A Morte Das Areias do Saara
123 Os Deuses do Monte Olimpo
Notas iniciais

Como você é o sol, você chega até onde eles chegam e os refreia para seu filho amado. Embora você esteja longe, seus raios estão sobre a terra — você está em seus rostos, mas sua partida não é observada.
~ Fragmento de “Hino a Aten”
O mar azul banhava e trazia algas para uma praia de areia branquinha que continuava por vários metros. A praia era parte de uma ilha que, por poucos metros, não era conectada com o continente africano. No momento sem dono, futuramente parte da Tunísia, a ilha foi escolhida como o ponto de encontro entre os dois deuses egípcios e os dois deuses micênicos.
No momento, contudo, os únicos que tinham chegado ainda eram Anúbis e Hórus. Os dois olhavam ao redor esperando pacificamente a chegada de Zeus e Hades, quando Anúbis suspirou cansado de esperar sem fazer nada logo ao lado de uma tenda que foi armada magicamente na praia seguindo costumes e padrões e egípcios com toques beduínos.
A tenda era branca e aconchegante. Com paredes de pano altas formando um quadrado cujo um dos lados se abria a entrada como um triângulo. O topo da tenda era piramidal e o interior da tenda era elegante, com tapetes com padrões típicos egípcios, uma mesa central baixa com almofadas coloridas ao redor, mostrando que era esperado que a pessoa se sentasse ao chão. No topo da mesa, uma ânfora de cerâmica com vinho, quatro taças de azuis de faiança e pão.
— Qual foi a lógica para escolher essa ilha? — perguntou Anúbis.
— Ambos os lados queriam algo igualmente longe entre os dois povos. O que é muito difícil de achar. — respondeu Hórus inquieto, mudando o peso de um pé para o outro — Também foi unânime que não queríamos nada na água.
— Mas… acho que aqui é mais perto deles do que do Egito, não? — perguntou Anúbis.
— Sim. Mas por pouco. — disse Hórus dando de ombros — Foi o lugar que deu. Eles também não queriam nada no deserto, por estarmos mais acostumados. Como a fronteira do Egito vai praticamente até o Eufrates e estamos bem com os vizinhos, eles não queriam aceitar nada para o leste.
— Então sobrou o oeste… — respondeu Anúbis.
— Isso. — confirmou Hórus — Lembra de tudo que eu falei antes de virmos, certo? E falou com Osíris também? Lembra das coisas sobre eles que Thoth conseguiu reunir antes de morrer? E as de Seshat também? Pois eles com certeza pesquisaram sobre nós também.
— Sim. Sim. Sim e Sim. Não se preocupe. — respondeu Anúbis.
— Acha que eles sabem que eu sou cego de um olho? Ou que Thoth está morto ainda? — perguntou Hórus — Se eles inventarem de atacar…
— Hórus, calma… — pediu Anúbis estranhando o comportamento do primo — Você está muito nervoso. E daí se você é cego de um olho? Lut-
— É um ponto cego que eles podem explorar numa luta. — justificou Hórus interrompendo Anúbis.
— Luta mais do que muito bem mesmo sem esse olho. — enfatizou Anúbis — E Thoth pode não ter voltado ainda, mas Seshat deu o melhor de si para suprir esse vácuo. Juntou bastante informações sobre os micênicos. Já fizemos isso outras vezes com os outros vizinhos. Então tenha calma. Não é normal você assim.
— Já fizemos isso antes, mas nunca na situação que o Egito está… — rebateu Hórus aos sussurros mesmo que ninguém tivesse chegado ainda — Um novo deus surgiu entre nós querendo nos substituir! Não podemos demonstrar fraqueza. Podemos acabar como os minóicos ou os sumérios. Será que já não estamos abusando do tanto de anos que o Egito segue de pé? Quais civilizações ainda estão de pé que já existiam quando o Egito se unificou?
— Ahm… os núbios? — disse Anúbis depois de um tempo pensando.
— Ainda praticamente nômades! — rebateu Hórus.
