A Morte Das Areias do Saara
45 A primeira pirâmide
Notas iniciais

Que seu coração prospere, meu mestre.
Eis que chegamos em casa.
O maço foi tomado, o poste de amarração é conduzido.
A corda do arco foi colocada na terra, agradecimento e louvor a Deus são dados.
Todos estão abraçando seus companheiros.
Nossa equipe retornou em segurança; não houve perda para o nosso exército.
Chegamos ao fim de Wawat;
nós passamos pelo Senmut.
~ Fragmento de “O conto do marinheiro naufragado”
O ambiente ao redor de Anúbis era a definição da mais completa escuridão e silêncio. A única sensação que tinha, além dos pés tocando o solado da própria sandália de couro, era a levíssima poeira arenosa que chegava até seu nariz. Calmamente, Anúbis abriu a palma de sua mão diante de si apontando para cima criando ali uma pequena e tímida chama que não parecia estar muito afim de aumentar de tamanho. Apesar da timidez da chama, aquilo foi o suficiente para iluminar um pouco mais o ambiente ao seu redor.
No meio de uma sala escura cercada com quatro paredes de pedra e um teto do mesmo material, Anúbis olhava ao redor para os vários sarcófagos organizados meticulosamente no espaço disponível. Alguns se amontoavam nas paredes que haviam sido entalhadas como prateleiras, outros se organizaram no centro da sala mesmo dentro de o que seria melhor descrito como caixas ou baús de pedra grandes o suficiente para guardar em seus interiores seres humanos e seus devidos sarcófagos.
Os olhos castanhos de Anúbis percorriam o espaço do que era obviamente uma tumba não tão particular como os mais ricos faziam. Contudo, sabia bem que havia grandes sentimentos e histórias dentro daquela tumba familiar.
Com um suspiro, o deus notou que havia ainda uma estante de pedra vazia. Viria bem a calhar. Parecia até que a sorte estava mesmo querendo dizer para ele que devia parar de tentar juntar mais dentro daquela mastaba aquela família. De toda forma, o sarcófago que ele magicamente fez aparecer na prateleira vazia seria o último que colocaria ali. Até porque, estava ficando tão cada vez mais ocupado que não podia simplesmente sair por aí mumificando tantas pessoas como gostaria. Contudo, se esforçava ao menos para tentar fazer isso para alguns que sabia que teriam seus corpos largados por aí ou esquecidos como indigentes caso ele não fizesse algo.
Aquela história que, caso contrário, terminaria de uma maneira triste, era a história daquele cujo corpo ocupava aquele sarcófago simples que havia acabado de ser adicionado à mastaba. O ocupante daquele sarcófago não passava de um jovem cuja vida tinha sido rodeada de pobreza depois que a plantação de seu avô foi completamente perdida devido à uma seca. Entretanto, o mesmo estado de pobreza não podia ser visto em todas as ramificações da família daquele homem. O morto não sabia, mas, bem ao sul dali, na crescente cidade de Assiut, possuía parentes distantes que estavam dentre os mais ricos e influentes da cidade por serem importantes sacerdotes e o mesmo acontecia na cidade de Mênfis. Aquela família havia chegado tão longe, que não era de se surpreender que poucos estivessem dentro daquela mastaba.
Mesmo pensando em todo o histórico daquela família, cujo cada um dos mortos Anúbis lembrava com vividez do julgamento, ele bem notou quando Anput apareceu naquela mesma mastaba.
— Mudei de ideia. — disse ela acendendo uma pequena chama em sua própria mão também — Decidi vir também.
— Bem imaginei que fosse mudar de ideia. — disse Anúbis com um pequeno sorriso de canto enquanto ia para até onde Anput estava.
— Será mesmo o último que botará nessa mastaba? — perguntou ela.
— Acho que sim. — disse Anúbis — Até porque não tem mais espaço e…
— É.. — disse Anput entendendo bem o que Anúbis queria dizer sem ele se quer ter terminado a frase.
Delicadamente, a mão de Anput apoiou-se sobre um dos sarcófagos logo ao seu lado no centro da mastaba que, apesar de estarem dentro de blocos de pedras, faziam parte do pequeno conjunto de sarcófagos mais rica e detalhadamente trabalhados da mastaba.
