A Morte Das Areias do Saara

143 O Assassino de Seus Inimigos


Notas iniciais
olá olá. bem vindos a mais um capitulooooo perguntinha, o q vcs acham sobre cenas q estão só pra encher linguiça pro tempo n passar rápido demais? eu preciso saber. por favor lembrem de comentar isso pra eu ter noção. obrigada. na imagem de hoje, as pirâmides ao fundo no deserto, mais perto, plantas, árvores, verde mato e um leão.

Eles são assim: São aqueles que agarram o cabo de reboque do barco de Rá quando ele sai da espinha do deus vivo. Eles são aqueles que rebocam este grande deus em seus caminhos (do) alto. São eles que causam o que aconteceu no céu, no vento na calmaria, na tempestade, na chuva.

~ Fragmento de “O livro do Amduat”

Às margens do Nilo, uma pobre gazela dava seus últimos suspiros enquanto uma leoa acabava com sua vida. As grandes e poderosas presas da leoa sujavam-se com o sangue da garganta da gazela enquanto a silenciava ao cumprir a cadeia alimentar. Com o serviço cumprido, a leoa ergueu a cabeça, lambeu os lábios e admirou o trabalho feito de forma solitária sem saber que nos arbustos que o vento balançava as folhas depois de tocar no rosto da leoa, algo estava escondido.

Dentre arbustos e árvores, aproveitando a proteção tanto destes como do vento que batia em seu rosto, Ramsés II colocava silenciosamente uma flecha em seu arco. Nem seu coração ou respiração faziam barulho, tal o controle e calma que ele estava agora. Ambos adquiridos com muito esforço e que certamente chamavam atenção em relação a sua idade de meros 16 anos. Ainda assim, era a primeira vez que caçava uma leoa e não queria que os soldados, escondidos mais além, tivessem que interferir em seu combate na tentativa de não deixar o herdeiro do trono morrer.

Ele sentia o suor escorrendo pelo seu corpo, fruto do calor que fazia mesmo nas margens frescas do Nilo, quando ele deixou a primeira flecha escapar do arco, atingindo a leoa com perfeição em cima do ombro. A leoa gritou, inconsciente de que a flecha só tinha errado a sua cabeça pois o ângulo que estava disponível para Ramsés II atacar não incluía a cabeça dela.

Antes que a leoa pudesse entender de onde a flecha tinha vindo, Ramsés II prontamente atirou uma segunda flecha. A leoa procurou a origem dos ataques, e o encontrou bem quando ele deixou a terceira flecha voar. O alvo era o rosto da leoa, mas infelizmente acabou acertando o peito quando ela pulou, rasgando a pele do peito dela num raspão levemente profundo, não o perfurando. Doloroso, com certeza, mas não letal.

— ALTEZA! — gritou um dos soldados, nervosos pelo perigo se aproximando do príncipe.

— Não interfiram ainda. — disse Ramsés, pegando rapidamente a lança que carregava nas costas.

— Tem certeza? — perguntou Amon-Rá na mente de Ramsés II.

— Tenho. — respondeu ele.

Ele ergueu a lança, apontando-a firmemente para a leoa em poucos segundos, pois a aproximação dela não lhe dava tempo para uma mira mais cuidadosa. Seus olhares se encontraram num mero segundo enquanto a fera se aproximava com velocidade e destreza inigualáveis.

Ramsés II atirou a lança com toda a força de seu braço. A arma cortou o ar ameaçadoramente fazendo as flechas anteriores não parecerem nada, mas mesmo que por pouco, a leoa desviou. Nesse momento, o coração dos soldados que acompanhavam o príncipe se apertou. Alguns deram um pequeno passo para trás numa ação involuntária para proteger a própria vida ao invés da vida do herdeiro do trono. Contudo, Ramsés II estava ainda calmo e confiante, mesmo considerando que logo teve que correr para abrir uma distância da leoa.

Ele sabia que não conseguiria ganhar do animal na corrida, mas tudo que Ramsés II precisava era de alguns metros e segundos para pegar a segunda lança que estava em suas costas. Armado e pronto, Ramsés II se virou no momento certo para se defender de um poderoso ataque da leoa, que pulava em sua direção.

Sem ter certeza se ele e a própria arma aguentariam a potência e o peso do animal se simplesmente acertasse com a lança no exato sentido oposto do pulo, ele fez um golpe diagonal que tanto forçou a leoa para o lado, como cortou-a na altura do ombro direito. Ela caiu com um baque e se ergueu mancando olhando para ele com expressão de puro ódio, ele retribuiu prestando atenção em cada movimento da leoa.

