A Morte Das Areias do Saara
122 Entrando na Lista Negra dos Deuses
Notas iniciais

Ele diz: Você se eleva em perfeição no horizonte do céu, vivo Aten, que começou a vida.
Sempre que você se ergue no horizonte leste, você preenche todas as terras com sua perfeição.
Você é atraente, grande, brilhante, alto em todas as terras; seus raios unem as terras até onde tudo que você fez.
~ Fragmento de “Hino a Aten”
O sol nascia, iluminando o anteriormente belo e movimentado templo de Karnak estava triste e vazio, tal como todos os outros templos espalhados pelo Egito. Cada faraó aumentava o templo de Karnak, mas já havia completado um ano inteiro que Karnak não via nenhuma ampliação ou reforma. Isto é, com exceção da reforma mágica de Ptah para reparar os danos causados na luta contra Aten.
As únicas construções vistas de Karnak eram as dos pequenos templos feitos de arenito ao redor dedicados à Aten. Para deixar a realidade ainda mais diferente do que o povo estava acostumado, as obras encomendadas por Akhenaton eram diferentes. Um novo estilo artístico para esculturas e pinturas foi concebido para representar o corpo humano. Os rostos eram representados com uma mandíbula alongada, olhos estreitos e fendidos, pescoço fino e atenuado, ombros inclinados, uma barriga pesada, quadris e coxas grandes e pernas bastante finas.
Certo dia, no submundo, em meio a tantos problemas, o clima também não era muito animador. Afinal, os problemas se acumulavam. O salão do julgamento tinha sido magicamente aumentado em tamanho e, por quase toda a extensão dele, com exceção de uma área protegida perto do portal para o Aaru, centenas de almas de pessoas mortas se amontoavam. Famílias inteiras, famílias incompletas, pessoas sozinhas, grupos de amigos. Os mortos se amontoavam dentro e fora do salão sem condições de seguirem adiante em sua jornada.
Alguns deuses tentavam organizar o caos que estava o salão do julgamento, e uma deles era Anput. Ela andava pelo caos de pessoas falecidas segurando no colo uma alma de um bebê de poucos meses que tranquilamente deixava as lágrimas correrem por seu rosto como se tivesse acabado de chorar. Além de tranquilizar o bebê, Anput também tinha uma criança de 7 anos, que parecia meio pequena para a idade e tinha os dedos nodosos e feridos marcados pelo trabalho pesado, agarrada na barra de sua saia. Anput ainda tentava tranquilizar uma jovem adulta que falava com ela.
— Por favor, a minha irmã. Tem 42 anos. — pedia a jovem — Ela morreu no parto uns meses antes de mim. Não sabe mesmo onde ela está?
— Hasina… — disse Anput suspirando longamente — Já disse… ela está aqui em algum lugar. Não sei onde especificamente.
— Mas não encontro-a em lugar nenhum! — implorava Hasina.
— Quando vamos ser julgados? — perguntou repentinamente um senhor se aproximando da deusa.
— Não temos como saber ainda. — respondeu Anput, pegando a mão da pequena criança ao seu lado e se afastando tentando fugir do interrogatório que sabia que começaria, mas mais meia dúzia de pessoas a seguiram.
— Já estou aqui a meses! — reclamou um homem de meia-idade.
— Eu já completei um ano aqui. — comentou o senhor rindo de nervoso.
— Olha, a única coisa que eu posso sugerir para vocês, no momento, é se juntarem com entes queridos e esperar. — respondeu Anput.
— É injusto nos deixar esperando assim! — reclamou uma senhora se juntando a agitação que logo fez o bebê no colo de Anput começar a chorar — Só vai ficar por aqui andando para um lado e para o outro cuidando das crianças.
— Elas não tem quem cuide delas e é por alguém disposto a cuidar, e cuidar bem, que estou procurando! — rebateu Anput já sem paciência e parando de andar — Morreram sozinhas, muitas crianças estão morrendo. Você vê Anúbis por aqui? Não. Enquanto ele não voltar, não tem julgamento nenhum! Eu não posso fazer nada. Então, se estão irritados com a demora, reclamem com o deus do seu faraó egoísta.