Anúbis se aproximou do sarcófago que Anput tocava e os olhares de ambos os deuses se fixaram no nome inscrito sobre ele, “Shadya”. Com um suspiro e a com as mentes pensativas, não demorou muito para que os olhos deles trocassem para os sarcófagos ao lado. Ahmen, Iset, User, Hehet, Shadya Sat. Os nomes continuavam pelos outros sarcófagos enquanto representavam outras pessoas. A filha e o filho de User, o neto e as netas de User, os dois garotos gêmeos filhos de Hehet, as duas filhas de Shadya Sat, os dois netos que uma delas gerou até a idade adulta e o que faleceu ainda no ventre da outra. As filhas de Iset, mas não seu marido ou quaisquer outros descendentes que tenha gerado depois.
Talvez aquele amontoado de sarcófagos fosse a melhor forma de realmente visualizar a quantidade de anos que haviam se passado. Ou talvez as diferenças de um mundo que entrava no ano de 2659 a.C mostrasse melhor. Seja qual fosse a melhor prova dos anos que se passaram, com certeza não era os rostos de Anúbis nem de Anput que não mostravam nenhum sinal de que, a poucos meses, tinham completado míseros 446 anos.
— Às vezes é difícil lembrar que faz tanto tempo já. — disse Anúbis.
— Foram nossos primeiros amigos. — disse Anput soltando um pesado suspiro — Acho que é normal a saudade bater às vezes de novo mesmo depois de tanto tempo.
— Sem falar que, além de terem sido nossos primeiros amigos, não fizemos amizade com nenhum outro mortal por tanto tempo quanto eles. — completou Anúbis.
— É. — disse Anput se aproximando dele e passando lentamente o braço ao redor da cintura dele — Vamos indo para Mênfis então?
— Já? Acho que está um pouco cedo ainda. — disse Anúbis — Hórus marcou para depois que o sol começar a descer.
— Quero passear pela cidade antes um pouco. — disse Anput — Parece que chegou ontem carregamentos de mercadorias de vários lugares com coisas bem interessantes. , Tem coisa da Fenícia, de Punt, da Núbia, da Suméria…
— Seria bom encontrar aquelas maçãs que comemos na Fenícia. — admitiu Anúbis — Eram bem mais doces que as poucas que achamos aqui.
— Verdade. — disse Anput — Mas geralmente as coisas da Fenícia que chegam aqui são ouro, prata, madeira, tecidos… essas coisas...
Conversando tranquilamente, o casal deixou a mastaba para trás simplesmente desaparecendo e reaparecendo em Mênfis. Certamente era um tanto complicado aparecer do nada no meio de uma cidade que borbulhava cada vez mais de vida e pessoas, mas eles conseguiram dar seu jeito.
Era fácil ver em Mênfis as mudanças causadas pelo passar dos séculos. A cidade havia crescido muito conforme sua população aumentava. As pessoas andando nas ruas, as casas que se amontoavam ou os grandes barcos de madeira que chegavam e saíam de seus portos seguindo suas viagens pelo Nilo ou de mais além pelo Mar Mediterrâneo eram as provas de que aquela cidade, graças aos seus milhares de habitantes, era simplesmente a maior cidade do mundo antigo.
Dentre crianças que brincavam apostando quem cuspiria a semente da melancia mais longe e pessoas que gritavam de dor ao ter um dente podre bruscamente arrancado de sua boca, a cidade mostrava sua vida nas cores novas que adornavam suas paredes e as roupas de seus cidadãos mais ricos depois de terem surgido das novas tinturas dentre as quais algumas cores ainda faltavam.
Falar das cores novas das tinturas era o assunto certo pois, depois que Anúbis e Anput entraram na área mais comercial da cidade em sua parte mais rica, foi difícil não notar a quantidade de pessoas, principalmente mulheres, que se amontavam ao redor de um tapete com padrões coloridos circulares e florais, típicos da Fenícia, na qual um comerciante exibia seus produtos. Dentre os quais, os que mais chamavam atenção, eram os tecidos e as tinturas de cor púrpura.
— Olha que bonito! — exclamou Anput acelerando o passo em direção aos comerciantes puxando Anúbis junto.
