A Morte Das Areias do Saara
144 O Maior Faraó do Egito
Notas iniciais

O que (eles) comandam aos vivos é o que a grande barca atua no céu... sobre (por) ele. Viva, viva, acima de tudo de sua escuridão! Viva, o senhor Osíris, o governante dos ocidentais, e viva acima de tudo, a respiração de Rá pertence ao seu nariz. Sua vida passa a existir.
~ Fragmento de “O livro do Amduat”
Olhando de longe, parecia apenas mais um dia tranquilo no palácio. No jardim do palácio, Nefertari senta-se calmamente num banco embaixo de uma sombra com uma enorme barriga de gravidez e o filho Pareherwenemef sentado ao seu lado com o dedo na boca enquanto um gato alaranjado se enrolava nos pés de Nefertari. Pelo jardim todo, corriam para todo lado os quatro filhos mais velhos de Ramsés II com Nefertari e Isetnofret e alguns gatos da família.
Os pequenos rapazes Amunherkhepeshef, Ramsés e as pequenas Bintanath e Baketmut corriam brincando sem se importarem com o fato de que Amunherkhepeshef e Baketmut tinham a Grande Esposa Real como mãe. Ao lado de Nefertari, o poderoso leão, Antam-nekt, que havia crescido nos anos que se passaram, parecia querer dormir apesar dos risos altos e da pequena Nefertari que, com o mesmo nome da mãe, era a até então a filha caçula do príncipe e, com passos trôpegos e acompanhada por um gato acinzentado, se aproximava do leão.
— Não… — disse Ramsés II repentinamente pegando a pequena Nefertari nos braços, impedindo-a de brincar com o leão — Sabe que não pode brincar com o Antam-nekt.
— Atin… — resmungou Nefertari filha apontando para o leão.
— Não é gatinho. — corrigiu Ramsés II — É um leão. Não é para brincar.
Nefertari filha claramente não gostou disso e logo fez um bico enquanto as lágrimas começavam a se acumular nos olhos dela. Com dó, Ramsés II logo abraçou mais a filha, que prontamente se enroscou no pescoço dele choramingando silenciosamente.
— Desculpe… mas não pode… — disse Ramsés II acariciando as costas da menina.
— Ela gosta muito dos animais… — disse Nefertari — Já perdi a conta de quantas vezes já a tirei de perto de Antam-nekt… O que não é muito fácil com a barriga desse tamanho.
— Vou tentar ficar mais de olho nele. — prometeu Ramsés II.
— E nas crianças… — pediu Nefertari.
— E nas crianças. — disse Ramsés II dando uma leve risada — Mas com o 7º e o 8º vindo aí, estamos em grande desvantagem.
Apesar da preocupação de Ramsés II, o leão já parecia bem à vontade em sua nova família, mesmo que os únicos que chegassem perto dele, além do próprio Ramsés II, fossem os vários gatos da família que perambulavam pelo palácio livremente e os filhos … antes de levar bronca para não chegarem perto do leão. Nesse ponto, Bintanath e Ramsés filho correram em direção ao Ramsés II, largando a brincadeira para trás e indo até o pai com olhares preocupados.
— Papai… — disse Bintanath — Acha que nosso irmãozinho já nasceu?
— A mamãe tá a um tempão lá… — resmungou Ramsés filho.
— Também estou curioso… — admitiu Ramsés II — Querem ir lá comigo ver? Mas não podem entrar no quarto, só até o corredor. Entenderam?
— Sim! — exclamaram Bintanath e Ramsés filho ao mesmo tempo, pulando de alegria.
— Vou lá ver como está Isetnofret no parto… — disse Ramsés II olhando para Nefertari enquanto tentava tirar a filha do colo, mas ela lhe agarrou o pescoço, não querendo sair de lá.
— Naaaum… — resmungou Nefertari filha.
— Espero que esteja tudo bem… — disse Nefertari.
— Acho que vou levar ela também… — disse Ramsés II claramente vendo que Nefertari filha queria ir com ele.
— Pode levar. — disse Nefertari rindo — Menos criança pra eu olhar.
— Quer que eu peça pra alguma das babás voltarem do descanso e ficarem com você? — perguntou ele — Eu disse que era uma má ideia pedir pra todas descansarem ao mesmo tempo.
— Não, tudo bem. — disse Nefertari — Foi um dia difícil mesmo com Isetnofret entrando em trabalho de parto. Um descanso é bem vindo para elas. Eu me viro. Só, por favor, leve com você Antam-nekt.