Cenas muito parecidas se repetiam em outros pontos do Salão do Julgamento ao redor de Geb, Tefnut e dos filhos de Hórus, Amseti, Hapi, Duamutef e Qebehsenuef. Nenhum deus que tentava organizar a confusão de almas estava a salvo de ser preso num grupo de pessoas reclamando, inquietas e exaustas, sobre a situação. E apesar de tudo, novas almas ainda continuavam a chegar sem parar.
De fininho, não querendo ser arrastado para o meio daquela briga, Nefertem se aproximou da amiga acompanhado da alma de uma mulher. Enquanto isso, Anput começava a ignorar as várias falas e questionamentos da meia dúzia de almas que a seguiram, e tentava acalmar o bebê choroso em seu colo.
— Anput… — disse Nefertem nem ousando olhar para as almas que reclamavam com Anput — Encontrei uma mulher que perdeu o filho antes dessa confusão começar. O filho já foi pro Aaru então ela aceitou cuidar desses dois até… bem… tudo se arrumar.
— Obrigada… — agradeceu Anput com uma voz cansada.
Anput se virou e viu a mulher se abaixando na altura da criança de 7 anos e sorrindo para ela calmamente.
— Oi. — disse gentilmente a mulher — Meu nome é Taash-sen. Qual seu nome?
Timidamente, a criança agarrada na roupa de Anput se encolheu um pouco, olhou para a deusa e então para a mulher novamente. No mesmo momento, as almas reclamonas se afastaram, decepcionadas, da cena que se desenrolava e se reuniram num semi-círculo olhando com o canto do olho para Osíris. Perguntavam-se se teriam algum resultado diferente falando com o poderoso deus, mas faltava a coragem, especialmente considerando o quão aflito Osíris parecia enquanto conversava com Hórus, que também não parecia muito bem.
— Está tudo bem… — disse Anput olhando para a pequena criança tímida.
— Meu nome é Tameniut. — respondeu a menina colocando o dedo na boca logo em seguida.
— É um nome muito bonito. — comentou Taash-sen sorrindo amigavelmente — Um nome bonito para uma mocinha bonita. Esse com você é seu irmãozinho?
— É. — respondeu a garota afirmando com a cabeça — O nome dele é Ahmes.
— Ah entendi. — respondeu Taash-sen — Você foi uma boa irmãzinha e ficou cuidando dele, né?
— Foi. — concordou a menina — Minha mãe falou que a gente tinha sempre que cuidar um do outro.
— Deve ter sido difícil. — disse Taash-sen — Você deixa eu te ajudar a cuidar dele e também a cuidar de você? Assim vocês não precisam ficar sozinhos. Pode ser? Podemos ser amigas.
A pequena Tameniut pensou por uns segundos, mas logo confirmou com a cabeça, o que deixou o caloroso sorriso no rosto de Taash-sen um pouco maior. A jovem mulher então se levantou e pegou o pequeno bebê do colo de Anput. Ele resmungou um pouco, mas Taash-sen logo o acalmou enquanto lutava contra lágrimas trazidas pela memória do filho falecido. Arrumando o bebê no colo, ela o encaixou de forma a ter uma mão livre e estendeu para Tameniut, que a pegou.
Taash-sen fez uma pequena referência aos dois deuses e Tameniut acenou inocentemente enquanto o trio se afastava, indo para o canto onde Taash-sen havia se reunido com alguns vizinhos, amigos e familiares.
— Obrigada… — disse Anput para Nefertem.
— De nada. — respondeu ele com um pequeno sorriso.
— Agora só faltam mais 53 crianças… — disse Anput visivelmente cansada — Isso contando com as que Néftis também está tentando achar alguém para cuidar. Espero que tenha conseguido.
— E como você está? — perguntou Nefertem, preocupado.