— Você não pediu ninguém que tivesse deixado de ser nômade especificamente. — rebateu Anúbis — Aliás, os outros nômades também... ahm.. os berber, os etíopes, os semitas…
— Mas sem ser nômade naquela época, só sobramos nós. — lembrou Hórus sussurrando — E agora temos que lidar com um faraó herege, que fecha os templos, mata crianças e negligencia as fronteiras.
— Nunca ficamos numa situação assim de um faraó assim, verdade. Mas você mesmo falou que já está decidindo como lidar com Akhenaton. — sugeriu Anúbis na mesma altura de voz — Então, por favor, esconda melhor que está tão tenso. Um problema de cada vez.
Por uns segundos, Anúbis parou para se lembrar das poucas anotações de Thoth e os complementos feitos por Seshat depois. Zeus, deus dos céus e dos relâmpagos, era irmão de Hades… que na verdade Seshat não conseguiu achar se deus de nada, o que era estranho. Mas considerando que Hermes disse que a organização dos deuses não era equivalente a como os mortais acreditam que eles se organizavam, talvez isso se aplicava ainda mais a Hades.
Qual era mais velho entre Zeus e Hades dependia de como se contava, pois Hades até nasceu primeiro, mas, aparentemente, tradicionalmente eles consideravam a ordem de nascimento como sendo a ordem em que… eles saíram do estômago do pai que os devorou pouco depois do nascimento de fato (O que Anúbis considerava nojento e estranho. De repente Seth não parecia um pai tão ruim.). Como Zeus não foi engolido, ele podia ser considerado o mais velho entre os dois.
As informações que Seshat conseguiu incluíam outros detalhes, como o fato de os deuses micênicos terem entrado em contato com os hititas e os mitanni da mesma maneira que fizeram com os egípcios. Os três juntos eram os povos que praticamente cercavam Micenas, mesmo que com o Mar mediterrâneo no meio. Se eles iriam entrar em contato com os assírios, babilônicos e elamitas mais além, ao redor do golfo pérsico, era uma incógnita. Mas ao menos nenhuma dessas reuniões pareceu ser sobre formações de exército ou nada suspeito até onde sabiam, isso era bom.
A pesquisa de Seshat também trouxe outros nomes de outros deuses, como Ártemis, Apolo, Dionísio e Hefesto, mas o foco havia sido bem mais em Zeus e Hades, por mais difícil que tenha sido encontrar algo sobre Hades.
— Ninguém de fora sabe ainda tudo que Akhenaton está fazendo no Egito? — perguntou Anúbis aos sussurros.
— “Um problema de cada vez” mas também está preocupado, eim? — questionou Hórus dando uma pequena risada meio nervosa.
— Anput não é tão popular entre os mortais…Se Aten realmente ficar popular... — justificou Anúbis sem coragem de terminar a frase.
— Ah… Bem… Com certeza os mercadores já estão espalhando as fofocas pelo menos quanto aos templos fechados. — respondeu Hórus no mesmo tom de voz — Mas não é a primeira vez que algum faraó fecha os templos e lidamos bem da primeira vez. Mas, um problema de cada vez, certo?
— Um problema de cada vez. — repetiu Anúbis — E o do momento, são os micênicos.
Eles esperaram, em silêncio, por mais alguns segundos, até que ao mesmo tempo, os dois deuses se viraram ao sentirem duas pessoas surgindo num ponto atrás deles, um homem e uma mulher.
A mulher tinha cabelos bem longos, loiros e ondulados. Era branca e usava um longo vestido, marcado na cintura com uma espécie de cinto azul de pano. O vestido era decotado até quase o umbigo e tinha várias camadas. A mais embaixo era branca e ia das mangas até a barra da saia que roçava em seus pés, a segunda camada era como uma capa sem mangas amarela com bordas azuis e laranjas que continuava até se tornar uma saia, também de bordas azuis e um palmo mais curta que a saia branca.
O homem era alto, pálido, tinha cabelo preto e liso na altura dos ombros. Ele usava um vestido curto de um roxo intensamente escuro, uma cor nada comum de se ter ainda, e uma capa preta, outra cor incomum. A roupa era bem solta, chegando a ter excesso de pano, mas ele melhorava o visual com um cinto.
