A Missão
57 Capítulo 37
Notas iniciais
Júlio marcou a primeira reunião da missão, que eu participaria para o dia de descanso. Foi combinado para todos nos encontramos ao amanhecer na garagem dos aviões. Segundo o que estava escrito no bilhete que ele me entregara no dia anterior, cada um era pra ir em um horário diferente para não levantar suspeitas. Tinha descrito uma espécie de alçapão onde deveríamos entrar para nos encontrar com os demais no porão. Onde ninguém poderia encontrar nosso grupo ou ver o que estávamos fazendo.
Foi o que eu fiz. Fui para a garagem de aviões, encontrei o alçapão sem muita dificuldades e desci para o porão. Lá embaixo já encontrei Júlio me esperando:
– Olá Liss. — ele disse.
– Oi. — respondi.
– Venha, vou lhe apresentar os outros.
O segui até um grupinho com umas 10 pessoas, todos vestidos com a farda militar e conversando entre si. Eles pararam quando viram que nos aproximávamos.
– Essa é a soldado Liss – Júlio apressou-se em me apresentar. — Ela trabalha como guarda pessoal de Margareth.
Uma menina loira, não muito mais velha que eu, de cabelos cacheados até os ombros, deu um passo para a frente:
– Então você é a queridinha da governante? — ela não usou um tom pra me ofender, era mais uma brincadeira – Prazer. — ela me estendeu a mão – Sou Khaless. Trabalho como médica na clínica do quartel.
A exemplo dela, todos os outros foram se apresentando e apertando minha mão também. Um único homem não veio se apresentar. Ao olhar para ele, não consegui segurar um grito de indignação:
–O que ele está fazendo aqui? — apontei pro militar conhecido.
– Ele é o outro líder do grupo comigo – explicou Júlio que permanecia ao meu lado.
Thomas era o outro líder do grupo? Isso não fazia sentido. Ele não combinava nem um pouco com aquilo. Onde Júlio estava com a cabeça quando aceitou fundar um grupo para derrubar o governo com ele?
– Qual o problema? — Thomas se aproximou, me encarando. — Não posso ser o outro líder do grupo, pirralha?
Não respondi nada. Apenas fiquei o encarando.
– Não comecem uma confusão – pediu Júlio e começou a usar seu tom autoritário – Eu sei que vocês não se dão muito bem, mas por favor, deixem as diferenças de lado. Estamos aqui por um único objetivo e precisamos trabalhar juntos.- Thomas se afastou indo conversar com um outro cara. — Eu vou lá esperar o Danilo.
Júlio saiu e eu sai do meio do porão escuro. Fiquei encostada em uma das paredes laterais. Logo a única menina no grupo, além de mim, Khaless, veio conversar comigo:
– Você não é única que não gosta do Thomas. A maioria aqui também não gosta. Até o Júlio, eu acho. Os dois brigam em quase toda a reunião que temos. — Reparando em Khaless, ela era uma menina muito bonita. Pequena, magra, sem nada de músculos. Ela usava a farda, mas como havia dito não era militar. Trabalhava na clínica como médica. Isso não exigia esforços físicos e justificava seu corpo magro, e sua pele, sem nenhum arranhão. — Mas e você e o Júlio, hem?
– O que tem? — por favor, que ela não venha com conversa que estamos juntos. Não aguento mais isso.
– Você sabe. — ela deu um sorrisinho irônico – Vocês não estão namorando ou alguma coisa do tipo?
– Aff! De novo isso! — deixei minha irritação sair – Porque todo mundo fica falando sempre a mesma coisa? Nós só somos amigos.
– Não precisa se irritar. Eu não falo mais sobre isso, se você não quiser. Mas me deixe explicar primeiro. Eu ouvi os burburinhos que andam falando de vocês por aí, mas nem liguei. Tinha quase certeza que não era verdade. Só que agora, quando eu vi vocês juntos, achei que estivesse enganada. Sou amiga do Júlio desde criança. Estudamos vários anos juntos e agora tivemos a sorte de ser mandados pro mesmo lugar. Enfim, eu o conheço muito bem e vi o jeito que ele olha pra você. Pode ser que pra você não exista nada, mas pra ele, com certeza, existe.