— Cansada. — admitiu ela — Não é fácil ficar cuidando de tantas crianças que morreram sozinhas. Akhenaton tem problemas.
— Não era disso que eu estava perguntando. — respondeu Nefertem.
Anput suspirou longamente e começou a andar para o aglomerado de crianças das mais diversas idades, que brincavam, choravam, aprontavam ou se encolhiam, traumatizadas, sob os cuidados de Ísis, Tawaret, Ihy e Bes. Muitos eram também adolescentes e pré-adolescentes que sentavam-se emburrados ou cansados em um canto ou ajudavam a cuidar dos menores.
— Tentando não pensar muito nisso. — admitiu Anput — Felizmente tem muito o que fazer então é fácil me distrair.
— Já faz um ano né? — perguntou Nefertem.
— Um ano e um mês. — disse Anput — Ou melhor, faz um mês semana que vem. Ele faz muita falta.
— Acho que é hipocrisia de minha parte dizer o mesmo. — disse Nefertem — Já não nos falávamos tanto.
— Deveriam tentar corrigir isso. — reclamou Anput.
— É complicado… — admitiu Nefertem.
— Tá com vergonha? — perguntou Anput.
— Vamos mudar de assunto? — pediu Nefertem suspirando longamente enquanto ambos chegavam no aglomerado das crianças sem ninguém para cuidar além dos deuses.
— Deveriam se entender antes que seja tarde demais. — disse Ísis entrando na conversa.
— Acha mesmo que essa situação vai ficar feia a ponto de chegar um “tarde demais” para nós? — perguntou Bes e Anput já se arrepiava com a ideia.
— Aten e Akhenaton certamente estão fazendo um bom trabalho. — disse Ísis.
— Hórus e Osíris não vão deixar eles passarem ilesos. — comentou Néftis.
— Sobek já voltou, porque Anúbis e Hathor demoram tanto? — questionou Anúbis.
— Bem… Sobek já morreu uma vez… — comentou Bes — Vai ver pegou o jeito.
— Hathor voltou hoje de madrugada. — comentou Nefertem e a informação fez Anput olhar para ele completamente surpresa.
— Sério?! Porque não fiquei sabendo disso? — reclamou ela.
— Acho que quase ninguém sabe. — comentou Nefertem — Ouvi Hórus contando para Osíris a pouco.
— Acho que ele ia contar daqui a pouco. — disse Ísis suspirando — Pelo o que sei, ela está precisando de um tempo para respirar e se recuperar.
— AMMIT! — gritou de repente uma criança feliz da vida fazendo uma aglomeração de crianças se formar ao redor da devoradora de corações, todas ansiosas para brincar com ela.
— Ammit… já disse que é melhor não chegar aqui perto. — disse Ísis — Assim os adultos não vão mais ser intimidados por você, vendo você brincando com as crianças desse jeito.
Néftis se aproximou de Ammit e retirou das costas dela uma criança que tinha conseguido subir, e enquanto isso, Ammit se mostrava claramente agitada. Ela rugia, se remexia e pulava. A demônia tocava, com a cabeça ou com o focinho, Ísis, Néftis e Anput como se quisesse falar alguma coisa ou mostrar alguma coisa.
— O que aconteceu? — perguntou Anput para Ammit enquanto Ammit puxava sua saia.
O que causava a agitação de Ammit vinha da sala de múmias, era uma fenda roxa e brilhante que se abria como uma rachadura disforme ao lado de uma das mesas de pedra usadas para mumificação. A fenda parecia se abrir para um mundo de completa escuridão que se movimentava como lava sob a crosta terrestre.
Dessa fenda, uma mão pálida surgiu agarrando-se à borda, seguida de uma segunda mão. Os dedos se agarravam ao chão de pedra desesperadamente e faziam esforço para puxar o resto do corpo. Não foi com pouca força e esforço que, logo em seguida, a cabeça de Anúbis surgiu batalhando contra a lava de escuridão. Ele parecia cansado enquanto lutava contra aquela lava que queria o puxar para o fundo, mas conseguiu, num movimento ousado, substituir as pontas dos dedos da mão direita tentando lhe puxar para fora, para uma corda salva-vidas feita desesperadamente com magia usando várias faixas de linho trançadas que se amarraram à uma das mesas de pedra, que felizmente eram presas no chão e muito pesadas.