Lentamente, eles ficaram se encarando. Cada passo doloroso que a leoa dava, deixava uma trilha de sangue. Cada um esperava para saber quem seria o primeiro a atacar enquanto andavam lentamente num círculo. Ramsés II sabia que se ela ainda estivesse junto com seu bando, aquela luta seria diferente. Contudo, já estava de olho naquela leoa há uns dias, quando ouviu rumores de que seu bando tinha sido desfeito depois da morte do leão alfa para o leão de outro grupo e, consequentemente, a leoa acabou ficando sozinha.

O príncipe estava calmo e, mais importante, até então ileso, então esperou pacientemente a leoa fazer o primeiro ataque. Quando ela o fez, logo os dois começaram uma dança rápida e ameaçadora que abria cortes em ambos. Não havia espaço para erros em nenhum dos lados. Enquanto isso, os soldados brigavam entre si sobre se estava na hora ou não de ajudar o príncipe, que não tinha tempo para os responder dessa vez.

Os braços de Ramsés II sangravam devido a cortes causados pelas garras da leoa tentando ultrapassar sua lança, mas a maior parte do sangue que manchava a lama negra do Nilo era da leoa. Ramsés II ofegava e ignorava completamente os sussurros de Amon-Rá pedindo por calma e atenção. Foi em outro pulo que a leoa deu na direção do príncipe, agora com mais confiança na força de seu braço contra a força da leoa, que Ramsés II conseguiu perfurar o coração da leoa.

A leoa soltou um grunhido de dor e raiva antes de cair silenciosa com um alto baque no chão quando Ramsés II deixou a gravidade fazer seu trabalho e levar o peso enorme do animal ao chão. Os soldados gritavam alegres, clamando o nome do príncipe que havia acabado de provar para todos que ouvissem as fofocas de seus feitos do dia, que seria inquestionavelmente um grande faraó. Não era sem motivo que “coragem” se escrevia usando o hieróglifo de leão.

Ramsés II caiu de joelhos ao lado da leoa, ofegante e completamente exausto, e colocou a mão sobre o corpo dela. Seus olhos percorreram momentâneamente a lança, uma das poucas armas que haviam conseguido fazer com o tal material novo hitita, mas logo voltou a fitar a face da leoa.

— Obrigado Hórus por essa vitória nesta prova de coragem… — sussurrou Ramsés I, fechando os olhos — E tenha certeza, ó Sekhmet, que o corpo da leoa será tratado com reverência.

— Senhor… — disse timidamente um dos soldados ao se aproximar para fazer alguns curativos mais urgentes — Talvez seja bom tratarmos de vossas feridas.

— Sim… — respondeu Ramsés II abrindo os olhos e deixando o homem trabalhar nos cortes mais profundos e que mais sangravam.

— Todo o Egito irá falar sobre o dia de hoje! — exclamou um dos soldados.

— E com certeza minha mãe e Nefertari irão me matar, já que a leoa não conseguiu. — disse Ramsés II.

— Mães e esposas são assim mesmo… — disse um soldado rindo, mas logo parando ao lembrar que estava falando com o príncipe, e não com mais um soldado — … P-Perdão… não deveria ter dito isso.

— Tudo bem… É bem como disse… Especialmente agora que Amun-her-wenemef nasceu… Nefertari anda mais cansada e, consequentemente, mais fácil de irritar. — disse Ramsés II deixando um sorriso escapar em seu rosto — Mas muito feliz e linda também… Como sempre… Está realmente feliz por ter finalmente conseguido ter um filho.

— Com certeza. — disse o soldado que fazia seus curativos — Sei como é. Também demorei a conseguir ter filhos com minha esposa.

— Três anos não é tanto tempo assim! — reclamou Ramsés II.

— Qualquer coisa mais do que um ano de demora para ter um filho já é preocupante. — disse o soldado.

— Imagino que meu pai queira saber se existe dificuldade em ter filhos do meu lado ou de Nefertari e exatamente por isso resolveu me dar todo um harém. — disse Ramsés II, pensativo — E ainda tem Isetnofret…

— Vossa alteza pensa em casar-se com Isetnofret também? — perguntou o soldado.

— Talvez… Não sei… — admitiu Ramsés II — Ela também é bonita. Não tanto quanto Nefertari, mas ninguém é… Mas se formos considerar que talvez Nefertari tenha mesmo dificuldade em engravidar… mas três anos não é tanto tempo assim também… Eu acho pelo menos. Uma segunda esposa talvez seja uma boa abordagem para assegurar que terei mesmo um sucessor. Afinal Amun-her-wenemef é recém-nascido ainda… Mas eu também era quando nomearam meu avô como faraó. O que faria no meu lugar?