— Sim… — disse Ramsés II — Vamos Antam-nekft.
Sob ordens do príncipe, o leão se espreguiçou e seguiu o príncipe e seus filhos rumo ao interior do palácio. Bintanath e Ramsés filho iam a passos apressados na frente, enquanto Ramsés II o seguia com Antam-nekt ao seu lado e Nefertari filha, que fitava o leão, em seu colo.
— Lembrem que não podem entrar no quarto… — lembrava Ramsés II quando eles chegaram no corredor que levaria aos aposentos de Isetnofret.
Não precisava nem lembrar os dois filhos para não entrarem no cômodo, pois, ao ouvirem os gritos da mãe seguidos de silêncio, as duas crianças travaram no corredor enquanto Nefertari filha se encolhia nos braços do pai. Preocupada, Bintanath olhou para Ramsés II com assombro nos olhos e foi até ele, para poder se agarrar ao seu saiote.
— A mamãe vai ficar bem? — perguntou Bintanath.
— Ela não parece bem… — disse o pequeno Ramsés filho, com um biquinho também se aproximando do pai.
— Ela vai estar bem. — garantiu Ramsés II — Ela é forte e não é a primeira vez. Foi a mesma coisa quando vocês nasceram.
Ramsés II se agachou para ficar na altura das crianças e, quando o fez, Antam-nekt prontamente se aproximou do rosto do príncipe, acariciando-o na bochecha com o focinho. Ramsés II acariciou a juba da fera e olhou para os filhos enquanto tentava colocar Nefertari filha no chão. Lentamente ele abria cada dedinho que se agarrava, seja em suas roupas, cabelos ou o que fosse, para soltar a criança.
— Eu vou ver se a Isetnofret está bem… — disse para Nefertari filha, que parecia prestes a chorar — Fique aqui com seus irmãos. Vai ser rapidinho.
— Naum… — resmungou Nefertari filha.
— Seus irmãos cuidam de você, certo? — perguntou Ramsés II olhando para os dois mais velhos com expectativa.
— Sim! — responderam eles ao mesmo tempo como se fossem soldados mas, verdade seja dita, Ramsés II estava olhando ao redor em busca de alguém que tivesse pelo menos o dobro da idade dos filhos.
Ramsés II deixou Nefertari filha sentada no chão e se ergueu quando viu um guarda passando mais além, passando direto pela entrada do corredor onde estava. Por um segundo, tentou se lembrar do nome do homem, mas logo um chute veio a sua mente.
— Aahotepre! — chamou Ramsés II, que quase suspirou aliviado quando notou o guarda parando onde estava — Era Aahotepre, certo? Seu nome…
— Sim senhor. — respondeu o guarda virando-se para o príncipe.
— Pode ficar de olho nos três por uns momentos enquanto eu vejo Isetnofret? — perguntou Ramsés II — Se eu demorar muito, leve-os para Nefertari e chame as babás.
— Sim senhor. — disse Aahotepre, sem deixar de dar um olhar preocupado para Antam-nekt.
— Ele vai também. — respondeu Ramsés II sabendo que o guarda, assim como quase todos do palácio, morriam de medo de seu leão de estimação.
Ramsés II deixou os filhos com Aahotepre e seguiu para o quarto de Isetnofret com Antam-nekt o seguindo fielmente a cada passo. Quando o príncipe entrou no cômodo, tanto a esposa como as parteiras olharam para ele por uns segundos, mas logo outra contração veio e Isetnofret parou de olhá-lo para morder os lábios enquanto resmungava de dor.
— Esse certamente está demorando bastante… — disse Ramsés II apontando para o chão e Antam-nekt prontamente entendeu o sinal e sentou-se lá, completamente obediente — Está desde ontem a noite nisso…
— Não aguento mais… — admitiu Isetnofret — Quero que ele ou ela.. o que for… saia logo!
— A cevada não cresceu quando fez o teste? — perguntou Ramsés II indo até ela e segurando a mão que ela lhe estendeu — É provável que seja um menino.
Ele olhou para ela por uns segundos, lá de cócoras apoiadas na cadeira de madeira sem assento que tanto ela como Nefertari usavam para dar a luz. Certamente estava longe dos ideais de beleza que qualquer um teria. Estava com suor escorrendo por sua pele parda, além de evidentemente cansada e com os cabelos negros encaracolados espalhados para todo lado já que haviam escapado do coque mal feito que uma das parteiras havia feito quando as contrações começaram na noite anterior. Ainda assim, ele achou que ela estava linda.