— Admirem a bela cor! — dizia o homem de sotaque carregado — Direto de minha querida Fenícia. Mas, não ficar triste, pois eu vir aqui até a bela e grande Mênfis trazer essa novidade até vocês!
— Nossa… — disse Anput maravilhada assim como as outras mulheres ao ver a bela cor do tecido.
De cabelo castanho que passava um pouco de suas orelhas, pesado bigode e uma barba pontiaguda, o comerciante sorria ao ver o brilho no olhar de seus fregueses egípcios se diferenciando deles não só no corte e estilo da roupa, como também no fato de todos os egípcios, fossem eles homens ou mulheres, usavam kajal, uma espécie de delineador ou lápis de olho. Entretanto, apesar da maioria dos egípcios usarem roupas completamente brancas, mais e mais aqueles mais ricos começavam a adicionar algumas cores às suas vestimentas. O vermelho, o marrom, o amarelo. Contudo, púrpura era uma novidade estrangeira que certamente fazia o comerciante fenício se destacar ainda mais no meio da multidão de comerciantes com seus produtos.
— É essa então a cor que ouvi que todos estão falando sobre? — questionou Anput para ninguém em particular.
— Essa cor tem nome? — perguntou uma das mulheres que olhava os produtos.
— Púrpura. — respondeu o mercador.
— Você é mesmo da Fenícia? — perguntou Anúbis para o comerciante — Creio que deva ser o primeiro estrangeiro que vejo que sabe falar egípcio.
— Talvez tenha que andar mais por aí e checar melhor se as pessoas falar egípcio, jovem. — disse o comerciante — Em minhas terras...produtos egípcios, aos montes. Maiores compradores e vendedores. Não é surpresa, mercador da Fenícia, ver necessidade aprender egípcio um pouco… para …. agradar… Ficar mais fácil vender também. Meu primo também vender e ficar na Fenícia ajudando eu. Ele falar um pouco de egípcio também. Eu falar mais, então eu vir. Precisa falar com soldados e muita gente para poder vender direito aqui.
— Com certeza uma decisão bem inteligente. — disse Anput abrindo maravilhada um dos tecidos púrpura e imaginando como ele ficaria transformado em vestido.
— Concordo. — disse o homem — Embora eu ache impossível ler a escrita de vocês. Mas fenício não ter escrita ainda. Então vocês ganhando. Saber um pouco de escrita suméria. Complicada também, mas menos símbolos para decorar. Símbolos mais fáceis também.
— Eu e meu marido sabemos sumério também. Mais do que só um pouco ou só escrever. — disse Anput embora a atenção de Anúbis começasse a fugir da conversa.
— Talvez seja uma opinião comum a dificuldade de nossa escrita, quase ninguém sabe ler mesmo aqui. — desdenhou um nobre que estava logo ao lado de braços cruzados olhando para os tecidos com curiosidade e olhar analítico — Quatro deben de cobre pelo tecido e um barril de cerveja.
— Eu não idiota. Não apenas quatro deben de cobre. — disse o comerciante rindo ao ser ofertado tal medida equivalente a 360 gramas de cobre por seu produto — Cinco deben de prata e um de ouro.
— Isso é muito caro! — reclamou o nobre.
— É quase a maioria dos colares de prata… — ponderou Anput surpresa — Ao menos dos um pouco mais requintados que a média.
— Nunca dizer que tecido ser barato. — disse o mercador dando de ombros — Muito difícil fazer cor. Tirar de caracol do mar irritado. Eu ter como pó da tintura também. Ficar três deben de prata o pote da tintura.
— Acho que o preço vale. É certamente incrivelmente bonita. — disse uma das mulheres.
— Sim. Sim. Muito bonita. — concordou o comerciante sorrindo orgulhoso — Faraó Djoser mandar comprar grande tecido ontem. Fazer vestido para Rainha Hetephernebti.
— Oh, o que eu não daria para ter um vestido inteiramente dessa cor. — sonhou a mulher — Pena estar longe de minhas condições.
— Esse tecido de Cinco deben de prata e um de ouro não dá para fazer um vestido, teria que ser um muito maior. — pensava Anput.