— E-Eu? — perguntou o soldado chocado em o príncipe estar perguntando sua opinião — Bem… Antes de tudo, em vosso lugar, eu me perguntaria se gosto de Isetnofret…

— Gosto. — disse Ramsés II — Não tanto quanto Nefertari mas…

— Eu então, em vosso lugar, me casaria com Isetnofret também, mas seguiria mantendo Nefertari como a esposa principal. — disse o soldado dando de ombros.

Ramsés II ficou um pouco em silêncio pensando se no dever de ser um grande faraó no futuro incluía talvez assegurar a existência de ao menos dois herdeiros ou não. Ou talvez o máximo possível. Não sabia dizer… a única certeza que tinha era que queria sentir o corpo de Isetnofret entrelaçado no seu também. Seu pensamento já estava no corpo da mulher, de temperamento tão diferente da doce Nefertari e nenhuma nobreza sobre seu nome, quando, de repente, eles ouviram um rugido, ou melhor, uma tentativa de um rugido.

O som estava muito longe de um rugido, estava mais para um miado, mas foi o suficiente para atrair a atenção dos que estavam ali. Ramsés II se levantou com a dificuldade causada pelo cansaço da luta e todos olharam para a origem do estranho barulho, que logo se repetiu.

Não demorou muito para descobrirem a origem do barulho, um pequeno filhote de leão em busca de sua mãe, que jazia morta ao lado do príncipe. Seguindo seu nariz e as pegadas da mãe, o pequeno filhote eventualmente encontrou o corpo da mãe. Com suas tentativas de rugidos, o pequeno animal tentava fazer a mãe acordar enquanto buscava pelo olhar brilhante e cheio de ternura da mãe, que agora estava vazio e apagado. Ele circulou pelo corpo da mãe, tentando acordá-la e acabando por quebrar o coração daqueles que estavam ali presenciando a cena.

Quando o pequeno animal se aconchegou no corpo sem vida da mãe, o príncipe se perguntou se aquela prova de coragem perigosa valia mesmo a pena no final das contas. Podia mostrar de forma inquestionável que ele seria um poderoso faraó e diminuir as chances de problemas dentro da própria corte, mas estava incerto agora se o preço era válido.

— Ele vai morrer sem a mãe… — disse um soldado como se pensasse em voz alta.

— Ele tem razão… — disse Amon-Rá.

— Não vai… — disse Ramsés para ambos, se ajoelhando lentamente ao lado do filhote e deixando, cuidadosamente, que ele sentisse o cheiro de sua mão.

Lentamente, ele deixou que o animal o conhecesse, mesmo que isso tenha envolvido o animal tentar o morder com presas praticamente inúteis. Depois de alguns minutos, nos quais os soldados estavam gradualmente mais preocupados com os ferimentos de Ramsés II do que com qualquer outra coisa, o príncipe pegou o filhote nos braços como um bebê.

— Não se esqueçam do corpo da mãe… — disse Ramsés II seguindo o caminho para o palácio com o filhote no colo.

Uma parte dos soldados se encarregou de carregar o corpo da leoa, enquanto outra parte rapidamente correu atrás do príncipe até alcançá-lo enquanto subia em sua liteira. Ramsés II depositou o filhote em seu colo e ficou brincando com ele enquanto a liteira seguia seu caminho de volta para o palácio com o corpo da leoa o seguindo e espalhando por toda Mênfis, não Tebas, as fofocas de seus feitos. A capital havia voltado uns anos antes para onde um dia seria o Cairo, deixando Tebas com todo o poder religioso enquanto Mênfis ficava com o político.

— Sei que ainda é pequeno e frágil… — dizia Ramsés II para o filhote de leão que acariciava — Mas irei batizá-lo com o poderoso nome de Antam-nekt, “Assassino de seus inimigos”. Temos alguns gatos do palácio, por favor faça amizade com eles e não os trate como futuros almoços… Nefertari gosta dos gatos, e eu também…

Enquanto isso, no submundo egípcio, outro tipo de filhote causava pequenos problemas. Tudo começou com um pequeno momento para Kebechet se divertir um pouco com Ihy, Ammit, Macária e a pequena Melinoe mas, num pequeno momento de distração em que os filhos mais velhos se distraíram em conversas ao invés de brincadeiras adequadas para uma menina de três anos, e que os pais também estavam entretidos em suas próprias conversas, Melinoe sumiu.