A medida arriscada fez ele perder o contato de ambas as mãos com a borda da fenda, mas ele se segurou desesperadamente na corda improvisada e começou a puxar seu corpo por lá. A cada puxada, mais centímetros ele conseguia ficar para fora e mais ele torcia para o linho não se romper. Felizmente, logo Anúbis apoiava o joelho no chão de pedra e então caía exausto no chão da sala de múmias, conseguindo assim enfim fugir da camada mais profunda da escuridão do Duat, o destino dos deuses que morriam.
Ofegante, ele ficou deitado no chão frio. Queria algo quentinho depois de passar tanto tempo num lugar tão tenebroso, mas precisava de uns minutos antes de pensar em se levantar. Apesar do cansaço, estava aliviado em estar de volta, por mais que o retorno tivesse lhe deixado também completamente arrepiado e desconfortável ao lembrar da intensa dor de quando morreu. Também era arrepiante sentir chegando até si, como numa avalanche, as informações da quantidade de pessoas que tinham falecido desde que ele mesmo falecera temporariamente.
Mesmo tendo que lidar com tantas sensações intensas chegando ao mesmo tempo, a pior delas era lembrar do corpo queimando intensamente e se desfazendo. Era terrível. Lembranças assim haviam repassado em sua mente e corpo repetidas vezes no Duat. Mas agora estava tudo bem e, meio automaticamente e meio que tentando se convencer disso, ele, ainda ofegante, esfregou os braços, rosto e peito, para acabar com aquela sensação de que ainda estava sendo queimado e explodido por Aten.
Mais ofegante pela memória do que pelo esforço de sair do Duat e com a cabeça doendo com as várias mortes que chegavam de novidade, Anúbis lentamente sentou-se e repetiu o processo ao esfregar as pernas. Exasperado, ele tentou respirar fundo, ignorando a fenda para o Duat que lentamente se fechava. Ele respirava fundo, pausadamente, convencendo a si mesmo de que tudo tinha ficado para trás. Tanto as terríveis profundezas do Duat, como a luta contra Aten. Foi também nesse momento que Anput, Ísis e Néftis surgiram na sala das múmias, puxadas por Ammit.
Néftis suspirou aliviada enquanto a primeira reação de Ammit, Anput e Ísis foi correr na direção de Anúbis. Foi difícil encontrar espaço para todas e Anúbis não teve nem tempo de reagir, quando notou já estava engolido num abraço de Anput, Ísis beijava o topo da sua cabeça e Ammit deitava e se esticava lambendo o seu rosto.
— Ammit, calma, pera! — resmungava Anúbis sufocado pelas lambidas dela.
Anput afrouxou um pouco o abraço e, com lágrimas nos olhos, olhou para o marido aliviada. Ísis, por outro lado, apesar de também com lágrimas nos olhos, apenas apoiou a mão na cabeça de Ammit no começo de uma tentativa de tentar controlar a demônia.
— Ammit, calma garota… — disse Ísis.
Ammit de fato se tranquilizou um pouco e permaneceu deitada nas pernas de Anúbis com o rabo de hipopótamo balançando vigorosamente de um lado para o outro.
— Já estava achando que não ia conseguir voltar. — admitiu Anput.
— Não foi fácil mesmo. — admitiu Anúbis limpando, com magia, toda a baba que Ammit deixou no seu rosto.
Livre da baba no rosto, Anúbis respirou fundo e olhou para Anput lentamente antes dos dois tocarem as testas, aliviados, e com olhos lacrimejantes.
— Senti sua falta. — admitiu ele.
— Eu também. — concordou Anput.