— E o que veio fazer… — disse Isetnofret parando por uns segundos — … aqui? Falei para ficar com as crianças… ter certeza que não estão… preocupadas.
— Não precisa passar por isso sozinha. — respondeu ele — E também… elas estão preocupadas, não importa o que eu faça. Por isso, vim ver como estava. Então, como está?
— Mande seu filho sair de dentro de mim que ficarei bem melhor. — respondeu Isetnofret logo parando de falar para gritar de dor com outra contração.
Ramsés II aumentou a força com que segurava a mão de Isetnofret, até porque ela fez o mesmo. Foi naquele momento que decidiu que deixaria o guarda voltar com os filhos para o jardim, pois ficaria ali até seu filho nascer. Isetnofret protestou, mas ele ignorou-a completamente, apenas deu-se alguns segundos para certificar-se de que os filhos do lado de fora haviam voltado para a companhia dos irmãos.
Várias horas mais se passaram, e o sol já estava se pondo, mas eventualmente um choro de bebê ocupou todo o palácio real em Mênfis. As parteiras colocaram o recém-nascido, um menino, nos braços de Isetnofret e Ramsés II envolveu ambos enquanto, ao lado da porta do quarto, o leão preguiçosamente bocejou, deixando as parteiras pálidas por terem visto cada presa branca e ameaçadora em sua boca.
— Será o nome que combinamos? — perguntou Ramsés II para Isetnofret.
— Claro… — disse Isetnofret olhando para o pequeno que chorava em plenos pulmões — Meu pequeno Setne Khamwas.
— Finalmente um menino forte… — disse a voz de Amon-Rá na cabeça de Ramsés II — Primogênitos são importantes…
— Não é o primogênito… — pensou Ramsés II — Lembra? Já é o quarto menino. Sétimo contando as meninas.
— Quando teve tudo isso mesmo? — resmungou Amon-Rá.
— Você fala isso toda vez… — pensou Ramsés II de volta.
— Minha cabeça não é mais como era antes… — suspirou Amon-Rá.
— Tem estado mais calado também… — pensou Ramsés II.
— Hm… — resmungou Amon-Rá.
— As crianças vão ficar agoniadas para virem ver você e o bebê. — disse Ramsés II já se perguntando também quando será que Nefertari daria luz também enquanto Isetnofret lhe passava o bebê carinhosamente e ele o admirava.
— Tem razão. Já deixei-os esperando demais. — disse Isetnofret sem tirar os olhos do novo filho, o terceiro que dava a luz.
— Vamos limpar vocês dois e te acomodar na cama. — disse a parteira com um doce sorriso.
Ramsés II ficou segurando o bebê enquanto as parteiras ajudavam Isetnofret a ficar limpa e se aconchegar na cama. Ele aproveitou cada segundo que teve, admirando aquela frágil criatura, antes de devolver o bebê para as parteiras para ele ser o próximo a receber os cuidados para então ir para os braços da mãe.
— Vou preparar e chamar as crianças… — disse Ramsés II — E meus pais… podemos mandar um mensageiro para os seus também.
— Por favor. — disse Isetnofret quando Ramsés II se virou para ir embora, levando Antam-nekt consigo.
Sabendo que o caos iria começar assim que falasse para os filhos que o novo irmão havia nascido, Ramsés II achou que seria mais calmo e sábio chamar seus pais primeiro. Assim, ele foi direto para os aposentos dos pais, onde sabia que eles estavam pois passaram o dia inteiro lá. Seti I estava deitado no sofá. Na mesa ao lado, estava um pão que estaria bem esquecido se não fosse Tuya, a mãe de Ramsés II, beliscando um pequeno pedaço.
— Como está se sentindo? — perguntou Ramsés II, sabendo que o pai estava se sentindo mal o dia inteiro.
— Não sei… — admitiu Seti I — Ainda estou bem enjoado e tonto.
— Nem conseguiu comer o pão… — admitiu Tuya.
— O médico falou que precisa comer alguma coisa e descansar… — lembrou Ramsés II — Já tentou dormir? Por estar no sofá ao invés da cama imagino que não...
— Não consegui dormir. — admitiu Seti I, massageando o peito fracamente — A dor não passa.
— Posso pedir para trazerem camomila… — sugeriu Ramsés II — Talvez uns incensos…
— Não seria minha primeira camomila do dia… — resmungou Seti I, deixando o braço cair, cansado, no sofá — Mas tudo bem. Me distraia por favor. Amanhã estarei melhor. Como está Isetnofret?