Enquanto a conversa se desenrolava ali, os olhos de Anúbis estavam no horizonte em direção à parte sul da cidade. Tentava ver se era possível observar dali uma coisa que muito atraía sua atenção e interesse, mas notava que estava longe demais para ver dali mesmo a coisa que procurava sendo grande.
A atenção do deus foi desviada quando, pouco mais de um metro a sua direita, uma senhora de cabelos alvos parou bruscamente e derrubou o vaso de argila que estava em suas mãos. O barulho do vaso se quebrando atraiu a atenção de outras pessoas enquanto a filha da idosa começava a, preocupadamente, questionar se a mãe estava bem enquanto o próprio filho pegava os cacos do vaso no chão. Devido a preocupação da filha, não iria demorar muito para que ela notasse que a idosa estava olhando para Anúbis com olhos mareados.
— Anput… — sussurrou Anúbis perto do ouvido da mulher — Vamos logo, por favor. Aqueles mais perto da morte estão começando a perceber.
— Oh. — disse Anput desviando o olhar dos tecidos e vendo quando a idosa, com dificuldade, começava a se ajoelhar no chão — Acha que vale a pena comprar o tecido para complementar algum vestido? Custa praticamente um colar.
— Não sei. — disse Anúbis dando de ombros mas olhando preocupado para a senhora que chorava e botava as mãos no chão na direção dele enquanto as pessoas começavam a fofocar entre si olhando para ele e a senhora — Você tem mais jóias do que consegue usar. Talvez valha a pena mas… você decide.
De forma discreta e apressada, Anput invocou do Duat um de seus vários colares de ouro puro. Não era estranho oferendas no formato de jóias chegarem até o Duat. E, por mais que a maioria delas fossem para Anúbis por causa de sua maior fama e importância, ele não parecia ligar nem um pouco de deixar praticamente tudo pra ela. Contudo, embora a fama e o enorme aumento de seu culto trouxessem mais oferendas para Anúbis, também traziam várias vozes em sua mente pedindo pelas mais diversas coisas relacionadas à morte e ao além. As vozes agora eram tantas que ele não conseguia ficar nem por um segundo sequer sem ouvir ao menos duas pessoas ao mesmo tempo. Exatamente por isso, era difícil conseguir separar os pedidos.
Enquanto Anúbis tinha quase certeza que podia ouvir os pedidos daquela mesma idosa ali perto em sua mente e em seu ouvido ao mesmo tempo pois ela estava os proferindo em voz alta pedindo para que ele cuidasse de sua alma quando ela partisse, Anput pagava pelo tecido e o abraçava com carinho ao se levantar.
— Podemos ir agora. — disse ela sorrindo satisfeita — Foi meio complicado comprar, o mercador falava demais.
— Vai fazer um vestido inteiro dessa cor? — questionou Anúbis enquanto eles andavam para longe do mercador levemente apressados — Isso é bastante tecido.
— Não. Acho que fica muito exagerado ele inteiro assim. — admitiu Anput olhando para a sombra que se formava aos pés de uma árvore fina e solitária que se erguia perto deles — Ainda está meio cedo para ir até Hórus, imagino que queira ir até o túmulo de Djoser. Vi você olhando na direção dela.
— Sou tão óbvio assim? — perguntou Anúbis suspirando com um sorriso pequeno no rosto.
— Pra mim, é sim. — disse Anput dando um rápido beijo na bochecha dele.
Assim, usando uma ruela apertada e deserta, eles conseguiram desaparecer de Mênfis e reaparecer alguns quilômetros ao sul dali. Já bem longe de qualquer plantação que crescia para manter a capital egípcia, uma planície feita da areia esbranquiçada do deserto se erguia quase que infinitamente ao oeste do Nilo. Ali, num lugar onde, em outras épocas, havia apenas o nada e os perigos do deserto, uma enorme equipe de dezenas de trabalhadores, trabalhadores devidamente assalariados com o pagamento de grãos e cerveja, não escravos, trabalhavam na construção do túmulo do faraó Djoser.
Com gritos que tentavam coordenar os trabalhadores, várias pedras de calcário quase tão longas quanto um braço e de aproximadamente um palmo de altura, eram dispostas uma sobre as outras até formar uma estranha construção quadricular com uma base de 109 metros por 121 metros. O tamanho do quadrado ia diminuindo de forma às vezes brusca e às vezes sutil enquanto formava uma enorme construção cujas laterais lembravam uma enorme e grandiosa escada.