Eles se beijaram lenta e brevemente sob o doce sorriso de Ísis. Foi só ali que Anúbis realmente começou a sentir que de fato estava tudo bem apesar de ainda se sentir bem inquieto e preocupado. Ele então se afastou do beijo e então olhou para Ísis, que prontamente segurou a mão dele, como se quisesse confirmar de que ele estava mesmo ali.
— Estávamos preocupadas… — disse Ísis.
— Demorei tanto assim? — perguntou ele.
— Quase 1 ano e 1 mês. — explicou Ísis.
— Só? — perguntou ele surpreso.
— Como assim “só”? — questionou Anput chocada — Foi muito tempo!
— É que… a sensação que eu tive foi que passou mais… lá embaixo… — justificou-se ele e, ao justificar-se, seu olhar cruzou com o de Néftis, silenciosa em seu canto, mas parecendo devidamente aliviada.
— O importante é que está de volta. — disse Néftis se ajoelhando também se juntando ao momento que acontecia ali.
— O que eu perdi? — perguntou Anúbis fazendo cafuné na juba de Ammit — Senti tantos mortos chegando de uma vez quando saí do Duat… Por favor diz que eu estou enganado e que vocês conseguiram julgar eles.
— Não… — disse Anput suspirando — O Salão do julgamento está abarrotado de almas. Não vai querer aparecer por lá agora.
— Isso cheira a muito trabalho… muito… — resmungou Anúbis resistindo a tentação de deitar no chão de novo — Eu queria um tempo antes de voltar a julgar eles. Estou tão exausto. Me sinto tendo acabado de sair dos piores pesadelos.
— Já esperaram bastante. Mais algumas horas não vai fazer tanta diferença. — disse Ísis fazendo Anput rir levemente.
Num outro dia, com mais energia, Anúbis teria reclamado disso, teria feito de tudo para aliviar aquelas almas e poder julgá-las logo, mas estava exausto demais. Não estava nem um pouco interessado em julgar ninguém e, percebendo que ele parecia abalado, ou talvez por ter ouvido de como Hathor também voltou abalada, o espírito materno de Ísis brotou com força. Delicadamente, como se Anúbis fosse uma criança novamente, ela o puxou até que ele estivesse com a cabeça deitada em seu ombro. Ele podia não ser mais uma criança, mas sem dúvida ainda era bem jovem.
Por uns segundos, Anúbis permaneceu lá, sentindo o calor materno de Ísis enquanto ela passava os dedos pelos seus cabelos. Ele logo fechou os olhos, então não viu quando uma cabisbaixa Néftis deixou o lugar resmungando que iria avisar, disfarçadamente, para Osíris e Hórus que Anúbis tinha voltado, mas que precisava de um momento.
Eventualmente, sentindo-se um pouco melhor, Anúbis ergueu a cabeça e olhou para Ísis e Anput com uma óbvia preocupação no olhar.
— Porque parece que tantas crianças morreram? — perguntou ele — Tudo bem, é normal sempre ter crianças com menos de 5 anos morrendo mas… parece demais dessa vez. E muitos mais velhos também. Com menos de 15. Isso já não é normal. Algo aconteceu? Minha cabeça dói muito ainda para tentar ver o que aconteceu.
— Então… — disse Ísis suspirando enquanto Anput apenas abaixava o olhar — Akhenaton fez várias mudanças. Fechou os templos, por exemplo, e começou a construir uma nova capital chamada Amarna. Ele quer que ela termine o mais rápido possível… e se puder economizar, também seria bom, nos olhos dele. Então ele tá usando toda mão de obra possível… incluindo crianças.
— Que?! — perguntou Anúbis sem acreditar no que ouvia.
— É… — confirmou Anput com as mãos se fechando em raiva — crianças, apartir de 7 anos, estão trabalhando pesado na construção e... muitas não resistem e logo outras são colocadas no lugar.
Ele olhou para as duas como se estivesse esperando alguma delas falar que tudo era uma piada de mal gosto, mas as duas continuaram quietas. Anúbis respirou fundo, tentando se controlar, antes de falar:
— Quero ver.
— Quer ver? — questionou Anput.
