A Morte Das Areias do Saara
108 Fala Que Chega ao Coração
Notas iniciais

Um mensageiro foi anunciar tudo o que ela havia dito a seu pai.
O príncipe enviou homens para matar o jovem.
Ele estava em sua casa.
A garota disse: "Pelo Sol, se ele for morto eu morrerei também, não passarei uma hora de vida sem ele."
Ela foi e disse todas essas coisas para seu pai, o príncipe da Mesopotâmia fez com que o jovem fosse trazido a ele.
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Apesar das preocupações de Hatshepsut, nada de muito anormal aconteceu na festa para celebrar o casamento de Tutmósis II. Mas, afinal de contas, a maior preocupação da rainha era com a união em si, não com a celebração. Alheia às preocupações de Hatshepsut, Iset entrou na família e, com o passar dos anos, como a jovem não fazia nada de suspeito ou preocupante, Hatshepsut foi deixando sua preocupação de lado, mas nunca totalmente.
Os anos foram se passando até que os últimos traços da infância no rosto de Hatshepsut foram embora com seu aniversário de 25 anos. Com os 25 anos da rainha, vieram também os 8 anos da princesa. Era uma conquista para criança passar dos 5 anos de idade dada a alta taxa de mortalidade dos pequenos. Assim, apesar das estatísticas, Neferure havia se tornado uma criança esperta e criativa, mostrando que havia puxado bastante a mãe.
Flamingos aproveitavam as partes mais rasas do Nilo, protegidos pelas sombras das árvores que cresciam pelas longas faixas verdes férteis e úmidas do solitário às margens do rio. A bela imagem era completada pelo sol que, conforme se punha, era refletido nas águas do Nilo. Os flamingos, as árvores gradualmente engolidas pelas sombras e o sol poderoso pintando o céu de laranja e vermelho eram um conjunto digno de uma bela pintura ou foto. Infelizmente, apesar de terem a paleta de cores de tinta mais completa da antiguidade, por mais que um artista egípcio tentasse copiar aquele espetáculo da natureza, ainda ficaria muito longe daquele ideal que seria registrado apenas pela memória.
Por mais incrível que fosse a visão dos flamingos e do reflexo do sol na água, mais absurdamente belo ainda era o reflexo do sol no granito liso que revestia as pirâmides. A visão espetacular fazia com que as pirâmides, ainda de pé ao lado de Mênfis, parecessem extensões do céu e ao mesmo tempo parecessem revestidas de placas de ouro muito embora só as pontas de cada pirâmide fossem de ouro.
De pé na areia branca que se estendia a oeste das pirâmides admirando o espetáculo protagonizado pelo sol, estava Amon-Rá. Apesar de estar admirando o pôr do sol sozinho, ele logo ganhou alguma companhia quando, em uma fumaça negra, Anúbis surgiu logo atrás do deus.
— Desculpe a demora, estava terminando o julgamento das almas do dia. — disse Anúbis — Lady Ísis disse que queria falar comigo.
Respeitosamente, Anúbis esperou pela resposta que imaginava que viria no segundo seguinte. Contudo, ela demorou um pouco mais. Apenas alguns segundos depois, Amon-Rá pareceu notar que não estava sozinho e se virou para Anúbis.
— Ora, Anúbis? — disse Amon-Rá — O que faz por aqui?
— Ahm… — disse inicialmente Anúbis, estranhando a pergunta — Lady Ísis disse que queria falar comigo…
— Ah sim sim… — disse Amon-Rá passando a mão pensativamente pelo queixo dele — Como está Anput? Viajando de novo?
— Sim… — respondeu Anúbis — Babilônia.
— Não foi junto?
— Achamos melhor não. — respondeu Anúbis estranhando ainda o rumo da conversa, afinal era impossível Amon-Rá ter chamado ele ali para falar das viagens de Anput — Apesar de estarem praticamente no mesmo lugar, a Babilônia ainda é fraca em comparação com o que a Suméria um dia foi. Podemos acabar causando problemas por causa da fragilidade.
— O Egito é o mais forte das redondezas e tem o maior exército. Certamente terá muitos problemas em encontrar algum lugar para acompanhar sua amada desse jeito. — disse Amon-Rá.
— Fato. — concordou Anúbis — Mas ela estará de volta amanhã. Bes nos convidou para um casamento que acontecerá amanhã numa caravana Berber.
— Isso parece interessante. — disse Amon-Rá pensativo — Mas creio que sabe que não foi para falar de viagens e festas que lhe chamei. Hórus me contou que ontem você lhe disse algo importante.