A estranha escolha de cor de roupa do homem, já que tinturas daquelas cores estavam longe de serem fáceis de se adquirir, fez com que Hórus se lembrasse de algo e disfarçadamente olhasse, com o canto do olho, para o primo… e seu saiote preto. Uma semelhança interessante. Silenciosamente, Hórus apostou consigo mesmo que Anúbis e o homem se dariam bem.
— Aquele deve ser Hades… — disse Hórus baixinho, divulgando só parte de suas conclusões quanto ao homem.
— E… Zeus era homem.. não estou confundindo, certo? — perguntou Anúbis, aos sussurros, olhando para a mulher que, junto com o homem, se aproximava dos dois.
— Também estou perdido com quem é ela. — declarou Hórus.
Eles até então estavam conversando em voz baixa, mas logo pararam a conversa com medo de serem ouvidos. Deixaram então a dupla recém chegada se aproximar até que os quatro estavam se encarando com apenas o mar como testemunha do encontro.
Todos estavam tensos com medo de prováveis segundas intenções de ambas as partes. Cada palavra e cada gesto era meticulosamente observado. Incluindo o homem notando o saiote preto de Anúbis e Anúbis notando a roupa roxa e preta do homem.
— Devem ser Hórus e Anúbis. Muito prazer. — disse a mulher num egípcio simplesmente perfeito — Desculpe se os deixamos esperando por muito tempo.
— Eu sou Hórus. — respondeu o deus — Não esperamos muito. Mas… devo admitir que estou confuso. Você não parece ser Zeus.
— De fato não sou Zeus. — confirmou a mulher com um pequeno sorriso — Houve um… imprevisto.. e Zeus não pôde vir. Eu sou Atena.
— Hades. — disse o homem se apresentando também.
— Espero que não se importem em lidar comigo ao invés de Zeus. — disse Atena — Ouvi dizer que a sociedade egípcia é bem mais aberta que a micênica quanto a mulheres participando dos trabalhos da sociedade em várias esferas. Até tiveram uma faraó, pelo o que pesquisei.
— Bem, sim… — respondeu Hórus dando de ombros — Hatshepsut foi uma ótima faraó apesar de muitos não terem aceitado muito bem ela até o final de seu reinado. Mas espero que esteja tudo bem com Zeus.
Claro que Hórus ia deixar de fora o detalhe de que ele mesmo não aceitou Hatshepsut no começo, e Anúbis achou que aquela não era a melhor hora de implicar com o primo. Tinham que trabalhar juntos e a súbita ausência de Zeus era ao menos levemente estranha. Certamente se Thoth tivesse voltado, ele teria pesquisado profundamente isso e eles saberiam o que poderia ter acontecido.
— Ah sim, nada para se preocupar. — respondeu Atena, apesar de que nenhum dos dois sentiu muita verdade na resposta — De toda forma, espero que essa conversa evolua bem. Bem queria conhecer as famosas pirâmides.
— Dependendo dos rumos dessa conversa, claro. — disse Hórus enchendo o peito de orgulho pelas pirâmides — Também queremos conhecer Micenas. As condições até então impediam qualquer visita.
— Sim. Queremos mudar isso. — admitiu Atena suspirando — Melhorar as relações com os vizinhos é importante.
— Seria interessante também incluir o seu submundo no roteiro. — disse Hades, mostrando que também sabia egípcio, encarando Anúbis de cima a baixo brevemente.
— Isso já é mais complicado. — respondeu Anúbis — Mas, se chegar nesse nível, terá que mostrar o seu primeiro.
— Justo. — respondeu Hades tranquilamente, mas sempre sério.
— Então vamos discutir os assuntos pendentes e quem sabe conseguimos visitar as pirâmides ainda hoje. — sugeriu Hórus indicando a tenda.