Assim, logo se começou uma busca pelo submundo em busca da pequena Melinoe. A maior preocupação, era ela ter ido parar em algum lugar perigoso, como o lago de fogo de Amon-Rá ou qualquer lugar fora do Salão do Julgamento.

— Melinoe! Volte aqui imediatamente! — exclamava Hades torcendo para a filha ouvir já imaginando a briga que iria se meter com Perséfone quando ela soubesse do que tinha acontecido no que só devia ser um dia tranquilo.

— Ela não deve ter conseguido ir muito longe. — dizia Anput no portal de entrada do Salão do Julgamento percorrendo os olhos pelo submundo tenebroso antes de sair para explorá-lo junto com Macária, Ihy e Kebechet.

— Perséfone vai me matar… — resmungava Hades.

— Não se preocupe, perder o filho de vista alguma vez não é tão incomum. — disse Osíris.

— Temos ao menos certeza que ela saiu? — perguntou Anúbis olhando para o corredor parcialmente escuro que levava para a sua sala de múmias e outros cômodos.

— Não. — disse Hades — Vamos deixar o lado de fora com as garotas e Ihy e nós procuramos aqui dentro. Não tem como ela ter entrado no Aaru, tem?

— Não. Só eu consigo. — respondeu Anúbis enquanto liderava o caminho pelo corredor escuro com tochas que foram se acendendo conforme eles passavam.

Eles deram alguns passos dentro do corredor em direção à sala das múmias e quando entraram na sala das múmias e as tochas se acenderam, eles suspiraram aliviados, pois a primeira coisa que viram foi Melinoe sentada em uma das mesas de pedra que Anúbis usava para mumificação.

O alívio de achar a menina, contudo, só durou um segundo, pois logo eles pararam para processar a cena em que Melinoe estava. A garota não estava simplesmente sentada sobre uma das mesas de pedra usadas para mumificação, a mesa em questão estava também ocupada por um corpo ainda no estágio inicial da mumificação e a garota o observava com um olhar estático de grande interesse, mas também levemente arrepiante.

— Melinoe! Você não pode entrar aqui! — exclamou Hades entrando na sala e rapidamente tirando a menina de cima da mesa.

Hades colocou a menina no chão, que não parecia arrependida, e ela apenas ficou encarando o pai com aqueles olhos negros e enigmáticos dela. Hades suspirou e revirou os olhos enquanto tentava juntar cada grama de paciência que ainda tinha dentro de si. Se é que ainda tinha alguma.

— Você não pode sair por aí andando no submundo dos outros sozinha e entrando onde não deve… — ralhou Hades massageando as têmporas — Especialmente numa sala cheia de cadáveres.

— Legal… — respondeu Melinoe ignorando a bronca toda e apontando para o cadáver ao lado do qual estava sentada até uns segundos atrás.

— Vamos atrás da sua irmã pra dizer que você está bem. — disse Hades puxando a menina pela mão para fora da sala das múmias.

Anúbis só ficou olhando aquela interação pai-e-filha, não querendo interferir em como Hades criava suas filhas. Contudo, ficou para trás para olhar para o cadáver que havia interessado Melinoe para ter certeza de que ela não havia feito nada com o corpo do homem. Enquanto se certificava de que estava tudo bem, Anúbis não pode deixar de lembrar de quando Kebechet insistia tanto para entrar na sala das múmias. Todavia, aquela pequena interação havia deixado bem claro que Melinoe se interessava ainda mais pelo conteúdo daquela sala.

Depois de certificado que o corpo estava tal como deixou, Anúbis acendeu um pouco de incenso, dado por Nefertem, para diminuir o constante cheiro de morte da sala das múmias e então saiu dali. No corredor, acabou se encontrando com Hades, que já havia deixado Melinoe com Macária.

— Ela não fez nada com o corpo não né? — perguntou Hades.

— Não. Está do jeito que deixei. — respondeu Anúbis.

— Melinoe dá muito mais trabalho que Macária… — resmungou Hades soltando um pesado suspiro — Sei que estamos longe de sermos normais… considerando tudo sobre deuses e afins… mas Melinoe… digamos que ela deixa Perséfone preocupada.

— Com? — perguntou Anúbis.

— Não precisa ser educado e fingir que não notou como a menina estava do lado do corpo. — reclamou Hades — Quase parecia hipnotizada. Às vezes também ela entra de fininho no cômodo e dá um susto em Perséfone ficando parada nas sombras encarando ela.

— Não me surpreenda que seja tão difícil saber onde ela está então… — disse Anúbis.