— Ah… sim… — disse Anúbis entendendo sobre o que Amon-Rá queria falar agora — Tutmósis II piorou bastante. Os médicos estavam até conseguindo prolongar por certo tempo a situação mas, pelo o que entendi de Lady Ísis, eles não conhecem nenhum medicamento que ainda possa ter efeito. Inclusive uns começaram a fazer mal. Por isso, 2 anos é o máximo que resta para Tutmósis II.
— 2 anos… — disse Amon-Rá olhando para o horizonte e suspirando com um sorriso — O que acontecerá logo em seguida será determinante. Ainda mais considerando que não falta mais que um mês para o bebê de Iset e Tutmósis II nascer.
— Acha que o bebê sobreviverá ao parto dessa vez? — perguntou Anúbis.
— Fui informado por Tawaret de que sim. — disse Amon-Rá.
Sim, Iset estava grávida de Tutmósis II. A enorme barriga da segunda esposa de Tutmósis II chamava atenção por onde passava e, mais importante, deixava Hatshepsut preocupada. Mas, havia um lado bom nas coisas para Hatshepsut. A cada ano que se passava, mais tempo Tutmósis II gastava na cama. Assim, cada vez mais era Hatshepsut quem governava e qualquer um conseguia ver isso muito bem. Cada vez mais os oficiais, nobres, sumo-sacerdotes e conselheiros iam direto falar com a rainha, não com o faraó.
Enquanto Anúbis conversava com Amon-Rá e pensava na situação da amiga, o deus aproveitou os breves segundos de silêncio para olhar para o sul dali, na direção de Tebas, se perguntando o que Hatshepsut estaria fazendo e se sabia como as coisas mudariam drasticamente em pouco tempo. Talvez fosse uma boa hora para visitar a rainha, pensou.
— Sabe dizer com certeza a data que Tutmósis II morrerá? — perguntou Amon-Rá atraindo a atenção de Anúbis para a conversa novamente.
— Quando faltar pouco menos de um ano fica mais certo. Por enquanto o máximo que posso dizer é que provavelmente ele morrerá antes de completar 14 anos de reinado. — respondeu ele — Mas claro, ainda tem a possibilidade de algo inesperado acontecer e ele morrer mais cedo.
— Bem, obrigado, era isso. Queria confirmar quantos anos Tutmósis II ainda tem. — disse Amon-Rá com um longo suspiro, mas, apesar de tudo, parecendo empolgado.
Anúbis abaixou a cabeça em respeito brevemente e, ao levantar e notar que Amon-Rá voltava a admirar o pôr do sol refletido na pirâmide, o jovem deus deixou Mênfis para trás. Seu próximo destino, era Tebas onde, em uma sala com apenas várias mesas e cadeiras, tal como uma sala de aula, apenas duas pessoas estavam presentes. Senenmut e Neferure estavam claramente em uma aula. Afinal, a garota estava sentada debruçada sobre um papiro e Senenmut estava de pé prestando atenção nas respostas que a garota dava para suas perguntas que resumiam o ensinamento do dia.
Uma grossa trancinha pendia na lateral da cabeça de Neferure que, aos 8 anos, ainda guardava na expressão a graça e inocência que sempre esteve nela. O sorriso atraía olhares por causa de um buraco formado por um dente de leite recém extraído e também pela alegria e doçura que ela conseguia passar com sua alegria.
— Então… — dizia Senenmut olhando pelo fraco raio de sol que entrava pela janela indicando que a aula estava quase no fim — Se eu te perguntar quando é 2 + 3?
— Essa é fácil. — respondeu a garota — É 5.
— Se é fácil, vou fazer uma mais difícil… — disse Senenmut pensando — Hum… 10 + 3?
— 13. — respondeu prontamente Neferure.
— 7 + 3?
— Ahm…- resmungou Neferure insegura.
— Imagina que eu tenho 7 melancias. — ilustrou Senenmut — Comprei mais 3. Com quantas eu fico?
— Um monte… — resmungou Neferure mas parando para pensar enquanto contava nos dedos — 7...8...9... 10!
— Muito bem. Parece que a aula de hoje realmente funcionou. — disse Senenmut.
— Acho mais divertido aprender sobre história. — disse a garota — Principalmente sobre os faraós… Khufu, Djoser, ou meu avô… podemos fazer mais aulas de história amanhã?
— Podemos. — garantiu Senenmut — Mas em compensação terá que ouvir também sobre os povos vizinhos.
— Tudo bem! É legal também! — comemorou Neferure.
— O que é legal? — perguntou Hatshepsut entrando no cômodo.
— Estudar sobre os faraós do passado e sobre os povos vizinhos, mamãe! — disse Neferure alegre virando-se para a mãe e então para o professor — Estou liberada por hoje? O sol já está indo embora…
— Sim. Está. — disse Senenmut e prontamente a garota saiu correndo deixando tudo para trás tendo no coração o provável objetivo de brincar até cansar.