Era só o que me faltava. Receber conselhos de uma estranha. Não me importava o que ela achava e a quanto tempo conhecia Júlio. Nós eramos amigos e só isso. Qual o problema? As pessoas não acreditam mais em amizade entre homem e mulher?
Danilo chegou e acabou me livrando de ter que conversar mais com Khaless. Pedi licença e fui para perto dele, que estava sendo apresentado aos outros, também. Quando as apresentações terminaram, Júlio pediu para que todos sentássemos em uma espécie de mesa improvisada em um canto. Sentei-me ao lado de Danilo. Júlio e Thomas sentaram cada um em uma ponta da mesa.
Antes de começarem a reunião, Danilo comentou em meu ouvido:
– Não acredito que ele seja o outro líder. — ele estava se referindo a Thomas.
– É, nem eu. Ouvi dizer que ele e o Júlio brigam toda reunião. — comentei também ao ouvido de Danilo para que ninguém mais escutasse.
Paramos de falar quando Júlio iniciou, chamando a atenção de todos:
– Bom, antes de começarmos a discutir os detalhes, vou relembrar o que já temos decidido sobre a missão. Para deixarmos nossos novos dois membros – ele apontou para mim e para Danilo – a par dos planos também. — olhando, agora especificamente para nós, Júlio seguiu contando o que já tinham decidido – Como vocês sabem, temos pessoas envolvidas na missão em todos os lugares do país. Para conseguirmos derrubar o governo, essas pessoas irão provocar algumas confusões no dia que iremos determinar. Provavelmente os militares das regiões serão chamados para conter as confusões. Aqui na capital, vai ser a mesma coisa. Vamos provocar uma grande confusão no centro da cidade, que obrigará a todos os militares, tanto os do quartel, quanto os do palácio do governo, a intervirem e acalmarem a situação. Quando todos forem para lá deixarão tudo aqui abandonado, sem segurança alguma. Quanto a nós, teremos que estar fazendo alguma coisa que nos deixe inacessível aos comandantes do quartel. Assim não seremos chamado para ir conter a confusão e poderemos seguir para o palácio do governo. Vamos invadir o palácio. Lá, terão apenas uns poucos guardas vigiando e conseguiremos dar conta deles sem problemas. Depois que rendermos os guardas, pegamos os três governantes e os forçamos a assinar um papel abrindo mão de seu poder e instituindo uma nova forma de governo.
Júlio concluiu e ficou nos olhando para ver se havíamos entendido. Eu ainda me sentia confusa em alguns pontos, mas iria entender melhor conforme eles falassem mais e então assenti com a cabeça.
– Hoje precisamos resolver os detalhes. — Thomas se juntou a Júlio na liderança da reunião. — Primeiro temos que decidir que dia será o melhor para colocarmos tudo em prática.
Por um momento todo mundo ficou calado, pensando. Em seguida alguns começaram a se pronunciar. O primeiro foi um homem de uns 40 anos, com o cabelo já um pouco grisalho:
– Acho que temos que fazer isso o mais rápido possível. Quanto mais tempo demorarmos mais difícil e perigoso irá ficar.
– Concordo com o Tom. — Júlio disse. — Temos que decidir tudo de uma vez e partir para a ação.
– Mas vamos com calma aí. Você mesmo disse – Thomas falava com Júlio – que temos que planejar tudo muito bem. Não vamos precipitar as coisas.
Era estranho aquilo. Sempre vi Júlio como o cara calmo e que nunca perde a razão, e Thomas era o cara esquentado que agia por impulso. Naquela situação parecia que os papéis estavam invertidos.
– Ta certo – Júlio respirou fundo acalmando seus ânimos. Mas uma chama revolucionária, a vontade de fazer alguma coisa de uma vez, ainda iluminavam seus olhos. — Qual dia da semana vocês acham o melhor?
Mais uma vez todo mundo ficou calado. Júlio e Thomas olhavam de um por um para os presentes, esperando a opinião de alguém. O primeiro a se manifestar foi Danilo:
– Por mim o melhor dia é o dia de descanso. — Danilo parecia nervoso em expressar sua opinião. — Vocês disseram que precisamos estar fora do quartel quando tudo acontecer. E o melhor dia é o de descanso, pois é o único dia que podemos fazer o que quiser. Em todos os outros dias vai ser muito mais difícil conseguir sair daqui.
