Notas iniciais
a inspiração bateu forte então o capítulo veio antes do esperado XD espero que gostem! é provavel que o proximo chegue rápido também, pq estou doida para a cena que vai acontecer nele. Ou talvez demore já que vai ser um capítulo difícil kkk esse foi um capítulo difícil de fazer, por exemplo. uma coisa que devo salientar antes de começarem, é que as falas ditas durante o ritual são verdadeiras. eu não inventei. contudo, eu saí cortando muitas falas do ritual pq senão ia ficar um negócio muito grande. resumindo, admirem um ritual reduzido. AVISO: ESSE CAPÍTULO É PESADO.

Ela fez luz com suas penas, ela criou ar com suas asas, e ela proferiu o lamento de morte para seu irmão. Ela levantou os membros inativos de cujo coração estava quieto, ela tirou dele sua essência, ela fez um herdeiro, ela criou a criança em solidão, e num lugar onde ele não era conhecido, e ele cresceu em força e estatura, e sua mão era poderosa na Casa de Keb. A Companhia dos Deuses regozijou-se, regozijou-se com a vinda de Hórus, filho de Osíris, cujo coração era firme, o triunfante, o filho de Ísis, herdeiro de Osíris.

~ Fragmento Livro dos Mortos

O único som audível na Depressão de Qattara era da areia carregada pelo vento quente. No ponto mais baixo de seu relevo que se assemelhava à uma vasilha protegida por enormes blocos de pedra, um pequeno oásis, tão pequeno que seria mais justo chamá-lo de poça, servia como salvação para os animais que se aventuravam por ali. Um desses animais era Neby que, ao lado de Anput, bebia o líquido da vida com gosto. Nas mãos de Anput estava um pequeno vaso feito de cerâmica que ela usava para pegar mais água da mesma forma como fizera com os três jarros anteriores naquele mesmo dia. Neby era seu acompanhante uma vez que alguns dos deuses cordialmente se revezavam para conseguir água e comida para uma criatura tão mortal em um ambiente igualmente mortal. Era o mínimo que podiam fazer ao ver o trabalho importante e macabro que coube à Anúbis.

Tranquila, Anput passou a mão na cabeça de Neby carinhosamente quando ele terminou de beber água e então levou-os para a caverna onde ainda estavam escondidos. Dentro dessa caverna, cada um fazia uma coisa diferente, mas a atividade mais importante e que mais chamava atenção era a que Anúbis fazia. O jovem deus estava tão ocupado que mal podia aproveitar seu tempo, embora o fizesse algumas vezes passando um tempo com Anput e Neby. Ele tinha passado tanto tempo naquela escuridão tratando do corpo de Osíris que quase era possível ver o brilho fugindo de seu olhar, coisa que Anput odiava notar.

Depois de ter entrado na caverna, Anput e Neby foram direto para onde Anúbis estava. Ela olhou para ele com preocupação, os olhos pesados mostravam a concentração no processo um tanto macabro. Suas mãos só não estavam sujas do sangue prateado de Osíris pois o tempo que o corpo passou mergulhado em natrão e sal, enquanto os deuses tentavam juntar os pedaços, fez o corpo ficar completamente seco.

— Acha que está quase terminando? — perguntou Anput.

— Quase. — respondeu ele.

O olhar dela foi para os jarros tampados com cuidado que estavam dispostos ao lado do corpo no qual Anúbis aplicava os mais diversos perfumes, fornecidos por Nefertem, e feitiços e amuletos de proteção. O estômago de Anput se embrulhava só de pensar no conteúdo daqueles jarros. Pulmão, fígado, cérebro, todos os órgãos de Osíris, todos tirados um a um por Anúbis de mãos completamente vazias e purificadas. Isso é, todos os órgãos com excessão de um que permaneceu em seu devido lugar, o coração. O processo como um todo da mumificação fazia ele entender porque Anúbis parecia regularmente de mal humor ou sem humor nenhum. Ela pensava constantemente que não iria gostar de ter que colocar a mão dentro de cadáveres para tirar órgãos de dentro usando os mais diversos métodos. Também não iria gostar de preencher os espaço que sobrou com a retirada dos órgãos de natrão e até linho ou papiros com feitiços de proteção. Nesse contexto, passar perfume por todo o corpo se tornava algo bem mais simples em comparação.

Cada parte do processo Anúbis fazia sob o olhar atento e preocupado de Ísis. Alguns dias já haviam se passado desde que Bes trouxe Tawaret até eles e a deusa hipopótamo responsável pela maternidade e gravidez, junto com Hathor, responsável pela fertilidade, confirmaram que a criança dentro de Ísis crescia de forma saudável. Contudo, aconselharam que talvez fosse melhor deixar a natureza seguir o seu curso ao invés de adiantar o nascimento como Néftis fizera cerca de 17 anos atrás.