Os dois adultos ficaram, em silêncio, vendo a menina sair correndo alegre. Foi só quando Neferure sumiu de vista que os dois se olharam e era óbvio que havia muito escondido naquela troca de olhar apesar de o casal estar se comportando.
— Obrigada por aceitar ser tutor dela.- disse Hatshepsut — Não sabia o que fazer quando o tutor anterior acabou falecendo. Temi te sobrecarregar.
— Bobagem. — disse Senenmut — É uma honra.
— Como foi o primeiro dia dela com você? — quis saber a rainha.
— Excelente. Ela é muito inteligente. Puxou a mãe com certeza.
— Se você diz… — respondeu Hatshepsut rindo e sentando-se sobre a mesa mais perto de si — Ela gosta muito de você. Imaginei que seria uma transição fácil. Mas… gostaria de passar a noite aqui hoje?
— Pode ser. — disse Senenmut dando de ombros um sorriso no rosto enquanto olhava rapidamente se tinha alguém passando na frente da porta.
Confirmando que não tinha ninguém por perto, o arquiteto se aproximou da rainha, que ainda estava sentada sobre a mesa com um sorriso no rosto. As mãos de Senenmut envolveram Hatshepsut pela cintura poucos segundos antes de seus lábios tocarem os da rainha lentamente. Os braços dela envolveram o pescoço dele gentilmente enquanto ambos se deixavam levar pelo beijo.
Os dois só se separaram do beijo segundos depois para ir apressadamente até o quarto de Hatshepsut, onde poderiam ter mais privacidade para se divertirem sem limites. Nem mesmo ter cruzado com Iset, enormemente grávida, pelo caminho atrapalhou o humor de Hatshepsut. Assim, eles se renderam sedentos às carícias logo naquele começo de noite. Mas, por mais que os dois aceitassem de bom grado a ideia de terminar aquela noite sem ter que sair da cama novamente, o coração de mãe de Hatshepsut pedia para que ela fosse checar Neferure antes de dormir.
A rainha vestiu-se novamente e, deixando o amante em sua cama, foi em busca da filha. O primeiro destino foi o quarto da garota e, no caminho até lá, pensou em como Tutmósis II costumava visitar Neferure no quarto várias vezes. Um hábito que diminuiu consideravelmente primeiro depois de Iset e segundo depois que o faraó começou a passar mais tempo fora da cama do que nela. Lembrava-se de uma vez que Neferure chamou Senenmut sem querer de pai. Mesmo que a princesa tivesse prontamente corrigido, a cena marcou bastante a rainha e também seu amante.
Hatshepsut esperava ver a filha brincando de boneca, ou quem sabe desenhando ou até mesmo se preparando para dormir. Contudo, ao invés dessas opções, quando chegou no quarto da princesa, encontrou ela jogando Senet com Anúbis.
— Mãe! Olha! — exclamou Neferure — Estamos treinando para ganhar de você.
— Treinando para ganhar de mim? — repetiu Hatshepsut rindo.
— Achamos que era um jeito muito bom de gastar o resto do dia. — defendeu-se Anúbis.
— Está aqui a quanto tempo? — perguntou a rainha curiosa.
— Desde do pôr do sol. — respondeu Anúbis olhando brevemente para a varanda do quarto da princesa, por onde era possível ver que a noite já reinava absoluta.
— Bem, parece que você já teve um dia muito bem gasto, Neferure. — disse Hatshepsut — Mas já está tarde. Hora de ir dormir.
— Tá…. — resmungou Neferure decepcionada enquanto Anúbis aproveitou a deixa para se levantar.
— Veio por algum motivo ou…? — perguntou Hatshepsut deixando o resto da pergunta no ar.
— Não. Só para gastar o tempo. — respondeu Anúbis acompanhando Hatshepsut para fora do quarto enquanto Neferure se arrumava para dormir.
A rainha olhou para ele longamente sem ter certeza se acreditava nas palavras dele. Não pareciam ser mentiras mas, pensou, talvez fossem meias-verdades. Pois sentia que havia algo que ele provavelmente não tinha certeza se era um motivo para ir até ali ou não.
— Mãe… — disse Neferure de dentro do quarto — Você vai vir me dar boa noite?
— Vou sim, querida. — respondeu Hatshepsut ainda olhando pensativa para Anúbis — Me conte… por favor. O que passa pela sua cabeça?
— Não posso… — respondeu o deus.
— O tanto de coisa que você já me contou ou deu a dica que você não poderia contar… — disse a rainha.
— Essa eu acho que você ficará melhor sem saber. — comentou Anúbis — Acredito que saberá o que fazer e conseguirá lidar com o que vai acontecer.
— Da outra vez você falou, também não gostando muito, de que deuses gostam de enigmas. — lembrou Hatshepsut — Agora olha só você, também cheio de enigmas.