— Se você diz… bem… — disse Ramsés II dando de ombros — Quanto a Isetnofret, Setne nasceu.
— Sério? — exclamou Tuya repentinamente radiante — Mais um netinho…
— Vamos vê-lo… — disse Seti I sentando-se lentamente no sofá com evidente dor no rosto.
— Sei que te pertubo bastante, mas eu tenho que concordar. — disse Seth na mente do faraó — Você não parece bem.
— Cala a boca. — pensou o faraó para Seth.
— Posso trazê-lo até aqui, se está se sentindo tão mal assim… — falou Ramsés II — Não se esforce.
— Sim… — concordou Tuya, sentando-se ao lado do marido e passando os dedos carinhosamente pelos cabelos ruivos que ele compartilhava com o filho — Não precisa se fazer de imbatível só porque é o faraó. Se dê o direito de descansar num dia ruim.
— Semana ruim você quer dizer… Tenho força suficiente para conhecer meu neto. — disse Seti I se erguendo e ignorando a oferta de uma mão para ajudar a se erguer feita por Ramsés II.
Eles começaram a andar em direção a saída do quarto depois de Ramsés II e Tuya se entreolharam preocupados. As preocupações dos dois se provariam muito justificadas quando Seti I parou subitamente no meio do corredor. Ele se encolheu de dor com a mão sobre o peito.
— Pai? — perguntou Ramsés II preocupado segurando o cotovelo de Seti I. Ao tocar o faraó, Ramsés II notou que o cotovelo dele estava suando frio.
— GUARDAS! CHAMEM O MÉDICO! — gritou Tuya enquanto Seti I caia de joelhos no chão.
Seti I estava ofegante, como se tivesse corrido uma maratona, sua mão ainda estava sobre o seu peito e mal conseguia ver sentido nas palavras do filho que tentava lhe pedir para respirar ritmadamente. Sua visão estava parcialmente turva e sentia que ia desmaiar quando tentou chamar pelo deus Seth dentro de si e foi recebido pelo total silêncio. Desde quando Seth não estava mais lá?
O faraó puxava o ar, mas o ar não parecia chegar. Seu peito doía intensamente e nem conseguia falar qualquer palavra ou entender as palavras desesperadas de seu filho e esposa, que se perguntavam onde raios estava a droga do médico. Enquanto sua visão ia ficando mais escura, ele viu Anúbis, mais além, olhando para ele. Seti I teve certeza de duas coisas, a primeira era que ninguém mais via o deus, a segunda era que seu tempo no mundo havia acabado.
E assim, com o coração silencioso, Seti I caiu morto no chão.
Ramsés II e Tuya se renderam completamente ao desespero, completamente perdidos no que fazer enquanto gritavam pelo nome de Seti I e pelo médico. Mas, escondido de ambos, Anúbis e Seth olhavam para o corpo do faraó. Anúbis olhava para o peito de Seti, imaginando lá dentro o coração que havia lhe falhado.
— Podia ter me avisado que ele tinha tão pouco tempo… — reclamou Seth.
— Você saiu, não saiu? — perguntou Anúbis a contra gosto, depois de revirar os olhos enquanto ignorava toda a comoção que acontecia ao redor do corpo de Seti I agora que o médico, tarde demais, havia chegado.
— Só porque vi você por perto! — reclamou Seth.
— Quanta antecedência soube que era hora de sair não me importa. — falou Anúbis.
— E o que está fazendo aqui? — perguntou Seth.
— Desde quando tenho que dar qualquer justificativa para você? — perguntou Anúbis, não vendo motivo em responder que estava ali para ter certeza de que a alma não iria escapulir, perdida, sem entender o que tinha acontecido, dada a morte tão súbita e repentina.
— Filho ingrato. — resmungou Seth.
— Não ouse me chamar assim. — reclamou Anúbis, finalmente olhando para Seth.
— Ingrato? — perguntou Seth.
— Filho. — respondeu Anúbis encarando Seth com o mais completo ódio.
— Não importa o tanto que você me odeie, ainda é meu sangue que corre em suas veias, moleque. — disse Seth encarando Anúbis seriamente — É meu olhar de ódio que estampa o seu rosto quando me olha assim.
— Eu não puxei droga nenhuma de você! — rebateu Anúbis.
— Vai se enganando assim… — disse Seth dando de ombros.
— Você não tem alguém mais pra irritar não? — perguntou Anúbis, voltando a focar em Seti enquanto as tentativas de qualquer cuidado médico aconteciam apesar da inutilidade destes.
