A Modern Myth
4 Capítulo 4 – Did you escape from a mad house?
Notas iniciais
Sonhos e mais sonhos estranhos. Durante o restante da semana mais coisas malucas aconteceram. Todas envolvendo Jason Howard. Cenas vergonhosas na escola e sonhos estranhos com a tal mulher ruiva e um pré-adolescente de olhos cinza. Tenho quase certeza que o tal Jay do sonho, de alguma maneira, é o mesmo Jason da minha escola.
Embora eu tenha muitas cenas constrangedoras em que Jason é o principal espectador, quase nunca falo com ele. E parece que ele acha graça das coisas que misteriosamente acontecem quando ele está por perto.
No outro dia, estávamos na sala de aula e durante uma aula de biologia sobre as relações entre os animais, o Howard resolveu que seria uma ótima hora pra perguntar sobre alguma coisa constrangedora.
— Senhor Alley, se os animais são guiados pelo instinto ao escolher o parceiro mais forte, qual seria o fator dos seres humanos? – perguntou com curiosidade forçada.
— O ser humano também é um animal, logo ele é atraído pelo mais capaz. – então fez uma pausa como se pensasse em mais algo para acrescentar. – Mas o “mais capaz” varia de pessoa para pessoa. Como por exemplo, quem nessa sala você acha mais atraente?
Jason parou pra pensar por um instante e respondeu: — Definitivamente quem mais chama minha atenção dentro dessa sala de aula é a Senhorita Shelley. Mas não sei se ela é exatamente o meu tipo.
Quando o idiota disse essas palavras dezenas de gargalhadas foram ouvidas ao redor da sala. Meu rosto simplesmente ficou roxo de tanta vergonha. Eu fiquei tão sem graça e tão irritada ao mesmo tempo! Queria quebrar alguma coisa, precisava muito quebrar alguma coisa. Então imaginei uma explosão. E, estranhamente, nesse mesmo momento, uma das lâmpadas da sala de aula explodiu. A lâmpada que ficava bem em cima de onde Jason estava. O que resultou em alguns arranhões causados pelos cacos de vidro.
Acho que aqueles pequenos cortes já curaram. O mais estranho, é que mesmo depois disso, o Howard não ficou bravo me achando algum tipo de bruxa (vai entender o que os adolescentes da minha turma têm na cabeça!). Pelo contrário, ele sempre me dava um sorrisinho que parecia orgulhoso. Orgulho de quê?
Por isso minha decisão sensata, foi conversar com ele. Por quê? Simplesmente pra tirar da minha cabeça que o cara fugiu de um hospício e veio parar na minha escola.
Então, naquela sexta-feira, durante o intervalo do almoço, resolvi chama-lo até o gramado. Deixei um bilhete pregado no armário dele dizendo onde eu estaria e que precisávamos conversar. Mas acho que ele não percebeu que eu havia deixado o bilhete, já que quando me viu pareceu muito surpreso.
— Acho que estou no lugar errado. – ele falou confuso e dando meia volta.
— Espera! Fui eu que chamei você aqui. – chamei-o de volta.
Ele voltou a olhar pra mim e com a sobrancelha esquerda erguida, perguntou: — Por que você me chamaria aqui?
— Te garanto que não é pelo mesmo motivo que as outras garotas o fariam. – respondi irônica.
— Então o que você quer? – Jason Howard estava realmente curioso.
— Você fugiu de algum hospício? – questionei.
— Como? – espantou-se. – Acho que a louca aqui é você.
— Hein?! – quem ele pensa que é? – Eu só perguntei, porque você é o único nessa escola que parece não achar que eu sou uma mágica que fez a lâmpada quebrar em cima da sua cabeça. E ainda por cima ficou me olhando de uma maneira estranha, como se estivesse aprovando ou estivesse orgulhoso do que eu fiz. Isso não é normal.
— Okay. Admito que eu deveria estar no mínimo ofendido pela lâmpada, mas não acho que você seja uma bruxa ou algo do tipo. E me desculpa se eu assustei você, é só que você se parece muito com uma mulher que eu conheço. Sinto muito. A semelhança é muito grande. – defendeu-se.
— Tudo bem. – parei pra pensar por um momento. – Quem é essa mulher com quem eu me pareço?
— Bem, seu nome é Kiera. Não acho que você conheça... Ela vive muito longe daqui. – respondeu.