— Por mais irritantes que os enigmas possam ser, as vezes são necessários. — disse Anúbis com um sorriso torto — Especialmente quando a gente quer contar mas acha melhor não. Desculpe. Mas, como disse, está tarde… e vocês com certeza querem descansar.
Assim, mais uma vez, para irritação da rainha, Anúbis sumiu deixando-a extremamente curiosa. Hatshepsut deixou escapar um pesado suspiro dos lábios já acostumada à situação, mas não necessariamente conformada.
Pensando na breve conversa, Hatshepsut entrou no quarto da filha, deu-lhe um doce beijo de boa noite na testa e foi até o quarto do irmão. Os guardas de prontidão perto da porta informaram-lhe que o faraó dormia e a segunda esposa estava tomando um banho para logo ir dormir. Hatshepsut não queria acordar o irmão, mas permitiu-se checar como ele estava. Tutmósis II dormia, mas não parecia muito relaxado ou confortável, o que infelizmente não era novidade.
Em seguida, Hatshepsut foi para a cozinha, onde tomou uma rápida mistura feita para que seus momentos de empolgação com Senenmut não gerassem algo que ela não queria passar novamente. Depois, sem ter mais o que fazer, ela voltou pro quarto e se rendeu para o sono enquanto ainda pensava nas palavras de Anúbis.
Foi cerca de quase um mês depois que imaginou ter entendido as palavras de Anúbis, ao menos uma parte delas. O clima estava tenso na sala na qual ela se reuniu, assim como várias outras vezes, com oficiais de alta patente, sumo-sacerdotes e conselheiros. Tutmósis II não estava lá, estava na cama, mas ocupando o lugar do faraó estava o peso da reviravolta da noite anterior, Iset havia dado a luz para um saudável menino. Menino esse que, enquanto vivesse, era por direito e pelas convenções, o herdeiro do trono.
— Desse jeito resolveremos a situação com os Arameus. — dizia Hatshepsut tentando ignorar o clima pesado da sala — Se dermos proteção para eles e deixarmos eles em paz para percorrerem essa área entre nós, Mitanni e a Babilônia, não irão nos causar mais dores de cabeça.
— A-Ah… sim… também acho. — disse inseguro um dos oficiais.
Já irritada com aquele clima e desconforto que esteve presente durante cada hora da reunião, Hatshepsut ergue-se tentando usar cada milímetro de seus 1,53m e naquela hora, os homens ali presentes tinham plena certeza de que a rainha tinha facilmente 2m de altura.
— Então? — questionou Hatshepsut — Vão ficar assim ou vão falar o que tanto os perturba?
— Iset deu a luz a um menino ontem a noite… — arriscou um sumo-sacerdote — E Vossa Majestade só deu ao faraó uma menina.
— Notei. — rebateu Hatshepsut — Qual o problema disso?
— O faraó não está bem de saúde e o bebê, Tutmósis III, é o herdeiro ao trono de fato. — disse um oficial com o qual Hatshepsut nunca tinha necessariamente se dado tão bem — É um sinal de mudanças. Volta às origens.
— Mudanças de quê? Posso saber? — perguntou Hatshepsut — Desde que meu irmão subiu ao trono, eu que a cada ano que passa governo o Egito, caso não tenham notado. Difícil não terem notado já que Tutmósis II não participa dessa reunião há meses.
— É comum a rainha governar o Egito quando o faraó não está presente, é novo demais ou não está saudável. — disse o oficial começando ali uma briga que nenhum outro queria entrar.
— Fato. — concordou Hatshepsut — Mas não faz tanto tempo assim que meu irmão ficou acamado.
— Vossa Majestade não ampliou nossas fronteiras. — reclamou o oficial batendo com força na pobre mesa de madeira.
— Mas também não perdi nenhuma área. — rebateu Hatshepsut — E para que aumentar as fronteiras? Temos as minas de ouro dos núbios que, devo salientar, graças a mim não estão complicando a extração de seu querido ouro. Temos ouro e demais riquezas em abundância, o comércio é forte, o povo está feliz, o rio inunda na medida certa todo ano, então os deuses também estão felizes. Mas lhe dou essa dica, caso não tenha sido suficiente, quando ficar irritado pela falta de guerras de novo, vá para casa, olhe para seu filho, que bem sei que é um soldado, e lembre-se que ele não está indo morrer nas fronteiras tal como aconteceu com muitos de seus amigos. E é bom que se lembrem quem realmente trouxe essa paz e riqueza em que vivem agora, quando estiverem considerando colocar um bebê no trono.
E era bom que as palavras diretas e secas de Hatshepsut tivessem mesmo chegado até o fundo do coração dos homens, pois, a poucos meses do aniversário de 13 anos de reinado de Tutmósis II, o faraó morreu.
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