— Ao menos Ramsés II vai durar muito? — perguntou Seth repentinamente — Ele é o cara que precisamos, certo?
— Depende dele também… e do azar… — respondeu Anúbis a contra gosto — Mas é bem possível que ele passe dos 90 anos.
Seth assobiou admirado pela expectativa de vida invejável e rara de Ramsés II, mas logo foi embora, deixando Anúbis sozinho com a família chorosa e os súditos desesperados. Mas era inútil. Tudo que eles fizeram era irrelevante, em alguns meses, o corpo de Seti I já estava mumificado e sepultado em sua bela tumba profundamente escavada no Vale dos Reis. Ele foi sepultado como um herói que muito ajudou o Egito contra os hititas e os núbios. Mas, não muito tempo depois, após todos os ritos e cerimônias de coroação, Ramsés II estava de pé diante do povo numa sacada do palácio.
— Com a coroa do Alto Egito em mãos, pelas bênçãos dos deuses concedidas a mim, apresento o escolhido por Amon! — anunciou um sumo-sacerdote colocando a coroa branca e cônica na cabeça de Ramsés — Rei do Alto Egito, Ramsés.
— Com a coroa do Baixo Egito em mãos, pelas bênçãos dos deuses concedidas a mim, apresento o escolhido por Amon! — anunciou um segundo sumo-sacerdote que, após o primeiro retirar a coroa do Alto Egito da cabeça de Ramsés II, colocava a coroa vermelha e de topo chato do Baixo Egito — Rei do Baixo Egito, Ramsés II.
O povo gritava quando o sacerdote retirou a coroa vermelha recém colocada e logo foi exibida uma terceira coroa que era a combinação das duas anteriores. Ambos os sumo-sacerdotes ergueram a coroa sobre a cabeça de Ramsés II, prontos para abaixá-la.
— Grande Amon, temos aqui a coroa do Alto e Baixo Egito. — disse o primeiro sumo-sacerdote — É com grande humildade que aceitamos a tarefa de coroar o filho de Amon-Rá escolhido por ti. Hórus: Poderoso dos espíritos; Hórus Dourado, Divino da aparência, O rei do Alto e Baixo Egito: Usermaatre Setepenre, o eleito de Rá.
— Ele que ele, o Grande Amon, queria que estivesse em seu trono. Ele confiou a ele a herança das Duas Terras e a realeza do Alto e do Baixo Egito. Ele deu a ele o que o sol gira em torno e o que Geb e Nut cercam. O céu e todas as terras estrangeiras criadas pelos deuses são completamente subservientes a ele. — continuou o segundo sumo-sacerdote enquanto ambos os sumo-sacerdotes abaixaram a coroa lentamente na cabeça de Ramsés II — Amon-Rá é seu pai, e ele coloca medo de ti nos Nove Arcos, os inimigos do Egito.
— ACABE COM OS HITITAS! — gritou alguém na multidão.
— É! — concordou a multidão.
— E COM OS NÚBIOS! — acrescentou mais alguém, levando o povo à loucura.
— Ramsés II! — exclamaram os sacerdotes em uníssono pousando a coroa combinada na cabeça do novo faraó — Você é o rei que tomou posse das Duas Terras, Ramsés II, Filho de Seti I e do grande Amon-Rá! Senhor das Duas Terras, Filho do Rei, Guardião da Harmonia e Equilíbrio, Forte no Direito, Ramsés II, que ele viva e perdure como Rá, para sempre, Faraó Ramsés II.
Os sumo-sacerdotes colocaram a coroa no topo da cabeça de Ramsés II, que olhou para o povo que gritava e comemorava mais embaixo. Aos 24 anos e com um reino para governar, Ramsés II sabia do peso da responsabilidade que estava caindo em seus ombros, e ele estava pronto para enfrentar o que essa responsabilidade jogasse em seu colo. Mas, o que ninguém sabia até agora, era quem se tornaria aquele que havia acabado de ser coroado.
No tempo que passou, Ramsés II logo mostrou que tipo de faraó era. Ele ia para guerras e conflitos em toda a parte do Egito junto com seu fiel leão e às vezes até levando algum dos vários filhos, cujo número só crescia, tal como as concubinas em seu harém. Com o passar dos anos, parecia que Ramsés II queria ter tantos filhos quantos anos de idade tinha, mas aos 30 anos, ainda estava pouco acima da metade do caminho. Até mesmo se casou com uma das irmãs também, Henutmire.
