A Morte Das Areias do Saara

25 Enlutada. Morto. Semente.


Notas iniciais
desculpa a imensa demora!! fiquei sem criatividade, aí fiquei mal, aí fiquei enrolada com o TCC. a boa notícia é q me livro do TCC semana que vem!! yeeey XD se alguém aí lê tbm as minhas outras fics, "Os Deuses da Mitologia" (do mesmo universo dessa) e "O que o futuro reserva" (De Danny Phantom) saibam que os capítulos já estão nascendo também. Só aconteceu dessa ficar pronto primeiro porque já estava melhor definido o que ia rolar. o cap de "Os Deuses da Mitologia" está já na metade. enfim, aproveitem o cap novo e desculpa pela demora XD ele vem com um outro poema egípcio no lugar de um trecho do livro dos mortos

A morte está diante de mim hoje:

como a recuperação de um homem doente,

como sair em um jardim depois da doença.

A morte está diante de mim hoje:

como o odor de mirra

como sentar sob uma vela em um bom vento.

A morte está diante de mim hoje:

como o curso de um riacho;

como o retorno de um homem da galé de guerra à sua casa.

A morte está diante de mim hoje:

como a casa que um homem deseja ver,

depois de anos passados como cativos.

~ Disputa entre um homem e seu Ba (2000 a.C)

Numa caverna afastada do Delta do Nilo, o pesar e luto eram a emoções que reinavam. Todos que ali se escondiam estavam de olhos vermelhos enquanto Ísis chorava sobre o corpo do marido e irmão. Não tinha sido fácil para Anput, Hathor, Nefertem, Néftis e Ptah fugirem com o corpo de Osíris para aquele lugar tão seco, inóspito e no formato de uma enorme e profunda vasilha de pedra criada pelo poder de séculos de exposição ao vento. Esse mesmo vento agora criava uma tempestade de areia que chicoteava as altas paredes rochosas daquele lugar que séculos depois seria conhecido como A Depressão de Qattara, o ponto mais baixo do Egito. Felizmente, por mais que uma tempestade de areia daquelas pudesse ser um incômodo, principalmente para os olhos e pele de um humano, os deuses que naquela caverna se escondiam tinham o status de divindade ao seu lado e o fato de que a tempestade se mostrava mais fraca ali.

— Set com certeza está nos procurando. — disse Nefertem apoiado perto da entrada da caverna olhando a tempestade de areia — Isso com certeza é obra dele.

— Muito inteligente de vocês se esconderem aqui. — disse Anúbis enquanto, sentado na entrada da caverna, acariciava a cabeça de Neby que tinha, por sorte, conseguido pegar carona junto com os outros deuses até ali.

— Tem mais pedra que areia — disse Nefertem dando de ombros — Ele deve estar procurando mais insistentemente nos lugares com mais água, árvores e tudo mais. Mas aqui ainda é bem deserto.

— Achei que não fôssemos conseguir quando Sobek e Khonsu apareceram pouco depois de vocês irem atrás do resto de Lorde Osíris — disse Anput se juntando aos dois ao se sentar ao lado de Anúbis.

Anput soou o nariz e passou a mão no rosto limpando a lágrima que ameaçava escorrer de seus olhos negros. Anúbis, Thoth e Ísis haviam informado aos outros o que acontecera com a parte restante de Osíris e, desde então, os deuses tinham se rendido ao pesar, ao desespero e ao luto. Especialmente Ísis que até então não parava de chorar. Mesmo que tivessem se rendido ao desespero, Anúbis ainda sentia a vida pulsando do corpo de Osíris embora a cada minuto essa centelha se mostrasse mais e mais fraca. Antes era algo grande que ainda dava esperança aos deuses, mas agora, mais de um ano depois de ele ter sido fatiado, essa centelha mal passava de um suspiro.

Sem saber mais o que fazer, assim como todos ali, Anput aproveitou a oportunidade criada pela pequena distância entre ela e Anúbis e deitou a cabeça em seu ombro esquerdo enquanto delicadamente entrelaçava seus dedos com os dedos dele deste mesmo lado. Um suspiro escapou de seus lábios enquanto ambos olhavam para o lado de fora da caverna completamente desanimados. Os dedos da mão direita de Anúbis, que se preocupavam em acariciar a barriga de Neby, que estava deitado ao seu lado, e o carinho também exibido pelos seus lábios que tocaram o topo da cabeça de Anput, contrastavam com a agitação que existia em sua mente.