Hades liderou o caminho para a tenda e logo foi seguido pelos demais. Os quatro se sentaram nas almofadas e sob os olhos bem atentos de Hades e Athena, Hórus serviu um pouco de vinho para cada um dos quatro. Anúbis e Hórus sabiam que Athena e Hades estavam, do jeito mais disfarçado que conseguiam, tentando definir se havia alguma magia no vinho e exatamente por isso nem tocaram no copo. Por esse mesmo motivo, tanto Anúbis, quanto Hórus deram ao menos um gole bem óbvio no vinho, para diminuir quaisquer suspeitas que não levariam a nada.
— Então… como dissemos nas mensagens que trocamos… — disse Atena — Novos tempos estão começando em Micenas agora sem os minóicos e decidimos que era uma grande oportunidade de um novo começo e, dessa vez, fazer as coisas certo. Os deuses minóicos tinham medo das influências das religiões vizinhas, mas nós estamos organizados o suficiente para interagirmos com os demais e decidir os pormenores da interação entre nossos povos.
— Principalmente também sobre como decidir o destino dos mortos. — completou Hades — Quanto mais os dois povos interagem e os mortais ficam mais confortáveis de viajar longas distâncias, mais algumas mortes podem ficar confusas ou acontecem em lugares diferentes.
— Quanto aos mortos… — disse Anúbis — O acordo com os outros povos costuma ser de a alma ir para o submundo que o morto acredita.
— Apesar de tradicionalmente considerar-se que os deuses só atuam dentro das fronteiras de seus povos, isso tem mudado e as almas dos mortos são exceção desde… quase sempre. — explicou Hórus.
— O ideal seria discutir isso com Osíris. — disse Hades, pelo olhar, aparentemente subestimando Anúbis, o que fez Hades ganhar uma encarada de canto de olho, levemente irritada, de Atena.
— Pode considerar que qualquer coisa que eu disser, Lorde Osíris dirá igual e qualquer acordo que fecharmos, Lorde Osíris irá cumprir. — rebateu Anúbis sério.
— O que Hades quer dizer… — disse Atena encarando Hades com um olhar que dizia em todas as letras “cala a boca” — É que é sem dúvida difícil, para qualquer um, encontrar alguém em quem podemos confiar tanto a ponto de cada palavra e decisão ser de acordo com as opiniões da pessoa original. Com certeza Osíris o coloca em alta consideração para representá-lo, considerando até sua idade. Deve ser bem capaz.
Atena lentamente tocou a taça de vinho, ainda avaliando se iria beber, enquanto Hórus e Anúbis se entreolharam brevemente. O olhar que Hórus e Anúbis trocaram era de estranheza e ambos sabiam que estavam estranhando o mesmo detalhe da fala de Atena que provava que a pesquisa dos micênicos tinha seus defeitos. Motivado por Atena, Hades também pegou a taça de vinho enquanto se desconectava um pouco da conversa.
— Quantos anos você acha que Anúbis tem? — perguntou Hórus levianamente, mas disfarçadamente bem curioso enquanto Hades bebericava o vinho.
— Sim. Bem tenho medo de chutar e acabar ofendendo mas… não deve ser tanto se prefere ter a aparência de ser bem jovem. Talvez uns 1000, no máximo? — disse Atena cheirando o vinho cerimoniosamente em busca de algo suspeito mas fingindo ser para degustar seu cheiro mas logo parou ao notar o motivo da pergunta e por isso, imediatamente olhou para Anúbis — Desculpe a pergunta, mas quantos anos tens?
— Mil setecentos e alguma coisa… — respondeu Anúbis e Hades quase engasgou de leve com o vinho.
— “E alguma coisa”? — perguntou Hades estranhando a baixa precisão.
— Perdi a conta. — disse Anúbis dando de ombros fazendo pouco caso desse detalhe — Não faz tanta diferença assim 1 ano, ou 5 até, a mais ou a menos.
— Como assim você tem quase 2000, é mais velho que eu, e fica com essa aparência de adolescente? — perguntou Hades ainda parecendo meio chocado que alguém poderia perder a conta da própria idade.
— Porquê… eu sou… ? — respondeu Anúbis estranhando as perguntas — Não escolhi parar em anos mortais em… sei lá.. uns 17, no máximo, talvez?
— Vocês não controlam sua aparência? E como assim você perde a conta? — perguntou Hades mais uma vez.