Determinado a consolidar seu nome na história, ele também mudou a capital do Egito para uma cidade completamente nova que mandou construir, Pi-Ramsés. A decisão não foi tão bem recebida, pois se aproveitava da cidade de Akhenaton, considerada amaldiçoada. Mas a lista de feitos de Ramsés II crescia rápido demais para qualquer um achar isso um erro tão grande assim.
Sua fama se espalhou de norte a sul, leste a oeste. Logo, poucos queriam se meter com o Egito ou com o imbatível Ramsés, o Grande. O Egito era como um leão, o mais temido do Oriente Médio… empatado com os hititas, que causavam um problema constante, ou talvez até mais. Assim, num dia, quando Ramsés II e seu exército se preparavam para marchar contra a cidade hitita de Kadesh, na fronteira da Síria com a Líbano, os deuses aproveitavam um pequeno momento de descanso no qual julgamentos não estavam acontecendo.
— Vai por mim. Vai ser agora. — garantiu Sobek — Ramsés II levou muitos homens e conseguiu capturar dos hititas que dedurando onde o exército hitita está. Vamos conseguir pegar Kadesh e após um confronto com os hititas com a gente tendo a proteção dos muros de Kadesh e afins, será só uma questão de tempo.
— Depende do tanto de exército que os hititas enviaram também… — respondeu Thoth, que não parecia tão confiante assim.
— Tanto faz. — disse Sobek.
— Hórus não foi ver onde o exército Hitita está e o tamanho, espero… — disse Ísis se aproximando da conversa, curiosa.
— Não… — respondeu Thoth — Ele disse que ia sair com Hathor um pouco.
— Espero… — disse Ísis — Não podemos desbalancear a luta. A situação já está delicada demais com os hititas. Nem conseguimos mais discutir sobre as almas dos mortos… Uma pena…
— Eles só estão com raiva porque Ramsés II é imbatível. — disse Sobek.
— Pode ser também… — concordou Ísis — Mas ainda assim temos que tomar cuidado.
No canto, sentados sobre tapetes e almofadas, estavam Anubis e Anput. Os dois claramente não queriam interagir com ninguém, apenas aproveitavam a companhia um do outro, bebericando vinho e frutas diversas enquanto vira e mexe fitavam Kebechet mais além, correndo pra todo lado com Ihy e Ammit. Anput tocou o queixo de Anúbis, puxando-o lentamente para sua direção, para que ele olhasse para ela.
Seus lábios tocaram delicadamente os dele passando também a tranquilidade que aquele dia trazia aos seus corações. Em poucos anos de reinado, Ramsés II já havia provado que era um grande faraó e problemas com guerras pareciam cada vez mais distante, e isso tranquilizava a todos. Claro que em questão de trazer paz, talvez Hatshepsut fosse mais eficiente, visto que Ramsés II era indiscutivelmente um militar, mas ganhar em guerras, conflitos e revoluções também era muito gostoso.
— Poderíamos escapulir para algum lugar mais… privado. — sugeriu Anput.
— É? — perguntou Anúbis sorrindo tranquilamente — Tem alguma ideia?
— Humm…. — resmungou Anput, pensando, mas logo aparentando ter uma ideia — Confia em mim?
— A essa altura, você ainda pergunta? — perguntou Anúbis, fazendo ela revirar os olhos.
— Lady Ísis pode cuidar de Kebechet enquanto isso… ela gosta mesmo. — sugeriu Anput, estendendo a mão para Anúbis.
Ele segurou a mão dela de volta e logo o Salão do Julgamento desapareceu ao redor deles e, ao invés disso, ao redor deles estava um terreno extremamente rochoso onde apenas um arbusto ousava crescer. As pedras se amontoavam por toda parte, tão cinzas quanto o chão em que pisavam. O chão era inclinado, e as nuvens passavam bem perto de suas cabeças. Um paredão de pedras cinzas-amarronzadas estava à direita deles montando o conjunto que dedurava tudo como uma montanha. A vista das nuvens perto era interessante, mas não era uma paisagem bonita.
Anput notou a confusão no olhar de Anúbis, mas pegou em sua mão e disse:
— Calma. Vamos numa pequena aventura antes.
— Posso ao menos saber onde estamos mais ou menos? — perguntou ele enquanto ela o puxava mais para cima, a caminho de dar a volta no paredão de pedra ao lado deles.
— Ao sul da Etiópia e de Punt. — respondeu ela.
— Fazia tempo que não viajamos assim para mais longe. — disse Anúbis.
— Temos que corrigir isso. — disse Anput, rindo.