Da parte mais profunda da caverna, o grito de Ísis eclodiu no mais completo desespero enquanto chorava pelo irmão.

— ELE NÃO PODE MORRER! — chorava ela sentada no chão com o corpo do amado sobre as pernas — ELE É UM DEUS! MEU AMADO E MEU IRMÃO! NÃO PODE NOS DEIXAR, NÃO PODE ME DEIXAR.

— Irmã… s-seja forte… — disse Néftis entre soluços de joelhos ao lado dela.

— É difícil de acreditar… — disse Bes socando uma parede.

— O que será que vai acontecer agora? — perguntou Ptah que, de olhos vermelhos, já tinha feito sua cota de lamentações.

— Estamos ferrados! Essa é a verdade! — esbravejou Bastet de olhos mareados — Set será o faraó!

— Ele não foi o escolhido por Lorde Geb, foi Lorde Osíris. — disse Thoth — O trono não o pertence. Não passa de um usurpador.

Ouvindo o desenrolar da discussão, não demorou muito para que Anput e Anúbis se levantassem e fossem se juntar aos outros deuses sendo seguidos por Neby. Além de toda a preocupação com a morte de Osíris, Anúbis nem queria pensar quem era o próximo na linha de sucessão com Osíris morto e sem herdeiros e Set nada mais do que um usurpador. Criado por um, gerado por outro, tudo parecia convergir para Anúbis, e ele podia sentir o peso nos ombros e no coração ao notar isso.

— Quanto tempo mais acham que a alma dele vai… sabe… ficar? — perguntou Néftis olhando para o corpo do irmão.

— Não muito mais — respondeu Anúbis — Até o final do dia a alma deve ter deixado o corpo.

Alheia à tudo isso, Ísis acariciava o rosto do marido. A verdade era que nem tinha prestado tanta atenção no que nenhum dos outros deuses falavam. Com suas mãos doces e delicadas, ela tirou Osíris de seu colo deitando-o novamente no chão. A movimentação dela atraiu o olhar dos outros deuses, uma vez que ela não tinha feito nada mais além de chorar e murmurrar ou gritar palavras de dor e pesar desde que tinham chegado naquela caverna.

— Uma última chance… uma última tentativa… — murmurrou Ísis enquanto os outros se olharam tentando entender o verdadeiro significado de suas palavras.

Ísis se levantou e estendeu suas mãos para o lado de forma delicada e fluida, quase como se estivesse embaixo da água. Ao mesmo tempo, asas com penas multicoloridas se abriram de suas costas. Felizmente o teto da caverna em que estavam era bem alto, pois isso facilitou para que Ísis levantasse meio metro do chão ao bater as asas. Os braços dela se estenderam para a frente, ela fechou os olhos e suas asas começaram a brilhar.

Sem sair do ponto em que estava elevada a meio metro do chão, Ísis bateu suas asas criando vento na caverna enquanto suas asas começavam a irradiar uma luz pura e branca. Essa luz se espalhou pelo seu corpo lentamente enquanto a magia que a deusa fazia tirava o corpo de Osíris do chão. Surpresos como estavam, ninguém disse nada, apenas ficaram olhando enquanto viam a alma dos dois pulsar tentando se conectar. Seja lá qual magia complicada Ísis fazia, um pouco de concentração por parte dos outros deuses ali presente logo mostraria que a deusa estava separando o pouquinho que restava da essência de Osíris de sua alma. A essência de Osíris ela ficou alguns minutos misturando com sua própria essência. Em seguida, lentamente ela voltou ao chão e devolveu o corpo do irmão para o chão também enquanto, protegida em suas mãos, brilhava uma pequena luz formada da junção das duas essências.

Ísis, de pernas bambas, deixou que seus joelhos tocassem o chão e então ficou lá, ajoelhada, encolhida e de cabeça baixa segurando a mistura das essências em suas mãos. A fraca linha que ainda segurava a alma de Osíris ao seu corpo se rompeu quando a essência do uma vez faraó foi sugada e, assim, sua alma se desprendeu e voou para longe de seu corpo. Ao notarem isso, qualquer lágrima ainda contida ou restante nos deuses ali presentes escapou por seus olhos. Agora, mais do que qualquer hora antes, Osíris estava morto.