— Quero ver essa tal Amarna. — disse Anúbis novamente — Quero ver o que Akhenaton está fazendo com essas crianças.
— Tem certeza? — perguntou Ísis — Ainda não está com uma aparência muito boa.
— Tenho. — respondeu Anúbis, firme.
— Eu te levo lá. — disse Anput suspirando, sabendo que não teria como fazer ele desistir da ideia.
— Não vá demorar muito. — pediu Ísis — Hórus com certeza vai querer falar com você.
Anúbis afirmou brevemente com a cabeça e, no segundo seguinte, Ammit pulava de suas pernas. Os três deuses se levantaram e então Anput levou Anúbis para o local de construção de Amarna. Na margem leste do Nilo, num terreno anteriormente vazio, a cidade nascia. Mostrando a pressa do faraó, para acelerar a construção da cidade, a maioria das construções eram construídas em tijolos de barro e pintados de branco.
Nada tinha muita aparência de estar devidamente pronto, nem na metade do processo. Tudo estava apenas na montagem das tímidas bases das construções. Por mais que ninguém visse o casal ali, o casal via os trabalhadores, cansados, a maioria entre 7 e 25 anos de idade, carregando peso, seguindo ordens, muito magras, com vários mostrando ferimentos no corpo, dores cuja causa o olho não via e até doenças como escorbuto, raquitismo e osteoartrite.
Tanto Anúbis quanto Anput viram até mesmo a construção das maiores pirâmides do Egito, então, só de olhar, podiam ter certeza de algo, tudo ali estava sendo feito com a maior pressa possível, sem medir quanto esforço seria considerado razoável, ou saudável e, o pior, sem ligar se um trabalhador iria morrer ou não. Tudo parecia valer a pena para concluir Amarna o mais rápido possível.
Era irritante, enfurecedor e inacreditável o que acontecia em Amarna. Agora ali, apesar de ainda estar com dor de cabeça, Anúbis podia sentir as tumbas escavadas de qualquer jeito, nas quais corpos eram simplesmente jogados um em cima do outro sem qualquer cuidado ou preparação. A maioria, de crianças com até 15 anos.
Se controlando para não ir pessoalmente dar um soco, com toda a sua força, no meio da cara de Akhenaton, Anúbis entrou numa pequena construção, erguida de qualquer jeito, que parecia ser o local de descanso dos trabalhadores. Sabia bem o que encontraria lá dentro, mas mesmo assim, seu coração se partiu ao ver o corpo raquítico de uma menina de 11 anos. O deus sentia, que a menina ainda estava viva, mas era só por um fio, sabia disso. A desnutrição iria acabar com a luta dela contra uma fratura espinhal causada por carregamento de peso maior do que deveria estar carregando.
Ele se ajoelhou ao lado da menina e lentamente liberou a magia que impedia que todos o vissem. Havia apenas a menina ali dentro, não tinha motivo para esconder-se. Um pequeno brilho cruzou o olhar da criança e a boca dela se moveu lentamente, sem emitir som. Delicadamente, ele pegou a mão dela e a segurou com tanta leveza que era claro que estava com medo de machucá-la.
Ao lado de Anúbis, Anput surgiu. Gentilmente, Anput colocou sua mão sobre a mão de Anúbis e os dois ali ficaram. Ao lado da menina que havia fixado o olhar nos dois. Uma lágrima rolou pelo rosto da garota, mas nenhuma reação mais veio dela até que, alguns minutos depois, todas as dores dela desapareceram e o brilho sumir de seu olhar.
Uma lágrima rolou pelo rosto de Anput e ela fungou segundos antes de erguer a mão para limpar essa lágrima e uma segunda que já ousava escapar. Anúbis, mais irritado do que triste, delicadamente fechou os olhos da menina e pegou-a no colo carinhosamente. Anput já sabia o que passava pela cabeça dele, não precisava nem perguntar, ele iria mumificar a garotinha.
