conflito com Set ou uma mera trégua, também significava voltar aos afazeres normais. Para Anúbis, isso significava voltar à julgar as almas que chegavam no Salão do Julgamento. Assim, enquanto Ammit lambia os beiços depois de ter devorado a quinta alma naquele dia, Anput se espreguiçava, Thoth terminava de registrar no papiro o destino da alma anterior e Anúbis terminava de arrumar a balança da verdade.

— Podíamos parar por aqui hoje né? — pedia Anput enquanto Thoth saía dali — Vamos sair um pouquinho, ir para algum lugar ou algo assim.

— Espere só mais essa. Acho que você vai gostar. — disse Anúbis se virando um sorriso tranquilo para a entrada do Salão de Pesagem do Coração.

— Eu vou g-- começou Anput e logo seu rosto se iluminou ao imaginar o que deveria ser — É a… ? Não! Não conta! Quero ver!

Como a etapa de pesagem do coração era a última parte de um julgamento, ela teve que esperar enquanto Anúbis ia auxiliar nas partes anteriores e à pesagem da coração. Nenhuma das partes ele estava desacompanhado de outro deus, muitas vezes o outro deus era até Hórus. Assim, ele também teve que esperar até a parte final do julgamento.

Felizmente, ele voltou antes para o Salão da Pesagem do Coração e ele e Anput ficaram esperando a alma chegar. Tiveram que esperar pouco para que Anput sanasse sua curiosidade, mas logo ela estava com os olhos brilhando e lacrimejando quando Shadya timidamente entrou no Salão de Pesagem do Coração. Trajando um longo e delicado vestido branco que quase arrastava no chão, Shayda sentiu o sorriso aparecer no seu rosto e as lágrimas caírem de seus olhos quando viu os dois amigos ali.

À passos apressados, Anput acabou com a distância que a separava de Shadya, e até teria abraçado a amiga se não fosse o mero detalhe de que seu abraço passou direto. Afinal, tudo que havia ali era a alma de Shadya.

— Desculpa… esqueci que não ia funcionar. — disse Anput.

— Tudo bem. — disse Shadya limpando as suas lágrimas, ao menos podia tocar em si mesma — Ver vocês já é muito bom. É muito complicado o caminho até aqui… nossa… sem falar de todos os questionamentos e indagações e sei lá mais o que que os outros deuses perguntaram no salão anterior.

— Se estiver precisando de um abraço… — disse Anput apoiando o cotovelo no ombro de Anúbis embora tivesse que levantar um pouco o braço para isso — O Anúbis é o único que consegue tocar nas almas que chegam aqui.

— Estou bem, sério. — disse Shadya dando uma leve risada enquanto Anúbis revirava o olhar com um sorriso no rosto depois de encarar Anput por alguns segundos.

— Já estava ficando preocupado achando que não ia conseguir chegar até aqui. — disse Anúbis — Acho que eu nunca prestei tanta atenção em quanto tempo demorava para as almas chegarem.

— Certamente me pareceu uma eternidade. — disse Shadya — Quanto tempo se passou?

— Quase quatro meses. — disse Anúbis — Mas talvez tenha demorado mais porque a fila de almas acumulou por um tempo por causa de tantos problemas acontecendo.

— E eu achando que ele ia fazer você furar a fila inteira quando chegasse nela. — disse Anput cruzando os braços e revirando o olhar.

— Tudo o que fazemos aqui parte do pressuposto que somos justos e imparciais. Não posso fazer isso. — rebateu Anúbis.

— Imagino então que esse mesmo motivo me impeça de perguntar sobre como está minha família no momento. — disse Shadya olhando para os dois com olhares esperançosos.

Pensativo, Anúbis considerou a pergunta dela enquanto mudava o peso do corpo de um pé para o outro. Sem saber o que decidir, ele olhou para Anput e, de forma não tão surpreendente assim, viu que ela estava sorrindo e afirmando com a cabeça. Aceitou então com um pequeno sorriso abrindo em seu rosto ao afirmar com a cabeça enquanto fazia uma a si mesmo uma promessa silenciosa de que não iria repetir isso caso Shadya fosse para o Aaru.

— Eles obviamente sentem sua falta. — disse Anput — Acho que não preciso dizer isso. Estão tentando lidar com isso, cada um da sua forma e no seu ritmo. Mas, tirando a dor do pesar, eu diria que estão até bem.

— Principalmente agora que Ahmen controlou mais a bebida. — disse Anúbis — Ele não estava lidando com o luto muito bem, mas da última vez que o vimos ele parecia mais sob controle.

— Oh Ahmen… — disse Shadya fungando o nariz que se entupia enquanto as lágrimas escorriam por seus olhos — E User e Hehet? E… a bebê?

— Hehet pareceu ter sentido bastante. Mas User está realmente se esforçando para ajudá-la e até a Ahmen. — disse Anput abrindo um doce sorriso — Você criou um garoto forte, Shadya.

