A Missão
52 Diário
Não sei como começar a contar tudo que aconteceu. Acho que vou tentar falar por partes, desde o começo. Talvez assim não esqueça tantas coisas.
No dia de descanso, eu e Liss combinamos de pegar um avião e tentar descobrir o que existe além da Floresta Amazônica. Já estávamos sobrevoando para lá, quando o avião começou a apresentar problemas. Eu não tinha muito controle sobre ele e não conseguia pilotá-lo. E o avião acabou caindo.
Na hora, alguma coisa me fez manter a cabeça no lugar. Não me desesperei, nem nada disso. Só pensava que não podia deixar o avião cair e matar eu e Liss. Foi nela que eu mais pensei durante a queda. Eu a tinha convidado para ir junto, não podia ser o culpado por sua morte.
Não existiam muitas coisas que eu pudesse fazer naqueles instantes. Se eu tivesse pensado na hipótese de uma coisa daquelas acontecer poderia ter levado paraquedas. Mas aquilo nem tinha me passado pela cabeça, nunca pensei que o avião pudesse apresentar algum problema.
Eu não podia, ali, desistir da minha vida e da de Liss. Minha última esperança era continuar tentando pilotar o avião e pousá-lo em segurança.
Acabei conseguindo recuperar um pouco do controle sobre a máquina, e comecei a tentar pousá-lo. Mas ele estava abaixando rápido demais. Indo de bico para o chão. Avistei um imenso rio e uma luz apareceu em minha cabeça. Era a única esperança que tínhamos.. Tentei ir em direção ao rio, enquanto o avião continuava descendo.
O jato de adrenalina me proporcionava um raciocínio rápido e coerente: se o avião batesse com o bico no chão, eu morreria na hora e Liss que estava atrás de mim provavelmente morreria também. Se o avião inteiro batesse no chão no mesmo momento, era certo que se espedaçaria e explodiria. A melhor opção era deixar que a traseira do avião sofresse o primeiro impacto. Pela lógica, esse impacto seria o mais forte, e depois a frente do avião chegaria ao chão, com um impacto um pouco menor, e por último o meio do avião. Liss teria a maior chance de sobrevivência. Era a melhor opção.
Coloquei meu plano em prática deixando que o avião começasse a ir de bico pro chão. No momento certo, puxei com toda a força o avião para cima, deixando que apenas a traseira encostasse ao chão. O impacto foi grande e em seguida não vi mais nada.
Acordei um tempo depois. Não sei quanto tempo fiquei desmaiado. Só sei que a primeira coisa que vi quando abri os olhos foi Liss. Ela estava bem na minha frente, com seu rosto perto do meu. Quase pensei que estivesse morrido e estava no céu junto com ela. Porque aquilo parecia um paraíso: ela tão linda ali na minha frente me olhando do mesmo jeito que eu olhava pra ela. Mas eu sabia que estava vivo. E me sentia imensamente feliz por ela estar viva também.
Eu estava um pouco machucado. Meu corpo estava todo dolorido, tinha batido a cabeça com força e tinha um corte na testa. E Liss estava cuidando de mim, limpando meu rosto, com toda aquela sua delicadeza e dedicação típicas. Não pude me negar aquele imenso prazer: ver ela preocupada comigo. Fiquei olhando cada traço seu, os olhos misteriosos, o nariz delicado, a boca carnuda. Eu queria muito tocá-la, sentir sua pele na minha, diminuir a distância que já era pouca entre nós. Mas sabia que não podia e me contive.
Quando a encostei, foi para limpar uns pequenos cortes em seu rosto. Me doía profundamente vê-la machucada, mesmo sendo ferimentos tão pequenos. Fiquei um pouco mais culpado ainda, quando descobri que ela tinha me tirado sozinha do avião. Nem conseguia imaginar o quão pra ela fazer aquilo. Ela tão pequena, tão frágil, não era acreditável que tinha conseguido.
Acho que estou me enrolando muito nos detalhes, nas pequenas coisas. Vou tentar resumir ainda mais, falando só o importante.
Em muitos momentos Liss me surpreendeu e me deixou ainda mais maravilhado por ela. Muitas vezes foi quando discordava de mim, e autoritariamente dava sua opinião. Ela era tão teimosa, tão mandona... aquilo me encantava. Outro momento que me deixou abobado foi quando ela elogiou meu nome, não esperava aquilo dela. Dizer que o nome era bonito, forte e de personalidade e portanto combinava comigo.