Anúbis simplesmente sabia o que estava fazendo quando terminou mais uma etapa do meticuloso processo de mumificação ao tampar o frasco de perfume e então soltando, cansado, um longo suspiro. Com um mero movimento de mãos, faixas de linho envolveram o corpo de Osíris. Antes, quando ele e os outros deuses procuravam pelos pedaços de Osíris, ele deixava as faixas apenas juntando os pedaços de forma que o corpo não estava totalmente envolvido. Agora, no entanto, ele enfaixou completamente o corpo. Nem um um pedaço da pele, agora ressecada, de Osíris ficou à mostra quando Anúbis deu por terminada a primeira das múmias egípcias.

— A-Acabou… — perguntou Ísis com a mão sobre o coração.

— Essa parte sim, pelo menos. — disse Anúbis olhando cansado para Ísis.

— Acha que vai dar certo? — perguntou Ptah e Anúbis respondeu dando de ombros.

— Perdemos muito tempo ao procurar todos os pedaços dele. — disse Anúbis — Tenho medo de que talvez tenha sido tarde demais. Além disso, o processo certo seria tirar os órgãos primeiro e só então secar o corpo com natrão deixando-o repleto de natrão por pelo menos 30 dias. Mas tivemos que usar o natrão para preservar o corpo enquanto procurávamos os pedaços. Sem falar que também ficamos mexendo no corpo toda hora por causa disso.

— Você disse que essa parte terminou — disse Nefertem — O que falta ainda?

— Um ritual, não é? — perguntou Anput que, por algum motivo, também sabia.

Como resposta, Anúbis afirmou com a cabeça brevemente. Em sua mente ele se lembrava da estranha caixa que começara tudo isso. Mais do que uma caixa, um sarcófago. E foi inspirado nela que, usando a facilidade fornecida por sua magia, que ele guardou a múmia de Osíris em um novo sarcofago. Um sarcófago dourado, digno de um faraó, com o rosto de seu portador moldado na superfície usando ouro e lápis lazuli.

Uma caverna estava longe de ser um lugar ideal para o rito final, principalmente considerando que ele deveria ser pelo menos parcialmente feito em céu aberto. Mas não podiam deixar Set descobrir o plano final que permitiria que Osíris não deixasse de existir mesmo estando morto. Sendo assim, levaram as coisas rapidamente da caverna para a base de uma pequena montanha rochosa rodeada por areia branca. À pedido de Anúbis, os outros deuses já tinham deixado praticamente tudo pronto.

Anúbis envolveu o sarcófago de Osíris e os jarros com seus intestinos em fumaça negra e os fez aparecer sobre um monte de areia. Em segundos todos estavam lá para ajudar nos preparativos finais ou só assistir sem saber com o que especificamente ajudar. Perto do monte de areia, Anput colocou os quatro jarros de água enquanto Ptah jogava uma pequena magia de forma que o sarcofago pudesse ficar de pé no pequeno monte de areia com a face voltada especificamente para o sul, tal como instruído por Anúbis. Ao lado, uma superfície de pedra retangular foi montada por Bastet e Néftis logo ao pé da montanha. Nessa superfície e ao redor dela estavam várias frutas e flores, assim como um par de incensos que Hathor ali depositou. Bastet havia sido a responsável por juntar as frutas e flores, e até ela considerou que Neby merecia algumas das frutas antes de ela ter colocado-as sobre a mesa.

Bes se juntou um pouco depois segurando um touro que tinha acabado de caçar. Ainda vivo, o touro de longos chifres estava amarrado com uma corda para não fugir, embora não tentasse o fazer.

Com tudo arrumado, é iniciada a cerimônia. Foi como se até o deserto se rendesse ao silêncio para prestar atenção enquanto apenas a voz de Anúbis ecoava pela imensidão escaldante. Por mais que lágrimas escorressem pelos olhos dos deuses, eles faziam questão de manter olhares constantes e preocupados para os arredores com medo de serem descobertos por Set. Quanto a Anúbis, ele seguia suas falas proferindo-as como se tivesse memorizado suas partes em um complicado roteiro tentando manter sentimentos trancados o mais profundamente dentro de si, pois sabia que nem tudo o que teria que fazer era fácil.

— Eu entro para vê-lo. Com o rosto para o sul, sem roupa, no chão, de dia. — disse ele encarando o sarcófago, molhando-o com os jarros de água e então acendendo o par de incenso aos pés do sarcófago — Puro, puro, para Osíris. Eu prendi sua cabeça aos seus ossos ante Geb. Seu ka é perfumado com incenso, você é perfumado com incenso, estabelecido, entre seus irmãos os deuses, sua cabeça é perfumada com incenso, seu discurso é perfumado com incenso, purificado.