— Exatamente… — disse Hades suspirando pesadamente, mas logo parando de falar como se tivesse notado alguma coisa.

— O que foi? — perguntou Anúbis.

— Tenho que ir… — disse Hades, entredentes — Parece que algum mortal entrou no submundo… Aquele idiota do Odisseu… Quem é que tem a cara de pau de rezar pra mim enquanto invade o submundo?

— Ainda tentando chegar em casa… — completou Anúbis fazendo Hades soltar uma pequena risada — Eu falei pra você melhorar a segurança do seu submundo.

— Cada um com seus problemas. — disse Hades já fechando a cara — Minha segurança é falha e você não pune o suficiente os maus.

— Não puno suficientemente os maus? — perguntou Anúbis.

— Acho a não existência muito cômoda. Já te disse isso. — disse Hades gesticulando com a mão fazendo pouco caso — Mesmo considerando que a parte de ser devorado por Ammit antes seja dolorosa.

— Nem sempre é assim. — disse Anúbis — Se passar demais dos limites não vejo problema em ser mais criativo.

— Tipo? — perguntou Hades, já agoniado em sair dali para checar o que Odisseu aprontava, mas também curioso.

— Uma vez teve um homem chamado Minkhaf. Era um dos filhos do faraó Khufu. — lembrou Anúbis — Ele tentou trazer a esposa e o filho de volta a vida e roubou um livro importante de Thoth. Com o livro, ele chegou bem perto de trazer a família de volta.

— O que você fez? — perguntou Hades curioso por essa informação antes de ir embora.

— Deixei ele preso eternamente na escuridão da própria tumba. — disse Anúbis — Sem conseguir tocar em nada e ao lado do livro que causou toda a situação. Ainda está lá.

— Gostei. — disse Hades afirmando com a cabeça — Bem, tenho que ir.

Hades num piscar de olhos sumiu logo depois, pronto para lidar com Odisseu.

Provavelmente Macária já estava acostumada a ser largada repentinamente como a única babá de Melinoe, ou Hades sequer se importava em avisar para ela que estava indo. De toda forma, Anúbis voltou para o Salão do Julgamento e foi recebido pela visão de Kebechet e Melinoe montadas em Ammit, que corria e pulava loucamente para deixar a brincadeira mais divertida, mesmo com a maioria das risadas vindo de Kebechet. E também, Ihy corria atrás das três reclamando que agora era a vez dele.

Osíris estava em seu trono, admirando a cena com um sorriso no rosto. Contudo, o destino de Anúbis foi a parede onde Anput e Macária estavam encostadas conversando e fitando a cena e ficou fazendo o mesmo até o momento em que Macária perguntou:

— Onde está meu pai?

— Parece que Odisseu entrou no submundo e ele foi resolver. — explicou Anúbis.

— Bem que ouvi dizer que Circe recomendou que ele fizesse isso… — disse Macária — Os deuses começaram a apostar quanto tempo ele demora para chegar em casa.

— Também gostam de apostas por lá? — perguntou Anput.

— Imagino que seja complicado achar formas de se divertir depois de tantos séculos vivendo. — disse Macária — As coisas começam a ficar mais repetitivas.

— Não deixe o pessoal daqui ouvir dessa aposta se não vão lá se juntar. — disse Anúbis — Principalmente Khonsu… é um apostador perigoso…

Anúbis então se espreguiçou e suspirou pesadamente antes de dizer:

— Já que não temos nenhuma criança perdida pelo submundo mais, vou juntar os mortos nas fronteiras. — resmungou Anúbis — Depois eu volto.

— E ainda quer ter mais filho… com guerras acontecendo tanto ao norte com os hititas quanto ao sul com os núbios… — disse Anput — Sorte sua que Seti I é um bom líder e guerreiro e ainda tem Ramsés II com ele, se não esse salão estaria entupido de mortos e consequentemente ocupado demais para cuidar de mais do que só Kebechet.

— Ah mas se Ramsés II se tornar o que dizem que vai se tornar, essas guerras não devem durar mais tanto… — disse Macária incerta — Não?

— Nem adianta… — disse Anúbis suspirando tristonho — A gente concordou… meio a contra gosto, mas…

— Não sabemos ainda bem porquê Kebechet parou de envelhecer tão nova… — sussurrou Anput — Então não queremos arriscar.

— Temos certo receio de que talvez tenha sido nossa culpa… — admitiu Anúbis num mero sussurro — Bem… vou indo…

Anúbis usou aquela oportunidade para fugir dali com a cabeça cheia de pensamentos sobre Kebechet. Logo estava nas fronteiras ao sul do Egito, entrando em terras núbias.