— Já subiram bastante desde a última vez que viemos aqui. — disse Anúbis surpreso.
— Será que está quase pronta? — perguntou Anput — Estão construindo isso à anos.
— Não acho que uma construção dessa possa ser feita em menos de um ano. Até onde saiba, os humanos nunca fizeram algo em pedra desse tamanho antes.
— E de fato não fizeram! — disse uma voz atrás deles e, quando eles se viraram, viram Thoth sorrindo de braços abertos — Incrível, não é? Tenho quase certeza que deve ser a primeira vez que os humanos cortam a pedra para fazer algo tão grande.
— Você está por aqui também, Thoth? — questionou Anput.
— Passo quase todos os dias aqui, não sabiam? — perguntou Thoth — Tenho quase certeza que essa construção ficará para a história! Tenho que acompanhar esse momento. Sem falar que, todo o esforço e planejamento por trás dela é simplesmente genial!
— Ficando tanto por aqui e falando com tanta alegria do trabalho de Imhotep, não pode reclamar de Hórus suspeitar que você é o pai dele. — alertou Anput.
— Já disse que não sou. — disse Thoth — Acha que eu seria tolo de trair Maat com uma mortal? Pois não sou. Além mais, que eu seria tolo de ficar por aqui tanto se eu fosse o pai dele? Não mesmo.
— Independentemente disso tudo, tenho certeza que Hórus vai trazer esse assunto a tona novamente. — disse Anúbis.
— Ouvi dizer que você tem informações novas quanto a isso? — perguntou Thoth.
— A parteira de Imhotep morreu recentemente. — disse Anúbis — Podemos descartar então seus laços maternos. Seja lá qual quem foi que gerou um semideus dentre os mortais e fora da família do faraó, não foi nenhuma das deusas.
— É ele ali? — perguntou Anput olhando para um homem de pele morena e cabeça raspada que andava pelas construções com um longo pedaço de papiro na mão acompanhado de outras pessoas enquanto vistoriava a construção e dava ordens para que tudo seguisse os planos da construção daquela que seria, não só a primeira pirâmide, como também a primeira construção de grande escala feita de pedra cortada da humanidade — Iria dizer que podia ser filho de Rá por ser sacerdote dele, mas não parece tão especial assim para ser filho de Rá.
— Pode dizer isso por apenas olhar para ele. — disse Thoth — Mas o homem é tão genial que certamente é o mortal mais inteligente que já vi. Sacerdote de Rá, vizir de Djoser, polímata, poeta, juíz, escriba. Tem avançados conhecimentos das estrelas, da matemática, da medicina e da magia. Um conhecimento de fazer tanta inveja que não é de se surpreender que até os mortais tenham notado que ele é um semideus.
— Queria saber de onde ele tirou a ideia de fazer uma tumba como se fosse uma mastaba em cima da outra. — disse Anúbis.
— Acho que ele considerava que um faraó merecia mais. Não sei. — disse Thoth dando de ombros — Gosta da tumba? Estão chamando de pirâmide.
— É.. magnifica. — disse Anúbis sem conseguir tirar os olhos da construção que nascia diante de si — Talvez um pouco exagerada pelo tamanho mas… não posso negar sua genialidade e beleza.
— Imhotep ficaria feliz em saber disso. — admitiu Thoth com um sorriso olhando também para a construção cujo sol parecia até se refletir no calcário — Afinal, como as tumbas são praticamente seus templos, essa grande pirâmide seria praticamente um templo para você.
Nesse momento, Anúbis abriu a boca para falar algo mas, sabendo bem o que Anúbis ia falar, Thoth ergueu um dedo e continuou a falar.
— Sei bem que diz que não quer nem precisa de templos. Sejam eles grandes ou pequenos. Mas não pode negar que os humanos reconhecem sua importância. Seja fazendo tumbas para seus cachorros ou extravagantes tumbas cuja sua importância se misture a importância de quem será enterrado lá, não pode negar é gostoso ver como se importam e se preocupam com a morte.
— Tenho que concordar com Thoth. — disse Anput abrindo um sorriso que parecia esconder alguma tristeza por trás — É de ficar com inveja.
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