Ele parou de falar por alguns segundos para acender magicamente os incensos no pé do sarcófago e então recomeçou.

— Que o perfume te alcance. — disse Anúbis e, em sua mão, ele surgir uma faca feita de ferro denominada meskhetyu e com ela tocou a boca da face moldada no sarcófago e então cada um dos olhos — Eu pressionei sua boca por você. Eu marquei seu olho por você, seu ba nele.

Anúbis lançou um olhar para Bes que, entendendo o sinal, se aproximou com o touro de longos chifres que prontamente obedeceu o puxar da corda. Anúbis olhou para o animal e inspirou profundamente. Nunca tinha feito nada daquele ritual antes, mas sabia quais eram os passos que vinham e, por isso, seu estômago se embrulhou com ao pensar nas próximas etapas.

— Eu pressionei sua boca por você, — continuou Anúbis — eu abri sua boca por você. Eu balanceei sua boca e ossos por você. Eu coloco meu braço no macho de longos chifres do Alto Egito.

Anúbis segurou a faca fortemente em sua mão e, com o braço firme, percorreu a faca pelo pescoço do touro entregando o sacrifício. Uma voz dentro dele pedia para que aquilo fosse o bastante, que o sangue que esguichou do pescoço do touro sujando a areia, seu corpo e suas roupas, fosse o único a ser derramado naquele dia. Infelizmente, aquele sacrifício específico era mais detalhado, pois ele também precisava de mais duas coisas além do touro morto. Uma delas era a pata dianteira direita do animal, que ele cortou e botou aos pés do sarcófago. A outra era provavelmente a mais nojenta. Mas Anúbis tentou não pensar nisso quando enfiou a faca profundamente no animal, cortando-o e fatiando-o até ter em suas mãos o seu coração enquanto o estômago de todos ali se revirava.

— Eu dou a pata e o coração — disse Anúbis, quase todo completamente sujo de sangue, segurando o coração diante do sarcófago e então deixando ao lado da pata — Osíris, eu pressionei sua boca aos seus ossos por você, eu levantei Nut por você. Ela trouxe todos os deuses, então você pode salvá-los e fazê-los viver. Você veio a ser em sua força, para selecionar sua proteção da vida com eles em torno de si, para se proteger contra sua morte. Você veio a ser como o sustento de todos os deuses, e surgiu como rei dual, com poder sobre todos os deuses e até mesmo seu sustento. Oh Osiris, você vive. A nitidez é sua. A glória é sua. Homenagem é sua, o poder é seu. Você pode selecionar sua proteção da vida em torno de si, você não morreu.

Em seguida, Anúbis fez sumir a faca ensanguentada e fez surgir em sua mão uma segunda faca, essa feita de obsidiana e denominada peseshkaf. Esta, ele passou na boca do sarcófago de um lado ao outro.

— Eu faço as suas mandíbulas divididas firmes para você. — disse ele se voltando para a mesa repleta de frutas e flores. Com o que restou da água dos quatro jarros, ele molhou a mesa e, em seguida, acendeu os incensos que estavam sobre ela — Purificada, purificada é a mesa de oferendas, com água fria e incenso.

A fumaça dos incensos subia aos céus quando Anúbis começou a recitar feitiços complicadíssimos. Como se obedecesse à sua voz, a fumaça dos incensos envolveu as frutas e flores, o touro morto, sua pata e seu coração que se dissolveram e subiram aos céus como oferendas purificadas. Ele entrou entre a fumaça e botou o sarcófago na superfície onde antes estavam as frutas e então se afastou novamente. A montanha de pedras logo atrás se moveu formando uma tumba ao redor do sarcófago. Simples, pois não existiam ainda ideia de tumbas enormes faraônicas. Como uma grossa caixa a pedra envolveu o sarcófago engolindo-o formando uma proteção da própria natureza e então enterrando-o debaixo de milhares de grãos de areia secreto e escondido para que ninguém achasse.

O silêncio voltou mais uma vez enquanto o sarcófago e os jarros com os órgãos eram engolidos e puxados cada vez mais profundamente para debaixo da terra. Os deuses se entreolharam por alguns segundos perguntando-se se tinha acabado já que Anúbis ficou ali, de pé, parado olhando para o ponto onde antes estava o sarcófago. O sangue do touro pingava de suas roupas quando Anput se aproximou lentamente com passos delicados e tocou em seu ombro. Ele a olhou com olhos cansados resultantes de todo o trabalho nada agradável necessário para que Osíris vivesse mesmo morto. O sorriso consolador que se abriu no rosto de Anput foi um alento ao seu coração que lentamente se recuperava do longo processo funerário ao saber, dentro de si, que aquilo deveria dar certo e que era o melhor para uma alma.