As sandálias que eles usavam certamente não eram adequadas para aquela subida, e nem as roupas finas de linho, mas eles seguiram mesmo assim. Anúbis certamente estava intrigado com a escolha de lugar feita por Anput, mas ele começou a entendê-la quando eles viraram à direita, terminando de dar a volta no paredão de pedra, e a vista que o recebeu foi o cume da montanha que subiam, parcialmente coberta de neve e envolta pelas nuvens.
Era uma aparição linda que certamente Anput viu refletida no olhar de Anúbis de surpresa. Era lindo e para completar, olhando para trás, eles agora tinham a vista limpa e desimpedida de uma montanha menor mais além e também até onde os olhos alcançavam de toda a África que cercava aquela montanha que subiam que, ainda não tinha um nome especial, mas um dia se chamaria Kilimanjaro.
Com os olhos brilhando, Anúbis continuou a subir, sempre seguindo Anput, e não deixou de admirar-se quando eles começaram a cruzar as nuvens. A vista ia ficando tão cada vez mais bonita, que Anúbis achou que era impossível ficar ainda mais incrível. Mas ele teve certeza que estava errado quando eles chegaram no topo do Kilimanjaro. A neve estava aos seus pés, só deixando algumas pedras negras para fora, mas o sol brilhava intensamente iluminando o céu azul e as nuvens que se estendiam no horizonte, baixas como se formassem o mar e a praia era o cume do Kilimanjaro. Eles viram lagos brilhando lá longe no chão, e as nuvens cortando o Kilimanjaro quando o vento as carregava.
— Acho que nunca fomos em nenhuma montanha que passasse até das nuvens. — disse Anúbis. — Com certeza essa montanha é bem mais alta do que aquela que fomos na Suméria… A que leva para o submundo sumério.
— Também acho… — disse Anput beijando a bochecha dele e então os lábios.
Enquanto isso, bem longe dali, na fronteira do Império Egípcio com o Império Hitita, Ramsés II discutia os planos de guerra. Até onde ele sabia, o exército hitita ainda estava em Aleppo, com medo demais de ir até Kadesh. Junto com ele, estavam seu leão, alguns generais e seus quatro filhos mais velhos. Amunherkhepeshef de 14 anos, Ramsés e Pareherwenemef de 13 anos e Setne de 6 anos. Afinal, ele tinha que treinar os filhos para a guerra. Tanto que seria a primeira vez que Amunherkhepeshef estava no comando de uma parte do exército, mesmo que auxiliado por um soldado com o dobro de sua idade.
— O exército está dividido em quatro divisões… — dizia Ramsés II lembrando não só os próprios filhos, como também seus demais generais e conselheiros — As divisões de Ptah, Set e Rá ainda estão a caminho. Essa que estamos é a divisão de Amon. Alguma novidade na movimentação das demais?
— A divisão de Rá é o que está mais perto. — respondeu o vizir Paser — Já dá para ver eles do lado de fora do acampamento. Logo em seguida está o regimento de Ptah…
— Apresse as divisões de Ptah e Set então. — ordenou Ramsés II.
— MAJESTADE! — gritou um soldado entrando repentinamente na tenda onde os líderes conversavam.
— Não entre assi — — começou a ralhar Paser, mas Ramsés II ergueu a mão para que ele parasse de falar, entendendo que deveria ter algum motivo para o soldado entrar tão repentinamente e sem cerimônias.
— O que houve? — perguntou Ramsés II.
— Por trás da cidade de Kadesh! Cruzando o rio! — exclamava o soldado, pálido e desesperado — O exército hitita está vindo!
— C-Como? — perguntou Paser — Eles não estavam em Aleppo?
Ramsés II prontamente saiu de sua tenda e foi recebido pela visão de seu acampamento. Mais além, no horizonte, via a divisão de Rá se aproximando tal como fora informado, e, à esquerda cruzando o rio, estava de fato o exército hitita se aproximando. Era uma visão terrível de se ver. O exército egípcio não estava completo, e o hitita era enorme. Olhando de longe assim, com experiência em guerra, Ramsés II estimava que deveria ter pelo menos 30 mil homens. Talvez 35 mil. Isso desconsiderando que talvez tenha mais que ele não conseguia ver devido a distância, que era o que ele imaginava. O próprio exército tinha 53 mil homens, mas nem metade havia chegado ainda.
A alguns metros da tenda principal, os dois espiões hititas que haviam capturado começaram a rir. Estavam claramente adorando a situação apesar de estarem amarrados um contra o outro e contra uma árvore solitária no campo árido.