— Não. Somos assim mesmo e às vezes… — admitiu Hórus parecendo considerar o fato normal, talvez ele também tivesse perdido a conta da idade — O calendário egípcio usa como base o faraó governante então… um período de séculos atrás de instabilidade, guerra civil e faraós trocando em menos de um ano e ainda dois ao mesmo tempo deixou tudo um pouco confuso. Sem falar que não é incomum focarmos tanto em algo, que nem vemos os anos se passando.
— Depende da situação então… — concluiu Atena disfarçando melhor a surpresa que Hades.
— E você, Atena, podemos considerar suas palavras como sendo as de Zeus? — perguntou Hórus mudando o assunto e logo dando mais um gole no vinho.
— Não. Minha palavras são minhas mesmas. — disse Atena.
— Parece que teremos que nos reunir mais vezes então. — disse Hórus.
— A próxima creio que possa ser em nosso território, ou até no de vocês, se preferirem. — sugeriu Atena — Mas pode ter certeza que levarei quaisquer coisas ditas aqui até ele.
— Nenhuma segunda reunião terá Zeus, então? — perguntou Hórus.
— “Nenhuma” é uma palavra muito forte. — respondeu Atena — Ponderar sobre a vinda de Zeus é perda de tempo no momento. Ele não está aqui então vamos resolver as coisas, pois eu particularmente adoraria conhecer as pirâmides. Sob sua supervisão, claro.
Durante toda a manhã e parte da tarde, eles resolveram as burocracias divinas entre os dois povos. Apesar de não estar respondendo por Zeus, Atena era bem confiante em suas falas. Hórus eventualmente dizia que teriam que confirmar com Zeus, mas Atena sempre dizia que levaria a informação ou decisão para Zeus, ou que discutiria com ele, nunca mencionava de Zeus se encontrar os deuses egípcios.
De todas as formas que conseguia pensar, Hórus tentava driblar Atena nas falas em busca da informação de porque Zeus não se encontraria com eles, mas falhava todas as vezes. Quando faltavam poucas horas para o pôr do sol, eles decidiram que tinham conversado todo o possível do momento.
— Acho que por hoje decidimos bastante. — disse Hórus — Quase tudo foi resolvido.
— Com certeza. — disse Atena — E, como prova de nossas boas intenções, gostaria de levá-los para conhecer a cidade de Mycenae. Claro, se estiver tudo bem para vocês.
Anúbis e Hórus se entreolharam, sabiam que, em troca, teriam que mostrar as pirâmides para Atena. Toda a situação com Akhenaton os preocupava, mas Mênfis felizmente era longe o suficiente de Tebas para poderem esconder as ações do faraó e com certeza as pirâmides e a grande cidade seriam belas o suficiente para impressionar os micênicos.
— O que acha? — perguntou Anúbis.
— Não vejo problema. — respondeu Hórus embora isso fosse uma mentira.
Ambos os lados sabiam dos riscos e das dúvidas presentes em cada convite. Não sabiam se vários outros deuses estariam esperando em Mycenae para fazer um ataque, não sabiam se Atena tinha segundas intenções. Eles mal tinham se conhecido. Todavia, um pouco de confiança era necessário
Atena levou todos para o topo de um grande morro. Por toda a extensão, a terra era verde, bela e montanhas cercavam o horizonte. Árvores estavam salpicadas por toda parte, e um vento levemente frio batia neles. Embaixo do monte, havia uma pequena cidade a poucos metros de uma pequena floresta, enquanto no morro onde os quatro deuses estavam, um grupo grande de mortais terminava o expediente do dia na construção de algo bem grande completamente ignorantes da presença dos deuses ali.
— Novos começos significam também a construção de um novo palácio. — explicou Atena — Ao contrário dos minóicos e suas construções, iremos cercar o palácio com muros. Ainda estamos apenas no começo, mas todos começam do começo.