Nesse mesmo instante, um falcão pousou na entrada da casa e se transformou em Hórus, que logo entrou na casa e participou de um minuto de silêncio que ninguém pediu mas todos pareciam concordar, antes de falar:
— Sabia que viria aqui, não precisava minha mãe me falar. Já era meu primeiro chute. Revoltante, não acha?
— Por favor, me diz que vocês já sabem como se livrar do Akhenaton. — pediu Anúbis.
— Temos conversado sobre isso, sim. — confirmou Hórus — Thoth ainda não voltou e ele faz falta para termos certeza da decisão final.
— Você, hesitando? — perguntou Anúbis incrédulo.
— Não necessariamente… — disse Hórus suspirando — Só matar Akhenaton pode gerar um mártir. Não que a religião que ele inventou seja tão popular. Mas ainda assim… matar apenas Akhenaton não vai resolver o problema de Aten. Sair matando todos seria muita intolerância e insensatez de nossa parte. O que me preocupa muito também é que o próprio Akhenaton resolveu que queria acreditar e seguir apenas um deus, isso é sem precedentes mas, se aconteceu com Akhenaton, não quer dizer que não pode acontecer novamente.
— Então no que estão pensando? — perguntou Anúbis.
— Amaldiçoar toda a linhagem de Akhenaton. — revelou Hórus fazendo Anúbis olhar para ele chocado — Passa uma mensagem.
— Isso é novidade… — disse Anúbis — E… intenso.
— É… — concordou Hórus — Esse é o nível que as coisas estão ruins. Ainda iremos discutir para decidir de uma vez mas, temos uma outra preocupação.
— Qual? — perguntou Anúbis.
— Esqueceu que temos uma reunião com os micênicos? — perguntou Hórus.
— Isso ainda não aconteceu? — questionou Anúbis — E no meio de tudo isso, ainda querem que ela aconteça?
— Ficamos enrolando o máximo possível. — disse Anput.
— Temos que fazer parecer para o resto do mundo de que tudo está bem no Egito. — disse Hórus — Enrolamos o máximo possível justificando que precisávamos aprender o idioma, se não seria injusto, que o lugar escolhido não era bom e outro deveria ser escolhido... enfim. Temos que fazer parecer que tudo está bem no Egito pois Akhenaton está também negligenciando as fronteiras.
— Tem alguma coisa que esse cara não faz de ruim? — perguntou Anúbis.
— Parece que ele é um bom marido… — disse Anput dando de ombros — Ama muito Nefertiti.
— Não é suficiente para mudar minha opinião sobre ele. — disse Anúbis.
— Realmente não. — concordou Anput.
— Não vejo a hora de nos livrarmos do desgraçado. — disse Hórus — Mas, por hora, nossa preocupação é que depois de amanhã é o encontro com os micênicos. Nós dois iremos encontrar Zeus e Hades. Espero que seu micênico esteja bom. Sinceramente, ainda bem que não vou mais ter que ir sozinho.
— O Duat não é necessariamente o melhor lugar para aprender outro idioma. — admitiu Anúbis se levantando com o corpo da garota morta nos braços — Quando tudo isso acabar, eu vou querer férias.
— Tudo bem. Só não vá julgar os mortos agora. — pediu Hórus — Aproveite esse tempo para descansar e aprender um pouco de micênico se quiser. Hathor voltou mal. Deve estar precisando de um tempo também.
— Conseguiu avançar muito no micênico? — perguntou Anúbis.
— Não. — admitiu Hórus com um sorriso torto — Difícil focar com sua esposa morta e você sem poder acabar com o responsável. De toda forma, não demore muito aqui. É difícil segurar a vontade de ir até o palácio, ainda em Tebas, e começar outra batalha.
— Já vamos voltar. — garantiu Anput que estava com medo de Anúbis fazer justamente isso ou no mínimo comprar briga com um dos guardas ali.
Hórus se transformou num falcão novamente e saiu voando para longe sob o olhar de Anúbis e Anput.
— Sabe… — disse Anput repentinamente — Ele também ficou preocupado com você.
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