Thomas e Júlio pareciam ter aprovado a ideia de Danilo. O primeiro foi quem falou:
– Gostei. Parece que o garoto tem um cérebro também, além de músculos. — é claro que Thomas não poderia perder a oportunidade para dar uma alfinetada em Danilo. Os dois se odiavam mais do que qualquer um.
Júlio deu um olhar de alerta para Danilo, pedindo para que ele deixasse aquele comentário passar. Também coloquei uma mão no ombro dele, tentando o acalmar. Mas não fez diferença, Danilo pareceu ter ignorado o comentário desde o início:
– Tenho outra sugestão, também. — Danilo estava mais confiante que antes. Tinha gostado de terem aprovado sua ideia – No dia de descanso, você – ele se referia a Júlio – pode fazer como fez com a Liss. — quando ouvi meu nome me virei rapidamente para Danilo. O que ele tava querendo dizer? O que ele fez comigo? Passear pela floresta? Fazer um avião cair? Passar a noite na mata? Me beijar? — Você pega um avião, que caiba todos e saímos por ai. Você pode fazer isso no dia de descanso, não pode? — Júlio fez que sim – Então, essa é a solução. Ficamos voando pelo tempo que for necessário. Lá no céu não teremos como receber recados dos nossos superiores. E depois que o quartel estiver vazio, pousamos e vamos para o palácio do governo.
Júlio era puro orgulho do irmão, ele sorria, olhando pro Danilo:
– Muito bem pensado. Gostei. O que vocês acham?
Começou um burburinho na sala, todo mundo expondo sua opinião. A maioria assim como eu, concordava e achava a ideia muito boa. O único a ser do contra foi Thomas:
– Alguma coisa pode dar errado aí. E podem desconfiar quando perceberem um monte de militar saindo em um avião.
– Você tem alguma ideia melhor? — perguntou Júlio encarando o outro. O clima já estava ficando pesado. Não era de se estranhar que uma briga estivesse chegando.
– Não. Mas essa ai também não é boa. — Thomas argumentou. Os dois já estavam de pé, se medindo com o olhar.
– É a melhor que temos. E vamos ficar com ela. Você é voto vencido – contra-argumentou Júlio. Vendo que Thomas já ia abrir a boca para dizer alguma coisa, Júlio tentou acalmar a situação – Temos outras coisas para discutir ainda.
Thomas viu que era verdade. Não podia já começar a brigar. E sentou-se novamente, derrotado, encarando Júlio e Danilo. Coube a Júlio prosseguir com a reunião:
– Temos que decidir quais as confusões que iremos armar para distrair os outros militares.
Nessa questão as opiniões surgiram mais rapidamente. Quase cada um deu uma ideia, e outros argumentavam com os prós e os contras. No fim ficou decidido várias confusões, uma para cada lugar. Entre elas, tinham bombas que iriam explodir, brigas entre várias pessoas e a opção que iria acontecer na capital: um protesto violento. Os protestantes, iriam para as ruas com cartazes falando mal do governo e ameaçariam invadir o banco nacional. Os militares tentariam conter os protestantes e proteger o banco, se esquecendo do resto. Thomas garantiu que outras duas pessoas que faziam parte do nosso grupo e que viviam na capital, conseguiriam induzir as pessoas a protestarem e armarem aquela confusão. Ali na capital eles conheciam um pouco melhor nosso governo e já não estavam nem um pouco satisfeitos. Seria muito fácil conseguir um grande número de pessoas que apoiariam a nossa causa. Mas não iríamos contar a elas que estaríamos invadindo o palácio no momento que elas estivessem protestando. Apenas seria dito que elas ajudariam muito se fizessem aquilo, que seria uma grande pressão contra o governo e que talvez eles cedessem e dessem o poder a outros melhores.
Quando tudo isso foi decidido, Thomas mudou de assunto abruptamente e perguntou a Júlio:
– Você já falou a sua queridinha o que queremos dela? — o tom dele era irritado e cansado.