Mas eu achei que tinha estragado tudo em certo momento. Ela ficou chateada quando lhe contei que tinha a escolhido para vir pro quartel e tinha manipulado sua verdadeira designação. Não entendi muito bem o porque, mas mais tarde ela me explicou e eu lhe dei razão. Ela estava certa em ficar chateada comigo. Era justo se nunca quisesse olhar na minha cara. Eu mudei toda a vida dela com aquela atitude, por interesse meu e sem que ela soubesse.
Liss era melhor ainda do que eu pensava. Ela deixou tudo isso de lado depois de algum tempo. Esqueceu rapidamente e continuou me tratando como antes. Se preocupando comigo, querendo me ajudar. Mas aquilo não estava me deixando muito bem. Eu era orgulhoso demais. Eu era quem devia cuidar dela e não o contrário.
Durante a noite o meu extinto de proteção falou mais alto que tudo quando a vi tremendo de frio. Não me contive e fui dar um jeito de esquentá-la: com meu próprio calor. A abracei e apertei seu corpo no meu. No começo essa foi uma ideia somente para que a fizesse ficar bem, mas depois tomei consciência do que aquilo estava me causando. Eu sofria uma guerra interna. Um dos meus lados queria apertá-la ainda mais contra mim, queria puxá-la e sentir a maciez dos seus lábios contra os meus. E o outro lado queria parar de ser masoquista, soltá-la e afastar me dela, antes que eu cometesse uma bobagem.
Eu sou mais velho que ela, sou seu superior no quartel e já fui seu professor. Nada entre nós podia acontecer. Tinha que conseguir controlar meu desejos. E também não podia soltá-la e deixá-la no frio. Era minha obrigação protegê-la e eu daria a minha vida por isso, se fosse preciso.
Pedi para que ela falasse, assim afastaria aqueles pensamentos insanos da minha cabeça. Conversamos um bom tempo e eu acabei relaxando. Tentei desligar um pouco o cérebro e deixar a conversa fluir naturalmente. Ela me contou o porque de ter ficado chateada comigo anteriormente. Logo percebi que tudo que ela dizia estava certo, como eu já escrevi antes. Eu tinha mudado sua vida inteira. Fiquei me culpando por isso. Eu tinha metido ela em todo tipo de perigo ali no quartel e agora tentava protegê-la de um simples frio.
Afastei aquele pensamento e puxei mais assunto. Conversar com ela me fazia muito bem. Eu me sentia leve, me sentia uma pessoa melhor.
O assunto acabou indo parar no Danilo e eu me vi falando em como ele sempre teve a vocação para o quartel. Mais uma vez o sentimento de ter mudado a vida de Liss me atormentou. Ela não tinha vocação alguma pra estar ali. A confusão na minha mente era tanta que acabei perdendo o controle. Comecei a pensar em voz alta. Em como ela era, delicada, linda, perfeita, comecei a tocá-la e por fim a beijei.
Quando percebi o que estava fazendo me afastei. Como podia tê-la beijado. Isso não estava certo. Me sentia o pior cara da face da terra. Tinha agarrado Liss e a beijado sem seu consentimento. Eu queria a muito tempo aquilo, e me sentia realizado e culpado ao mesmo tempo. O calor que seu corpo tinha me transmitido e o gosto dos seus lábios me faziam ficar pior ainda. Eu não conseguia pensar, estava agindo por impulso. Tentei afastar a névoa do desejo por ela e me desculpar. Ela devia estar me odiando. Com muito ódio de mim. Eu tinha sido um bruto, usado minha força e todas as minhas vantagens para conseguir tanto satisfazer um desejo íntimo e errado.
Mas depois de me desculpar e conseguir ter coragem de olhar pra ela, vi que ela não estava chateada comigo. Queria saber o porque eu estava me desculpando, quis saber se eu não queria fazer aquilo. Achei que já tinha sido idiota o bastante com ela, e a melhor opção era falar a verdade. Admiti que queria muito beijá-la e me sentia mal por tê-la beijado sem seu consentimento. Foi aí que tudo mudou. Liss ficou ainda mais linda, se é que aquilo era possível, e me questionou o porque que eu achava que ela não queria. Já tinha muitas respostas pensadas para lhe falar. Mas foi quando ela me beijou, me calando.