A força também escapou das pernas de Hathor que caiu no chão chorando tão encolhida quanto Ísis. De punhos fechados em plena raiva, Bastet também chorava de cabeça abaixada. Assim como Ptah, que chorava ao lado de Nefertem, Bes e Thoth enquanto Anput, também chorando, abraçou Anúbis que também não fazia esforço para segurar as lágrimas. O barulho de choro canino de Neby era bem reconhecível enquanto Néftis soltou um grito angustiado ao se sentar no chão com as mãos tampando o rosto. Era raríssimo um deus partir, especialmente daquela forma e um tão querido como Osíris era.

Tremendo em meio a dor da perda, Ísis olhou para a pequena bolinha de luz em suas mãos. Um pouco menor que uma romã, a bolinha irradiava um leve e terno calor. Mesmo presa em sua dor, ela não tinha terminado o que havia começado. Assim, suas mãos começaram a irradiar a mesma luz pura de antes atraindo os olhares para si novamente. Com uma expressão que exibia um misto de concentração e dor, ela fez a bolinha de luz entrar dentro de si na altura de seu ventre. Por algum tempo ela ficou ali, com a mão sobre a barriga, concentrada de olhos fechados, se concentrando na bolinha, terminando o que precisava ser feito. Lentamente, conforme o tempo passava, os outros ali presentes entendiam o que ela fazia, mas ninguém ousava falar nada. O sol já estava se pondo marcando o final de outro dia quando as mãos de Ísis pousaram em seu colo lentamente marcando que ela havia terminado o que havia começado.

— Irmã… — disse Néftis delicadamente aproximando sua mão de forma tímida do ombro de Ísis.

— Não tive outra opção… — disse Ísis — Não sei se vai dar certo mas… se tenho que me contentar com a partida de meu marido, posso ao menos fazer uma tentativa desesperada de lhe dar um herdeiro.

— Vamos acreditar que vai dar certo essa impregnação mágica — disse Bes.

— Sim. — disse Thoth se ajoelhando ao lado de Ísis — Alguns dias e teremos certeza se podemos finalmente esperar a chegada de um herdeiro de Lorde Osíris.

Ísis olhou para Thoth com os olhos lacrimejados e então para Néftis. Nesse momento, Ísis se jogou em cima de Néftis abraçando-a fortemente e ali ficaram as duas irmãs abraçadas chorando consolando uma à outra.

— Um herdeiro iria ajudar muito. — disse Thoth — Pode significar um recomeço. Um sinal de algo que fique no meio termo entre o que Lorde Osíris e Set propuseram.

— Iria ajudar muito se for um garoto. — disse Ptah — Lamento moças, mas é um fato. Uma mulher no poder iria atrair muita desconfiança por muitos. Uma mulher não pode governar sozinha.

— Ela pode se for pra manter a dinastia! — insistiu Bastet batendo o pé no chão.

— O que não é exatamente o caso aqui. — disse Ptah suspirando — Governar para manter a dinastia seria Ísis governar enquanto o filho cresce e tem idade para tal. Não quero questionar as capacidades de reinar, apenas dizer que uma mulher não teria o mesmo apelo que um homem teria para unir os dois lados novamente.

— Muitos nem iriam aceitá-la como faraó… — disse Bes com expressão pensativa e de braços cruzados.

— Um marido resolveria o problema. — disse Thoth olhando para Anúbis que gelou imediatamente.

— Quê? — disse Anúbis mais por instinto já que tinha entendido bem onde aquela conversa estava chegando.

— Se um marido resolver o problema, você seria a primeira e mais óbvia opção… — disse Néftis olhando para ele — Sangue real e filho de Set. Mesmo que praticamente criado por Osíris.

— E quem disse que eu quero casar com essa provável prima pra começo de conversa? — perguntou Anúbis cruzando os braços e olhando para todos aqueles que pareciam concordar com a ideia com um olhar bem severo.

— N-Não vamos nos precipitar. — disse Anput que sentia um peso em seu coração com medo do que podia acontecer — Não temos certeza se esse herdeiro vai nascer e ele ainda pode ser homem.