– Não. — Júlio respondeu e se virou para mim. Só então percebi que a queridinha dele, no caso, era eu. — Liss, você trabalha lá no palácio diariamente. Precisamos que descubra algumas coisas para nós e nos diga qual a melhor rota para invadirmos.
– O que vocês querem, exatamente? — perguntei. Minha voz saia tão fina e baixa comparada à de todos aqueles outros militares ali.
– Informações sobre a rotina dos governantes. Sobre os principais guardas, os que deverão ficar lá. Onde ficam as câmeras de segurança mais importantes, e esse tipo de coisa. Quanto mais informações você conseguir, melhor para nós. — Júlio disse pra mim. Seus olhos me fitando intensamente.
–Ok. — concordei.
– E tem mais... — completou Thomas – No dia você será a responsável por desligar as câmeras para nós entrar.
– Como você quer que eu faça isso? A sala de monitoramento está sempre cheia de guardas, e mesmo depois que a maioria sair, ficará alguém lá vigiando. E eu não tenho a mínima ideia de como se desliga as câmeras. — eu queria perguntar porque eu seria a responsável por aquilo. Era porque eu era a mais fraca e não teria chance de lutar pra deter os outros guardas?
Thomas resmungou para si alguma coisa como "que inútil" e "não sei porque Júlio quis ela" e depois falou alto para mim escutar:
– Dê seu jeito, pirralha. Se não conseguir bater nos guardas e obrigá-los a desligar as câmeras para você, os seduza. Isso tenho certeza que você sabe. Fique pelada para eles e peça pra eles desligarem as câmeras. Não tenho dúvidas que vão fazer o que você pedir.
"Os seduza". Por acaso eu era o que? Uma prostituta? Eles tinham me escolhido para aquela tarefa só porque achavam que eu poderia seduzir os guardas? Se era isso que achavam estava muito enganados. Eu não iria ajudar em nada se fosse daquele jeito.
– Eu não sou a sua mãe, para fazer isso. — Na mesma hora que gritei com Thomas, me senti culpada. Não deveria ter envolvido a mãe dele, uma pessoa inocente naquela história.
– Chega. — gritou Júlio, bravo.- Sem ofensas! É muito difícil para vocês manterem o mínimo de respeito uns com os outros? — ele deu um olhar acusador a Thomas e depois a mim. Me senti mal, pelo impulso de me defender e por Júlio estar brigando comigo ali na frente de todos.
– Desculpe. — pedi, afundando na cadeira de vergonha, enquanto todos olhavam para mim. — Não gosto que me tratem como uma vagabunda qualquer. Não sou assim. E eu não vou seduzir ninguém e também não conseguirei desligar as câmeras sozinha. — eu olhava para Júlio pedindo para que ele entendesse o meu lado.
– Ta, Liss. Tudo bem. Você não precisa fazer isso – Júlio disse parecendo muito cansado, e passando a mão pelo rosto.
– Ai que lindo! — zombou Thomas, com um sorrisinho na cara – Júlio defendendo a peguete dele. Tá com ciúmes é Júlio? Ciumes da Liss com os outros guardas? Não se garante? Se bem, que se eu estivesse em seu lugar também ficaria com medo de ser corno.
– Cale a boca! — Júlio explodiu e bateu com força na mesa, enquanto olhava mortalmente para Thomas. Júlio sempre parecia tão calmo, mas era só falarem de nós dois, que ele explodia. Não entendia esse seu lado. Mas, egoistamente, me sentia bem por Júlio me defender.
– Gente, gente. Não vão começar – foi Khaless, quem resolveu acalmar as coisas. Como ela mesmo me havia dito, aquilo era comum entre eles. — Temos que decidir coisas importantes ainda. Vê se esqueçam as diferenças e os problemas entre vocês por uns minutos. Vamos terminar aqui, depois vocês podem brigar o quanto quiserem lá fora.
Um minuto tenso de silêncio pairou no ar, enquanto os dois líderes se acalmavam. Quando Júlio já parecia controlado, continuou como se nunca tivesse sido interrompido:
– Eu estava pensando que Liss seria mais útil se estivesse a sós com Margareth no momento da invasão e conseguisse a render e prender, até que aparecêssemos para obrigá-la a assinar os papéis. Seria uma vantagem, se ao entrar no prédio do palácio já tivéssemos uma governante sobre controle, só nos restariam outros dois.