O clima do conflito ali era tão instável quanto o coração de Anúbis naquele momento. Os núbios se revelavam contra os egípcios, que tentavam controlá-los já que precisavam da Núbia para usar como porta de entrada para o ouro vindo de diversas partes da África e da própria Núbia já que só o ouro egípcio não era suficiente para satisfazer as necessidades de luxo dos egípcios. Enquanto isso, Anúbis pensava se ele e Anput tinham mesmo alguma culpa em Kebechet não ter ficado mais velha, sendo eles mesmos não tão velhos assim, ou talvez tenham escolhido uma época ruim para ela nascer. Uma época em que talvez o Egito não estivesse tão forte quanto gostariam.

Foi com esses pensamentos que Anúbis foi para cada lugar onde jazia um soldado egípcio morto e esquecido do lado errado da fronteira, até o pensamento o perseguir ainda mais quando foi fazer o mesmo na fronteira com os territórios hititas. Sendo o conflito ao norte com os hititas mais preocupante e mais pessoal, graças a morte tantos anos antes do príncipe que tentou se casar com a viúva de Tutancâmon, Anquesenamon, o tanto de mortos era maior. As armas de ferro dos hititas não ajudavam muito também e, segundo Hórus, as armas de ferro egípcias ainda estavam em teste e eram difíceis de fazer devido à falta de matéria prima e até de onde importar sem ser dos próprios hititas.

Quando só tinha resgatado apenas três soldados, o sol que brilhava forte queimando a sua cabeça teve sua luz interrompida por duas figuras que, do alto de um pequeno morro, fizeram sombra sobre um dos mortos que Anúbis tinha que recolher.

Anúbis se virou e suspirou cansado ao reconhecer Lelwani e Zababa o encarando. De cara fechada, Anúbis foi andando em direção aos dois depois de revirar os olhos e, consequentemente, em direção ao morto que deveria levar de volta ao Egito. Antes de resgatar o morto, contudo, ele encarou os dois hititas. Poucos metros separavam o egípcio dos hititas, mas nesses poucos metros era possível sentir toda a pressão criada pela guerra e as mortes que esta já tinha trazido.

— Se têm algo a dizer, digam logo. — disse Anúbis — Última vez que cheguei não havia nada de errado nas relações dos nosso panteões que me impedisse de recuperar os corpos de nossos mortos.

— De fato não tem. — disse Lelwani.

— Só queremos ter certeza de que não vai fazer nada fora do aprovado. — disse Zababa.

— E quando foi que o fiz? — perguntou Anúbis.

— Você especificamente… não sei dizer… — disse Lelwani dando de ombros — Mas os seus…

— Os meus…? — perguntou Anúbis.

— Compatriotas e mortais. — completou Zababa — Trazendo Horus para trazer força aos mortais contra armas novas criadas pelos nossos mortais. Usando o divino contra o mundano.

— Fazem anos que isso aconteceu. — disse Anúbis — E não nos envolvemos diretamente no conflito. Foi a fé e a força dos mortais que fizeram todo o trabalho.

— E colocando Amon-Rá e Seth nos corpos de dois homens… — completou Zababa.

— É tradição desde antes de vocês nascerem um deus estar no corpo do faraó. — disse Anúbis cruzando os braços.

— "Do faraó" — repetiu Lelwani — Ramsés II não é faraó.

— Ainda. — disse Anúbis, embora visse o ponto dela, mas não ia admitir que ela tinha um ponto ali.

— Então tá. — disse Lelwani dando de ombros — Façam o que quiserem mas depois não reclamem.

Anúbis não deixou de encarar os dois enquanto fez o corpo perto dos três sumir dali direto para a sala das múmias. Feliz que o último corpo estava mais longe dali, pois assim podia se afastar um pouco dos dois deuses hititas, Anúbis logo terminou o que foi fazer nas fronteiras. Seu próximo destino era, infelizmente, interromper as férias de alguns poucos dias de Hórus.

Tal urgência podia ser desnecessária, mas não tinha como ele ter certeza. Tinha que passar o que os hititas disseram para Hórus. Foi exatamente por isso que Anúbis apareceu timidamente em uma das praias de águas azuladas do Mar Vermelho. Por um segundo ficou preocupado em encontrar Hórus e Hathor num momento pessoal demais, contudo, rapidamente ele encontrou Hórus e Hathor sentados na areia juntos. Anúbis suspirou pensando como era bom que eles estavam vestidos mas, ao se aproximar, imediatamente Hórus revirou os olhos e resmungou:

— Espero que seja importante e que eu não precise sair daqui.