Sentindo que aquele assunto fora bruscamente encerrado, todos voltaram para seu pesar e para o silêncio. Para Anúbis e Anput, isso significava sentar perto da entrada da caverna com Neby deitado como uma bola logo ao lado. Anput deitou a cabeça no ombro de Anúbis novamente mas momentaneamente levantou o olhar para olhar nos olhos do amigo de longa data. Ambos estavam alheios ao olhar de Nefertem que, com um singelo sorriso, notou o porquê do breve desespero criado pela proposta de um casamento arranjado.

— Você realmente não quer casar com essa provável prima? — perguntou Anput num sussurro.

— Mantenho o que disse aquele dia. — respondeu ele com a voz no mesmo volume — Esse tipo de casamento não está nos meus planos e o plano verdadeiro depende de você.

— Posso ficar como a segunda esposa e sua prima podia ser a primeira esposa te dando assim os herdeiros continuando assim a linhagem real… — sugeriu Anput e Anúbis logo bufou revirando os olhos para a sugestão.

— Acha mesmo que eu ligo pra essas coisas? Pare de tentar fazer essa ideia idiota dar certo.

— Realmente não liga de eu não ter sangue real, nem ser tão “divina” e tudo mais?

— Sangue real ou não. Deusa, deusa-menor, semi-deusa ou mortal. Isso não faz a menor diferença.

Aquelas palavras foram o suficiente para fazer um sorriso nascer no rosto de Anput. Suas maçãs do rosto também se avermelharam quando Anúbis beijou sua testa docemente e segurou delicadamente sua bochecha.

— Você vai um dia fazer um pedido de casamento decente né? — perguntou Anput com uma leve risada.

— Não tenha dúvidas — respondeu ele com um doce sorriso.

Ali, juntinhos, os dois tentaram relaxar e aproveitar a companhia um do outro. Afinal de contas, ninguém tinha ainda muita ideia do que fazer. Isso é, até que uma ideia surgiu repentinamente na mente de Anúbis como se ele tivesse acabado de juntar várias peças de um quebra cabeça.

— Eu acho que ainda é possível fazer o ba dele viver! — disse Anúbis atraindo olhares surpresos para ele.

— O que quer dizer? — perguntou Anput.

— Explique melhor! — pediu Ísis enquanto Anúbis e Anput se levantavam de seu cantinho.

— A alma dele seguiu provavelmente para algum lugar… Duat talvez… acho que… acho que podemos fazer a alma dele durar mais. Permanecer de certa forma viva mesmo que não exatamente aqui entre nós — explicou Anúbis.

— Como assim? — perguntou Bes.

— Eu estava pensando nisso desde… desde que Chenzira morreu… — disse Anúbis — Sobre o que acontece com a alma depois que alguém morre. Ficou claro que a alma vai para algum lugar e algo me diz que a alma durará mais se o corpo ficar intacto e se fizer algumas coisas.

— Que tipo de coisas? — perguntou Thoth interessado — Essas conclusões foram obtidas por pesquisas? Apenas considerando as provas? Apenas pensando e encontrando as respostas dentro de si?

— Ahm… todas essas opções? — disse Anúbis — Eu ainda não tenho total certeza de todos os passos mas, tenho certeza de que se for feito direito, o ba dele irá viver. Mesmo que isso seja apenas no Duat e sem um corpo físico.

Os deuses olharam para ele meio surpresos e então se entreolharam. A situação como um todo deixou Anúbis um tanto sem graça, mas, mesmo assim, ele esperou para ver qual seria a reação deles.

— Não custa nada tentar né? — disse Bes.

Notas finais
REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS XD Depressão de Qattara https://en.wikipedia.org/wiki/Qattara_Depression Perigos de uma tempestade de areia https://adventure.howstuffworks.com/survival/wilderness/desert-survival7.htm Livro dos mortos https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf Regentes mulheres http://www.bbc.co.uk/history/ancient/egyptians/hatshepsut_01.shtml Isis http://riordan.wikia.com/wiki/Isis Comida, frutas http://www.primaryresources.co.uk/history/pdfs/15egyptfood1.pdf Disputa entre um homem e seu Ba https://www.consolatio.com/2009/06/ancient-egyptian-death-is-before-me-today.html Práticas funerárias https://en.wikipedia.org/wiki/Ancient_Egyptian_funerary_practices e é isso por hoje! até o prox cap!