— Acabou? — perguntou Néftis.

— Como vamos saber se funcionou? — perguntou Ísis.

— Alguém precisa de um banho primeiro — disse Anput — depois checamos se funcionou.

E então os deuses se separaram. Alguns ficaram para trás, como Thoth, Ptah e Ísis, para colocar feitiços cada vez mais poderosos no local do descanso final de Osíris. Enquanto isso, Anput, Anúbis, Neby e Nefertem foram até um enorme oásis para que Anúbis pudesse se levar. Dentro da água, Anúbis lavou o corpo para se limpar e, já limpo, saiu da água sabendo claramente que teria que aprender algum feitiço de limpeza pois seu saiote de linho branco permaneceu rosa devido ao sangue.

— Toma — disse Nefertem jogando para ele um novo saiote branquinho e limpinho.

— Obrigado — respondeu Anúbis vestindo-se enquanto Anput estava de costas para ele, vermelha, não vendo o que acontecia mas sabendo exatamente o que.

— Acha que funcionou? — perguntou Nefertem enquanto Anúbis se aproximava de Neby e fazia carinho na sua cabeça.

— Acho que sim... — disse Anúbis — Sinto que sim…

Com um suspiro, um tímido sorriso se abriu no rosto dele e então Anúbis se abaixou para poder dar mais atenção à Neby que logo ia lambendo seu rosto.

— Desculpe por não poder dar atenção direito para você nesses últimos dias — disse ele para Neby — prometo recompensar.

— E… você está bem? — perguntou Anput ousando se virar para olhar e vendo que já era seguro.

— Melhor — respondeu ele se levantando.

Mas isso não foi o suficiente para Anput que logo se levantou e foi até ele tocando delicadamente em seu rosto fitando-o com um olhar de preocupação. Embora com olhos cansados, o sorriso que se abriu no rosto de Anúbis foi verdadeiro. Ele botou a sua mão sobre a dela e delicadamente pegou-a dando um beijo em seu torso fazendo Anput corar e abrir um pequeno sorriso. Vendo a cena, Nefertem não pode deixar de abrir um sorriso.

— Certeza? — perguntou Anput.

— Sim. Sinto que… sinto que posso me acostumar com tudo aquilo… — disse ele fazendo Anput olha-lo de olhos arregalados e surpresos.

— Sério?

— Não me olhe assim… — disse ele soltando um suspiro. — Sei que tudo foi ao menos um pouco nojento, mas a finalidade vale a pena. O ba de Osíris vai viver. Creio inclusive que o ritual possa funcionar para fazer almas mortais seguirem além, só que com algumas alterações.

— Além? — perguntou Nefertem acidentalmente se juntando a conversa por causa de seu interesse no rumo dos assuntos.

— Acho que a alma vaga se nenhum ritual for feito. Acho que posso dar um destino melhor para ela, caso a pessoa assim mereça. — explicou Anúbis.

— E se não merecer? — perguntou Anput e Anúbis deu de ombros ainda não sabendo como responder aquilo.

— De toda forma, acho que é melhor irmos logo checar se tudo funcionou. — disse Nefertem — Me surpreende que Ísis tenha aguentado esperar tanto.

— Sim. Vamos para o Duat. — disse Anúbis.

Notas finais
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Livro dos Mortos - https://www.holybooks.com/wp-content/uploads/Egyptian-Book-of-the-Dead.pdf Processo de Mumificação 1 - https://www.suapesquisa.com/egito/mumias_do_egito.htm Processo de Mumificação 2 - https://www.si.edu/spotlight/ancient-egypt/mummies Processo de Mumificação 3 - https://youtu.be/1yv_MXNYbAo Criando uma múmia - https://www.youtube.com/watch?v=9gD0K7oH92U Vasos canópicos - https://en.wikipedia.org/wiki/Canopic_jar Garrafa - http://www.liverpoolmuseums.org.uk/wml/collections/antiquities/ancient-egypt/item-295820.aspx Ritos funerários - https://www.ancient.eu/Egyptian_Burial/ Abertura da boca - http://www.mummies2pyramids.info/mummies-death/opening-the-mouth.htm Abertura da boca 2 - https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.105319/page/n26 Abertura da boca 3 - http://www.ucl.ac.uk/museums-static/digitalegypt//religion/wpr.html Abertura da boca 4 - http://www.experience-ancient-egypt.com/egyptian-religion-mythology/egyptian-afterlife/opening-of-the-mouth-ceremony sarcófago - https://pt.wikipedia.org/wiki/Sarc%C3%B3fago ritos funerários - http://www.ucl.ac.uk/museums-static/digitalegypt//religion/wpr2.html capítulo que vem é provável que o Anúbis dê uma de Daenerys (vcs vão entender o pq XD)