– Só temos um pequeno problema – me intrometi, achando uma brecha no plano dele – Eu não fico com Margareth no dia de descanso. Esse é meu dia de folga também.
– Aé. — concordou Júlio. Achei que ele pensasse em tudo.
– E se Liss dissesse que quer compensar o dia que faltou quando vocês dois ficaram perdidos e se oferecesse para trabalhar naquele dia? — foi Danilo quem sugeriu. Ele se mantinha bastante quieto, coisa incomum a ele, e me surpreendeu quando falou.
– Não sei se é um bom argumento. Margareth pode desconfiar de alguma coisa – Júlio discordou do irmão.
Ouvindo os dois conversar uma ideia me surgiu a cabeça, fiquei tão empolgada, que me intrometi na conversa dos dois:
– Já sei... — falei alto demais, toda feliz pela minha ideia, e todos olharam para mim, surpresos. Diminui a altura e a alegria da minha voz e comecei a explicar – Nós juramos proteger os governantes acima de tudo, não é? Eu principalmente tenho a obrigação de dar a minha vida pela de Margareth, certo? Então posso ficar aqui no quartel no dia de descanso até avisarem aos outros soldados do protesto no centro. Quando eles partirem para lá, para conter os protestantes, eu vou para o palácio e digo que fiquei sabendo do que está acontecendo, e que fiquei preocupada com a segurança de Margareth e fui protegê-la. Duvido que alguém vá se opor a isso. Aí eu consigo entrar e faço com que ela fique somente no seu quarto, e no momento certo a prendo e espero por vocês. — sorri ao terminar. Eles não podiam negar que minha ideia era boa.
Júlio ficou me olhando por uns segundos, provavelmente analisando os prós e os contras daquela sugestão. Por fim concordou:
– Ótimo. Acho um bom plano. Alguém contra? — ele já deu uma olhada pra Thomas, que era quem sempre discordava. Mas Thomas estava indiferente. — Então ok, você faz isso que acabou de dizer.
– E eu posso, depois de um tempo, aparecer lá no palácio, também, e dizer que um soldado havia me ligado, falando que o seu colega tava passando mal. Garanto que com meu charme eles me deixam entrar, e depois que a Liss prender Margareth, podemos nós duas ir para a sala das câmeras. Eu conheço um pouco sobre computadores e conseguiria desligar as câmeras sem problemas, e acho que eu e Liss juntas conseguiríamos derrotar os guardas que ficariam lá. Provavelmente não vão ser mais de dois. — foi Khaless quem sugeriu. Ela estava procurando um meio-termo para amenizar a situação entre Júlio e Thomas.
Todos concordaram com Khaless também. Depois disso decidiram o horário que os outros se encontrariam para "passear" de avião e como saberiam qual seria o dia escolhido. A solução foi a seguinte: quando decidissem o dia, Júlio ou Thomas, cruzariam pelos outros membros e ao cumprimentarem-os, falariam sobre o tempo. Como está quente hoje, será que vai chover e coisas assim. Então saberíamos que tudo aconteceria no próximo dia de descanso.
Para concluir a reunião, Thomas que não parecia mais tão aborrecido, fez uma última observação:
– Vamos aproveitar esses dias para treinarmos ainda mais nossas habilidades, principalmente as de combate corpo a corpo e as de tiro. Isso vai ser muito importante para a missão, teremos que ser muito melhores que os outros militares para ganharmos deles.
Todo mundo concordou e Júlio também quis concluir:
– Vamos tomar o máximo de cuidado a partir de agora. Vocês podem treinar em duplas, mas vamos sempre tentar treinar em horários alternados uns dos outros, para não levantarmos suspeitas. E logo que Liss nos informar tudo que precisamos, comunicaremos vocês e colocaremos a missão em prática. Alguém tem alguma pergunta?
–Eu tenho. — levantei a mão. — Tudo que eu descobrir eu devo contar a quem?
Júlio deu uma olhada para Thomas, perguntando o que ele achava, mas ele deu de ombros, e Júlio decidiu sozinho:
– É meio arriscado você vir falar com um de nós dois, quase todo o dia. Podem desconfiar também. Conte a Danilo, quando estiverem sozinhos no dormitório, que depois o Danilo me repassa as informações.