Paralisei. Ele conhecia minha mãe? Porque eu tenho certeza que não existem duas “Kiera” que se parecem comigo, certo? Isso é coincidência? É obra do destino? Será que são forças divinas trabalhando para eu rever minha mãe?
— Você pode me falar mais dessa pessoa? – eu acho que pareço uma doida, mas se essa mulher for minha mãe, eu quero muito saber!
— Não tem muito que dizer, ela ajudou a me criar e é como uma mãe pra mim. Foi ela que me ajudou a ser quem eu sou hoje. Eu devo muito a ela. – ele dizia com admiração estampada em sua face.
— Entendo. – falei com desânimo. Minhas esperanças de um dia encontrar minha mãe eram tão pequenas... – Desculpa. – disse finalmente.
— Por quê? – questionou desentendido.
— Por tudo... – fiz uma pausa. – Por te achar louco, por duvidar de você, por sempre te fazer passar vergonha, por te chamar secretamente de idiota, por querer te bater durante a aula de biologia naquele dia... Desculpa.
— Você não devia se desculpar. Não está errada em me achar louco, eu acho que definitivamente não sou normal. Eu também me chamaria de idiota e iria querer me bater se eu fosse você. E nunca se desculpe por quem você é... Você não me faz passar vergonha e mesmo se fizesse eu nunca admitiria. Fui treinado pra isso. – deu um meio sorriso. – Então acho que quem deveria pedir desculpas sou eu. Meu comportamento não foi dos melhores.
— Tudo bem, não se preocupe. Não te culpo por nada. Talvez eu esteja meio revoltada com o destino ou o que quer que seja. Mas você está seguro das minhas acusações. – Sorri simpaticamente.
— Fico aliviado. Acho que não iria querer que da próxima vez o ventilador caísse em cima de mim. – fez piada.
Então percebi que era fácil demais conversar com ele. E percebi que estranhamente eu fui simpática com Jason Howard. Enfim entendi que ele não era o cara mau que eu achava que era. E o que sentia quando estava perto dele era que eu ainda podia ter esperança. De alguma maneira absurdamente maluca ele me passava segurança. E soube naquele momento que poderia contar com o Howard quantas vezes eu precisasse.
~*~
Domingo. Tédio eterno em casa. Meu pai se trancou dentro do escritório para estudar algum caso. E eu aqui sem fazer nada. Kath estava de castigo (parabéns por deixar seus pais verem sua nota de matemática) e ficou sem meios de comunicação. Eu não conversava com mais ninguém naquela cidade gigante. E o que eu podia fazer em um domingo a tarde? A resposta era simples. Ler.
Mas eu estava cansada do ambiente da minha casa, então resolvi dar uma volta no Central Park. Não que eu curta esse lance de natureza e tal, mas em uma cidade como Nova York é o único lugar que você irá encontrar algum sossego.
Enquanto caminhava entre as árvores, sentia uma sensação esquisita de estar sendo seguida. Mas ignorei os meus instintos errôneos e encontrei algumas pedras perto de um lago. Sentei-me ali e fiquei lendo por algumas horas. Acho que nunca pensei que Harry Potter me daria sono. Ou será que era o clima e o lugar?
Conhecendo como eu sou, fiquei com a segunda opção. Decido voltar pra casa. Entretanto a sensação de estar sendo seguida ainda não foi embora.
Andando pela Quinta Avenida, fui parada por alguns homens mal encarados. Um deles se aproximou e passou o braço ao redor dos meus ombros e senti cheiro de álcool. Sério? Quem conseguia ficar bêbado antes das cinco da tarde?
Tentei me livrar do homem — que mais parecia aquele personagem alto e gordo do desenho Asterix e Obelix — mas o parceiro dele – que era uma cópia menos amarela de Homer Simpson – juntou-se ao Gordo e, de repente, começaram a cantar uma versão bêbada de Talk Dirty To Me, do Jason Derulo. E eu já não sabia se ria dos dois ou se tinha medo deles.
Tentei me separar da dupla dinâmica, mas não deu muito certo. Eles pareceram não gostar do movimento súbito e me agarraram com mais força, chegando a machucar meus braços.
— Calminha mocinha bonita. Não vamos machucá-la! Só queremos conversar e virar amigos. Nunca conhecemos uma ruiva como você. – O Homer disse aquilo como se fosse normal.
— Me soltem! – tentei me desvencilhar novamente, em vão.
— Vamos lá, ruivinha... Não seja difícil! – imploraram.
— Soltem a minha garota! – e aquela voz, já familiar, soou atrás de mim.
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