— O segundo depende do que você vai achar melhor fazer. — disse Anúbis.

— O que foi? — perguntou Hórus.

Anúbis explicou, em detalhes, o encontro que teve com Zababa e Lelwani e a situação deixou Hórus e Hathor silenciosos por alguns segundos com o término da explicação. Contudo, eventualmente Hathor quebrou o silêncio.

— Não acha que eles podem acabar decidindo interferir diretamente na guerra, acha? — perguntou ela — Realmente lutar do jeito mais óbvio e tradicional.

— Acho que seria muito exagerado. — disse Hórus — Se tivesse alguma forma de espionarmos o que eles estão tramando sem levantar suspeitas.

— É muito perigoso. — disse Anúbis — Se descobrirem, com certeza vão retaliar de alguma forma.

— Eles não sabem ainda que Ramsés II começou a testar aquela arma pesada, certo? — perguntou Hathor.

— Acho que não. — disse Anúbis.

— O mortais estão chamando de metal dos céus. — disse Hathor.

— Faz sentido, os que conseguimos para fazer armas realmente caíram dos céus… — comentou Hórus mencionando a origem do ferro egípcio que, até então, vinha de meteoritos.

— Pensando bem… aquela adaga que Tutancâmon tinha… — disse Anúbis — Ela veio de fora do Egito. Era do mesmo material, não era?

— Provavelmente. — disse Hórus dando de ombros — Está lá na tumba dele. Não acho que você vai gostar da ideia de irmos lá só pra confirmar algo assim.

— Não. — respondeu Anúbis.

— Não seria tão importante também confirmar a quanto tempo eles conhecem a técnica para fazer armas com o metal dos céus. — disse Hórus — O problema existe no agora.

— Bom. — disse Hathor aliviada — De toda forma… será que se Seti e Ramsés II simplesmente evitarem lutarem ao mesmo tempo a situação melhora?

— Talvez, mas também não me agrada simplesmente obedecer eles. — disse Hórus — Seria admitir que tememos o poder que os hititas tem.

— Mas o pedido deles também é uma prova de que estão preocupados conosco. — disse Hathor com um pequeno sorriso travesso — Podemos não ter derrotado os hititas e nem os núbios de vez ainda, mas não tem como negar que Seti e Ramsés II estão acumulando várias vitórias.

— Tem razão. — disse Hórus, olhando para Anúbis — Mas vou pensar no que fazer quanto a isso… Talvez só peça para Seti maneirar na quantidade de vezes que ele leva Ramsés II também. Enquanto isso… faz um favor pra mim?

— Depende… — respondeu Anúbis já mudando do modo falando com o faraó dos deuses pro modo falando com o primo.

— A cada dois meses eu checo se Seth está se comportando… — explicou Hórus — Pode fazer isso por mim quando sair daqui? Só perguntar pro Seti como as coisas estão e ter certeza de que não é Seth tentando de enganar.

— Pode ser… — disse Anúbis fechando a cara.

— Não me agrada isso também. — admitiu Hórus.

— Imaginei. — disse Anúbis — Só por isso não vou reclamar.

Anúbis então sumiu dali, já de saco cheio de tanto sumir e aparecer em lugares diferentes por aquele dia. Pensando em como com certeza iria voltar para o submundo depois dali e quem sabe jogar algum jogo de tabuleiro com Kebechet e Anput, Anúbis apareceu no palácio real em Mênfis. Ele surgiu silenciosamente na sala do trono, ainda avaliando se deixaria que os outros o vissem pois não queria assustar ninguém, e quem sabe teria certeza que Seti estava no comando do próprio corpo também se conseguisse vê-lo fazendo algo que Seth nunca faria.

Dito e feito. A primeira coisa que viu foi o faraó, sentado no trono, segurando nos braços o neto recém nascido, Amun-her-wenemef, enquanto falava com ele carinhosamente, balançando-o nos braços.

— Você vai ser um bom menino né? — balbuciava Seti para o neto, que apenas o encarava sem entender nada — Não vai ser teimoso como seu pai que acha que leão é animal de estimação né?

— Não tem como ter dúvida quem está no controle do corpo… mas… — resmungou Anúbis e logo depois apareceu para que Seti pudesse o ver — O que disse que Ramsés II fez?

Claramente notando que não estava mais sozinho no cômodo, Seti levantou o olhar e se mostrou levemente surpreso ao ver Anúbis ali.

— Com todo respeito… achei que Hórus que viria hoje. — disse o faraó.

— Ele está descansando. — respondeu Anúbis — Como é essa história de Ramsés II com um leão?