— E a bebê está bem. — disse Anúbis — Deram-na o nome de Shadya Sat.

Aquela pequena fala foi tudo que Shadya precisava para que suas lágrimas escorressem ainda mais livremente pelo seu rosto. A mulher botou a mão sobre a boca enquanto as lágrimas marcavam seu rosto. Eventualmente, ela respirou fundo e, com os olhos avermelhados olhou para os dois.

— A-Acho q-que vou aceitar aquele abraço. — soluçou ela com um sorriso no rosto choroso.

Shadya nem deu à Anúbis tempo o suficiente para que abrisse os braços e logo já estava abraçando ele com força. Ela soluçava tentando acalmar mais aquele misto de saudade, tristeza e alegria que tomava conta de seu peito. Com os olhos entreabertos, notou que Thoth também estava ali. Não sabia se o deus estava ali desde do começo ou se havia entrado de fininho enquanto os três conversavam, mas a presença dele ali fez ela lembrar para o que havia ido até tão profundamente no submundo. Assim, ela lentamente soltou Anúbis, depois de limpar o rosto com as mãos trêmulas, perguntou a dúvida que tinha em sua mente mas tinha medo da resposta.

— Dói? — perguntou ela — O julgamento… tirar o coração… e tudo mais?

— Se ficar calma, não, tirar o coração não dói. — respondeu Anúbis — Nem a parte da pesagem na balança, pra falar a verdade.

— E a parte de Ammit? — perguntou Shadya com medo de cair em tão terrível destino.

Anúbis desviou o olhar por um momento sem saber o que responder. Não tinha como negar que ser devorado por Ammit era extremamente doloroso.

— Confie em seu coração e seja verdadeira. — disse Anúbis.

Preocupada, Shadya afirmou com a cabeça guardando bem aquele conselho dentro de si enquanto respirava fundo uma, duas, três vezes.

— Meu coração pelo qual eu nasci! — disse Shadya recitando a reza preocupada e de olhos fechados — Não se oponha a mim no meu julgamento, que não haja oposição a mim na presença dos Chefes Tchatcha. Que não parta de mim na presença daquele que guarda a Balança!

Ela parou por uns segundos e, abriu os olhos para Anúbis e, com um aceno de cabeça, mostrou que estava pronta. Anúbis afirmou com a cabeça de volta e, ao contrário dos outros julgamentos, Anput ficou logo ao lado dos dois para servir de força para a amiga caso ela assim precisasse enquanto torcia para que o destino dela não estivesse nos lábios de Ammit que logo ao lado dormia.

— Tu és meu Ka, que habita em meu corpo; O Deus Khnemu que une e fortalece meus membros. Que vá para o lugar de felicidade para onde vamos. Que os oficiais de Sheniu, que fazem as condições da vida dos homens, não façam com que meu nome cheire mal, e que nenhuma mentira seja pronunciada contra mim na presença do Deus. Preste bem atenção, ó justo Juiz da Balança, para apoiar o testemunho de meu coração.

Enquanto Shadya, de olhos fechados, rezava, Anúbis aproximou a mão de seu peito sem, no entanto, tocar-lhe de fato. Um pouco de mágica foi tudo o que ele precisou para, mesmo se tudo o que havia ali era a alma de Shadya, puxar o coração dela para a palma de sua mão lentamente.

O tempo que demoraram para começar foi talvez o máximo de tempo que Thoth conseguiu manter os demais deuses espectadores afastados do Salão do Julgamento. Sabia bem que interagir tanto com os humanos não estava bem na lista de coisas bem vistas por muitos deles, Hórus, por exemplo. Dentre os deuses que assistiam, estava Osíris que, de seu trono, acompanhava o desenrolar da cena com expectativa e seriedade, pois sabia bem o que Shadya significava para Anput e Anúbis.

Assim como Anúbis havia dito, não doeu em Shadya o processo de tirar dela seu coração. Tudo o que ela sentiu foi um leve puxão que fez ela abrir os olhos e olhar boquiaberta para o órgão que pousava na mão pálida do amigo.

O olhar de surpresa foi tudo o que Shadya conseguiu fazer, pois era como se seu corpo estivesse ao mesmo tempo pesado e congelado agora que estava sem seu coração. Com cuidado e com o coração da amiga na mão, Anúbis andou calmamente até a balança e, antes de botar o órgão em um de seus pratos, exibiu para os presentes a mão com o coração enquanto a outra mão se abria exibindo a pena da verdade que brilhava e flutuava.

Com delicadeza, ele colocou cada coisa de seu devido lado enquanto a Balança da Verdade brilhava indicando que ela ainda não havia começado a pesar ninguém. Todavia, lentamente a luz que irradiava da balança se apagava e os pratos começavam a se mexer enquanto o peso do coração de Shadya era comparado com o peso da balança.

Cada pequeno movimento que a balança fazia era como se o coração de Shadya fosse saltar pela garganta, mesmo se ele não estivesse ali dentro de seu peito para que tal comparação fizesse mais sentido. Aquilo era mais tenso para a mulher do que todo o questionamento em busca de pecados e mentiras que os deuses haviam feito antes como ela. Talvez por aquilo ser a etapa final.