Danilo deu uma olhada brava para o irmão e começou a reclamar:
– Você sabe que eu não sou bom em memorizar informações e coisas assim. E também vão desconfiar se eu for te ver todo dia. Irmãos não precisam se encontrarem tanto assim.
– Então o que sugere? — Júlio perguntou a Danilo.
A sugestão dele chocou todo mundo, principalmente eu, mas tive que admitir que era boa:
– Tão dizendo por ai que você e Liss tão namorando, então a solução é assumir de uma vez esse namoro. – eu abri a minha boca para dizer que não existia namoro nenhum, mas Danilo não me deixou falar – Eu já sei que vocês não estão namorando de verdade. Mas podem fingir que sim. Todos vão acreditar e vocês vão ter uma boa desculpa para passarem bastante tempo juntos e conversando.
Aquilo me surpreendeu. Sugerir que eu e o Júlio fingíssemos que estávamos namorando para o bem da missão. E Danilo foi quem sugeriu aquilo. Logo ele que tinha ficado tão chateado pela hipótese de estarmos escondendo alguma coisa dele. O que o estava fazendo sugerir essa ideia, que antes ele achava tão absurda? Ele levava a sério tanto assim a missão? Ou ele tinha a absoluta certeza que não rolava nada entre mim e o Júlio e nem ia rolar?
Olhei pro Júlio e ele esperava uma resposta minha. Ele faria qualquer coisa pela missão, sem nem pensar. Então era claro que aceitaria aquilo. Mas e eu? Aceitaria? Que outra opção tínhamos além daquela? Eu precisava contar o que descobrisse a alguém, sem que ninguém desconfiasse, e a ideia de Danilo era perfeita nesse sentido. Também não seria tão ruim assim. Júlio era querido e era meu amigo. Não seria um namoro de verdade, somente uma farsa e não nos beijaríamos, no máximo andaríamos de mãos dadas.
– Por mim tudo bem – disse por fim. Depois de refletir muito – Não temos outra opção.
Thomas estava rindo bastante quando dispensou todo mundo da reunião. Não entendi o que ele estava achando graça, mas tentei ignorar.
Tivemos que sair na mesma ordem que chegamos. Ou seja, os primeiros a chegar foram os primeiros a sair. Fiquei por lá, esperando a minha vez e Danilo veio falar comigo:
– Desculpe por sugerir que você e o Júlio fingissem namorar. Achei que não seria assim tão ruim para você.
– Não tem do que se desculpar. Só fiquei surpresa dessa ideia ter saído de você.
– Ai Liss, eu já entendi que vocês não têm nada. E essa ideia me passou pela cabeça e achei que era boa. E vocês são amigos e tal, achei que não haveria problema.
– Você tá certo, não haverá problema nenhum, somos amigos.
E era verdade. Eu não entendia o porque não tinha gostado daquela ideia. Era pelo bem da missão, seria um namoro falso, e com uma pessoa que não era um sacrifício para mim ficar perto. Ou será que era esse o problema? O namoro ser falso e eu gostar demais de ficar perto do Júlio, e ter medo de confundir a verdade com a mentira?
De qualquer forma dei um jeito de enterrar aqueles pensamentos no fundo do meu cérebro. Eu e Danilo fomos conversar com Júlio e Khaless, esperando nossa hora de sair chegar. Já que seríamos os últimos.
O papo com eles foi legal, conversamos sobre bastantes assuntos. Todos parecendo calmos e não com soldados rígidos e sérios. Conheci um pouco melhor Khaless, ela parecia ser uma pessoa bem legal, também. Ela é sincera e divertida e eu gostei. Acho que poderíamos muito bem ser amigas.
Khaless pediu para Danilo treinar todo dia com ela, ela queria aprender alguns golpes e a dar tiros. Danilo meio a contragosto acabou aceitando, e depois que ela foi embora, eu e Júlio ficamos mexendo e brincando com ele sobre ela. Que os dois pareciam formar um belo casal. Por falar nisso, antes que eu fosse, combinamos eu e Júlio de treinarmos juntos e já começarmos essa tarde.
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