— O rei de Hatti já chegou, junto com os muitos países que o apoiam... — comemorou um dos espiões — Eles estão armados com sua infantaria e suas carruagens.
— Nos enganaram… — sussurrou Paser no ouvido de Ramsés II.
— Percebi. — respondeu Ramsés II olhando brevemente para os filhos, que com assombro olhavam para o exército hitita se aproximando enquanto sua mente pensava rapidamente.
— Eles têm suas armas de guerra prontas. — continuou o espião — São mais numerosos que os grãos de areia da praia. Eis que eles estão equipados e prontos para a batalha atrás da velha cidade de Kadesh.
— Paser, prepare meu cavalo e biga, grite para os soldados que a hora do combate chegou e mande soar os trompetes. Amunherkhepeshef, Ramsés e Pareherwenemef, sabem o que fazer e para onde ir. Não morram! Obedeçam o general que estiver com vocês! Soldado, qual seu nome? — disse Ramsés II rapidamente olhando para o soldado que havia trago as notícias preocupantes.
— Reda. — respondeu o homem.
— Não saia de perto de Setne e vá atrás do capitão Djedkare. — ordenou Ramsés II enquanto cada um ia fazer o que lhe era ordenado — O trabalho de vocês é proteger Setne. Ele é muito novo para o caos que esse conflito vai ter.
— S-sim senhor... — disse Reda.
— Antam-Nekt! — exclamou Ramsés, atraindo o leão para si e então apontando para outro soldado — Você.
— Majestade. — disse o soldado, colocando a mão sobre o coração.
— Mate os espiões hititas. — decidiu Ramsés II, fazendo os dois espiões perderem toda a cor do rosto.
— Sim, senhor. — disse o soldado, pegando a khopesh que levava pendurada em sua cintura.
— HOMENS! A HORA DO COMBATE CHEGOU! — gritava Ramsés II enquanto pegava suas armas e corria o acampamento, seguido de seu leão.
O acampamento entrava num caos de soldados indo para suas armas e se agrupando em seus regimentos. Trompetes soavam por todo o acampamento anunciando para todo lado que os momentos de descanso enquanto esperavam pelo o resto do exército haviam acabado muito antes do esperado.
— GUERREIROS DO EGITO! — gritava Ramsés II por todo o caminho para quem conseguisse ouvir — HOJE, ESTAMOS À BEIRA DO PRECIPÍCIO DO DESTINO. CHEGOU A HORA DE MARCHAR PARA A BATALHA, DEFENDER NOSSA TERRA E GARANTIR NOSSO LEGADO!
— Boa sorte… — sussurrou Amon-Rá em seu ouvido.
— Achei que ia ficar calado hoje… tem estado bem calado… — pensou Ramsés II para Amon-Rá, que não respondeu.
Os homens gritaram, Ramsés II subiu em sua biga com Antam-nekt sempre lealmente o seguindo, olhou rapidamente para o exército que se formava ao seu redor, meramente ¼ do exército que tinha planejado enquanto outro ¼, o regimento de Rá, começava a ser atacado de surpresa pelo exército hitita liderado pelo líder hitita, Muwatalli II. Por uns segundos olhou para os três filhos mais velhos, que estavam a alguns metros de si. Pediu silenciosamente para os deuses protegerem não só seus homens, mas também seus quatro filhos e então, com um grito, botou os dois cavalos que lideram sua biga para correrem.
500 bigas estavam em cada regimento, mas a biga de Ramsés II era a mais bela e reforçada de todas. Não era como a biga meramente cerimonial feita de ouro que jazia sepultada no túmulo de Tutancâmon, era uma verdadeira biga de guerra. Ramsés gritava palavras de incentivo e erguia seu arco enquanto liderava todo o exército, não se escondendo nos fundos dele por ter o posto tão importante de líder supremo de todo o país. O lugar dele era na frente de seus homens. Normalmente, o faraó estaria acompanhado de algum oficial, um condutor de biga, um soldado e um escudeiro, mas Ramsés II estava sozinho, apenas Antam-nekt o seguia, pronto para lutar.
Ramsés II sabia que o conflito ia ser grande, sendo eles pegos de surpresa daquela forma com praticamente só metade do exército reunido (e muito mal reunido). Ele pediu pela força de Hórus e Sekhmet sem saber que talvez precisaria da força deles muito mais do que imaginava pois, irritados com o poder egípcio crescente sob a liderança de Ramsés II e Amon-Rá, escondidos na segunda metade do exército hitita, estavam, em carne e osso, alguns deuses hititas prontos para interferirem em assuntos mortais.
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