Lentamente, a balança foi pendendo mais para um lado do que para o outro. Às vezes, a diferença entre os dois lados era tão sutil que forçava Anúbis a realmente ter que analisar com calma qual lado da balança pendia mais. Contudo, não havia dúvida ali, a pena da verdade era mais pesada.

Lágrimas da mais pura felicidade escorriam pelo rosto de Shadya e também de Anput enquanto as duas amigas abriam um enorme sorriso. Tentando manter a pose, Osíris evitava mostrar que também queria sorrir enquanto, por outro lado, Anúbis nem tentou esconder o sorriso que nasceu em seu rosto quando pegou delicadamente o coração de Shadya e devolveu-o a seu peito.

Anúbis não precisava dizer para Shadya o que fazer em seguida, depois de conviver tanto com ele e depois de todo o treinamento que Anúbis havia dado à Ahmen para ser seu sacerdote, a mulher sabia bem o que era, não precisava Anúbis ter afirmado com a cabeça. Assim, enchendo o peito de ar, Shadya se ajoelhou.

— Eis que estou em tua presença, Senhor dos Ocidentais. — disse Shadya proferindo o discurso decorado — Não há pecado no meu corpo. Eu não falei aquilo que não é verdade conscientemente, nem fiz nada com um coração falso. Concede que eu seja semelhante àqueles favorecidos que estão em teu segmento, e que eu possa ser grandemente favorecido pelo deus Osíris, amado Senhor das Duas Terras. Shadya, cuja palavra é verdadeira diante do deus Osíris.

Assim como das outras vezes nas quais a pena se mostrou mais pesada que o coração, Anúbis olhou para Osíris e, então, pode ver naquele momento ele afirmando brevemente com a cabeça e com um pequeno sorriso no rosto.

— Levante, Shayda, cuja palavra é verdadeira diante do deus Osíris. — disse Anúbis e Shadya assim o fez enquanto ele apontava lentamente a mão para o portal do Aaru que lentamente começava a se tornar visível e terrivelmente tentador para Shadya — Ganhaste o direito de seguir para o lugar de completa felicidade, ganhaste o direito de residir no Aaru.

Um sorriso irradiou no rosto de Shadya enquanto uma lágrima escorria por seu rosto.

— Encontrarei alguém conhecido lá? Minha família irá para lá no futuro? — perguntou Shadya.

— Seus pais e a mãe de Ahmen estão lá. E Neby. Ele irá gostar de vê-la. — disse Anúbis — Quanto a sua família que ainda vive, isso depende apenas dele.

— Vocês podem ir visitar? — perguntou Shadya olhando para Anput.

— Só o chato aí tem essas exclusividades. — respondeu Anput que chorava feito um bebê — V-Vou sentir sua falta.

— Eu também. — disse Shadya acompanhando o choro.

— Queria ao menos conseguir tocar-lhe para dar um verdadeiro adeus. — disse Anput.

Delicadamente, Anput tentava tocar no rosto de Shadya sabendo bem que sua mão iria passar direto, tal como se estivesse tocando o ar. Entretanto, um olhar de surpresa logo cruzou o rosto não só das duas, como também de vários dos presentes quando a ponta dos dedos de Anput tocaram a fase de Shadya. Trêmula, Shadya ousou fazer o mesmo e tocou Anput também. Não foi necessário muito mais, no segundo seguinte as duas amigas já trocavam um forte abraço de despedida.

Notas finais
## REFERÊNCIAS Pesagem do coração - http://www.experience-ancient-egypt.com/egyptian-religion-mythology/egyptian-afterlife/weighing-of-the-heart-ceremony punições - https://www.ancientfacts.net/how-ancient-egyptians-punished-their-criminals/ Leis - https://www.ancient.eu/Egyptian_Law/ Hórus - https://riordan.fandom.com/wiki/Horus O olho de Hórus - https://pt.m.wikipedia.org/wiki/Olho_de_H%C3%B3rus Rá - https://riordan.fandom.com/wiki/Ra Livro dos mortos - https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf Tempestade no Egito (sim, lá também chove pra caramba às vezes) - https://www.newsflare.com/video/200665/conflict-disaster/storm-and-torrential-rains-in-egypt (as falas da Shadya são orações de verdade da época ou falas de verdade que devem ser ditas nesse momento. eu n achei o roteiro da cena do lado do Anúbis kkk então rolou aí um improviso) (as leis mencionadas por Hórus são de verdade tbm) SOCORRO QUE EU TÔ DOIDA PRA FAZER O PRÓXIMO CAPÍTULO!! Mas eu tenho que respirar e fazer com calma se não sai uma droga kkk deixem aí um oizinho ou algo do tipo. n importa se for só uma palavra. os comentários alegram meu dia. obrigada por lerem até aqui e até o proximo capítulo