Apesar de Atena estar tentando se exibir com o palácio, o que claramente chamava mais atenção de Hórus e Anúbis era a vista do lugar. Construções eles já haviam visto suficientemente, cada uma mais enorme que a anterior, viram a construção das pirâmides, ainda as construções mais altas do mundo, viram a construção de Karnak, o maior templo do mundo, viram cidades inteiras serem cercadas por muros. Um palácio de pedra ainda em suas bases, não era tão interessante. No máximo, era levemente interessante observar as técnicas e materiais diferentes.
Se forçando a ter interesse no palácio, pensando até no lado estrategista de se ver as bases dele, Hórus virou-se para Atena e começou a ouvir a explicação dela sobre o povo e o palácio. Hórus e Atena lentamente se afastavam mas Anúbis continuou, desinteressado, vendo o horizonte, a vila mais embaixo e notando, com o olhar, cada diferença entre os dois povos.
— Não acostumados a ver tanto verde? — perguntou Hades notando o foco do interesse — Deve ser sem graça viver cercado de deserto.
— Não é isso. — rebateu Anúbis — O Egito não é só areia, que nem muitos gostam de achar, tem muito verde também e de cor bem mais intensa. Já fomos em lugares fora do Egito com bastante verde também, e o deserto também tem suas belezas. É só que… é uma vista bonita.
E acima de tudo, Anúbis também pensou consigo mesmo, Anput iria gostar dali. Mas não era uma informação que precisava e nem queria compartilhar com Hades. Com certeza voltaria ali com Anput quando tivesse certeza de que tudo estava bem.
— O deserto… bonito? — questionou Hades incrédulo e Anúbis confirmou com a cabeça.
— É interessante ficar no meio do deserto. — admitiu Anúbis — O resto do mundo parece sumir. O nascer e o pôr do sol são lindos lá também.
— Quem sabe vemos um pouco então. — disse Hades olhando para o céu — Logo o sol vai começar a se pôr.
— Porquê Atena parece querer tanto ver as pirâmides? — perguntou Anúbis diretamente mesmo, sem paciência mais para perguntas que tentavam contornar segredos, tal como haviam passado horas na tenda perto da praia fazendo.
— Porque ela é uma viciada em arquitetura. — disse Hades soltando uma pequena risada de escárnio — E que obra feita pelos mortais é tão grande quanto?
A conversa foi interrompida quando Anúbis ouviu Hórus chamando-o. Então, Anúbis deu as costas para Hades e se juntou no tour pelo palácio de Mycenae. Com os trabalhadores indo embora sem ver os deuses passeando, e o palácio ainda estando no começo da construção, eles facilmente passavam por cima de pequenos aglomerados de pedras que um dia seriam uma parede.
— Acha que está tudo bem mesmo mostrar as pirâmides? — perguntou Hórus cochichando para Anúbis no meio do tour por Mycenae.
— Você anda muito inseguro esses dias… — respondeu Anúbis de volta, também aos cochichos — Está tudo bem?
— Falamos disso depois. — disse Hórus escapando do interrogatório e olhando para Atena mais além, com medo de ela estar ouvindo — Mas então… o que acha? Sabe mais delas do que eu. Não são só um monte de pedras empilhadas, afinal.
— Temos que ficar de olho neles, mas provavelmente está tudo bem. — respondeu Anúbis.
Aparentemente era tudo que Hórus precisava ouvir, pois ele logo acelerou o passo, vencendo a distância que os separava de Atena. O deus falcão chamou-a para ir conhecer as pirâmides, para que pudessem aproveitar os últimos momentos de luz do sol.
Quando ouviu que poderiam ir para as pirâmides, Atena até tentou esconder sua empolgação, mas os olhos dela brilharam intensamente. Com magia, era fácil começar o dia no que seria a Tunísia, ir para onde se formaria a Grécia e então encerrar o dia no Egito. Assim, num piscar de olhos eles surgiram ao lado das pirâmides de Gizé com Mênfis, que se preparava para dormir, bem mais além na margem oposta do Nilo e apenas o deserto atrás deles.
Mesmo com Hades zombando um pouco o interesse de Atena com arquitetura, ele também ficou surpresa com o tamanho simplesmente absurdo das pirâmides de Gizé. Depois de passado o choque, os dois deuses micênicos notaram como ao redor das três enormes pirâmides, haviam várias outras pirâmides bem menores mas ainda maiores que uma pessoa, mesmo se fosse por pouco. O sol, que se punha atrás deles, era refletido nas paredes das pirâmides, fazendo as pirâmides e a areia parecerem feitas de ouro.