— Foi caçar leão e voltou com um filhote de estimação. — respondeu Seti suspirando — Espero que ele desista dessa ideia antes do bicho ficar grande e eventualmente achar que ele tem cara de jantar. Batizou-o até de Antam-nekt. Está com Nefertari tentando apresentar o bicho aos gatos. Achei melhor ficar com Amun-her-wenemef longe dessa confusão já que ele ainda tem só alguns dias de vida.

— Fez bem… — disse Anúbis — E como está Seth?

— Normal… ou o que é o normal dele. — admitiu Seti, dando de ombros — Parece gostar de estar no poder e quer mostrar que sabe comandar… Está reclamando também que falo coisas demais para vocês.

— Continue falando demais. — pediu Anúbis.

Naquele momento, Ramsés II entrou no cômodo acompanhado de Nefertari, que segurava um gato. Aos pés do príncipe, estava o pequeno leão os seguindo, tentando morder seus calcanhares mesmo que os dentinhos não fossem tão fortes para fazer nenhum estrago, mas certamente o suficiente para incomodar um pouco.

— Oh, temos visitas? — perguntou Nefertari, sem saber direito quem era a visita, embora sentisse que algo estava diferente.

— Lorde Anúbis… — disse Ramsés II colocando a mão sobre o coração e abaixando a cabeça momentaneamente e, ao ver como o marido se comportava, Nefertari prontamente o imitou — Vejo que conheceu meu primogênito.

— Sim. Acabei conhecendo. — respondeu Anúbis olhando para o filhote de leão ao invés de para o bebê.

Ramsés II foi até o pai e pegou o filho orgulhosamente nos braços, admirando-o lentamente enquanto Nefertari ainda olhava para o chão timidamente, sem saber como se comportar diante de Anúbis.

— Será certamente um grande faraó. — disse Ramsés II.

— Espero… — disse Anúbis, sem muito assunto.

Ramsés II olhou orgulhosamente para o filho sem sequer imaginar que nos anos que passariam ele se casaria com Isetnofret também. E então, quando estivesse perto de completar 24 anos de idade, ele já teria segurado nos braços outros dois filhos e mais três filhas. Os cinco ou de Nefertari ou Isetnofret, ambas também grávidas.

Notas finais
*** UM POUCO DE VIDA REAL *** Se o Ramsés II já matou um leão ou não, eu não sei. Mas ele provavelmente teve sim um leão de estimação chamado Antam-nekt. No geral, o cara parecia gostar muito de felinos pq ele teve outros felinos (foco em “felinos” kkk não “gatos” kkk). Se juntar todas as coisas que se sabe sobre o Ramsés II, o cara parece q nasceu pra nascer foda kkk (ou mentia muito kkk). O primogênito do Ramsés II não foi outro Ramsés kkk ele tinha um belo nome a la bateu a cara no teclado, Amun-her-wenemef. ah e sim… Isetnofret… Ramsés II era sim famoso por ser apaixonado por Nefertari que era sua esposa favorita kk não a única kkk dá pra chamar ele de mulherengo? kkk acho que dá. Piscou e o Ramsés II já mostrou que é um coelho kkk imagina ser pai de 8 aos 24 anos kk esqueçam-se de Zeus ou Mr. Catra… apresento-lhes, Ramsés II kkkk n viram nada ainda kkk PIORA kkkk Gente, mancada minha. a capital tinha trocado de Tebas para Mênfis já tinha um tempo e eu esqueci de incluir isso. Não foi o Seti I que mudou. **** REFERÊNCIAS **** Livro de Amduat - https://hrcak.srce.hr/file/312810 As viagens de Odisseu - https://www2.classics.upenn.edu/myth/php/homer/index.php?page=odymap Leão de Ramsés II - https://www.nbcnews.com/id/wbna3957990 Leão de Ramsés II - https://books.google.com.br/books?id=5mtl6sunjCQC&pg=PA19&lpg=PA19&dq=%22Antam-nekt%22+ramses+II+lion&source=bl&ots=KEtF6US2o3&sig=ACfU3U1HBk47ys6hE4RAPOnqUQEGNwJzag&hl=en&sa=X&ved=2ahUKEwiX4LDj1ML_AhVBHrkGHRArAmUQ6AF6BAgKEAM#v=onepage&q=%22Antam-nekt%22%20ramses%20II%20lion&f=false Filhos de Ramsés II - https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_children_of_Ramesses_II —- POR FAVOR, lembrem de comentar o q acham de cenas q estão só pra encher linguiça pro tempo n passar rápido demais.