Percebi o que ela sentia o mesmo por mim. O amor ou a atração, ou ambos, eram recíprocos. Eu não era um monstro. Não tinha beijado alguém que não me queria. Me senti nas nuvens. Aproveitei cada instante daquele beijo, sentindo cada sensação sem me culpar. Só aproveitando o que eu tanto queria.
Quando as coisas começaram a esquentar ainda mais entre nós. Tive que parar. Estava me sentindo perfeito com aquilo tudo. Mas não podíamos avançar mais. Uma coisa de cada vez. Me afastei e pedi pra ir com calma. Liss compreendeu e saiu de perto de mim.
Depois eu voltei ao normal, tirando a parte de me sentir imensamente feliz, e a chamei de novo para perto de mim. Conversamos mais um pouco. Eu com o meu melhor humor. Sabendo que era correspondido, sabendo que a garota mais perfeita da Terra estava em meus braços e tinha me beijado.
Quando Liss dormiu, eu continuei acordado viajando nas lembranças. Me sentia como se estivesse no céu, com ela protegida por mim. Nada atormentaria seu sono. Eu iria a proteger e cuidar sempre. Eu era o cara mais feliz do mundo!
No outro dia de manhã cedo, mesmo sem eu ter dormido um único minuto durante a noite, me sentia muito bem. Leve, feliz. Liss ainda parecia preocupada comigo, o clima continuava o mesmo da noite.
Andamos a manhã inteira pela floresta, tentando voltar pra casa. Quando avistamos um avião fizemos sinal com fumaça para chamar atenção. Felizmente viram nosso sinal, e cerca de uma hora depois nos encontraram.
No começo eu ouvi alguns barulhos na mata e achei que pudesse ser um animal. Sem pensar duas vezes puxei Liss pra trás de mim, para protegê-la. Já estava pronto para atirar quando percebi que não se tratava de um animal, mas sim de Danilo que tinha vindo nos achar. Relaxei e me senti bem melhor. Tínhamos sobrevivido, de alguma maneira eles tinham nos encontrado.
Achei que Danilo fosse vir correndo pro meu lado, mas ele foi abraçar Liss. Eu acabei entendendo tudo! Talvez o que Danilo me tivesse dito sobre ser apenas amigo de Liss estivesse errado. Ele podia estar mentindo para mim. Ou mentindo pra si mesmo, achando que sentia uma coisa, quando na verdade sentia outra. Mas tudo ficou claro quando ele abraçou primeiro ela e depois eu. Estava claro quem era mais importante pra ele.
Não fiquei triste com isso. Somente apreensivo. Alguma coisa havia acontecido entre eu e Liss naquela noite. Eu realmente me importava muito com ela, a amava. E se Danilo sentisse o mesmo estávamos em uma grande confusão.
Percebi que a melhor saída, era ir com calma com tudo. Primeiro ter certeza sobre o que Danilo sentia, antes de fazer qualquer outra coisa com Liss. Eu devia me afastar um pouco. Quando pousamos, pedi pra que Danilo a levasse pra clínica. Ela parecia estar bem, mas queria ter certeza. Eu iria para lá mais tarde, depois que Liss saísse. Não queria mais ficar perto dela por enquanto. Preciso primeiro controlar meus sentimentos e entender tudo que está acontecendo.
Busquei explicações de como eles haviam nos encontrado e descoberto o que tinha acontecido. O principal era que Margareth havia ordenado que nos procurassem. Isso era estranho. Não me parecia que ela tivesse feito isso somente por se importar com Liss.
Uma hipótese estava martelando na minha cabeça, desde que acordei depois do acidente. Tentei esquecê-la e não contá-la para Liss, já que eu não posso comprová-la. Eu acho que talvez, nossa queda de avião não tenha sido um acidente. Me parece muita coincidência se fosse. Acho que alguém descobriu o que iríamos fazer e acabou armando o problema no avião, para que não conseguíssemos completar nosso objetivo.
Minha suspeita recai sobre Margareth e os outros governantes. Eles seriam muito bem capazes de uma coisa dessas. E o fato dela ter mandado soldados nos procurar pode ser pra ter certeza que estávamos mortos. Mas pra infelicidade dela, percebeu que não.
De qualquer forma, alguém a alertou sobre nosso passeio. Alguém que sabia sobre isso. Tenho que começar a tomar mais cuidado e investigar quem é essa pessoa.
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