— E isso é a tumba de alguém… ? — perguntou Hades surpreso.
— Cada uma é a tumba de um faraó. — explicou Anúbis — As menores costumam ser de rainhas.
— Quantos anos eles levaram para construir algo tão absurdamente enorme? — perguntou Atena incrédula — Vocês não ajudaram?
— Não. — responderam Anúbis e Hórus ao mesmo tempo.
— Demorou… 27 anos para construir a maior. — completou Hórus checando com o olhar a informação com Anúbis, que afirmou com a cabeça — É ela que ainda é a mais alta construção que os mortais já fizeram no mundo inteiro até hoje mesmo já estando com pouco mais de 1200 anos.
— Pedir para entrar é pedir demais, imagino. — disse Atena — Já que é a tumba de alguém.
— Melhor não. — respondeu Anúbis.
— Nenhum problema em chegar mais perto, espero. — disse Atena.
— Não. Tudo bem. — respondeu Anúbis.
Lentamente, Atena começou a se aproximar mais da pirâmide, ficando surpresa como as pedras da base da pirâmide eram maiores do que ela mesma. Hórus não tirava os olhos de Atena, o que deixava claro que era responsabilidade de Anúbis tomar conta para que Hades não fizesse nada de estranho, nenhuma magia, por exemplo, nas pirâmides. Contudo, Hades não se aproximou das pirâmides, ele simplesmente se virou para trás e fitou o infinito deserto e o pôr do sol.
— Entendi o que você disse… — falou Hades repentinamente.
— Isso porque aqui não é tão isolado assim. — disse Anúbis — No meio do deserto mesmo é tão calmo.
— É incrível a dedicação dos mortais para fazerem uma construção desse tamanho. — acrescentou Hades voltando a olhar para pirâmide.
— Seu mensageiro, Hermes, ele disse que você não é muito conhecido pelos mortais micênicos ainda. — comentou Anúbis.
— Eles acham que Poseidon cuida do submundo… não os culpo, faz pouco tempo que tomei-o para mim. — comentou Hades respirando fundo deixando claro que a situação o irritava — Mas me deixa com raiva, com certeza. Poseidon nunca fez absolutamente nada no submundo. Agora que estamos começando a arrumar.
— Todos estão te ajudando a arrumar o submundo? — perguntou Anúbis levemente surpreso.
— Ah não… o “estamos” não inclui boa parte dos deuses. — respondeu Hades com um pouco de desgosto na voz — Apenas eu e outros que vão acabar ficando pelo submundo mesmo. Mas de toda forma, ainda está muito cru e vazio.
— Hum… — resmungou Anúbis — Não é fácil arrumar o submundo. Lorde Osíris fez boa parte do trabalho quanto a isso no nosso.
— Por isso estou tentando ir nos outros submundo para ver… ou melhor… propondo a visita. — disse Hades — Tenho que mostrar pros mortais que sou melhor que Poseidon no submundo para que eles comecem a me adorar e então eu não desapareça.
— Conseguiu visitar algum submundo até agora? — perguntou Anúbis.
— Só o hitita. — respondeu Hades.
— Já falou com Lelwani então… — concluiu Anúbis — O deus hitita do submundo.
— Sim. — confirmou Hades — Por isso, que tal fazermos um acordo? Eu lhe mostro o meu submundo, não me importo apesar de que imagino que te deixa inseguro eu ir para o seu submundo. E em troca você me mostra o seu. Então?
Por alguns segundos, Anúbis encarou Hades pensando longamente sobre sua decisão. Sem mudar a expressão, Hades o encarava de volta. Quase parecia uma batalha de quem conseguia ficar sério por mais tempo. Eventualmente, sem deixar de ficar sério nem se desviar da encarada, Anúbis respondeu:
— Vou pensar no seu caso.
— Isso é bom o suficiente para mim por hoje. — comentou Hades.
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